ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 605 - 31/8/2010
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A crise dos jornais está na agenda, e a dos jornalistas?

Postado por Carlos Castilho em 22/5/2009 às 12:34:17
 
 

O grande assunto atual em todas as rodas de jornalistas é o futuro dos jornais. Todo mundo está preocupado com o possível desaparecimento da imprensa escrita, mas até agora poucos se deram conta de que a atividade jornalística também está em questão.

 

A preocupação da maioria dos jornalistas com a crise dos jornais está ligada diretamente à insegurança sobre o futuro de empregos, da estabilidade salarial e do guarda chuva de garantias sociais. É natural que seja assim, porque afinal de contas um emprego na industria de jornais, revistas, rádio e televisão é uma espécie de âncora num mercado de trabalho marcado pela instabilidade e fluidez.

 

É também um sintoma da dependência que os profissionais criaram em relação às empresas durante a época em que os jornais e os jornalistas tinham a exclusividade na produção de noticias. Os free lancers e autônomos eram uma exceção e de certa forma também um luxo, já que só os mais bem sucedidos na profissão podiam se arriscar a um vôo solo.

 

A internet e a avalancha informativa digital não mudaram apenas o modelo de negócios da imprensa ao causar a queda de receitas tanto com publicidade como em vendagem em quase todo o mundo. A Web, parte da internet, está também alterando a rotina e os valores da atividade jornalística, sem que este tema tenha sido até agora discutido em profundidade.

 

A maioria dos profissionais talvez ainda espere que os jornais consigam criar um novo modelo de negócios e aí tudo voltaria ao normal. Só que isso é uma ilusão. A imprensa vai descobrir um novo modelo de negócios mas é quase certo que ele terá muito poucas semelhanças com o atual, porque houve uma mudança irreversível na produção de informações. Ela não está mais concentrada nos jornais e assumiu um caráter descentralizado na internet.

 

Tudo indica também que a nova fórmula comercial da imprensa não estará apoiada na formação de grandes redações. Isto significa que a segurança do emprego em empresas jornalísticas deve ser descartada como perspectiva profissional futura, como afirma o professor Mark Deuze[1], autor do livro Media Work e considerado o maior especialista mundial em mercado de trabalho na mídia.

 

Fica fácil então perceber que os jornalistas profissionais terão que enfrentar duas perguntas incômodas:

 

1)     O que o futuro reserva para a atividade, descartada a opção por jornais e revistas no formato tradicional;

2)     Como será possível sobreviver numa nova realidade marcada pela participação dos cidadãos como produtores de notícias e pela necessidade de especialização para ocupar nichos informativos vagos até agora pela inexistência de público consumidor significativo?

 

A primeira pergunta é impossível responder dada a sua complexidade e principalmente à necessidade de que os profissionais iniciem um debate sério sobre a questão. Seria muita pretensão tentar uma resposta pessoal pois trata-se de um problema em que apenas a troca de experiências e conhecimentos permitirá chegar a conclusões minimamente realistas.

 

Já no como sobreviver, dá para alinhavar algumas possibilidades, com base na experiência de jornalistas que se aventuraram na blogosfera. É verdade que só uns poucos conseguiram até agora um nível de receita financeira equivalente ao que teriam num emprego convencional. Mas as possibilidades e desafios desta nova área informativa continuam seduzindo um número crescente de profissionais desiludidos com as redações.

 

Ainda com base nas experiências, tanto de profissionais como não profissionais, dá para colocar para discussão de jornalistas numa mesa de bar, três grandes questões relacionadas à produção de weblogs informativos:

 

1)     Identificação de um nicho informativo;

2)     Envolvimento pessoal na produção dos conteúdos noticiosos;

3)     Formação de comunidades de informação.

 

O primeiro item é quase óbvio. Quem, por opção ou necessidade, entrar na blogosfera tem que procurar um diferencial para poder atrair visitantes para seu blog, página e agora também nos micro-blogs do Twitter. A Web tornou viável a chamada Cauda Longa[2], que explica como nichos informativos podem sobreviver, até mesmo financeiramente, graças ao fim das limitações geográficas na rede mundial de computadores. Hoje a distância entre produtor e consumidor não é mais medida em horas ou quilômetros, mas em clics do mouse de um computador.

 

O segundo item é mais complicado porque quebra  valores tradicionais do jornalismo como o distanciamento em relação aos fatos. Hoje, um blog informativo deve criar um diferencial em relação à mídia convencional ao estabelecer um relacionamento  personalizado com o público. Um leitor de blog quer sentir a participação do autor na notícia porque isto é essencial para ele poder avaliar a credibilidade do material, já que há pelo menos 120 milhões de blogs em todo mundo, ao contrário de algumas dezenas de milhares de jornais impressos.

 

Finalmente o terceiro item amplia a mudança de rotinas e valores do ofício jornalístico num ambiente marcado pela avalancha informativa. O jornalista está sendo chamado a assumir funções de mediador de grupos de usuários da Web que fornecem dados, fatos e novidades para o profissional criar informações processadas e investigadas. Para criar esta rede de informantes, o jornalista terá que mudar o seu relacionamento com o público, coisa que não é fácil, conforme mostra a experiência de muitos com a gestão de comentários postados em blogs.

 

Cada um destes itens merece um detalhamento muito maior. Aqui eu só dei indicações gerais. O resto a gente vai ter que discutir, e muito, aqui no Código e fora dele. 



[1] MarkDeuze produz os blogs Deuzeblog e Digital Media and Society .

Comentários (13)
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Ney José  Pereira, Contador (São Paulo/SP)
Enviado em 26/5/2009 às 15:35:25

O bom de uma "discussão" numa mesa de bar é que falamos tudo e não resolvemos nada!. Relativamente às crises (há muito mais de uma só) bem que os tais jornalistas pudessem dedicar um tempinho para eles "criticarem" eles próprios!. Quem sabe haveria uma solução (temporária né!)!. E se as "receitas" diminuíram, por que não se diminuem as "despesas"?. Principalmente as despesas com os "figurões e com as figuronas". Aqueles e aquelas que concentram os seus serviços em tudo o que é midiático!. A (des)concentração da "propriedade" da mídia não será possível. Mas, é necessário (e possível) (des)concentrar os midiáticos. Senão não haverá mesmo "mercado de trabalho". Haverá, sim, "monopólio de trabalho". Não vale "enxugar" o "operariado imprensático"!.
Remindo  Sauim, Aposentado (Canoas/RS)
Enviado em 25/5/2009 às 20:08:46

Mais uma vez leio que os blogues estariam terminado com a exclusividade da geração de notícias que era da imprensa até agora. Ora, o que tenho visto nos blogues são mais discussões e comentários sobre notícias saidas em jornais, agências de notícias e grandes redes de TV. Mesmo porque, blogue nenhum possui a rede de informantes necessários a produção de notícias.
Go  Oliveria, Pernambuco (Recife/PE)
Enviado em 25/5/2009 às 16:06:35

COMO SERÁ POSSÍVEL A SOBREVIVÊNCIA DOS JORNALISTAS: Primeiro, jurar se comprometer com o fato; Segundo, deixar claro que ideologia professa, o que defende em quem acredita; Terceiro, ter integridade profissional; Quarto, deixar de ser mero papagaio ou pau-mandado de patrão; Quinto, repudiar e rejeitar qualquer matéria encomendada seja a que preço for; E por último, e mais importante, ter presente semore, com bastante seriedade, que há leitores com mais de 2 neurônios.
Marcos Chaves  Chaves, Func. público (Belo Horizonte/MG)
Enviado em 24/5/2009 às 19:13:26

Li este artigo que também está postado no site VERMELHO, contudo quero fazer meu comentário aqui no ObSERVATÓRIO. Quanto a queda das receitas na venda dos jornais, digo que a internet foi mais democrática em termos de conteúdo, pois para se ler um conteúdo de jornal você deve comprá-lo como se compra um pacote fechado. Você compra muita coisa que não quer ler (consumir) e acaba pagando por isso também. Na internet (blog) principalmente, você é o agente em busca do conteúdo que lhe é mais peculiar. Eu, na minha vida de estudante e adulto sempre tive dificuldades para ler um jornal ou revista, pois o produto oferecido nem sempre era o que eu esperava para suprir as minhas espectativas em relação a determinado assunto. Quanto ao jornalista, a crise será a de adaptação, pois sempre estiveram vinculados ao sucesso da empresa a que prestavam serviços e assim tinham que produzir um resultado tal que lhes permitissem gozar da credibilidade alcançado pelo empregador. No blog, o jornalista terá que ter e se fazer merecedor de credibilidade e não gozará da credibilidade emprestada. O jornalista será o responsavél pelo o seu nicho de mercado (informação) que atrairá ou não leitores interessados em informações de seu interesse. É o processo da cadeia alimentar. Quem sobreviverá?
Flávia  Souza, jornalista (Juiz de Fora/MG)
Enviado em 24/5/2009 às 15:00:23

A crise realmente afeta de maneira mais cruel as empresas de comunicação, que agora perdem o espaço de criadoras e "pautadoras" da verdade. Foi-se a época em que somente os grandes jornais decidiam o que todos iriam discutir. Não que esse poder tenha sido destituído, mas agora as grandes empresas precisam aprender a pensar um pouco diferente e concorrer com uma turba desconhecida no meio web. Mas se engana também quem acha que os poderosos estão alheios a todas as transformações. Eles buscam constantemente maneiras de se manterem ativos no poder e acompanham minuto a minuto todas as transformações e novidades desse novo momento. Se nós, jornalistas, não ficarmos atentos vamos continuar reféns desse sistema de comunicação e continuar sem praticar os princípios que nos foram ensinados na academia. O grande desafio desse momento é um jargão que escutamos constatemento: "temos que aprender a transformar informação em conhecimento.". Assim como temos que reaprender a trabalhar com ela. Função primordia do jornalista.
Lau  Mendes, SST (Porto Alegre/RS)
Enviado em 24/5/2009 às 14:40:44

Senhor Castilho segue endereço(link) de texto que muito contribui a reflexão sobre o que levou a mídia, a impressa principalmente, entre tantas ao estado que se encontra. http://edu.guim.blog.uol.com.br/ -24/05 sob o título "O Passado os Condena"
Antonio  Filho, publicitário (Paulista/PE)
Enviado em 24/5/2009 às 10:19:39

Além do crescimento da informação via internet, temos de levar em conta que a imprensa vem perdendo espaço também em vista da perda de credibilidade.
Luciano  Prado, advogado (Rio de Janeiro/RJ)
Enviado em 24/5/2009 às 01:14:13

Impossível, pelo menos no Brasil, falar de jornalismo/jornal sem falar de “jornalistas” e patrões. Achar que o mal que acomete os jornais está pura e simplesmente no advento da internet, sem analisar todos os aspectos que ensejam o afastamento do leitor é tentar dar a volta por fora. Com ou sem internet esse afastamento, dada a “quebra valores tradicionais do jornalismo como o distanciamento em relação aos fatos” (citando o próprio autor), já vinha ocorrendo. E se aprofunda à medida que aumenta a dependência em relação aos que hoje sustentam os jornais, que obviamente não é o leitor. Há muito os jornais (inclusive televisivos) estão de rabo preso com outros interesses que não os fatos. E aí entra os “jornalistas” e patrões. E o grave é que não há sequer o “cuidado” de tentar camuflar essa promiscuidade. É na cara dura mesmo. Vai ganhar cada vez mais espaço (na internet) quem for honesto com o leitor. E isso o leitor sabe, cada vez mais, identificar.
Fernando  Kelysson, comerciante/jornalista (BH/MG)
Enviado em 24/5/2009 às 00:38:05

emfluencia.blogspot.com/
Elpidio  Coutinho, advogado (Rio de Janeiro/RJ)
Enviado em 23/5/2009 às 21:53:30

Comenta com propriedade o leitor Patrício quando afirma que a crise não nasce dos jornalistas e sim dos empresários da comunicação, para qual os veículos de imprensa representam muito mais a "voz do dono" do que a sociedade que eles fingem atender. A verdade é que mesmo passados mais de 50 anos eles continuam a adotar os métodos de Assis Chateaubriand. A internet teve o mérito de desmistificar o "quarto poder", mostrando que a notícia pode ser rápida, isenta, insípida e incolor. Esse precioso líquido informativo vai cada dia mais substituindo os jornalões, revistões, televisões que não passam hoje de um pastiche de si mesmo. Estão podres pelo contato com os poderes político, ecomômico e jurídico e esquecem que os leitores com suas redes subterrâneas de informação, estão dia a dia a demonstrar que o rei está nu.
Lenin  Araujo, Analista de Sistemas (Guaraci/SP)
Enviado em 23/5/2009 às 17:05:21

Ninguém pode dizer que o desmonte desses dinossauros "informativos" não faça bem à alma do ser humano.
Marcelo  Ramos, Publicitario (São Paulo/SP)
Enviado em 23/5/2009 às 13:50:11

Um dos componentes que devem ser adicionados à esse bolo que é a crise de jornais e jornalistas é a palavra contexto e suas derivadas. O principal diferencial introduzido pela internet é que, em face de diversas fontes, o "consumidor de informação" pode criar um quadro mais completo sobre os assuntos. Por outro lado, essa palavra também ter importância na perda de credibilidade dos grupos de comunicação, na medida em que os consumidores começou a perceber que, além de não contextualizar certos assuntos, os grupos intencionalmente descontextualizam outros. Hoje, muito mais pessoas sabem que os donos dos grupos comunicativos tem diversas intenções outras além do lucro, dissimuladas em diversas roupagens/discursos. Algumas são bem conhecidas, como "defensores da liberdade de expressão", "defensores da moral e da verdade", e por aí vai. A percepção mesma desses níveis, utilizados estrategicamente pelos grupos de comunicação tem "libertado" muitos consumidores da grande Matrix. Esses dias uma pessoa ingênua me falou que não acredita em teoria da conspiração. Eu respondi que ela fazia muito bem, porque não é mais teoria....
Fabricio  Ramos, Comunicólogo (Salvador/BA)
Enviado em 22/5/2009 às 13:51:56

A crise do jornalismo é profunda. Mas a Internet é uma das melhores coisas que já aconteceu para o Jornalismo. Uma novo sistema que aumenta tanto em quantidade quanto em profundidade a dimensão da informação, assim como converge texto, foto, audio, video, tudo isso num só lugar! Além de permitir a criação - e democratizar - de novos veículos até amis originais! O Jornalismo - e logo, o Jornalista - essencial, como atividade e como idéia, floresce cada vez mais vigororoso com a internet! A crise dos jornais não é dos jornalistas, mas daqueles (empresários) que se consideram donos da atividade jornalística, daqueles que consideram o jornalismo uma atividade privada.
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Carlos Castilho
* Ex-repórter - revista Fatos & Fotos
* Ex-redator internacional - JB
* Ex-editor internacional - Opinião
* Ex-editor telejornais - TV Globo
* Ex-chefe do escritório da TV GLobo em Londres
* Ex-redator - Cadernos do Terceiro  do Terceiro Mundo;
* Ex-correspondente latino americano  do jornal Público/Lisboa
* Ex-editor internacional do JB;
* Ex-editor associado do The World Paper/ Boston;
* Ex-editor latino-americano da agência IPS - Costa Rica;
* Ex-consultor de advocacy na mídia para a União Européia;
* Professor de Jornalismo Online , Faculdades ASSESC (Florianópolis);
* Professor de Projetos Multimídia (pós-graduação latu senso) no CESUSC / Florianópolis;
* Professor de Jornalismo Online (curso a distância) no Knight Center, Universidade do Texas; 
* Autor do capítulo Webjornalismo no livro No Próximo Bloco - Editora PUC/Rio -2005.
* Autor do prefácio e tradução do livro Jornalismo 2.0, de Mark Briggs, publicado pelo Centro Knight, da Universidade do Texas.
* Mestre em Mídia e Conhecimento pelo EGC/UFSC. 
-Reside em Florianópolis / SC
email ccastilho@gmail.com


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