ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 600 - 27/7/2010
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ENCHENTES EM SANTA CATARINA
Blogs apostam nos serviços e a mídia convencional na performance

Postado por Carlos Castilho em 28/11/2008 às 17:05:21
 
 

A imagem de Ana Maria Braga vestindo um uniforme camuflado ao apresentar, na sexta-feira (28/11), seu programa desde Blumenau, não foi apenas um escorregão de mau gosto dos produtores do Mais Você. No meio de toda esta tragédia, ficou claro mais uma vez, que a mídia convencional não consegue livrar-se da obsessão pelo espetáculo.

 

Preocupação similar mostrou o repórter José Luiz Datena, da Rede Bandeirantes, que estava mais preocupado em destacar a ação dos helicópteros da FAB na ajuda aos desabrigados do que com as histórias dos desabrigados. Datena chegou ao absurdo de classificar como "linda" a cena de uma mulher grávida sendo carregada para um helicóptero militar.

 

O repórter da Bandeirantes, que chegou às zonas inundadas bem antes das estrelas da TV Globo, estava obviamente pagando o favor da FAB que o transportou nos helicópteros de ajuda. Mas ele não perderia nada se fosse menos exagerado nos agradecimentos, que acabaram ocupando o lugar daquilo que era o essencial na cobertura: a informação

 

Os deslizes e escorregões de repórteres durante coberturas de grandes tragédias são inevitáveis, dada a tensão e a emoção envolvidas no trabalho dos jornalistas. Mas os erros servem também para mostrar o tipo de cultura e de valores que orienta o comportamento dos repórteres e apresentadores.

 

É nesta questão que fica claríssima a diferença de enfoques entre os profissionais da mídia convencional e os blogs produzidos por amadores e free lancers.  Enquanto os primeiros estavam preocupados com a sua apresentação, ou seja, na imagem projetada para o público, os blogueiros estavam mergulhados na tarefa de prestar serviços aos atingidos por aquela que já é considerada a pior enchente de Blumenau, uma cidade periodicamente afetada por inundações do rio Itajaí-Açu.

 

A competição entre a SBT, Record e Globo marcou a cobertura de cada rede. A Record, com seu estilo Indiana Jones, colocou o repórter Roberto Cabrini em cima de uma motocicleta para atravessar ruas alagadas em Itajaí e apresentar sua matéria no alto do morro que domina a cidade. As cenas de destruição e de sofrimento acabaram sendo coadjuvantes da performance de Cabrini.

 

Datena deu o seu show pessoal e aí a Globo acordou, vendo que estava mais uma vez sendo vítima do peso de sua estrutura e da falta de agilidade. William Bonner e Ana Maria Braga foram enviados para o Vale do Itajaí na quarta-feira (26) para marcar a presença da Globo, que é vitima de seu próprio gigantismo na hora de tomar decisões jornalísticas.

 

Suas concorrentes menores acabam se mostrando mais ágeis do que a emissora líder, que paga o preço de uma complexa estrutura na qual as pessoas acabam escravas de organogramas e onde não há autonomia dos escalões inferiores para tomar decisões em momentos de crise.

 

O caso das inundações na cidade de Nova Orleans, provocadas pelo furacão Katrina, em agosto de 2005, também pegou as três maiores redes norte-americanas de televisão no contrapé. Apesar das incríveis dificuldades, os blogueiros independentes entraram em campo formando redes de informação e de ajuda, muito antes das próprias autoridades. Os blogs do Katrina se transformaram num estudo de caso sobre a articulação autônoma de pessoas em momentos trágicos.

 

Em Blumenau e Itajaí, os blogs não chegaram a ser tão influentes e visíveis como em Nova Orleans, mostrando que a cultura da informação independente ainda se encontra num estágio inicial entre nós. Uma varrida aleatória sobre dez blogs que concentraram seu trabalho nas enchentes no vale do rio Itajaí mostrou claramente que a linguagem usada e o foco da informação eram dominados pela preocupação de passar informações capazes de minorar o sofrimento dos desabrigados e vítimas.

 

A campanha de donativos foi iniciada pelos blogs no domingo (23/11) quando um grupo de jornalistas de Blumenau criou o blog Alles Blau (Tudo Azul em alemão), num momento em que as dimensões da tragédia ainda eram uma preocupação local. Os blogueiros começaram publicando notícias captadas em rádios da região, em boletins das autoridades e informações de colegas de redações. Já no dia seguinte, os comentários de leitores já ofereciam informações mais atualizadas e detalhadas.

 

Em Itajaí, surgiu o blog Desabrigados , que passou a ser uma referência obrigatória para a população da cidade ao publicar listas de desaparecidos, dar os nomes das pessoas e dos locais onde estavam abrigadas, bem como disponibilizar um sistema automático no qual as pessoas interessadas inseriam os nomes de parentes e amigos para saber se já estavam em abrigos.

 

Os moradores de Itajaí passaram também a usar o blog para dar notícias a parentes e fazer pedidos de ajuda. Na quinta-feira (28), o site registrou pouco mais de 30 mil acessos num só dia. Neste mesmo dia, a RBS, a rede hegemônica no sul do Brasil, criou o blog Tragédia no Vale do Itajaí , para não ficar atrás dos independentes na cobertura dos desdobramentos das enchentes.

 

O jornalista Alexandre Gonçalves teve que interromper o seu blog Informe Blumenau na segunda-feira (24) porque seu apartamento foi inundado pela água e porque se integrou a uma rede independente de emissoras de televisão da região para cobrir a emergência. Antes disso, ele documentou hora a hora o crescimento do nível do rio Itajaí-Açu a partir do sábado, quando os moradores da cidade já se preparavam para o pior.

 

A rede de ajuda formada por usuários da internet inclui também o twitter (micro-mensagens transmitidas em tempo real para computadores e celulares com acesso à Web). Na página Blumenau foi possível acompanhar a frenética troca de mensagens entre voluntários e vitimas das enchentes.

 

Esta primeira grande experiência de uso de blogs e do twitter em situações de emergência no Brasil deixa uma lição. Em matéria de noticiário local e hiper-local (cobertura de bairros, ruas e condomínios), os blogs são imbatíveis pela sua agilidade, capilaridade e ubiqüidade, embora a credibilidade deva ser avaliada com cuidado.

 

A tragédia de Blumenau e Itajaí mostrou também o calcanhar-de-aquiles da mídia convencional, em especial a sua dificuldade em livrar-se dos vícios e cacoetes criados pela competição, guerra de audiência e pela sua insistência em valorizar mais a performance do que a prestação de serviços.

Comentários (16)
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Genivaldo  Alberto Custódio, Servidor Público (Balneário Camboriú/SC)
Enviado em 10/12/2008 às 10:18:39

Correção: Excelente matéria. Faltou destacar a excelente cobertura do "Jornal Página 3", semanário de Balneário, que realizou inestimável auxílio à população da cidade ao prestar, em tempo real, informações sobre a tragédia.
Genivaldo  Alberto Custódio, Servidor Público (Balneário Camboriú/SC)
Enviado em 10/12/2008 às 10:16:15

Excelente matéria. Faltou destacar a excelente cobertura do "ornal Página 3", semanário de Balneário, que realizou inestimável auxílio à população da cidade ao prestar, em tempo real, informações sobre a tragédia.
Caroline  S. Cezar, jornalista (Balneário Camboriú/SC)
Enviado em 4/12/2008 às 08:45:17

É intragável acompanhar a cobertura dos jornalões e da mídia televisiva daqui de dentro do olho do furacão. Até quinta-feira - quando nós, pequenos, estávamos no 5º dia de cobertura- eles não percebiam a gravidade da coisa, a ponto dos apresentadores do jornal da Record (ao meio-dia) fazerem comentários do tipo "não se previnem, agora tem que ficar pedindo dinheiro ao país inteiro", sem falar no meio sorriso na cara o tempo todo. E então, quando perceberam o "potencial de venda" vieram com toda sua artilharia pesada. Claro que tem um lado positivo, a sensibilização do país que motiva as doações e tal, mas o sensacionalismo é infinito a ponto de anunciarem uma "possível epidemia de leptospirose" e a dessa dona que vestiu seu casaquinho camuflado (afff!) dizer em seu programa matinal "que as pessoas não devem ir a Balneário Camboriú, porque podem pegar doenças, é perigoso, isso e aquilo". Isso é um desserviço, uma falta de informação, uma inutilidade pública. Concordo que os blogs e virtuais em geral (nosso site www.pagina3.com.br e o www.blogp3.com.br tiveram uma visitação considerável) fizeram o papel que a grande mídia não fez, também acrescentaria as rádios. Os grandes, do alto de seus tronos, não cumprem o que tem de mais essencial no jornalismo.
Julio  Castellain, Editor Gráfico (Blumenau/Itajaí/SC)
Enviado em 2/12/2008 às 23:34:27

É preciso destacar também os primeiros momentos da enchente, principalmente em Itajaí, onde as grandes Tvs saíram do ar, nas poucos horas que ainda havia energia. Restou-nos a Tv Brasil Esperança e apresentadores que mais pareciam cães vira-latas, que latiam freneticamente. Não perceberam que, naquela altura, 80% da cidade já estava debaixo dágua. Por conseguinte, servidores públicos, órgãos de governo, também tinham sido atingidos. O Pane geral no sistema de telefonia ajudou no caos. Falo que houve "a tragédia da comunicação" na calamidade pública, especialemente em Itajaí. A dita TV, única no ar, fez um desserviço a comunidade. Disseminou o pânico, deu informações inverídicas, catapultando a massa à uma onda de saques. pelo desespero. A função social do jornalismo, da comunicação, aqui em Itajaí e Blumenau, quase não existiu. Fiquei ilhado três dias, acompanhei o sofrimento das pessoas. Percebi que, se de um lado, o governo local não estava preparado, o que nos sobrou da mídia local também não estava, preferindo o sensacionalismo, os joguetes políticos, mostrando sua incompetência, realizando um desserviço público. Esse é o meu ponto de vista.
Fernando  Schweitzer, Desempregado (Florianópolis/SC)
Enviado em 2/12/2008 às 06:43:21

Essa tragédia só vem demonstrar que a tal qualidade de vida no estado de SC é um engodo midiático dos governos locais. Agora quanto a maneira com que a mídia cobre uma tragédia vem a atender a uma demanda de sadismo do público dentro da sócio cultura brasileira. Quando o povo tiver maios educação e menos fome talvez parem de dar Ibope para sequestros e tragédias! Antes de culparem os veículos, falem das pessoas sadomasoquistas.
Elcio  Machado, Cidadão (Assis/SP)
Enviado em 1/12/2008 às 23:23:49

Talvez tenha faltado dizer que a cobertura ficou na superfície. Não revolveu a lama das causas, as naturais e as de gestão pública. Ficou tudo na conta dos mais de 500mm de chuva. No entanto, mesmo um leigo não teria dificuldade em ver que a geografia de todo aquele vale não recomenda ocupação urbana da forma como foi e continua sendo feita. E em observar que as construções, nas áreas de maior risco, tiveram aval dos técnicos da Prefeitura. Então, daqui a uns 20 anos, é bem provável que ocorra nova tragédia. Até lá, tome jornalismo show de superficialidades.
Jaime  Collier Coeli, aposentado (Itanhaem/SP)
Enviado em 1/12/2008 às 10:20:40

" E a desgraça se transforma nem show de televis~]ao", apud Juca Chaves, num sambinha sobre Gameleira, Paulo de Frontin, ponte Rio Niterói - e haja show!
José Geraldo Faustino de Oliveira  Geraldo Oliveira, Estudante de Jornalismo (Caicó-RN/RN)
Enviado em 1/12/2008 às 10:18:19

Muito importante e oportuno este artigo. observa-se na imprensa convencional uma forma de espetacularizar a informação. De fato está acontecendo tragédias em Santa Catarina, no entanto, o que deve ser feito é notícia sem a necessidade deste destaque para os que fazer, produzem notícia. valeu grande abraço
ricardo  freitas, jornalista (montes claros/MG)
Enviado em 30/11/2008 às 22:57:30

Muito oportuno o seu artigo. Como cidadão, lamento profundamente a situação que vive o povo de Santa Catarina; como profissional, o lamento dura 365 dias por ano ao ver tantos salários milionários desperdiçados numa rede de desinformação que privilegia o ego em vez da notícia e da prestação de serviço. Quando é que as empresas de comunicação vão entender que farão um bem à sociedade se abandonar o datenismo e apostar no jornalismo? Sem falar que vão economizar uma fortuna. E pensar que, como nos piores locais da tragédia de Santa Catarina, milhares de jornalistas sérios e comprometidos com a informação estão desempregados, vítimas do tsunami (político, empresarial e "religioso") que destruiu quase toda a imprensa brasileira. Haja resistência, porque o atoleiro avança! - Parabéns pelo artigo. Forte abraço
Guilherme  Kamitsuji, estudante (São Paulo/SP)
Enviado em 30/11/2008 às 19:36:41

Ótima reportagem, mais uma vez ficou clara a preocupação dos grandes canais de TV em fazer pirotecnia com assuntos sérios. E também vemos como a internet pode ser uma alternativa aos que buscam qualidade e seriedade em jornalismo.
Roberval Tenório de Brito  Tenório, Radialista (maceió/AL)
Enviado em 29/11/2008 às 21:55:50

A tragédia de Blumenau e Itajaí tornou clara o meio pelo qual a grande midia brasileira mostrou sua verdadeira intenção, que é apenas ganhar pontos de audiência. A Record faz campanha de ajuda humanitária com fins não humanitarios mas de garantir sua imagem, fato este que na minha opinião é útil este tipo de atitude, porém deveria ser coordenada por um numéro maior de emisoras. Uma pena.
Pedro pereira  p, e (palmas/TO)
Enviado em 29/11/2008 às 19:53:25

E tome mídia!!! Vcs estão criticando a forma e o conteudo enquanto imunizam as redes publicas de televisão que só começaram a reportar informações apos a trajedia tomar proporçoes alarmantes
Pedro pereira  Pereira, lavador de caes (Palmas/TO)
Enviado em 29/11/2008 às 19:49:29

¨As "organizações Globo", só acordaram para os acontecimentos em Santa Catarina,ao enxergarem uma oportunidade (mais uma) de fustigar o governo¨ Um silogismo induzido em quem não deve ter mesmo umaboa cabecinha.. Todos os canais de comunicação deram enfoque ao problema criado pelas chuvas torrencias tarde demais. A chuva castiga a região há quase 2 meses e nenhuma ação governamental tanto estadual quanto federal foi divulgada ou sequer aplicada a tempo. E tome mídia!!! Vcs estão criticando a forma e o conteudo enquanto imunizam as redes de televisão que só coeçaram a reportar informações apos a trajedia tomar proporçoes alarmantes. Nenhuma nota sobre o problema foi emetida aqui no observatório,mas depois que o barro cobriu toda a cidade,morreram pessoas soterradas falta agua e alimentos e prejuizos de milhoes ,se pergunta ou afirma,a mídia ísso,a midia é aquiloutro.... Certo mesmo foi a cobertura do katrina queteve as mesmas proporçoes e ninguem disse nada neste quase hebdomadário virtual. Talvez seja porque lá nos EEUU a culpa pelos estragos do katrina seja do Busch. Parem de criticar sem critérios coerentes e ajudem o povo catarinense que sempre foram muito solicitos na formçaõ do estado brasileiros. Aproveitem e chamem os movimento sociais para dar uma forcinha
Vanessa  Torres, Jornalista (Campina Grande/PB)
Enviado em 29/11/2008 às 14:44:59

Um texto bem pertinente para avaliarmos o jornalismo que nos é oferecido atualmente. Cansei de tentar me informar por meio da Tevê. É triste visualizar que tudo se transformou em um circo armado, com platéia e palhaços favoritos.
dante  caleffi, publicitário (rio de janeiro/RJ)
Enviado em 29/11/2008 às 11:07:44

As "organizações Globo", só acordaram para os acontecimentos em Santa Catarina,ao enxergarem uma oportunidade (mais uma) de fustigar o governo Lula.Contudo ,falharam.Tiveram que prosseguir com a farsa da cobertura e seus "flashes" comoventes.Ao contrário da picaretagem da "Criança Esperança", que mobiliza a rede nacional do grupo em promover arrecadação multi-milionária,por semanas ,durante as vinte e quatro horas.Quanto ao Bonner,seu desconforto de estar no mau tempo ,é visível...
Valter  Oliveira Filho, Professor (Santana do Ipanema/AL)
Enviado em 29/11/2008 às 00:23:19

Muito bem observado: "vícios e cacoetes". Desliguei a TV, enojado!
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Carlos Castilho
* Ex-repórter - revista Fatos & Fotos
* Ex-redator internacional - JB
* Ex-editor internacional - Opinião
* Ex-editor telejornais - TV Globo
* Ex-chefe do escritório da TV GLobo em Londres
* Ex-redator - Cadernos do Terceiro  do Terceiro Mundo;
* Ex-correspondente latino americano  do jornal Público/Lisboa
* Ex-editor internacional do JB;
* Ex-editor associado do The World Paper/ Boston;
* Ex-editor latino-americano da agência IPS - Costa Rica;
* Ex-consultor de advocacy na mídia para a União Européia;
* Professor de Jornalismo Online , Faculdades ASSESC (Florianópolis);
* Professor de Projetos Multimídia (pós-graduação latu senso) no CESUSC / Florianópolis;
* Professor de Jornalismo Online (curso a distância) no Knight Center, Universidade do Texas; 
* Autor do capítulo Webjornalismo no livro No Próximo Bloco - Editora PUC/Rio -2005.
* Autor do prefácio e tradução do livro Jornalismo 2.0, de Mark Briggs, publicado pelo Centro Knight, da Universidade do Texas.
* Mestre em Mídia e Conhecimento pelo EGC/UFSC. 
-Reside em Florianópolis / SC
email ccastilho@gmail.com


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