ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 576 - 9/2/2010
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Mortes de Michael Jackson e Neda Soltan consolidam novo processo na produção de notícias jornalísticas
Postado por Carlos Castilho em 29/6/2009 às 12:21:39
 
 

As páginas web do Twitter e do Facebook não conseguirem dar conta da avalancha de mensagens quando começaram a circular rumores da morte do cantor Michael Jackson no final da tarde do dia 25 de junho. A frenética troca de boatos e informações aconteceu bem antes da imprensa norte-americana começar a transmitir edições extraordinárias confirmando o desaparecimento do “rei do pop”.

 

Cinco dias antes, em Teerã, a estudante de filosofia Neda Agha-Soltan foi morta com um tiro quando assistia uma manifestação em apoio às denúncias de fraude nas eleições presidenciais iranianas realizadas no dia 12 de junho. Antes da imprensa ocidental dar detalhes do incidente, o vídeo da agonia da jovem já estava circulando na Web ao mesmo tempo em que ela era transformada pelos oposicionistas iranianos na face humana da resistência ao governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad.

 

Os dois episódios tem em comum o fato da notícia ter circulado primeiro nos sites de mensagens da internet onde os internautas, sem formação jornalística, criaram um clima de comoção, antes da imprensa entrar no assunto. O que se viu foi primeiro os boatos e rumores, seguidos algum tempo depois pela confirmação através dos canais convencionais de informação.

 

E mesmo depois da confirmação, a cobertura da imprensa continuou se apoiando nas  informações produzidas pelos milhares de blogs, miniblogs (twitters), torpedos e fóruns online onde fãs de Michael Jackson e simpatizantes de Neda Soltan que misturavam dor, tristeza e notícias em suas textos.

 

Trata-se da consolidação de um novo processo de produção de notícias jornalísticas. O sistema tradicional, onde o repórter constrói a história e depois a publica, está sendo rapidamente substituído por um novo modelo em que uma cobertura jornalística começa com o acúmulo desordenado de boatos e rumores pela internet e para só depois ganhar repercussão na imprensa convencional.

 

No sistema convencional, o repórter recolhe os indícios a partir de informantes, confere as informações, organiza os fatos, entrevista testemunhas e especialistas, escreve a história e depois a submete ao editor, antes de publicá-la. Só a partir daí é que o público começa a participar e colaborar com mais detalhes.

 

Depois da proliferação de sites como blogs, Twitter e comunidades sociais como o Facebook e Orkut, na maioria dos casos, os boatos e rumores começam a circular muito antes dos jornalistas começarem a trabalhar. Com isto, eles já recebem um fato quase consumado, mesmo sem que haja uma confirmação oficial. A grande contribuição da imprensa passa a ser a checagem dos rumores visando transformá-los numa informação, confirmada ou não. 

 

Dada a fantástica capilaridade dos blogs, microblogs e torpedos é inevitável que a avalancha de detalhes produzida por seus autores acabe sendo usada como matéria prima pelos repórteres jornalísticos, antes e depois da publicação das reportagens nos veículos tradicionais da imprensa. Mas a rede de informantes não tem condições de checar todos os rumores, o que cria a base para uma nova simbiose entre profissionais e amadores no noticiário jornalístico.

 

O que o professor norte-americano Bill Mitchell chama de Jornalismo do Próximo Passo, é essencialmente um novo processo de colaboração na produção de notícias entre pessoas com e sem formação técnica em jornalismo, onde cada parte tem um papel a desempenhar. O repórter não pode mais ignorar a participação dos informantes e amadores na coleta de informações, na mesma medida em que os consumidores de informações precisam do jornalista profissional para checar dados e confirmar rumores.

 

Nenhuma parte é mais importante do que a outra, pois são peças de um mesmo processo. A presença de informantes na produção de noticias já é antiga, mas o inédito é a intensidade e diversidade desta participação.

 

O que vai confundir muitos profissionais é a mudança de valores embutida no novo processo de produção de notícias, pois eles deixam de ser donos da notícia para serem parceiros.

Comentários (9)
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Mariano  David Soares, Militar Reformado M-EX (Corumbá/MS)
Enviado em 13/7/2009 às 11:16:36

A Sociedade está idolatrando demais o Fenômeno, isso pode não ser bom para ele no além. Quanto a sua vida aqui na terra, temos que entregar na Misericórdia de Deus! De que adianta o homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma, sua Vida? Quem quiser ganhar sua Vida, vai perder, mas quem perder sua Vida por causa de mim, vai encontrá-la. Nosso corpo é Templo do Espírito Santo. Temos que aceitá-lo como nascemos. Não podemos modificar nosso corpo. Até mesmo a vaidade e a tatuagem é pecado. Quanto ser generoso, quem deu mais, ele ou a mulher da Sagrada Escritura que deu suas últimas moedas? É bom meditar em tudo isso. Atenciosamente, Mariano.
fernando  arteche hamilton, jornalista (blumenau/SC)
Enviado em 3/7/2009 às 12:09:22

Muito bom, Castilho.
Cristian  Korny, Músico (São José dos Campos/SP)
Enviado em 1/7/2009 às 14:20:51

o texto não aceita a realidade em sua totalidade e procura situar o mesmo jornalismo de sempre no contexto atual, na verdade, estamos falando em um novo paradgma, que provavelmente nunca irá se consolidar, será sempre um quase paradigma, para o conforto ou desconforto nosso.
sergio  ribeiro, bancário (são paulo/SP)
Enviado em 1/7/2009 às 12:02:25

A última parte do texto é que deveria ser mais explorada. É realmente muito importante essa colaboração e interação com o público, tanto antes como depois da notícia. O problema é o boato nem sempre é verdadeiro e muitas vezes tem um interesse inconfessável, como no exemplo da ficha falsa de Dilma Roussef. São sempre bem vindas as novidades, mas também exigem cada vez mais um rigor na apuração.
Marcos  Palacios, Jornalista (Salvador/BA)
Enviado em 1/7/2009 às 07:53:55

Castilho, acho perfeita sua delimitação: "processo de colaboração na produção de notícias entre pessoas com e sem formação técnica em jornalismo, onde cada parte tem um papel a desempenhar." São papéis a e funções diferenciadas e complementares, com a presença dos informantes potencializada pelas tecnologias digitais
dante  caleffi, publicitário (rio de janeiro/RJ)
Enviado em 30/6/2009 às 17:32:09

A direita, tem o seu Edson Luís ... no Iran ,mulher e muçulmana. Para chocar mais os "ocidentais",não trajava as vestimentas típicas,véu,ou burka,o que dificultaria , plenamente , identificá-la... Com jeans" ,era uma garota como tantas, que amava os Beatles e os Rolling Stones". Estranho é que a central de notícias,que organizava e distribuia o material para o "ocidente", estava postada em Israel... Não fosse essa preocupação operacional,Farah Fawcett corria o risco de tomar o lugar da iraniana e Michael Jackson sorrindo com longas loiras madeixas.
Hebert Vinicius  Dias Leite, Jornalista (Montes Claros/MG)
Enviado em 30/6/2009 às 13:11:41

Realmente, essa situação chegou para ficar. Talvez exista mera coincidência com a queda da obrigatoriedade do diploma aqui no Brasil. A verdade é que, a imprensa deve sair deste comodismo de pegar notícias prontas e releases e arregassar as mangas. Hoje os diversos profissionais da infinita área da comunicação estão apenas em sua zona de conforto e não se preocupam com a veracidade e utilidade de algumas informações. A morte de Michael Jackson parece ter efeito catastrófico para o mundo inteiro, de tanto que imprensa aborda este assunto 24 horas por dia. Claro, fico sentido pela morte desta estrela e por seus fãs, mas tudo tem sua vez, e chegou a hora de voltarmos a olhar a situação política e economica nacional e mundial. Tem uma utopia como jornalista, ser um formador de opiniões e tentar "desalienar" os cidadãos dos dias atuais. Me incomodo muito em ver a realidade atual no que se refere à informação, onde anda a credibilidade e verossimilhança que FACULDADE aprendemos a buscar está em último plano. Mas fazer o que, devo me conformar porque segundo o Senhor Ministro Gilmar Mendes não passo de mais um "simples cozinheiro",(nada contra aos digníssimos desta profissão, que são poucos os que tem o dom de praticar).
Jorge Fernando dos  Santos, Jornalista e escritor (Belo Horizonte/MG)
Enviado em 30/6/2009 às 13:03:24

Os dois episódios citados pelo articulista confirmam a mudança de paradigmas na informação. A diferença entre os blos e os jornais está justamente na carga de responsabilidade com a informação. Por isso é importante a boa formação do jornalista, para saber separar alhos de bugalhos. Recomendo a leitura do meu artigo neste site, intitulada "A agonia do jornal impresso". Diante das novas mídias, os jornais trocam as pernas e se deixam levar pelos ruídos da Web. Se não assumirem suas verdadeiras características os jornais tendem a desaparecer. Não há como combater o inimigo em seu próprio território. Rádio e TV sempre conviveram. Jornais e internet podem conviver, desde que se mantenham cada macaco no seu galho.
Ibsen  Marques, Técnico em Eletrônica (Caçapava/SP)
Enviado em 30/6/2009 às 12:34:02

Castilho, aqui no Brasil estamos longe de uma aceitação por parte do jornalismo convencional, dos jornalistas e dos estudantes de jornalismo do que você chama de "novo processo de produção de notícias" como um processo verdadeiramente jornalístico. O próprio Dines, pelos argumentos que tem usado em defesa da exigência do diploma não aceitaria isso como jornalismo. O que tenho comentado em vários artigos do OI é a observação de que os jornalistas e estudantes de jornalismo raramente postam ou postavam comentários no OI a menos que o título do artigo faça referência ao diploma (nem mesmo nos artigos que tratam de assunto da maior importância para o meio que é a denúncia de que o Senado engavetou de vez e ilegalmente o CCS). Isso é extremamente preocupante porque parece que as faculdades de jornalismo estão entregando ao mercado pessoas formadas em bases teóricas do século passado e muito pouco afeita ao debate democrático, quero dizer, nos comentários me é perceptível que esse lado fecha olhos e ouvidos diante de argumentos contrários a suas posições. Dá a entender portanto que o que praticam é um monólogo e é um exemplo muito decepcionante de que o futuro jornalismo que praticarão não considerará a informação como um meio de entregar ao público o que ele em última instância deve considerar importantye, mas o que eles, jornalistas pensam que o público deva considerar importante.
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Carlos Castilho
* Ex-repórter - revista Fatos & Fotos
* Ex-redator internacional - JB
* Ex-editor internacional - Opinião
* Ex-editor telejornais - TV Globo
* Ex-chefe do escritório da TV GLobo em Londres
* Ex-redator - Cadernos do Terceiro  do Terceiro Mundo;
* Ex-correspondente latino americano  do jornal Público/Lisboa
* Ex-editor internacional do JB;
* Ex-editor associado do The World Paper/ Boston;
* Ex-editor latino-americano da agência IPS - Costa Rica;
* Ex-consultor de advocacy na mídia para a União Européia;
* Professor de Jornalismo Online , Faculdades ASSESC (Florianópolis);
* Professor de Projetos Multimídia (pós-graduação latu senso) no CESUSC / Florianópolis;
* Professor de Jornalismo Online (curso a distância) no Knight Center, Universidade do Texas; 
* Autor do capítulo Webjornalismo no livro No Próximo Bloco - Editora PUC/Rio -2005.
* Autor do prefácio e tradução do livro Jornalismo 2.0, de Mark Briggs, publicado pelo Centro Knight, da Universidade do Texas.
* Mestre em Mídia e Conhecimento pelo EGC/UFSC. 
-Reside em Florianópolis / SC
email ccastilho@gmail.com


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