ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 600 - 27/7/2010
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Pasteurização da notícia abre espaços para blogs na hora de contar histórias sobre o mundo em que vivemos
Postado por Carlos Castilho em 16/12/2009 às 23:45:09
 
 

Nos anos 1950, Walter Cronkite, o ícone mundial dos âncoras de telejornais, tornou-se um personagem paternal para milhões de norte-americanos ao encarnar a figura de um grande contador de histórias do jornalismo moderno.

 

Com a industrialização do processo de produção de notícias nos jornais impressos e a brutal concorrência entre telejornais, a figura do contador de histórias perdeu cada vez mais espaços até ser recuperada, muito recentemente, com surgimento dos weblogs produzidos por pessoas comuns, sem formação jornalística.

 

A generalização dos manuais de redação e a ditadura da pirâmide invertida acabaram padronizando e pasteurizando os textos jornalísticos que se tornaram frios e impessoais, como uma bula de remédios. As notícias publicadas num jornal ou lidas pelos âncoras de telejornais passaram a ser algo muito distante do público, ao usar estilos de redação que ninguém ousa reproduzir numa conversa de bar ou em família, sob pena de ser imediatamente ridicularizado.  

 

Você já imaginou o que seus amigos diriam se você chegasse no bar e anunciasse: “O presidente do Senado, José Sarney, disse ontem que não deve ser discutida a decisão do STF que manteve a censura sobre o jornal O Estado de S.Paulo. Anteontem a corte rejeitou o pedido do jornal de publicar informações sobre investigações da Policia Federal sobre Fernando Sarney, o filho do senador”.

 

No mínimo uma sucessão de gozações, motivadas pelo fato de que você ignorou a regra básica de qualquer contador de histórias: a informalidade e a descontração. Em circunstâncias absolutamente normais você diria: “Pessoal, dá para acreditar... O Sarney está agora defendendo também a censura à imprensa. Ele disse que a gente tem que aceitar sem discutir a decisão do STF de impedir o Estadão de publicar uma reportagem sobre suspeitas de corrupção do filho dele. Pode...”.

 

Os profissionais perderam o hábito de contar histórias, e os mais jovens nem chegaram a experimentá-lo por causa da automatização e produção em massa de notícias dentro de redações jornalísticas. Para evitar erros e diante da falta de tempo para corrigi-los, criaram-se os manuais de redação que acabaram sendo desvirtuados ao se transformarem em barreira contra a diversificação e personalização das narrativas jornalísticas.

 

Quando Henry Ford criou a linha de montagem na indústria automobilística o resultado foi um aumento na produção de carros e um menor índice de erros, mas o sistema se mostrou, mais tarde, inibidor da criatividade dos empregados e da personalização dos automóveis, uma exigência do consumidor. Uma das razões do sucesso da indústria automobilística japonesa está justamente na crítica da linha de montagem fordiana.

 

O desaparecimento do repórter contador de histórias, uma postura que nasceu junto com o jornalismo, há séculos, coincidiu também com o divórcio dos profissionais em relação ao público. Os leitores passaram a ser um incômodo para as redações, o que está na origem de um distanciamento que alimenta queixas e antagonismos.

 

Foram os weblogs produzidos pelos chamados jornalistas amadores que começaram a recuperar uma velha tradição de contar histórias, um formato narrativo muito mais próximo do público do que as fórmulas preconizadas nos manuais de redação. Cronkite simbolizava o personagem paternal que no início da noite contava para seu público o que havia acontecido nas ultimas 24 horas. Era o pajé eletrônico contando as novidades do dia para a aldeia televisiva reunida na taba virtual.

 

Não se trata de lamentar, nem de saudosismos do tipo “velhos e bons tempos”,  mas de recuperar uma relação de confiança mútua entre profissional e o público que permanece na base da jornalismo.  É necessário repensar e contextualizar as fórmulas e os manuais de redação para integrá-los à nova ecologia informativa criada pela internet, onde o leitor deixou de ser um consumidor passivo de notícias.

 

Alguns dirão que a missão do jornalista não é contar histórias, mas sim dar informações. Outros, como o americano Jeff Jarvis, afirmam que os profissionais já não são mais donos das histórias e nem podem se colocar no centro do palco para contar um fato. Há muita polêmica sobre como os jornalistas devem passar informações, se do tipo relatório impessoal ou contando histórias. Uma coisa parece, no entanto, inevitável: o estilo pirâmide invertida já não é mais uma unanimidade.
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Alexandre  Pastre, contabilista (Alexandre/MG)
Enviado em 17/12/2009 às 21:09:46

Também notei que o Bonner está mais solto no direcionamento para a câmera, gestual e até na forma de dar a notícia. É o formato do blog dando pistas para a TV. As mudanças aconteceram quando a Record passou a vestir as roupas da Fátima Bernardes na Ana Paula Padrão. Desde então, até as barras de informação ficaram dinâmicas. A Rede Tv copiou a ideia das legendas e bancada em movimento e parece um telejornal transmitido em alto mar. As informações sobre o tempo no JN é que precisariam ser comunicadas mais informalmente. Tecnicamente é interessante falar sobre a zona de convergência do Atlântico Sul, mas isso é pouco compreendido para quem quer saber apenas se deverá sair de casa com ou sem guarda-chuva ou se ficará 3 ou 4 horas tentando chegar em casa.
Ibsen  Marques, Técnico em Eletrônica (Caçapava/SP)
Enviado em 17/12/2009 às 15:40:43

O máximo que os pós-revolução de 64 presenciamos foi um Boris Casoy,que não passa nem perto de um contador de histórias, ele apenas exige alguma independência para comentar algumas notícias de maneira mais efusiva. Nós temos uma enorme variedade de problemas motivantes dessa pasteurização. Um deles é a questão colocada pelo Catilho de se tentar minimizar os erros. Mas há bem mais que isso; também é preciso considerar que a livre opinião do jornalista âncora poder não ir de encontro à linha editorial da emissora, ou no mínimo pode acontecer um conflito entre a opinião do âncora e a da emissora. Há também a necessidade técnica, segundo manuais de redação, de se demonstrar imparcialidade e impessoalidade na divulgação da notícia. O problema é que todos nós já somos capazes de reconhecer que não há imparcialidade na notícia e isso já foi tema de debates, mestrados e doutorados na área de linguística aplicada, jornalismo e comunicação. Decorre daí que todo esse "mise-en-scéne" passou a soar falso aos olhos do espectador. A partir dísso precisamos, então, de mais um passo apenas para que o telejornalismo perdesse sua credibilidade.
Pedro Bueno  Bueno, Free lancer (Nova Iguaçu/RJ)
Enviado em 17/12/2009 às 12:27:38

Li rapidamente e pelo que entendi passei a mirar ao assistir o J.N. que os apresntadores parecem desejar desde agora em diante, uma fla mais coloquial ao dar as noticias. Antes, o Borner estava mais se parecendo com aqueles bonequinhs, cheios de piscar de olhos, como estive mesmo comovido com o que estava noticiando, principalmente quando se falava contra o governo federal. Mas, via-se que havia uma certa falsidade nos gestos. Desses dias para cá, quando retornei ao JN, depois de uns 15 dias de enjoos com o mesmo, senti essa mudança que espero não ser uma falsa impressão de minha parte.
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Carlos Castilho
* Ex-repórter - revista Fatos & Fotos
* Ex-redator internacional - JB
* Ex-editor internacional - Opinião
* Ex-editor telejornais - TV Globo
* Ex-chefe do escritório da TV GLobo em Londres
* Ex-redator - Cadernos do Terceiro  do Terceiro Mundo;
* Ex-correspondente latino americano  do jornal Público/Lisboa
* Ex-editor internacional do JB;
* Ex-editor associado do The World Paper/ Boston;
* Ex-editor latino-americano da agência IPS - Costa Rica;
* Ex-consultor de advocacy na mídia para a União Européia;
* Professor de Jornalismo Online , Faculdades ASSESC (Florianópolis);
* Professor de Projetos Multimídia (pós-graduação latu senso) no CESUSC / Florianópolis;
* Professor de Jornalismo Online (curso a distância) no Knight Center, Universidade do Texas; 
* Autor do capítulo Webjornalismo no livro No Próximo Bloco - Editora PUC/Rio -2005.
* Autor do prefácio e tradução do livro Jornalismo 2.0, de Mark Briggs, publicado pelo Centro Knight, da Universidade do Texas.
* Mestre em Mídia e Conhecimento pelo EGC/UFSC. 
-Reside em Florianópolis / SC
email ccastilho@gmail.com


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