Código Aberto

A imersão jornalística em coberturas comunitárias

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

De todas as mudanças que a internet está impondo ao exercício do jornalismo, a mudança da relação entre profissionais e o público talvez seja a que esteja enfrentando maiores resistências. O motivo é óbvio. Ela implica o abandono de rotinas, comportamentos e valores entranhados há mais de um século na cultura do jornalismo e sua substituição por novos procedimentos ainda pouco estruturados. [Este texto é um desdobramento do post “Comunidades, uma opção estratégia do jornalismo”.]

Ao longo do tempo, os jornalistas incorporaram dois tipos de posturas à sua rotina profissional: 

1. A identificação com uma instituição (a imprensa) qualificada como o quarto poder por conta de sua capacidade de influir na formação da opinião pública;

2. Assumir a posição de quem sabe o que é importante para o público consumidor de notícias.

Ambas as posturas os colocavam numa posição de superioridade em relação a leitores, ouvintes e telespectadores. Esta situação começou a perder sentido quando a internet e a computação deram ao público em geral a capacidade de recolher, processar e publicar números, fatos e eventos sem passar pelo filtro da imprensa. Na era digital, os jornalistas perderam o controle sobre a captação de notícias e sobre a sua publicação. A agregação de valor é a área onde eles ainda são predominantes.

Esta inversão de posições colocou os jornalistas diante do dilema de buscar uma nova relação com o público, já que a as mudanças tecnológicas eliminaram o desnível entre profissionais de imprensa e consumidores de notícias. Surgiu a expressão “engajamento comunitário” como uma espécie de síntese das novas exigências em matéria de comportamento social dos jornalistas, numa era em que a informação passou a ser a matéria-prima mais valorizada tanto na economia como no quotidiano das pessoas.

Quando o público tem nas mãos uma ferramenta de publicação igual a que os jornalistas dispõem, a relação entre as duas partes passa a ser de igual para igual. Ambos, pelo menos em teoria, têm as mesmas condições de capturar uma notícia e a disseminar por redes sociais ou pela imprensa analógica e digital. 

Mas uma grande diferença sobrevive: o profissional foi treinado para lidar com dados, informações e conhecimentos, enquanto o público faz um uso intuitivo de uma notícia, salvo raros casos em que o individuo dispõem de conhecimentos sobre leitura crítica da realidade. É este diferencial que garante ao jornalista um papel único no fluxo de dados, informações e conhecimentos na internet, seja como membro de uma equipe (empresa), ou como indivíduo (blogueiro).

Lidar com dados significa ter a capacidade de identificar contextos, significados, causas e consequências a partir de fatos, números e eventos inéditos produzidos em vários segmentos da sociedade numa intensidade e volume que já foram classificados como avalancha informativa, a maior de toda a história da humanidade.

A soma de todos esses fatores criou uma situação inédita na qual o jornalista se tornou dependente dos indivíduos e grupos sociais, tanto para colher como para disseminar fatos, números e eventos. Em vez de funcionar apenas como um mensageiro, os jornalistas estão sendo levados a assumir também o papel de interlocutores, ou seja, a coleta de dados passa a ser feita por meio do engajamento ou envolvimento comunitário, como mostrou uma pesquisa de dois anos realizada pela Universidade de Cardiff, no Reino Unido, com quase 100 profissionais na área do jornalismo em comunidades do interior.

A estratégia do engajamento ou envolvimento reduz o papel do profissional como observador distante e – pretensamente – isento em relação ao ambiente social onde ocorre o trabalho jornalístico, e amplia a sua participação no tema ou evento investigado. Até agora o envolvimento era associado com a adesão, o que implicava parcialidade e perda de credibilidade. Mas como indicou o “Engaging News Project”, do Annette Strauss Institute, da Universidade do Texas (Austin), o engajamento em atividades comunitárias não elimina a obrigação de posturas críticas no exercício da atividade jornalística.

Várias outras experiências de jornalismo em comunidades sociais nos Estados Unidos, Finlândia e Austrália mostraram que o envolvimento dos profissionais na vida comunitária permite aumentar não só o conhecimento do ambiente e dos problemas enfrentados pelas pessoas como também cria condições para estimular a confiabilidade mútua entre o repórter e suas fontes locais. Passa a existir uma situação nova em que o jornalista é ao mesmo tempo patrulheiro e patrulhado.

É caso de inúmeros projetos de jornalismo em comunidades que usam o software OpenBlock, que permite criar bancos de dados com informações sobre cada quarteirão de uma cidade permitindo aos moradores e repórteres monitorar o surgimento, reparo e solução de problemas urbanos como saneamento, transporte, segurança, mobilidade, abastecimento de água, luz, telefonia e internet.

Num caso como este fica explícito o envolvimento do jornalista na cobertura de temas comunitários na medida em que ele usa dados dos moradores, muitos dos quais serão obtidos por meio de conversas informais, para interpretá-los e oferecer elementos para que os interessados busquem soluções. Só uma imersão jornalística na realidade comunitária é que viabiliza um tipo de atividade como essa, que obviamente é incômoda para os governantes e empresários que passam a ser monitorados com mais eficiência.

Comunidades, a opção estratégica do jornalismo

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

São cada vez menores as dúvidas sobre o fim da hegemonia da comunicação em massa na sociedade contemporânea. Até agora os recursos tecnológicos disponíveis viabilizavam apenas a comunicação tipo um para muitos, onde uma mesma notícia era produzida para atender muitos leitores, ouvintes ou telespectadores devido às limitações de distribuição impressa ou audiovisual.

Mas, com a chegada da internet e da computação passou a ser possível produzir notícias para públicos agrupados em torno de interesses ou necessidades específicas, os chamados nichos informativos, formados por comunidades sociais de todos os tipos. Entramos numa era em que haverá a coexistência entre projetos de comunicação em massa e iniciativas jornalísticas em comunidades, porque a sociedade como um todo também está se reorganizando com a valorização dos espaços locais e hiperlocais.

Este contexto abre perspectivas novas para o jornalismo, cujo principal diferencial em relação a outras formas de comunicação como teatro, cinema, música, literatura e oratória é o fato de trabalhar com dados inéditos de atualidade. A descentralização urbana provocada pelos problemas das megalópoles torna-se viável na medida em que as pessoas disponham de informações para criar novos relacionamentos sociais ou culturais e identificar condições de sustentabilidade financeira.

O jornalismo em comunidades torna-se assim uma opção estratégica no campo da comunicação porque passa a ser um elemento essencial no desenvolvimento e consolidação de um novo contexto social. Mas para atender às necessidades informativas de comunidades, o jornalismo precisa encontrar soluções para três grandes desafios:

1. Desenvolver um novo tipo de relacionamento com o público;

2. Pesquisar uma nova forma de contar histórias e transmitir notícias;

3. Encontrar um modelo de sustentabilidade econômica baseado na diversificação financeira.

Cada um desses três itens, por si só, já constitui numa exploração complexa da nova realidade provocada pelo uso das novas tecnologias digitais de comunicação e informação no âmbito social, político, cultural, científico e econômico. Os próximos textos ampliarão o detalhamento de cada item, visando ampliar o debate.

O jornalismo em comunidades se distingue do conceito usual de jornalismo local porque dá mais importância ao fator social do que ao empresarial. A imprensa local e regional está integrada ao modelo global de produção em massa, o que é lógico e inevitável levando em conta as tecnologias disponíveis até agora.

A chamada pequena imprensa está diante do desafio da sobrevivência porque precisa migrar para um novo modelo informativo de empresarial, por meio da administração da herança de instalações mecânicas e dependência da publicidade vinculada a audiências e circulação. Esta herança é suficientemente complexa para ocupar 24 horas do dia da maioria dos empresários do segmento da imprensa local e regional, o que acaba deixando pouco, ou nenhum tempo, para pensar no problema mais importante que é o da relação com o público.

O dilema é o que fazer com rotativas, prédios, sistemas de comunicação e de distribuição tanto impressa como audiovisual que perderam eficiência e valor de venda com a disseminação dos equipamentos digitais. O que fazer com leitores, ouvintes e telespectadores que estão envelhecendo enquanto os jovens abandonam os veículos tradicionais de comunicação? Como manter a fidelidade de anunciantes que estão perdendo a credibilidade na publicidade analógica, mas ainda não sabem como usar a digital?

Muitos empresários apostam que a tecnologia poderá lhes dar as respostas procuradas, mas é cada vez mais claro que o grande problema da imprensa não está na compra de novos equipamentos mas na relação com o cliente. O problema da migração para o ambiente digital não está na tecnologia, mas no fator humano. A aquisição ou aluguel de um novo software ou hardware pode produzir resultados rápidos, enquanto uma mudança de hábitos informativos geralmente consome anos. A pressa empresarial por resolver um impasse financeiro prejudica a percepção do problema humano.

A imprensa comunitária, que até agora era considerada uma proposta alternativa, quase subversiva, também tem os seus dilemas para sobreviver na era digital. Ela tem a vantagem de poder contar com novos equipamentos de baixo custo relativo e ampla capacidade de difusão de notícias jornalísticas, mas ainda deve superar os vícios deixados pela preocupação com a militância centralizada e com a defesa de causas ideológicas. As novas comunidades precisam de muita informação de serviços, produção coletiva de conhecimentos e interatividade social.

O jornalismo entre a automação e a agregação de valor

Postado por: Carlos Castilho | 3 comentários

Cada vez que o tema novas tecnologias na comunicação e informação entra na agenda jornalística, ele divide opiniões e provoca posicionamentos apaixonados. Num extremo estão os que demonizam os bytes e bits, enquanto no outro agrupam-se os que consideram a internet uma especie de nirvana jornalistico . Entre os dois opostos há uma enorme gama de posicionamentos intermediários e um desafiador ponto de interrogação.

Há um segmento crescente de profissionais que defende a necessidade dos jornalistas saberem desenvolver e programar algoritmos (softwares específicos para determinadas funções) diante da automatização irreversível dos processos editoriais. O conhecimento tecnológico não só ajudaria a controlar a avalancha informativa gerada pela Web, como permitiria uma redução de custos considerável.

Já os adeptos do que poderia ser chamado de jornalismo puro (a arte de escolher o que vai ser noticiado, decidir como serão investigados os temas escolhidos, pilotar o desenvolvimento de textos ou audiovisuais e finalmente publicar o resultado final) minimizam o papel das ferramentas digitais alegando que elas não substituem o cérebro humano na hora de produzir informações.

Tanto os tecnófilos como os tecnófobos no campo da notícia parecem condenados à marginalização no debate, pois o grande desafio é identificar qual a dose certa de tecnologia e de inspiração capaz de fornecer a receita para o jornalismo em ambiente digital. A discussão vai longe porque ela muda alguns parâmetros-chave na definição dos valores, normas e rotinas do jornalismo contemporâneo.

Mas algumas coisas já podem ser consideradas mais prováveis do que outras. Sem tecnologia, em especial sem os algoritmos, o jornalismo deixa de ver viável como ferramenta de disseminação de notícias, de produção de conhecimento e, consequentemente, de capital social. Mas sem o foco na função social da notícia e na leitura crítica dos números, fatos e eventos a serem disseminados, também não há jornalismo.

Quando se fala em tecnologia, estamos nos referindo, prioritariamente, aos softwares de gestão e participação em redes sociais como o Facebook, Twitter, Google +, Ello, Linkedin, Reddit, YouTube, Flickr, sem falar no incessante lançamento de novos programas voltados para a curadoria e agregação de notícias online, como Scoop, Trove, Newsly, Feedly, Gnosy, Narrative Science, Floppy, Spotify, para mencionar apenas os mais badalados. 

A combinação adequada de tecnologia e habilidade jornalística vai variar de caso a caso porque será determinada pelo contexto social, econômico, político e cultural onde ela será aplicada. É uma exigência nova que caminha no sentido da valorização da especialização, regionalização e localidade. Só isso já quebra o grande paradigma de indústria da comunicação jornalística, toda ela baseada na concentração, hierarquia, padrões e normas de produção, linha de montagem e globalização.

O sistema fordista adotado pela esmagadora maioria das empresas de comunicação jornalística, impressa e audiovisual, busca a uniformização como instrumento para reduzir custos e erros. A globalização noticiosa permitiu que uma reportagem sobre um atentado no Iraque possa ficar mais barata que a cobertura de um protesto de rua numa cidade brasileira. Mas, por outro lado, gerou uma alienação informativa que nos leva a conhecer mais detalhes sobre as usinas nucleares japoneses do que sobre os mananciais de água que abastecem a população de São Paulo.

alienação informativa provocada pela globalização dos processos de produção noticiosa afastou o público de jornais, revistas e telejornais, levando as empresas a investirem ainda mais na tecnologia tentando compensar a queda de receitas. O jornalismo puro foi perdendo cada vez mais espaços, criando condições para que a notícia digital conquistasse cada vez mais adeptos.

As TICs (tecnologias de informação e comunicação) foram uma benção e um dilema para a indústria dos jornais, por exemplo. Se por um lado permitiram baratear os custos de produção, por outro quebraram um modelo de negócios e, principalmente, retiraram dos jornalistas o controle sobre a captação e distribuição de notícias. As empresas 100% digitais como Google e Facebook monopolizam hoje, respectivamente, a coleta de dados e a distribuição de informações. O jornalismo tende cada vez mais a ficar restrito à agregação de valor.

É na agregação de valor que ocorre a fase crítica da polêmica entre tecnófilos e tecnófobos no jornalismo. Os tecnófilos contam com o apoio velado dos produtores de softwares e dos que lucram com a redução de custos e aumento de eficiência gerados pela inovação tecnológica. Os jornalistas, herdeiros dos valores da imprensa pré-internet, não são e nem podem ser avessos aos novos recursos. Mas não há dúvida de que as TICs ameaçam um status quo profissional e consequentemente geram tensões que se manifestam na forma de argumentos teóricos contra a automação da agregação de valor às notícias.

Se levarmos em conta que a nossa sociedade é cada vez mais movida a dados (big data), e que estes dados passam a ser analisados por softwares analíticos que apontam correlações entre fatos, números e eventos, não fica difícil constatar como as máquinas estarão produzindo notícias. O projeto Laboratórios Vivos, em desenvolvimento no MIT, nos Estados Unidos, já fornece dados captados por sensores instalados em pessoais vivas. São notícias geradas por monitoramento de ações e atitudes. Caberá aos jornalistas ampliar a contextualização dessas notícias.

Como sobreviver à ‘guerra da informação’

Postado por: Carlos Castilho | 9 comentários

No texto anterior (ver “Mais perdido que leitor de jornal”) foi iniciada uma análise da maneira como as pessoas captam uma notícia e como uma confusão entre os conceitos de dado e informação acaba contribuindo para aumentar a desorientação dos leitores, provocada pela avalancha informativa.

É um tema complexo, mas importante porque sua compreensão ajudará a reduzir os efeitos de outro problema, a “guerra da informação”, na qual já estamos metidos – basta ver a polarização da opinião pública depois das eleições presidenciais e agora com o escândalo da Petrobras.

Jornais publicam informações, mas nós, leitores, devemos recebê-las como dados, ou seja, o que importa para nós é avaliar o dado antes de emitir uma opinião. Uma notícia é um tipo especíifico de dado, caracterizado pelo ineditismo para quem a recebe. Uma notícia deve ser verificada, contextualizada, atribuir significados etc.

Uma informação você aceita ou não, e pronto. Da mesma forma que você não é obrigado a gostar de todos os tipos de músicas, você não é obrigado a aceitar todo tipo de informação publicada pela imprensa porque ela é um dado trabalhado por alguém, portanto não é um espelho fiel de realidade, por mais experiente e capacitado que seja o jornalista que a produziu.

Uma informação jornalística é no máximo é uma tentativa de descrição, de representação, que pode ser boa ou ruim, que pode agradar ou desagradar, assim como uma música pode agradar ou desagradar e nem por isso você hostiliza o músico. Quem faz a informação somos nós, e não o jornal. O jornal produz a informação dele que nós captamos como notícia (dado inédito), assim como reagimos diante da previsão do tempo.

O meteorologista não pode ser criticado porque anunciou chuva para o fim de semana. Para alguns a previsão incomoda porque esperavam ir à praia, mas para outros o tempo chuvoso pode ser uma dádiva dos céus, como para os moradores das regiões sob o efeito de secas prolongadas. O significado atribuído à previsão de chuva depende do leitor e não do meteorologista, e cada leitor desenvolve o seu próprio significado.

Outra coisa importante: muitos acham que para não se irritar com notícias que não gostam, o ideal seria ler só os jornais (ou sites, ou blogs) com os quais simpatiza ou compartilha opiniões. Tudo bem, esta é uma atitude muito comum, quase uma regra, mas um dos mais renomados pesquisadores da opinião pública, o norte-americano Cass Sunstein, adverte: quanto mais uniforme for a opinião de um grupo de leitores, maior a tendência à xenofobia, sectarismos e discriminações. 

Sunstein escreveu quatro livros a respeito do tema sobre o qual realiza pesquisas de campo desde 1990. O mais conhecido é Going to Extremes, publicado em 2009. Assim, quando só lemos um mesmo jornal durante muito tempo, acabamos conhecendo apenas a versão deste jornal sobre o que acontece ao nosso redor e no resto do mundo. Como todos sabemos, um jornal não consegue dar conta da complexidade do mundo em que vivemos – ainda mais agora, na era digital, quando milhões de pessoas passaram a publicar informações cada uma delas respondendo a um contexto específico e a uma forma personalizada de ver um fato, número ou evento.

Todo o material sobre a operação Lava Jato que está sendo publicado pelos jornais ou divulgado pela televisão deve ser visto como uma massa de dados que o leitor ou telespectador deve analisar, checar e contextualizar antes de tomar uma posição e difundi-la para outras pessoas. Assumir o noticiário como a essência da verdade é ignorar a realidade dos fatos, porque cada número, cada evento, declaração ou fato registrado assume significado somente quando o leitor ou telespectador o situa em seu contexto pessoal. 

É claro que o leitor comum não tem condições de conhecer todas as circunstâncias de um depoimento, se foi espontâneo, se foi obtido sob tortura ou se foi resultado de uma transação (delação premiada, por exemplo). Uma mesma frase assume significados diferentes conforme o contexto em que foi pronunciada. O mesmo acontece com números, denúncias, suposições e ilações produzidas por repórteres, policiais, políticos, economistas e formadores de opinião. Todos têm sua agenda pessoal, interesses que podem ou não ser os mesmos do leitor, ouvinte ou telespectador.

A tendência quase espontânea das pessoas é assumir posições, tipo a favor ou contra. O problema é que isso leva a uma simplificação da realidade, o que é um sinônimo de irrealidade. O sectarismo é uma simplificação da realidade política, que se não for compensada pela diversificação de percepções acaba levando a conflitos violentos, como golpes de Estado ou rebeliões.

O professor Cass Sunstein, que não é nenhum esquerdista (é assessor de Barack Obama), afirma que quando pessoas da mesma opinião só conversam entre si, a tendência identificada em dezenas de grupos focais é de que se tornem cada vez mais radicais nas suas opiniões. Como este processo ocorre tanto entre os que são contra como entre os que são a favor da presidente Dilma Rousseff, por exemplo, não é difícil prever que não vai demorar muito para que o sectarismo ganhe intensidade e, se não for identificado a tempo, poderá gerar situações irreversíveis.

Mais do que em qualquer outra conjuntura política pós-redemocratização do Brasil, a leitura crítica e analítica dos dados publicados na forma de informação pela imprensa torna-se o antídoto da “guerra da informação”. O Observatório da Imprensa pratica e promove desde a sua fundação, há 18 anos, a leitura crítica da mídia jornalística. 

Mais perdido que leitor de jornal

Postado por: Carlos Castilho | 3 comentários

O título bem que poderia ser a atualização do velho dito “mais perdido que cego em tiroteio”. A desorientação é a característica comum e o sinal de que já estamos vivendo o que pode ser definido como “guerra da informação”. Cada vez mais os conflitos modernos tendem a ser decididos por quem maneja a informação, uma arma mais eficiente, ampla e duradoura que os mísseis ou balas.

A desorientação é o estágio inicial e obrigatório da “guerra da informação” porque gera insegurança, que por sua vez alimenta a irritação, as catarses e os confrontos. A guerra da informação não tem fronts porque a desorientação nos leva a confundir quem são os aliados ou os adversários. Na maioria dos casos, a identificação é equivocada dando origem a atritos desnecessários ou injustificados.

Os conflitos gerados por desorientação informativa podem surgir em qualquer lugar ou grupo social porque são alimentados por percepções diferentes e pela ausência de compreensão mútua. Mas a causa principal está no nosso desconhecimento sobre como captar e passar adiante os dados que recebemos.

Nisto é fundamental distinguir o dado bruto da informação processada. Dado bruto são os números, fatos, eventos e notícias que recebemos pela imprensa, redes sociais, parentes, amigos e conhecidos. Há duas atitudes diante de um dado: ele nos ajuda a ter uma compreensão básica de quem o enviou, quando é necessário distinguir os elementos objetivos dos subjetivos. Numa notícia de jornal, o elemento objetivo pode ser o anúncio da alta da gasolina. A parte subjetiva, ou oculta, fica por conta da conjuntura do anúncio e da relevância ou não atribuída pelo jornal ao fato objetivo, por exemplo.

Informação é o dado recebido, processado por uma pessoa e passado adiante. Ela incorpora o contexto cultural, social, político e econômico de quem a transmite. Quando lemos um jornal ou assistimos a um telejornal recebemos dados, mas quando comentamos a notícia estamos transmitindo uma informação. Um mesmo fato pode ser dado ou informação, dependendo da posição do indivíduo, como receptor ou transmissor.

A diferença é sutil e pode parecer supérflua, mas é importante porque nos ajuda a reduzir os efeitos da desorientação noticiosa, provocada pela imprensa, redes sociais e formadores de opinião. Ao lermos uma noticia de jornal como dado, priorizamos o que ela tem de concreto, real e objetivo. É como se recebêssemos uma conta de luz. Ali estão um valor e uma data. A conta só terá algum significado depois que compararmos o valor com o de meses anteriores e situarmos a data em nosso orçamento doméstico. Aí a conta vira informação porque vai orientar nossas ações futuras. Quando não separamos dados e informações podemos reagir irritados a um aumento da conta antes de avaliarmos se ele é ou não justificado.

A diferença entre dado e informação nos ajuda a separar fatos de emoções. Há um fato objetivo que é a desorientação provocada pela avalancha de versões jornalísticas diferentes sobre um mesmo fato, publicadas na imprensa e nas redes sociais. Trata-se de um fenômeno com o qual teremos que conviver durante algum tempo, até que sejam desenvolvidos sistemas de triagem mais eficientes e rápidos para lidar com a avalancha informativa.

A “guerra de informação” é alimentada pela desorientação, mas deflagrada pela manipulação de percepções e emoções. Quando deixamos de examinar um dado com a frieza que a sua natureza objetiva impõe, acabamos misturando a realidade com o que gostaríamos que fosse real. Esta mistura gera inconformismo e revolta.

O leitor recebe notícias como dados, mas o jornal as publica como informação, ou seja, incorpora a ela os significados e contextos conforme os interesses e a conjuntura empresarial. Assim, a imprensa transmite a sua visão, o que não necessariamente significa que esteja reproduzindo a realidade. Só que o leitor não foi educado para distinguir um dado de uma informação. A imprensa paga o preço dessa incompreensão; e, se não orientar o público levando em conta as percepções de leitores, ouvintes, telespectadores e internautas, manterá o tiroteio noticioso e será corresponsável pela “guerra da informação”

Aos leitores: Minha internet foi normalizada e a voltarei a responder os comentários postados no Código.

Publicidade que parece notícia

Postado por: Carlos Castilho | 2 comentários

publicidade nativa (native advertising) é a versão portuguesa de um jargão, muito popular na imprensa dos Estados Unidos, que identifica matérias publicitárias disfarçadas de jornalismo, cada vez mais frequentes na mídia impressa norte-americana, inclusive em grandes jornais como The New York TimesThe Washington Post e The Wall Street Journal

A estratégia é considerada um verdadeiro sacrilégio por muitos jornalistas, mas, para os jornais, a publicidade nativa é a grande solução para migração dos anunciantes para a internet. Para não serem acusados de violar os códigos de ética do jornalismo, os jornais identificam as matérias patrocinadas, mas o leitor dificilmente notará que está comprando gato como lebre. As matérias são diagramadas com o mesmo padrão das notícias comuns e a identificação do patrocinador é feita com letra bem pequena, para não chamar a atenção.

A proliferação de notícias e reportagens patrocinadas, mas que se parecem matérias jornalísticas, já é uma tendência irreversível embora a grande maioria dos jornais trate de minimizar o uso desSe recurso como fonte de receita adicional. Trata-se de um estratégia de negócios vislumbrada há mais de dez anos por David Ogilvy, um dos magos da publicidade mundial. “Não há necessidade de um anúncio parecer um anúncio. Se ele parecer uma matéria jornalística, atrairá mais 50 % de leitores” – é a frase de Ogilvy, citada por Joshua Benton, do Nieman Report.

Há inclusive projeções de que o mercado da publicidade nativa atingirá algo como 4,6 bilhões de dólares anuais em 2017, apenas nos Estados Unidos, onde esta modalidade de anúncio já foi incorporada ao departamento comercial de grandes jornais como o The New York Times e The Wall Street Journal. Um caso que está sendo observado intensamente pelos críticos da mídia norte-americana é o do The Washington Post, controlado por Jeff Bezos, dono da livraria digital Amazon e um dos grandes milionários da internet mundial. É voz corrente que várias matérias publicadas pelo Post fazem parte de estratégias comerciais e publicitárias da Amazon, mas os leitores dificilmente percebem o limite entre negócios e informação.

A questão da publicidade nativa vai além de uma mera estratégia para aumentar receitas num momento de crise na indústria dos jornais. Ao que tudo indica, ela está se transformando num modelo de negócios que altera radicalmente os princípios éticos tradicionais no jornalismo. Durante muito tempo, os profissionais da imprensa acreditaram que o noticiário era o seu produto principal e os leitores, os seus clientes. Mas a lógica econômica dos donos de jornais era outra: os verdadeiros clientes eram os anunciantes, que garantiam as receitas; os leitores eram o produto comprado pelos anunciantes e o jornalismo não passava de uma ferramenta do marketing para fazer a ligação entre leitores e publicidade.

O surgimento da internet mudou parcialmente esse esquema. Os executivos de jornais continuam apostando no papel dos anunciantes como grandes clientes e no público como a mercadoria a ser vendida. O problema é que o jornalismo já não funciona mais como instrumento eficiente de marketing na medida em que a Web criou uma relação direta entre o público e os anunciantes. A publicidade nativa tenta recompor o esquema mediante uma transformação do papel do jornalismo na sustentação financeira das empresas de comunicação jornalística.

Originalmente, a função do jornalista era produzir notícias e reportagens suficientemente fidedignas e atraentes para chamar a atenção do público e, com isso, induzi-lo ver anúncios pagos. Agora, o jornalista passa também a produzir publicidade que parece notícia, o que elimina uma etapa no processo de atração do público. A notícia autêntica tende a tornar-se supérflua no novo esquema de negócios da indústria dos jornais. 

Essa situação aumenta consideravelmente a dificuldade do leitor em separar o joio do trigo em matéria de notícias publicadas na imprensa. O que já era difícil por conta das percepções individuais dos jornalistas e dos interesses econômicos e políticos dos donos das empresas jornalísticas, agora torna-se ainda mais complicado na medida em que o disfarce da publicidade na forma de notícia passa a ser uma norma institucional. A relação entre os jornalistas e as indústrias da comunicação entra numa nova fase, em que os padrões éticos e profissionais já não são mais os mesmos. 

Aos leitores:  Devido à ineficiência do atendimento da operadora OI aos seus usuários, estou há uma semana sem acesso a internet.Por esta razão não estou podendo responder os comentários de membros da comnunidade de leitores dste blog. Quando e se o acesso for restabelecido, voltarei a conversar com todos vocês. Obrigado e desculpem.

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