ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 576 - 9/2/2010
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Auto-regulação informativa baseada na ética
Postado por Carlos Castilho em 25/8/2009 às 12:11:02
 
 

Os leitores, ouvintes, telespectadores e usuários da Web estão tendo cada vez mais dificuldade para separar o joio do trigo em matéria de informação. E o pior é que esta situação tende a se agravar na medida em que a avalancha noticiosa cresce de intensidade com a popularização da internet e a diversificação dos canais de acesso à arena informativa.

 

É uma situação angustiante porque afeta a nossa capacidade de tomar decisões, um dos elementos essenciais na construção da cidadania e de nossa inserção comunitária. Diante de tantos dilemas, aumenta a tendência a uma espécie de autismo social[1], em que as pessoas simplesmente rejeitam a informação em bloco por uma desconfiança generalizada na existência de interesses ocultos.

 

Este isolamento vai na contramão da sociedade da informação e, dadaIlustração publicada originalmente no blog Quintal Vritual a gravidade de suas conseqüências, crescem no mundo os estudos sobre auto-regulação na distribuição de conteúdos informativos. Auto-regulação é uma proposta, que muitos consideram utópica, segundo a qual as pessoas, e não instituições ou códigos, assumem as decisões sobre o que é válido ou inválido em matéria de informação.

 

Trata-se de uma mudança radical de comportamentos que implica a criação de novas rotinas e valores em comunidades sociais, um trabalho hercúleo que a organização holandesa Free Voice pretende iniciar, na América Latina, por meio de um projeto de discussão da auto-regulação informativa com base na ética.

 

O projeto terá uma fase de testes até dezembro em quatro países (Colômbia, Nicarágua, Bolívia e Guatemala) para avaliar a aplicabilidade regional do modelo de códigos de ética participativos em jornais, emissoras de rádio e TV, desenvolvido no Peru. Depois, o projeto será expandido para os demais países (Argentina, Brasil, Chile, Equador e Venezuela) onde atuam organizações filiadas à Rede Latino-Americana de Observatórios da Imprensa.

 

Os códigos de ética participativos são desenvolvidos por funcionários e proprietários de órgãos da imprensa com o objetivo de criar parâmetros consensuais capazes de ajudar na tomada decisões sobre o que divulgar ou não — e como — em jornais, revistas, emissoras de rádio ou de televisão.

 

Na verdade, a discussão prévia à elaboração do código de ética é muito mais importante do que o texto final. Isto porque a busca do entendimento, que é um processo difícil e complicado, cria as bases para que o código funcione. Temos hoje dezenas de códigos de ética espalhados pela imprensa e que têm pouca utilidade porque não contam com o consenso generalizado. Ainda mais num contexto onde a mídia está passando pela sua maior transformação desde Gutenberg.

 

São dois desafios enormes. Primeiro, buscar consenso entre jornalistas, executivos e donos de veículos de comunicação em torno de valores éticos que também estão em transformação, por conta do impacto digital na captação, processamento e distribuição da informação e conhecimento.  Segundo, plasmar este consenso em textos, o que significa extrair a essência da essência do consenso logrado na discussão prévia.

 

As incógnitas são tantas que dá até para entender a classificação de utopia. O problema é que não temos outra alternativa. A imposição vertical e centralizada de novos códigos de ética não vai funcionar porque ela não conseguirá garantir interpretações e contextualizações minimamente consensuais. Por outro lado, a ausência total de regulamentação também é inviável, porque as pessoas não conseguirão viver muito tempo sem parâmetros para decidir o que é valido ou não em matéria de informação.

 

Estamos condenados a percorrer o caminho mais difícil, mais longo e mais incerto. Mas é o único que pode nos trazer algum conforto no caos informativo que está sendo criado pela avalancha noticiosa.


[1] Autismo é uma desordem mental que provoca o isolamento da pessoa em relação ao mundo externo.

Comentários (13)
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Jaime  Collier Coeli, Aposentado (Itanhaem/SP)
Enviado em 27/8/2009 às 16:26:34

Confundimos a noção de um comportamento social perfeito, em que os cidadãos estivessem razoavelmente de acordo, com a exigencia de respeito mutuo entre as guildas modernas que, ao contrário das medievais, recebem dinheiro do Estado para afirmarem sua liberdade politica. Não apenas o jornalismo, como a arte em geral, constituem subprodutos que não são - como as guildas contemporaneas =- autosustentaveis. Esse conflito alimenta o anseio dos setores autocraticos da sociedade de levar à totalidade social a doença que ataca alguns cidadãos, o "autismo". Ainda nem bem saimos de uma organização politica autista e totalitaria e já alimentamos a esperança vã de uniformizar homens e comunidades sob a bandeira de uma arte e um jornalismo unicos para o bem de todos. De fato, esse procedimento revela apenas um grande entusiasmo pelo totalitarismo.
Jorge Robespierre  Tomás Japur, secundarista formado (Quaraí/RS)
Enviado em 27/8/2009 às 12:15:47

(continuação) virtude, etc., governaria sem a necessidade de leis. Afinal, segundo Platão, as leis são necessárias para regulamentar o que se pode e o que não se pode fazer em uma sociedade onde os indivíduos não sabem “qual é a melhor maneira de agir”. Sendo assim, alguém que soubesse como as coisas SÃO, não precisaria do auxílio de leis. A idéia é genial, mas assim como não existe e nem nunca existiu alguém tão bom assim para governar sem leis, provavelmente não vai existir um ‘público em geral’ virtuoso. Vivo em um Estado de Direito, e ainda acho que a melhor solução para essas questões é a formulação de leis sérias, discutidas em amplos debates com gente preparada (ou seja, não deixem o ministro Gilmar Mendes participar) que regulamentem o funcionamento da sociedade da informação – inclusive na internet. Não é acabando com leis sérias, como a lei de imprensa, e recorrendo ao bom senso do público que a situação vai melhorar. E acalmem amigos, regulamentar não é o mesmo do que censurar.
Jorge Robespierre  Tomás Japur, secundarista formado (Quaraí/RS)
Enviado em 27/8/2009 às 12:15:03

Sobre a questão do "separar o joio do trigo", lembro de uma discussão do professor Dominique Wolton sobre qual seria o papel do jornalista com a ampliação da internet. O seu palpite dizia que o jornalista, - além de produzir informações - seria aquele que recolheria outras da web, após apurá-las dentro das suas possibilidades. Depois disso publicaria tais informações em algum veículo com um mínimo de credibilidade. Isso parece impossível em um contexto como o brasileiro, em que grandes conglomerados detêm uma fatia considerável dos canais de tv, rádios, jornais, etc., e também onde jornalistas mal pagos (e com o fim do diploma talvez mais despreparados) estão mais preocupados com a sua subsistência do que com qualquer outra coisa. O que fazer? Apelar, então, para o bom senso do público em geral? Creio que as ferramentas necessárias para preparar o público são disponibilizadas nas faculdades de jornalismo (pelo menos nas sérias), não seria necessário nenhum código de ética. Mas é claro, entendo que o autor fala da preparação do público, e não mais do jornalista - como se este não tivesse mais solução ou papel na "nova sociedade da informação". No entanto, o ´público em geral´ é tão complexo e diversificado, parece-me, que uma proposta como essa me lembra ao rei filósofo de Platão. Nessa perspectiva, alguém que realmente soubesse o que é justiça, bondade, (continua)
Ney  Moreira, Cientista (Bremen/IN)
Enviado em 27/8/2009 às 09:21:56

Então quer dizer que o problema do jornalismo é a internet? Só por que a blogosfera tem desmontado sistematicamente tudo quanto é armação da imprensa tradicional. Graças a internet eu to vendo quem sempre manipulou esse país fazer papel de palhaço repetidamente nesse processo ridículo de fabricação de crises. VIVA A INTERNET
Cristiana  Castro, Advogada (Rio de Janeiro/RJ)
Enviado em 27/8/2009 às 00:10:44

Alguns pontos para mim, ficaram confusos. A questão de " separar o joio do trigo", me parece, aqui no Brasil, uma dificuldade muito maior das distribuidoras do que dos receptores de informação. Talvez, até dê no mesmo... A Organização Holandesa Free Voice, é uma ONG? Se o problema é mundial pq iniciar na América Latina? Conceito de " ética" é muito complicado. Por exempo, o que é ético para os EUA não é ético para a América Latina. Pessoas e não instituições ou códigos; quem elabora os códigos e quem integra as instituições? Prevalecendo o critério do que é válido ou inválido, não continuaremos no mesmo lugar? Não continuaríamos sujeitos a manipulação em função de interesses maiores? E, finalmente, no que se refere a não ter alternativa, qual a questão com o fato em si, pq não trabalhar apenas com os fatos? O que parece ser o caos talvez seja a alternativa que parece não existir. Já vivemos a alternativa, estamos testando e isso vai levar um tempo, mas não é o caos. Toda a informação é válida, só temos que nos habituar ao contraditório. Concordo com o Cristian, está tão bom assim. A gente aprende com os textos e muito com os comentários. Não sei qto a imprensa de um modo geral, mas pra web qq tipo de regulação seria mortal, pq a rede, ao contrário dos outros veículos, é viva, não tem ativo nem passivo, tem gente. O caminho mais difícil e mais longo já foi percorrido.
Andrea  Costa, Jornalista (Brasília/DF)
Enviado em 26/8/2009 às 22:42:56

Essa história de auto-regulação baseada na ética é um grande papo furado. Conversa pra boi dormir. O jornalismo brasileiro perdeu completamente a noção de ética, verdade, honestidade, decência. A cobertura política está descaradamente vergonhosa. Enquanto jornalistas continuarem achando que patrão é coleguinha e se prostituirem abdicando de suas responsabilidades profissional e social para defender os interesses financeiros de seus patrões, essa conversinha de auto-regulamentação com base na ética continuará sendo pura conversa fiada. Estou revoltada mesmo. Ainda bem que existe a blogosfera para nos informar.
Jaime  Collier Coeli, Aposentado (Itanhaem/SP)
Enviado em 26/8/2009 às 18:24:11

Recordar é viver. eu hoje me lembrei da auto-censura, vinculada à democracia consentida etc e tal.
WALDIR  ALVES, aposentado (mongagua/SP)
Enviado em 26/8/2009 às 17:01:48

Concordo com a proposta. Em pleno século XXI, pratica-se de forma constante, "assassinato de reputações". Primeiro publica-se algo sobre uma personalidade, depois verifica-se se é verdade. E não há nada nem niguem que possa dizer o contrario. Sob o manto da liberdade de expressão, pratica-se atos, que sistematicamente prejudicam personalidades. Não há ética em reportar um fato que não existiu, ou insinuar que alguem disse algo sobre alguem, sobre alguma coisa que talvez , quem sabe, ouviu alguem dizer dentro de um ônibus. Isso não é jornalismo. Penso ser necessário os profissionais do jornalismo, discutirem formas de buscar uma atuação ética e compromissada com a verdade, assumindo com a sociedade um compromisso em prol de uma sociedade realmente democratica.
Cristian  Korny, Músico sem OMB (São José ds Campos/SP)
Enviado em 26/8/2009 às 16:24:22

essa situação não é angustiante, quem tem senso crítico facilmente se orienta nesse ambiente difuso e mutante, autoregulamentação não funciona, se transportes, telefonia, petrólio, etc... todos têm agências para regulamentar suas atvidades, porque a imprensa quer ter privilégio? um código de ética consensual vai marginalizar e querer decidir pelas iniciativas mais marginais nas quais se localiza a intelgência, ou seja, nada de discriminar a inteligência, deixando-a de fora desse círculo fechado produtor de código de um ética cujo objetivo será defender os interesses dos gdes corporativos, hoje a inteligência se encontra nas margens, todos sabem disso, as grandes empresas não têm o direito de impor seu código de ética a todos, então, está bom como está...
Jaime  Collier Coeli, Aposentado (Itanhaem/SP)
Enviado em 26/8/2009 às 14:10:05

Thales, gostei do "codigo deontologico". De fato é impraticável, o atual não dá resultado ejá deveriamos ter aprendido que os procedimentos teistas conduzxem diretamente ao autoritarismo e à banbárie que atualmente enfrentamos. A concentração se combate ensinando ética aos banqueiros (que de fato ficam com os restos da imprensa, quando ela cai no buraco) e quejanos. Mas não se preocupe. Os resquicios do autoritarismo medieval com certeza não desaparecerão de repente, mas já apodreceram bastante. Logo chegarão ao suficiente.
Mario  Netto, Func.Publico (Sao Paulo/SP)
Enviado em 26/8/2009 às 14:06:53

Mais papo-furado....Numa democracia a imprensa é TOTALMENTE livre.Escreve o que quiser, como quiser.Tem toda a liberdade de expressar-se.Se extrapolar direitos e limtes pela prática da liberdade, deve ser responder criminalmente segundo as leis do país.Para isso existe uma coisa chamada CONSTITUIÇÃO, que normalmente os "democratas" como Chávez e mais recentemente Zelaya não gostam de respeitar.Portanto não tem que auto regular nada !!!! Cada um tem o direito de escrever, falar, publiucar, divulgar o que bem entender. O Judiciário é que deve encarregar-se de fazer a regulação!!!!!
Thales  Rafael, Estudante de Jornalismo (Niterói/RJ)
Enviado em 26/8/2009 às 11:51:10

Se a auto-regulação fosse de fato discutida amplamente nos mais diversos setores da sociedade e, pelo menos, transformada no início de uma síntese (que filosoficamentee e historicamente é impraticável) não teria nada a ver com censura. Não entende o pensamento que chega a conclusão de que ímprensa livre é a imprensa sem limites. Devem haver marcos legislativos sim para impedir o abuso do poder e do capital simbólico de grandes empresas de comunicação. Liberdade de imprensa não é a liberdade irrestrite de publicar qualquer coisa (apesar dessa ser a idéia em voga nos dias de hoje). Castilho, de fato a idéia da auto-regulação me parece utópica. Me parece que o consenso almejado só iria contribuir mais ainda para o mimetismo da grande imprensa. Posso soar apocalíptico, mas acredito cada dia menos em um código deontológico - seja vertical ou horizontal. O atual chafurda em sua própria insuficiência e é flagrantemente desrespeitado diariamente por grande parte de nossos jornalistas. Acredito que uma mudança substancial na comunicação, passa como você disse, pela mudança de valores do profissional. Mas isso não me parece suficiente. É preciso também desarticular a concentração monstruosa da mídia em nossos país. Esse sim me parece o grande entrave para a melhoria na comunicação social. Mas esse caminho é tão difícil, longo e incerto quando a auto-regu~lação da imprensa.
Mario  Netto, Funcionario Publico (Sao Paulo/SP)
Enviado em 26/8/2009 às 10:50:49

Carlos Castilho, você e outros tantos, não enganam ninguém com esse papo furado de "auto-regulação" e "código de ética participativo" .Eles nada mais ésão do que instrumentos de censura...censura pura e simples, com privação da liberdade de opinião e expressão. Aliás o caudilho Chávez já pratica a "auto-regulação" na Venezuela.Seria assim: ético é tudo que for favorável à diatdura bolivariana.Vade retro !!1
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Carlos Castilho
* Ex-repórter - revista Fatos & Fotos
* Ex-redator internacional - JB
* Ex-editor internacional - Opinião
* Ex-editor telejornais - TV Globo
* Ex-chefe do escritório da TV GLobo em Londres
* Ex-redator - Cadernos do Terceiro  do Terceiro Mundo;
* Ex-correspondente latino americano  do jornal Público/Lisboa
* Ex-editor internacional do JB;
* Ex-editor associado do The World Paper/ Boston;
* Ex-editor latino-americano da agência IPS - Costa Rica;
* Ex-consultor de advocacy na mídia para a União Européia;
* Professor de Jornalismo Online , Faculdades ASSESC (Florianópolis);
* Professor de Projetos Multimídia (pós-graduação latu senso) no CESUSC / Florianópolis;
* Professor de Jornalismo Online (curso a distância) no Knight Center, Universidade do Texas; 
* Autor do capítulo Webjornalismo no livro No Próximo Bloco - Editora PUC/Rio -2005.
* Autor do prefácio e tradução do livro Jornalismo 2.0, de Mark Briggs, publicado pelo Centro Knight, da Universidade do Texas.
* Mestre em Mídia e Conhecimento pelo EGC/UFSC. 
-Reside em Florianópolis / SC
email ccastilho@gmail.com


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