A ressaca após o carnaval do Facebook
Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários
O carnaval em torno do lançamento das ações da empresa Facebook está se transformando rapidamente num coro de reclamações e queixas que pode acabar levando o badalado criador da maior rede social da internet aos tribunais norte-americanos.
Mark Zuckerberg, alguns investidores — entre eles Marc Andreesen, diretor da Facebook e um dos criadores do navegador Netscape — e a corretora de valores Morgan Stanley estão sendo acusados de manipular dados sobre a situação financeira da empresa nos dias que antecederam o leilão de ações na bolsa eletrônica NASDAQ , realizado na segunda feira (21/5).
A polêmica em torno da adulteração de dados relativos ao faturamento, lucros atuais e perspectivas futuras da Facebook jogaram jogou um balde de água gelada na cabeça dos que correram para comprar ações da empresa, achando que iriam ficar milionários da noite para o dia. Três dias após o leilão, as ações da Facebook perderam 20% do seu valor e ninguém se arrisca a dizer se a queda continuará ou não.
O fato concreto é que a dúvida e a incerteza se instalaram entre os 900 milhões de usuários da rede em todo mundo, ao mesmo tempo em que cresceu a cautela dos anunciantes, os principais alvos da venda de ações. Ao colocar papéis no mercado financeiro, Zuckerberg sinalizou para os investidores sua intenção de valorizar a lucratividade da empresa criada em 2004, e que cresceu baseada numa relação não lucrativa com os seus usuários.
A manipulação dos dados financeiros está associada a uma suspeita ainda mais perturbadora para os novos acionistas. A de que a os diretores da Facebook, comandados por Zuckerberg, se preocuparam mais em valorizar o seu próprio capital do que em atrair poupadores interessados em participar do crescimento da empresa, a filosofia tradicional em todos os lançamentos de ações negociadas em bolsas de valores.
Estimativas feitas antes do leilão indicavam que cada empregado que tivesse ações da Facebook ganharia em média 2,04 dólares por ação, se as cotações do dia 21 de maio fossem mantidas. Na sexta feira (18/5) , a fortuna de Zuckerberg, hoje com 26 anos, estava avaliada em 19,4 bilhões de dólares. Na segunda feira (21/5) , com a valorização das ações na abertura do leilão, ela saltou para 22,6 bilhões de dólares.
O olho do pessoal da Facebook engordou e eles desdenharam as iniciativas destinadas a seduzir investidores, acreditando que a simples fama da empresa seria suficiente para atrair compradores de ações. A esnobação do mundo financeiro tradicional irritou a turma de Wall Street e a resposta veio já na terça-feira, com os rumores sobre maquiagem de dados. Aí a maré virou e o garoto prodígio da internet viu 4,5 bilhões de dólares de sua fortuna irem para o ralo em três dias.
Os especialistas afirmam que uma desvalorização após a euforia de um leilão de ações é previsível, mas no caso da rede de Zuckerberg a queda foi maior e pode ter desdobramentos imprevisíveis. O contexto das redes sociais é muito mutável, como provam episódios anteriores de outras iniciativas como MySpace e Orkut, que tiveram dias de gloria, pareciam imbatíveis e viraram pó com uma rapidez impressionante.
Facebook diante de duas lógicas e um futuro incerto
Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários
A rede social mais valorizada da internet terá agora que enfrentar um difícil dilema: tentar conciliar duas lógicas antagônicas, a dos usuários e a dos investidores. Trata-se de uma tarefa quase impossível, uma vez que os interesses dos usuários divergem frontalmente, em alguns pontos, em relação aos dos compradores do megaleilão de ações registrado na sexta-feira (18/5).
Os quase 900 milhões de usuários (número dado pelo próprio Facebook) fizeram a grandeza da corporação fundada em 2004 pelo adolescente Mark Zukerberg, no seu quarto no dormitório de alunos da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Eles trocaram sua intimidade individual pelo acesso a uma rede social na internet. Para os usuários, a palavra-chave era serviços gratuitos e eficientes.
Já as centenas de compradores de ações do Facebook querem é rentabilidade para os papeis adquiridos, o que significa que a empresa deve gerar lucros crescentes para que o investimento tenha valido a pena. Agora, a palavra-chave desse tipo de simpatizante do Facebook passa a ser lucro, e não mais serviços.
A empresa não deve cobrar pelos serviços que já oferece porque isso equivaleria a uma bofetada na cara de seus milhões de usuários atuais. Logo, a sua principal fonte de lucros deve ser mesmo o faturamento publicitário, um terreno que ainda é muito movediço na internet. Normalmente os internautas torcem o nariz para sites com muita publicidade, sob a alegação de que anúncios criam obstáculos à exploração de páginas virtuais.
A opção da empresa de Zuckerberg é complexa porque se ela beneficiar os investidores pensando em lucro, é grande o risco de uma migração de usuários para outras redes sociais menos comerciais. Um êxodo de internautas é sempre uma incógnita porque tanto pode ser um fenômeno passageiro como pode ser incontrolável, como aconteceu com o MySpace, criado em 2003 e que inaugurou a moda das redes sociais virtuais.
As duas redes surgiram como empreendimentos não comerciais e sem preocupação com lucro. A MySpace se tornou um caso de sucesso porque permitia que estudantes norte-americanos trocassem músicas sem pagar direitos autorais. O Facebook surgiu para trocar fotografias indiscretas, também entre estudantes. A decadência do MySpace começou em 2005, depois de ser vendida por pouco mais de meio bilhão de dólares para o conglomerado News Corp. do milionário Rupert Murdoch, que em 2011 livrou-se da empresa por ridículos 35 milhões de dólares.
A decisão de ofertar ações na bolsa eletrônica NASDAQ parece indicar que o Facebook está mesmo interessada num namoro com gente que tem dinheiro e quer usá-lo para engordar a conta bancária. Caso esta tendência se comprove, a empresa corre o risco de perder boa parte de sua base de simpatizantes, principalmente daqueles que fazem o gênero mais adolescente pouco comprometido com regras e obrigações.
O caso Facebook é visto como um divisor de águas na internet também no tocante à estrutura da rede mundial de computadores. Além da questão da opção entre usuários e investidores, Zuckerberg, hoje com 28 anos, estaria interessado em transformar a sua empresa numa espécie de núcleo aglutinador de uma internet privatizada, rompendo com a tradição de ausência de um controle centralizado existente desde os primórdios da rede e até hoje o seu grande apanágio.
Este objetivo tem a simpatia por quase todas as grandes empresas virtuais e não virtuais que não veem com bons olhos a heterarquia[1] vigente na internet porque ela funciona como elemento perturbador da hierarquia, verticalização e controle, característicos do sistema analógico.
Como vocês podem ver, o leilão de ações do Facebook na NASDAQ é muito mais do que uma grande festança financeira. O foguetório na bolsa eletrônica de Nova York não consegue esconder as grandes questões associadas à transformação da maior rede social do planeta num negócio controlado por algumas centenas de acionistas.
[1] Heterarquia, sistema onde não há um controle centralizado vertical, mas predomina uma ordem consensual. É diferente da anarquia, ausência de centralização e de ordem, e da hierarquia, ordem centralizada e verticalizada..
Patrulhamento de políticos: o que a imprensa pode fazer pelo leitor
Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários
A página do jornal norte-americano The Washington Post hospeda um blog que poderia servir de modelo para todos os jornalistas e outros jornais. O blog The Fact Checker (Verificador de Fatos) confere o que políticos, candidatos e governantes afirmam em público para verificar se o que dizem corresponde à realidade. Os que não passam nessa prova recebem Pinóquios, um prêmio baseado na história do boneco de madeira cujo nariz crescia sempre que era flagrado mentindo.
O blog lava a alma do leitor porque faz aquilo que todos nós gostaríamos de fazer, mas não temos tempo e nem preparo para encarar numa época em que os políticos e executivos despejam quantidades avassaladoras de dados, estatísticas e fatos para apoiar seus pontos de vista. A frequência com que esse recurso está sendo usado é tal que ficamos com a quase convicção de estão tentando nos enrolar, mas não temos como provar o que sentimos.
Os manuais de persuasão recomendam rechear qualquer declaração pública com o maior número possível de dados e fatos, para atender à regra de que os números estariam acima de qualquer suspeita. Esta é a lei máxima dos políticos e pode ser comprovada às vésperas de eleições, quando candidatos despejam sobre os eleitores uma quantidade enorme de cifras.
Só que os números, gráficos e fotos sem contexto podem ser usados para qualquer finalidade. Uma meia verdade é também uma meia mentira, mas os candidatos se utilizam apenas um lado desta dicotomia , usando números para tentar transmitir credibilidade ao que afirmam. Contextualizar não é uma tarefa fácil e requer examinar com lupa o que é dito por personalidades públicas, para permitir que os leitores não sejam levados a tirar conclusões equivocadas a partir de informações tendenciosas.
O blog The Fact Checker obviamente não pode esmiuçar tudo o que os candidatos e políticos dizem à mídia. A iniciativa é tocada por dois jornalistas, Glenn Kessler e Josh Hicks, que selecionam declarações de governantes e parlamentares, tanto democratas como republicanos, e vão até os bancos de dados oficiais e arquivos da imprensa para conferir se as cifras mencionadas são verdadeiras e se o contexto em que foram citadas corresponde à realidade. É um trabalho que consome dias para ser feito, porque qualquer falha gera protestos de quem recebe um Pinóchio e compromete a credibilidade do patrulhamento.
A checagem de declarações e documentos públicos por jornalistas é um processo em ascensão nos Estados Unidos, conforme revela um informe divulgado em fevereiro pela New America Foundation, atualmente presidida por Eric Schmidt, executivo da Google. Há pelo menos quatro outras organizações especializadas nesse tipo de patrulhamento de políticos, como as não governamentaisl Fact Checker, On The Issue e Open Secrets, bem como empresas online como a Politifact e RealClearPolitics.
Conferir dados, estatísticas, descrições e versões é uma função intrínseca ao jornalismo, mas ela acabou perdendo consistência na medida em que o volume de informações cresceu desproporcionalmente à força de trabalho, que as estratégias de “construção” de informações se tornaram muito mais sofisticadas (vide o marketing político), e que as empresas passaram a impor seus interesses político-econômicos sobre o conteúdo das notícias.
Mas se existe uma área da informação pública onde os jornalistas podem reconquistar a confiança dos leitores, esta é a da checagem dos fatos. É um caminho que ainda continua pouco explorado — principalmente no Brasil, onde raríssimos jornais optaram por seguir o exemplo pioneiro do Washington Post. É interessante que o jornal que os americanos apelidaram de WaPo também recorre aos leitores para esmiuçar declarações de políticos, burocratas e governantes.
A prestação deste tipo de serviço ao leitor pode constituir também um novo modelo de negócios, porque fica muito mais fácil mostrar às pessoas por que pagar por serviços informativos quando elas conseguem ver claramente os benefícios que podem auferir. No caso do patrulhamento de políticos, governantes, burocratas e executivos privados, as vantagens são óbvias.
Projeto explora o “mercado de ideias” no jornalismo local
Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários
O projeto Editorial J, da Faculdade de Jornalismo da PUC do Rio Grande do Sul (Famecos) começou a desenvolver no final de abril uma experiência de aplicação na cobertura noticiosa local e hiperlocal do chamado “mercado de ideias”, um programa que permite a um grande número de pessoas indicar temas de sua preferência.
É uma experiência que pode revolucionar a forma como a imprensa cobre os assuntos urbanos e comunitários na medida em que o público passa a ser o grande pauteiro na cobertura jornalística, ao mesmo tempo em que coloca o profissional do jornalismo numa posição bem diferente da atual.
O projeto se inspira num programa chamado All Our Ideas (Todas as Nossas Ideias) , desenvolvido em conjunto por sociólogos e engenheiros eletrônicos da Universidade Princeton, com apoio financeiro do site de buscas Google. O programa permite que um número virtualmente infinito de pessoas possa sugerir temas, emitir opiniões ou fazer reclamações, bem como votar nos itens que lhes pareçam mais interessantes ou necessários.
A versão brasileira criada pelo Editorial J é uma adaptação do software original voltada especificamente para a cobertura jornalística local . As sugestões entram num banco de dados onde visitantes podem votar decidindo quais são as mais populares. Os resultados são imediatamente visualizáveis em formato estatísticos ou gráfico de nuvem. Os dois mais votados aparecem na página de abertura do projeto e serão transformados em reportagem pelos alunos do curso de jornalismo da Famecos, para publicação no jornal Editorial J.
Na primeira semana de experiência foram submetidas 17 ideias, das quais nove receberam 649 votos. As as preferidas foram[1] a investigação de casos graves de violação da privacidade individual na internet e o provável lançamento do Partido Pirata no Brasil.
É uma ideia que pode quebrar os paradigmas atuais em matéria de cobertura jornalística local e tem como grande mérito o fato de incorporar a universidade na busca de um novo modelo de negócios para a imprensa, bem como desenvolver uma mentalidade participacionista e colaborativa entre os consumidores de notícias.
Embora seus resultados só possam ser avaliados num prazo mais longo, um problema imediato é o da confiabilidade dos votos, já que uma mesma pessoa pode votar quantas vezes quiser, conforme revela o próprio site do projeto. Por enquanto não há problemas porque os visitantes e votantes são quase todos professores e alunos da Famecos. Mas à medida em que outras pessoas passarem a votar, os resultados podem ser desvirtuados por lobby.
O projeto está apoiado na teoria do crowdsourcing ( multidões colaborativas), o jargão técnico para softwares capazes de recolher um grande número de propostas de internautas, processá-las e fornecer matéria-prima para o que os especialistas chamada de inovação reversa, ou seja, ideias e processos inovadores surgidos a partir de pessoas comuns.
Analisando a questão da reinvenção da cobertura jornalística local a partir da participação do público é possível ver como a mudança dos paradigmas atuais pode gerar processos de mudança social que vão muito além do mero ato de consumir passivamente o noticiário oferecido pela imprensa contemporânea.
[1] Preferências registradas na manhã de segunda-feira (7/5). Os temas podem mudar conforme a evolução da votação.
Nos ombros do gigante, dentro da internet
Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários
“Nos ombros do gigante se consegue ver mais longe.” Esta frase, eternizada no século 17 por Isaac Newton[1], é hoje a grande metáfora para a batalha em torno da questão dos direitos autorais e patentes na internet. Para Newton, o que sabemos é o resultado do conhecimento herdado de pesquisadores e pensadores que nos antecederam.
Assim, segundo o homem que é considerado um dos pais da física moderna, quando há colaboração na ciência é possível ver mais longe, o que imediatamente nos coloca diante da ideia de que quanto mais livre e fluida for a troca de conhecimentos, maior será o beneficio para todos.
A lógica do “ ombro do gigante” entra em conflito direto com a lógica do mercado onde o fluxo dos conhecimentos não é determinado pela colaboração, mas, sim, pelo preço atribuído a dados, ideias e informações — o que inevitavelmente aumenta o custo da inovação e limita a criatividade.
A polêmica sobre o direito autoral é muito antiga, mas ganhou uma nova importância com a chegada da era digital e passou a afetar diretamente a atividade jornalística. Houve uma mudança qualitativa no manejo dos dados, fatos e processos que alimentam a produção de novas ideias, produtos e serviços.
A vertiginosa quantidade de material informativo disponibilizado pela internet gerou um novo ambiente para a inovação ao permitir que um número muito maior de pessoas passasse a desenvolver suas habilidades e competências. Prova disto é a incrível velocidade de produção e diversidade de oferta com que novos produtos e serviços foram incorporados ao consumo mundial desde a invenção do computador e do processo de digitalização.
Até a era digital a produção de conhecimento era extremamente concentrada devido ao altíssimo custo para recolher, processar e publicar informações e conhecimentos. A concentração favorecia o controle e o monopólio, gerando com consequência preços altos e condicionamentos políticos à liberação de inovações — como foi, por exemplo, o caso da frequência modulada em transmissões radiofônicas.
A empresa norte-americana RCA bloqueou durante 10 anos o inicio das transmissões porque tinha o monopólio da tecnologia e queria recuperar primeiro os investimentos feitos no sistema AM.
A rigidez das leis regulando a autoria dificulta e, em alguns casos, bloqueia a criação de novos produtos, porque o custo pela cessão de direitos é tão alto que inviabiliza qualquer nova iniciativa. Esse tipo de restrição acaba estimulando a pirataria porque a internet oferece também inúmeras formas de passar ao largo dos regulamentos e das leis.
Mas o problema mais grave não é a pirataria, como reconhece Sergei Brin, co-fundador do site de buscas Google, numa entrevista ao jornal inglês The Guardian. A ameaça está no futuro na economia mundial, que hoje depende cada vez mais da inovação e criatividade. Brin diz que o livre fluxo de conhecimentos garante o crescimento da economia mundial e que este crescimento depende de uma internet livre. “ A balcanização da rede, provocada por empresas como a Facebook, é uma séria ameaça ao nosso futuro”, diz Brin, que aproveita para defender os interesses da Google, cuja sobrevivência como sistema de buscas na Web depende do livre acesso a todos os sites e bancos de dados na rede.
O que já existe é uma guerra, ainda pouco ruidosa, entre empresas que tentam se agarrar ao velho sistema para ganhar tempo até descobrirem uma forma de sobreviver na era digital; e as novas corporações para as quais o direito de autoria é um freio, pois seu negócio depende da inovação constante. O direito de autoria está associado à era em que quanto mais tempo um produto ou ideia ficasse “na prateleria” maior o lucro do fabricante ou criador.
Hoje o processo é bem diferente. O mais importante passou a ser o processo de desenvolvimento do produto ou ideia. É o que garante a inovação permanente porque a concorrência é inevitável e intensa. No caso dos tablets, a Apple saiu na frente, mas a concorrência imediatamente inundou o mercado com produtos similares, mais baratos e, em alguns casos, até melhores.
Ninguém imagina a Apple tentando impedir que outras empresas também fabriquem tablets. Haveria uma gritaria planetária. O segredo das empresas de ponta está no desenvolvimento constante de novos produtos, sem os freios e limitações da atual legislação sobre direitos autorais e patentes . É na inovação que as empresas começam a ganhar e não em produtos ou serviços isolados.
[1] Na verdade a frase vem da mitologia grega onde o gigante cego Orion carregava nas costas o anão Cedalion para “ver” o que os outros não viam. No século 12, a mesma frase foi aplicada pela primeira vez como metáfora para a produção do conhecimento, mas só ganhou relevância mundial ao ser usada por Newton.
A nova Guerra Fria, agora na internet
Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários
Os Estados Unidos ganharam a Guerra Fria nuclear sem disparar um tiro, mas podem estar perdendo a versão cibernética do conflito pela supremacia mundial. E acredite quem quiser: a nova superpotência virtual é a China, apontada pelos especialistas ocidentais em segurança cibernética como a maior incógnita contemporânea no que se refere a políticas de uso da internet.
Os norte-americanos não admitem publicamente, mas o jornal inglês The Guardian afirmou na série "Batalha pela Internet" que o número de chineses especialistas em crackear [1] computadores e redes virtuais é maior do que o dos engenheiros norte-americanos dedicados ao desenvolvimento de novos programas e equipamentos para computação. Os crackers chineses são conhecidos também como cyber jedis (guerreiros cibernéticos), numa analogia com os guerreiros do bem na série Guerra nas Estrelas.
No fundamental, a nova versão da Guerra Fria é essencialmente uma guerra por informações onde as armas convencionais passaram a um segundo plano, para desespero de toda a multimilionária indústria bélica mundial. Os jedis chineses, em sua esmagadora maioria protegidos pelo governo de Beijing, vasculham o sistema financeiro ocidental, as redes de comunicações privadas e governamentais, descobrem vulnerabilidades em bancos de dados, em complexos de energia e transporte, bem como, é óbvio, nos serviços de inteligência militar.
A grande diferença em relação à Guerra Fria nuclear é que agora a busca por informações não está voltada para o botão vermelho da retaliação atômica, mas a um complexo e ainda pouco estudado sistema de tomada de decisões no qual os indivíduos estão sendo substituídos por processos impessoais, como as bolsas de valores. A balança do poder mundial não depende mais exclusivamente de decisões tomadas na Casa Branca ou no Palácio do Povo, em Beijing.
A descoberta do poder chinês na internet assustou os governos ocidentais, em especial os Estados Unidos e a Inglaterra, onde os seguidores da velha Guerra Fria ainda são muito influentes. Se até a queda do Muro de Berlim (1989) , os espiões e cientistas nucleares eram os grandes alvos dos estrategistas soviéticos e norte-americanos, agora todas as atenções se voltam para jovens entre 17 e 30 anos, a faixa etária dos modernos guerreiros cibernéticos, um ramo dos nerds (jovens fanáticos por computação).
Em 2011 foi criado na Inglaterra um projeto chamado Cyber Security Challange (Concurso sobre Segurança Cibernética) destinado a atrair nerds para o campo da Guerra Fria cibernética. Logo na primeira edição, no ano passado, quatro mil jovens de ambos os sexos se inscreveram para a competição, que não chegou a ser divulgada na imprensa. No ano passado, o vencedor foi Jonathan Millican, estudante do primeiro ano de engenharia eletrônica, com 19 anos incompletos.
O julgamento final da versão 2012 Cyber Security Challange deveria ter ocorrido em março, mas teve que ser adiado porque o site do concurso foi crackeado, segundo os britânicos, por cyber jedis chineses. Os prêmios previstos no concurso variam desde bolsas de estudo até inscrição grátis em eventos ligados à segurança cibernética. Não há prêmios em dinheiro, mas segundo o jornal The Guardian, o emprego em empresas do setor é imediato.
São garotos como Jonathan que passaram a ser observados de perto por estrategistas mililtares que acabam de receber plenos poderes do presidente Barack Obama e do governo inglês para desenvolver uma estratégia antichinesa na guerra pelo controle da internet. Segundo a Casa Branca, cerca de 60% das empresas norte-americanas que tiveram seus sites invadidos por crackers acabaram pedindo falência.
Até agora a principal estratégia do Pentágono era criar muros virtuais (firewall) contra invasões de redes de computadores, mas os especialistas já se deram conta que a defesa passiva é inútil, porque a criatividade dos cyber jedis é quase infinita. Para cada muro criado surgem imediatamente dezenas de opções sobre como derrubá-lo. Por isso a tendência é investir nas ações ofensivas, atacando os centros onde se aglutinam os guerreiros virtuais.
O problema é que a dispersão é enorme nessa área, da mesma forma que o altíssimo índice de privatização das empresas ligadas ao gerenciamento de informações na web complica a ação dos militares, cuja cultura operacional é tradicionalmente centralizadora e vertical. Nos Estados Unidos, de 80% a 90% dos bancos de dados estão em mãos privadas, o que torna extremamente relevante o papel da Google, a megacorporação no setor de informações e a terceira maior empresa privada do mundo no ramo das comunicações.
A estratégia da Google na Guerra Fria cibernética é fundamental para a balança do poder entre os Estados Unidos e a China, mas também transcendental para nós, que usamos gratuitamente os mecanismos de busca, correio eletrônico, YouTube e dezenas de outros aplicativos desenvolvidos pela empresa para captar nossas preferências e dados pessoais.
[1]Neologismo criado para expressar o ato de identificar códigos, senhas e arquivos protegidos em computadores ou redes de computadores. Os crackers são o oposto dos hackers, que desenvolvem novos softwares.






