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Curadoria de notícias ganha espaço na grande imprensa

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

O grupo News Corporation implantará nas próximas semanas em seus principais jornais um aplicativo de curadoria de notícias, seguindo uma tendência em ascensão na Europa e nos Estados Unidos. Antes do grupo News, o Washington Post lançou o aplicativo Trove, na sua página online. O New York Times fez o mesmo no início do ano com o programa Now e mais recentemente foi a vez a revista digital BuzzFeed engrossar a tendência de sugerir artigos para seus leitores.

Os aplicativos de curadoria de notícias estão programados para sugerir leituras complementares de material publicado pelo próprio veículo como também de outras publicações. Isso cria uma importante alteração nas rotinas editoriais da imprensa convencional, onde as menções a reportagens e notícias publicadas em veículos concorrentes eram mais uma exceção do que uma regra.

A popularização da curadoria de notícias na grande imprensa mundial assinala também uma mudança de políticas editoriais inédita na imprensa. Usar concorrentes como referências de qualidade informativa deixa de ser considerado um sinal de fraqueza e reconhecimento da competência alheia.

A modéstia nunca foi uma virtude dos grandes grupos jornalísticos mundiais, mas quando a crise aperta é melhor sacrificar os anéis para não perder os dedos. A News Corporation, o Washington Post e o New York Times tentam recuperar o público jovem perdido para a internet onde ele encontra maior flexibilidade e diversidade de fontes noticiosas, o que cria uma sensação de autonomia informativa maior do que a transmitida pelos veículos convencionais.

Independentemente dos motivos que levam tantos jornais importantes a optar pela curadoria de notícias, o fato é que este é um avanço significativo na busca de um novo modelo de negócios para a imprensa. A imprensa é hoje um imenso laboratório de experiências em alternativas empresariais na transição para a era digital. Cada empresa tenta fórmulas próprias e já existe um consenso de que a estratégia global tem três componentes básicos:

1. Reconquistar a fidelidade dos leitores, especialmente os mais jovens, por meio da reformulação das políticas editoriais responsáveis pela produção de notícias;

2. Reduzir o custo financeiro das instalações e passivo trabalhista herdados da época em que a informação era escassa e que só entrava no ramo da imprensa quem tinha muito dinheiro;

2. Gerar novas receitas por meio da reformulação das estratégias publicitárias tradicionais, em que os anunciantes não tinham outra alternativa senão comprar espaços em jornais, revistas, rádios e emissoras de TV.

A curadoria de notícias é uma das experiências em curso no item 1, que trata da nova fidelização do público. Os executivos da imprensa sabem que ela não é uma tábua de salvação para todos os problemas financeiros do setor e as redações apresentam uma série de restrições à curadoria, porque ela implica a revisão de vários procedimentos editoriais consagrados em manuais de estilo.

A maioria dos profissionais do jornalismo ainda considera a curadoria e edição como sinônimos. Ambos os procedimentos têm muitas semelhanças e uma diferença fundamental. Na edição, o jornalista organiza informações inéditas e as formata num conjunto fechado para publicação na forma de texto, áudio ou imagem noticiosos. Já o curador de notícias seleciona um conjunto de conteúdos de referência e os transfere para um público-alvo definido na forma de recomendações abertas.

Ainda é impossível vislumbrar qual será o novo formato editorial dos jornais e revistas, impressos e online. Mas as experiências feitas até agora mostram que a curadoria é um dos componentes do mix de procedimentos editoriais a serem adotados na era digital. E sua grande virtude não está apenas na filtragem, seleção contextualização e distribuição das recomendações, mas na maior aproximação entre jornalistas e o público.

A curadoria de notícias tende a ser praticada preferencialmente na internet, onde há uma maior facilidade de personalização e customização das recomendações informativas. Além disso ela pode atender segmentos mais específicos e localizados de interesses por parte de leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. Isso tende a transformar os jornalistas em referências obrigatórias para comunidades com preocupações particulares. E muitos acreditam que este pode ser o caminho para uma nova relação entre jornalistas e o público.

Uma outra imprensa é possível

Postado por: Carlos Castilho | 3 comentários

O site G1, a página da Rede Globo de TV na internet, lançou esta semana um blog diário com dicas para economizar água em cidades afetadas pela estiagem de meio de ano. É uma iniciativa importante e oportuna, mas insuficiente para enfrentar situações mais agudas como a de São Paulo.

Os paulistanos vivem uma situação em que medidas administrativas e paliativos só produzirão efeitos duradouros se forem acompanhados por algo mais permanente como a mudança de valores e comportamentos. Só que novos valores que permitem a automatização dos novos comportamentos levam tempo para serem substituídos por outros mais adaptados a novas realidades. É aí que entra a imprensa.

A mudança de valores quase sempre é vista como algo inviável ou utópico, principalmente pelos jornalistas acostumados a buscar resultados imediatos. É uma forma muito comum de jogar o problema para adiante sem resolvê-lo. Mas é bom lembrar que o hábito de fumar, um tabu na imprensa nos anos 1960 e 70, quando sua defesa foi comparada à preservação da liberdade de escolha, mudou 30 anos mais tarde. O mesmo aconteceu com outros valores como a limitação da natalidade, direitos iguais entre homens e mulheres e, mais recentemente, a questão da homossexualidade e do meio ambiente.

Na maioria desses casos, a imprensa resistiu até onde pôde à mudança de crenças, valores e comportamentos, mas depois alterou suas estratégias editoriais. Nem todos os veículos de comunicação acataram este aggiornamento, mas é inegável que até mesmo os mais conservadores já não se mostram tão resistentes à mudança.

A falta de água que afeta São Paulo atualmente é um caso extremo de um fenômeno que pode atingir os grandes conglomerados urbanos do país. As cidades cresceram desordenadamente, a população inchou geometricamente e a modernização da infraestrutura ficou amarrada a decisões burocráticas dos poderes públicos. O resultado é uma defasagem entre demanda e oferta de serviços públicos, especialmente os de saneamento e transporte.

A questão é urgente e não pode esperar décadas, como aconteceu na questão do fumo. A pressa torna compulsória a participação da imprensa no esforço para mudar o comportamento da população com respeito ao uso da água e a proteção aos mananciais onde ela é captada para consumo urbano. É claro que os governos têm muito a fazer em matéria de racionalizar a distribuição e reorganizar a gestão do saneamento urbano. Mas as autoridades não podem, e nem seria desejável, comandar o processo de atualização dos valores que orientam os comportamentos da população em matéria de uso da água.

A solução do problema do abastecimento de água torna inevitável a troca do individualismo pelo espírito comunitário na conduta diária das pessoas, não importa o seu status social. Sem uma nova mentalidade baseada na preocupação com o bem estar coletivo não adiante baixar normas, punições, racionamentos e reajustes nas tarifas. 

Como há urgência e o desafio é complexo, a imprensa tem uma responsabilidade da qual ela não pode fugir, não só por uma questão de coerência com sua retórica de defesa do interesse público, mas principalmente porque a reconquista da fidelidade dos leitores, ouvintes e telespectadores é fundamental para a sobrevivência com negócio nesta traumática busca de um novo modelo de negócios na era digital.

É possível, sim, abandonar a prioridade histórica dada à agenda noticiosa orientada por interesses político/eleitorais e financeiros, e trocá-la por uma estratégia editorial que enfatize a desenvolvimento de uma nova mentalidade urbana em relação a itens escassos como água, saneamento básico, transporte e segurança pública. 

Iniciativas como o blog do G1 poderiam associar a divulgação de dicas para economia de água à necessidade de mudar comportamentos vigentes entre os moradores de São Paulo, por exemplo. Na hora em que os jornais colocassem esta preocupação nas manchetes da primeira página algo poderia começar a mudar na cabeça e no quotidiano das pessoas. Um dos maiores especialistas mundiais em mudança de valores sociais, o norte-americano Daniel Yankelovich, garante que a mudança acontece quando o fluxo de notícias é sequencial e cumulativo. Não é uma notícia que muda comportamentos e valores, mas uma sequência de notícias.

Yankelovich, que se especializou no estudo das mudanças de comportamentos, crenças e valores entre os norte-americanos, lamentou em seu livro Coming to Public Judgment:Making Democracy Work in a Complex World  que a inércia da imprensa tenha colaborado para que mudanças importantes como a questão da igualdade de sexos no mercado de trabalho tenham demorado tanto a consolidar-se.

Na era digital, a imprensa tem enormes possibilidades de acelerar o processo porque ela é uma das responsáveis pela deflagração de processos virais na disseminação de dados e informações. O público da imprensa encolheu porque os jovens migraram para o Facebook e Twitter, mas ela ainda tem o poder de alimentar a agenda pública e provocar debates nas redes sociais onde o conhecimento é gerado.

A imprensa não perde nada se mudar de foco na estratégia editorial. Pode até correr o risco de sair ganhando porque o público dá sinais de saturação em relação a monotonia dos escândalos, violência, tragédias e maquinações político-eleitorais. Leitores e especialistas podem contribuir com casos concretos e experiências em curso em matéria de economia de água em grandes cidades, como fez o leitor deste blog, Toninho Belo, que comentou sobre a importância da população proteger os mananciais que abastecem as cidades.

Mas cabe à imprensa situar as dicas e conselhos dentro da perspectiva da mudança de valores e comportamentos para que as sugestões contribuam para a consolidação de novas rotinas no modo de vida urbano em grandes megalópoles. 

O jornal como mídia do conhecimento

Postado por: Carlos Castilho | 9 comentários

Estamos de tal forma condicionados pela preocupação comercial e política dos jornais que tornou-se difícil imaginar como eles podem servir para nos ajudar a resolver problemas pessoais e das comunidades onde vivemos. Quase todas as manchetes diárias estão preocupadas com a política dos partidos, interesses empresariais, tragédias, violência, guerras e manobras diplomáticas das grandes potências.

Mas há dezenas de problemas locais que só aparecem nas primeiras páginas quando estão vinculados a uma ou mais das questões mencionadas acima. Se a gente tomar o exemplo de São Paulo, o problema do abastecimento de água tornou-se um problema crucial, mas os jornais insistem em tratá-lo como uma questão de governo ou de empresas, o que inevitavelmente acaba escorregando para o terreno da política ou do interesse corporativo.

Os jornais também não conseguem libertar-se da tendência de publicar prioritariamente as propostas de soluções vindas de cima para baixo, eternizando o paternalismo governamental e o passividade das pessoas afetadas pelo problema. Mas quem decidir pensar um pouco sobre a falta d’água em São Paulo logo verá que a população tem uma boa parte da solução do problema, só que ela não age de forma mais propositiva por falta de informação. Não da informação sobre o que o governo diz que vai fazer, mas a sobre o que cada pessoa pode fazer para amenizar o seu problema e o do seu bairro, rua, associação ou local de trabalho.

Quando se fala em falta de informação, as pessoas são levadas a responsabilizar a imprensa, e com razão, porque é ela que serve o menu diário de dados da realidade que nos cerca. Muito pouco ou quase nada foi produzido pela imprensa em termos de fornecer à população elementos sobre como reduzir os efeitos da falta d’água, salvo reproduzir as burocráticas instruções oficiais como não lavar calçadas e carros, não regar jardins etc.

A imprensa tem um papel – de fornecer insumos para que as pessoas desenvolvam conhecimentos – que foi atropelado pelo interesse comercial e pelas alianças partidárias dos donos de veículos de comunicação jornalística. Contribuir para a produção de conhecimento é uma missão essencial dos jornais, revistas, rádios, televisões e sites noticiosos. 

A produção de conhecimento, uma atividade que passa a ser cada dia mais importante na era digital, não se limita à atividade produtiva, à pesquisa científica ou ao planejamento econômico de médio e longo prazos. Ela tem a ver também com o dia a dia das pessoas comuns. A racionalização do orçamento doméstico só pode acontecer por meio de informações que geram o conhecimento sobre como aplicar instruções gerais para a realidade específica de cada família. As regras gerais são apenas uma orientação que, por definição, são amplas, mas só funcionam efetivamente quando reinterpretadas num contexto bem definido como, por exemplo, uma necessidade individual, uma preocupação familiar ou comunitária.

Mas essa necessidade de reinterpretação de informações gerais para contextos específicos precisa ser comunicada pela imprensa para que possa ser discutida e compartilhada pelos leitores de um jornal, ouvintes de um emissora de rádio, pelos telespectadores ou internautas. É a imprensa que deve levar às pessoas a preocupação em captar dados da realidade geral e como aplicá-los à sua realidade especifica.

Esta é apenas uma das formas de os jornais, por exemplo, participarem da produção de conhecimento socialmente relevante. Até agora a imprensa, por interesses político- partidários, limita a sua preocupação com a produção de conhecimento a uma suposta capacidade de os cidadãos fazerem escolhas eleitorais. A produção de conhecimento tem a ver com a vida e não apenas com o voto.

Na era digital, produzir conhecimento passa a ser uma tarefa quase diária das pessoas porque estamos sendo obrigados a decidir sobre um conjunto cada vez maior de opções, em que o risco de uma escolha errada pode causar grandes prejuízos. Só para dar um exemplo: se você for comprar um novo telefone celular, a variedade de modelos é tão grande que uma pesquisa mostrou que 90% das pessoas compram o tipo errado por não ter analisado concretamente as suas necessidades individuais reais e como elas se encaixam nas características do aparelho.

A imprensa poderia colaborar com a produção de conhecimento pelas pessoas se passar a se preocupar com elas, em primeiro lugar. A maioria dos indivíduos ainda raciocina condicionada pela realidade da escassez de oferta e limitação na variedade de opções. As pessoas precisam receber informações sobre as mudanças em curso em nossa forma de viver. Trata-se de um objetivo vasto e complexo que por si só já daria para mobilizar todas as energias criativas das redações. 

Mas para que isso aconteça de fato, a imprensa tem que abandonar a sua ultrapassada agenda político/eleitoral/empresarial/ideológica. Não se trata de transformar o conhecimento em mais um modismo, mas na base de uma nova estratégia editorial que pode não atrair anunciantes de imediato, mas reconquistará a confiança das pessoas, e com ela novas alternativas publicitárias. Colocar a produção de conhecimento socialmente relevante como prioridade editorial é também uma forma de a imprensa buscar novas formas de sobrevivência empresarial e de vinculação ao interesse público.

P.S. Vou voltar mais vezes a este tema porque ele é complexo mas fundamental para o público e para a imprensa. E para que o assunto se torne objetivo é necessária a participação de vocês, leitores, por meio de comentários, críticas e sugestões. 

O direito de esquecer e o direito de saber

Postado por: Carlos Castilho | 3 comentários

A grande imprensa mundial mantém um intrigante silêncio sobre a decisão da justiça europeia de conceder a indivíduos o direito de exigir que os sistemas de buscas na internet eliminem de seus bancos de dados páginas cujo conteúdo possa ser considerado desonroso pelo envolvido.

Apenas o jornal inglês The Guardian tem dado cobertura ao tema que afeta diretamente todas as empresas que trabalham com indexação de documentos para fins de buscas na internet. Só a empresa Google já recebeu 70 mil solicitações de pessoas que não concordam com o teor de notícias, documentos e imagens publicadas a seu respeito e indexadas em bancos de dados dos sistemas de buscas.

O silêncio da imprensa pode ser motivado pela complexidade do tema, mas muito provavelmente é determinado pelo complicado dilema de ter que optar entre dois “direitos”: o de esquecer e de saber. O jornalismo acabou caindo na armadilha criada pela questão da transparência informativa na internet e agora está sendo obrigado a fazer uma escolha difícil.

Se aceitar a decisão judicial tomada com base em códigos, em sua maioria, elaborados antes da existência da internet, a imprensa terá que fazer um expurgo em seus arquivos e – o que é mais grave – terá que avaliar, antes de publicação, a possibilidade de sofrer represálias por parte de pessoas ou empresas mencionadas em reportagens. Isso equivale a uma opção entre a autocensura e a censura por parte dos tribunais que aceitarem o princípio da decisão europeia.

A imprensa sempre utilizou o argumento da liberdade de informação para combater interferências governamentais e privadas na sua atividade informativa. Na maioria dos casos, a liberdade de informação foi usada para defender privilégios corporativistas mas, como principio, era uma salvaguarda contra tentativas de submeter o noticiário a interesses setoriais em prejuízo do interesse dos cidadãos.

Sob o pretexto de evitar danos à imagem pessoal ou institucional por conta de supostos erros jornalísticos, qualquer pessoa ou instituição pode agora impor um veto não apenas a referências atuais a documentos e notícias considerados difamatórios, como também exigir o expurgo do material questionado em bancos de dados para evitar que ele seja recuperado em buscas futuras.

O silêncio da imprensa mundial é intrigante porque a decisão da justiça europeia bate de frente com tudo aquilo que os jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão defendiam até agora em materia de liberdade de publicação de notícias. Caso não seja encontrada uma solução para o problema, a imprensa estará colocada num beco sem saída.

Mas o problema afeta também a nós, consumidores de notícias. Mais cedo ou mais tarde teremos que escolher entre aceitar muros que protejam a nossa privacidade, mas impedem que nossos hábitos, comportamentos e conhecimentos sirvam para aumentar o capital social das comunidades onde vivemos, ou aceitar viver no que poderia se comparado a uma casa de vidro. Esta opção, que já é real, nos obrigará a rever valores, comportamentos e crenças vigentes há séculos.

Se o direito ao esquecimento prevalecer sobre o direito de saber, nós cidadãos poderemos ficar privados de dados e informações essenciais para tomar decisões que afetam nossas próprias vidas e as comunidades onde vivemos. Sem falar que a imprensa ficará restrita a publicar o que lhe é permitido em vez de funcionar como um serviço de utilidade social, imune a interesses particulares.

A decisão da justiça europeia se insere no contexto do conflito global entre uma ordem jurídica baseada na hegemonia dos valores e comportamentos da sociedade industrial e a emergente realidade social, econômica, política e jurídica da era digital. Os conservadores tentam impor a ideia de que o conflito é uma guerra com vencidos e vencedores, quando na verdade tudo indica que haverá uma convivência, às vezes conflitante, entre a cultura industrial/individualista/hierárquica e a digital/colaborativa/descentralizada. 

O público dá olé na imprensa durante a Copa

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

O rescaldo da Copa mostra dois fenômenos indiretamente relacionados ao futebol e que nos obrigam a refletir sobre eles devido a suas consequências futuras. Ambos têm a ver com o papel da imprensa na nossa sociedade e estão relacionados. O primeiro foi a decisão da imprensa de criar uma percepção negativa entre os brasileiros sobre a Copa, e o segundo fenômeno mostrou como a  população ignorou o fantasma do caos e transformou o Mundial numa grande festa, que chamou a atenção da imprensa internacional e de 600 mil turistas estrangeiros.

O balanço da Copa mostrou que a imprensa não consegue condicionar atitudes do público quando ela ignora o que as pessoas sentem e pensam. No caso da estratégia do caos anunciado, a imprensa fez uma leitura errada das percepções do público porque estava determinada a impor uma derrota ao Partido dos Trabalhadores, nas eleições presidenciais de outubro. Colocou alianças ideológicas e financeiras acima da sua função social de oferecer aos cidadãos dados e informações para que eles possam tomar decisões de acordo com seus interesses e necessidades.

O fracasso da estratégia da imprensa é preocupante porque abala ainda mais a sua credibilidade junto aos brasileiros, num momento em que as empresas jornalisticas, mais do que nunca, precisam da confiança do público para sobreviver. A internet está cheia de pesquisas e teses mostrando que a sobrevivência dos jornais depende do surgimento de uma nova relação com os leitores, e que esta relação está diretamente ligada à oferta de conteúdos adequados às mudanças de comportamento em curso entre os consumidores de noticias e informações.

O que a imprensa brasileira fez no período pré-Copa foi recorrer a velhas estratégias baseadas em alianças partidárias que colocam o interesse de empresários e candidatos acima da realidade concreta na sociedade. A obsessão em derrotar o PT, em especial o ex-presidente Lula, pode até funcionar nas eleições de outubro, mas seu efeito pode acabar sendo reduzido pelo dano causado na confiança do público na imprensa.

Olhando pelo lado da audiência, a festa da Copa revelou um surpreendente comportamento que desprezou os prognósticos assustadores alimentados pelos jornais e pela televisão, e que acabaram inspirando a frase/hashtag “Imagina na Copa”. O público ignorou as preocupações da imprensa e nem mesmo o fracasso da seleção brasileira foi suficientemente forte para provocar explosões de revolta e descontentamento, salvo a inexpressiva vaia à presidente Dilma na partida final. Para a grande maioria dos brasileiros, a Copa foi o pretexto para uma festa, ao contrário do marketing de muitos patrocinadores que pintaram o evento como uma batalha patriótica.

A população mostrou uma maturidade política muito maior do que a da imprensa e até mesmo das autoridades. Os protestos de rua foram limitados e quase caricaturais, ao contrário do quadro aterrorizador montado pela imprensa antes da Copa. As pessoas mostraram que sabem separar o que desejam daquilo que a imprensa propõe. Em edições anteriores da Copa, a imprensa era o grande veículo para circulação de informações. Agora, ela passou a um segundo plano diante da massiva utilização das redes sociais como canal de comunicação entre as pessoas.

Milhões de brasileiros, especialmente os com menos de 30 anos, viram os jogos pela TV (sem som), mas conectados no Facebook  para trocar informações e opiniões com amigos, parentes, colegas de trabalho e quem tivesse vontade de conversar. (Ver texto Redes sociais bateram recorde de interações durante a partida).

A rápida evolução do comportamento do público neste início de era digital deve preocupar, e muito, a quem tem a responsabilidade de dirigir um veículo de comunicação impresso ou audiovisual. As empresas  jornalísticas arcam com o peso da herança de equipamentos analógicos, como rotativas e sistemas de distribuição que não produzem mais os lucros de antigamente. Mas, apesar disto, adotam uma postura olímpica diante das novas tendências no comportamento das pessoas em relação à noticia e à informação, preferindo seguir rotinas convencionais, mesmo sabendo que é o público que atrai os anunciantes.

Os jornais e a televisão devem ter faturado bastante durante a bolha publicitária da Copa do Mundo. Mas esta receita adicional, providencial em tempos de crise, pode acabar sendo parcialmente anulada pela perda de leitores, espectadores e ouvintes em consequência de estratégias editoriais equivocadas, como a do fantasma do caos durante os jogos. 

A estratégia da socialização da vergonha nacional

Postado por: Carlos Castilho | 4 comentários

A goleada histórica sofrida no Mineirão talvez acabe mostrando que o improvável também pode acontecer fora do futebol. Terminada a partida contra a Alemanha, os comentaristas políticos na imprensa brasileira começaram a especular sobre as possíveis consequências eleitorais após o fracasso da equipe de Felipão.

As principais manchetes dos jornais brasileiros no dia seguinte ao adiamento do sonho do hexa batiam na tecla da vergonha nacional. Destacar um sentimento como este equivale a transformar todos os brasileiros em protagonistas de um fracasso, que na verdade foi basicamente da equipe técnica e cartolas da CBF, dos jogadores, das empresas que esperavam faturar muito, dos publicitários e executivos da mídia que levaram quase 200 milhões de brasileiros a dar como certa a conquista de uma sexta estrela na camiseta verde e amarela.

Socializar a vergonha e humilhação gera inevitavelmente acessos de mau humor e irritação que seguramente contaminarão o estado de espírito dos brasileiros nos próximos dois meses, justamente o período pré-eleitoral. Antes da Copa do Mundo, a imprensa se esmerou na tentativa de criar um clima de pessimismo diante da perspectiva de um caos materializado na expressão “Imagina na Copa” .

O pessimismo construído pela imprensa em torno da organização da Copa não contaminou a atuação de repórteres e comentaristas na cobertura dos preparativos da seleção. A equipe de Felipão foi blindada pela imprensa até o jogo contra a Alemanha. Mas o caos previsto pelos seguidores do espírito "Imagina na Copa" acabou não acontecendo. O Mundial acabou se transformando numa grande festa elogiada em todo o mundo, o que contribuiu para elevar a autoestima e o astral dos brasileiros.

Os sete gols sofridos no jogo da Alemanha provocaram uma reviravolta nesta situação. Os principais jornais brasileiros e a TV Globo abandonaram a cumplicidade com a equipe técnica da CBF ao mesmo tempo em que passaram a usar o argumento da humilhação para acabar com o efêmero bom humor do inicio da Copa. Esta não foi a única vez que fracassamos numa Copa do Mundo, mas é inegavelmente a primeira em que houve tamanha mobilização da opinião pública neste tipo de evento.

Até os mais remotos rincões do Brasil foram incorporados ao marketing massivo de empresas como a Ambev, que deslocou telões por mais de 700 vilarejos do interior para que as pessoas vissem os jogos do Brasil, sob o slogan “Onde tem Brasil tem Copa. E onde tem Copa tem que ter festa”.

Vamos começar a campanha eleitoral sob o estigma da baixa estima e da frustração, o que seguramente criará o caldo de cultivo para cobranças e protestos. Mensagens no Facebook logo depois da tragédia do Mineirão eram inequívocas: “Mas o pior ainda vem por aí. A campanha eleitoral”, dizia uma mensagem postada horas depois do fim do jogo.

Num clima como este, a corrida eleitoral passa a ser uma incógnita. A vantagem da presidente Dilma nas pesquisas de intenção de voto, que parecia sólida, pode virar fumaça, porque estamos numa era onde as convicções pessoais mudam ao sabor do conteúdo de mensagens na internet.

Derrotar a presidente Dilma não vai mudar quase nada na política brasileira, porque os políticos hoje se diferenciam mais pelo marketing do que pelos projetos. Nas promessas eleitorais eles podem até ser diferentes, mas, uma vez empossados, acabam todos rezando pela mesma cartilha, porque a estrutura da maquina burocrática estatal e da economia do país é muito mais forte do que a ideologia dos partidos.

Mas a catarse dos eleitores humilhados pode fazer com que o improvável e tido como inevitável aconteça também fora dos estádios. Esta é mais ou menos a mensagem que a imprensa está transmitindo à opinião pública nacional, como pode ser visto nos principais editoriais e análises de comentaristas políticos nos dias seguintes à goleada do Mineirão. 

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