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Publicidade que parece notícia

Postado por: Carlos Castilho | 2 comentários

publicidade nativa (native advertising) é a versão portuguesa de um jargão, muito popular na imprensa dos Estados Unidos, que identifica matérias publicitárias disfarçadas de jornalismo, cada vez mais frequentes na mídia impressa norte-americana, inclusive em grandes jornais como The New York TimesThe Washington Post e The Wall Street Journal

A estratégia é considerada um verdadeiro sacrilégio por muitos jornalistas, mas, para os jornais, a publicidade nativa é a grande solução para migração dos anunciantes para a internet. Para não serem acusados de violar os códigos de ética do jornalismo, os jornais identificam as matérias patrocinadas, mas o leitor dificilmente notará que está comprando gato como lebre. As matérias são diagramadas com o mesmo padrão das notícias comuns e a identificação do patrocinador é feita com letra bem pequena, para não chamar a atenção.

A proliferação de notícias e reportagens patrocinadas, mas que se parecem matérias jornalísticas, já é uma tendência irreversível embora a grande maioria dos jornais trate de minimizar o uso desSe recurso como fonte de receita adicional. Trata-se de um estratégia de negócios vislumbrada há mais de dez anos por David Ogilvy, um dos magos da publicidade mundial. “Não há necessidade de um anúncio parecer um anúncio. Se ele parecer uma matéria jornalística, atrairá mais 50 % de leitores” – é a frase de Ogilvy, citada por Joshua Benton, do Nieman Report.

Há inclusive projeções de que o mercado da publicidade nativa atingirá algo como 4,6 bilhões de dólares anuais em 2017, apenas nos Estados Unidos, onde esta modalidade de anúncio já foi incorporada ao departamento comercial de grandes jornais como o The New York Times e The Wall Street Journal. Um caso que está sendo observado intensamente pelos críticos da mídia norte-americana é o do The Washington Post, controlado por Jeff Bezos, dono da livraria digital Amazon e um dos grandes milionários da internet mundial. É voz corrente que várias matérias publicadas pelo Post fazem parte de estratégias comerciais e publicitárias da Amazon, mas os leitores dificilmente percebem o limite entre negócios e informação.

A questão da publicidade nativa vai além de uma mera estratégia para aumentar receitas num momento de crise na indústria dos jornais. Ao que tudo indica, ela está se transformando num modelo de negócios que altera radicalmente os princípios éticos tradicionais no jornalismo. Durante muito tempo, os profissionais da imprensa acreditaram que o noticiário era o seu produto principal e os leitores, os seus clientes. Mas a lógica econômica dos donos de jornais era outra: os verdadeiros clientes eram os anunciantes, que garantiam as receitas; os leitores eram o produto comprado pelos anunciantes e o jornalismo não passava de uma ferramenta do marketing para fazer a ligação entre leitores e publicidade.

O surgimento da internet mudou parcialmente esse esquema. Os executivos de jornais continuam apostando no papel dos anunciantes como grandes clientes e no público como a mercadoria a ser vendida. O problema é que o jornalismo já não funciona mais como instrumento eficiente de marketing na medida em que a Web criou uma relação direta entre o público e os anunciantes. A publicidade nativa tenta recompor o esquema mediante uma transformação do papel do jornalismo na sustentação financeira das empresas de comunicação jornalística.

Originalmente, a função do jornalista era produzir notícias e reportagens suficientemente fidedignas e atraentes para chamar a atenção do público e, com isso, induzi-lo ver anúncios pagos. Agora, o jornalista passa também a produzir publicidade que parece notícia, o que elimina uma etapa no processo de atração do público. A notícia autêntica tende a tornar-se supérflua no novo esquema de negócios da indústria dos jornais. 

Essa situação aumenta consideravelmente a dificuldade do leitor em separar o joio do trigo em matéria de notícias publicadas na imprensa. O que já era difícil por conta das percepções individuais dos jornalistas e dos interesses econômicos e políticos dos donos das empresas jornalísticas, agora torna-se ainda mais complicado na medida em que o disfarce da publicidade na forma de notícia passa a ser uma norma institucional. A relação entre os jornalistas e as indústrias da comunicação entra numa nova fase, em que os padrões éticos e profissionais já não são mais os mesmos. 

Aos leitores:  Devido à ineficiência do atendimento da operadora OI aos seus usuários, estou há uma semana sem acesso a internet.Por esta razão não estou podendo responder os comentários de membros da comnunidade de leitores dste blog. Quando e se o acesso for restabelecido, voltarei a conversar com todos vocês. Obrigado e desculpem.

Leitores e jornalistas ante o ‘analfabetismo informativo’

Postado por: Carlos Castilho | 4 comentários

Todos nós conhecemos o velho dito “quem conta um conto aumenta um ponto”. Até agora esta pequena dose de exagero não chegava a causar grandes transtornos, mas tudo isso mudou com o surgimento da internet, das redes sociais e da avalancha informativa. Os pontos adicionados às histórias contadas de boca em boca, de jornal em jornal, de TV em TV se multiplicaram zilhões de vezes transformando a soma dos pequenos exageros num megaproblema.

Todos os nossos comportamentos e valores em matéria de captar uma notícia e passá-la adiante já não conseguem mais dar conta do tsunami de dados contraditórios com os quais entramos em contato diariamente. Nossa rotina informativa foi colocada de pernas para o ar, como pudemos sentir durante as semanas anteriores e posteriores ao segundo turno das eleições presidenciais. Aumentou a incerteza sobre em quem confiar, tal balbúrdia noticiosa espalhada pela imprensa e pelas redes sociais.

Isso coloca a todos nós diante da necessidade de revisar nossos hábitos informativos o mais rápido possível para tentar minimizar os efeitos da cacofonia noticiosa. Trata-se de gastar um minuto antes de passar adiante um dado, fato ou evento para refletir sobre sua veracidade, exatidão e interesses associados. Até agora delegávamos esta função aos jornalistas, mas eles já não conseguem mais dar conta do recado porque aumentou exponencialmente o volume de material que devem avaliar, e também precisam rever seus métodos de trabalho diante do protagonismo assumido pelo público na era digital.

A preocupação com a natureza e características da notícia que recebemos e provavelmente transmitiremos a outras pessoas por telefone, contato pessoal ou redes sociais é o preço que estamos tendo que pagar pela maravilhosa diversidade de dados, fatos e eventos que nos chegam sem parar. Esta revisão de nossas rotinas informativas será um processo que tomará algum tempo antes de tornar-se tão automático quanto nossa reação de proteger os olhos diante de um clarão mais forte.

A transição do ambiente analógico para outro predominantemente digital está nos obrigando a ter que aprender a lidar com a notícia dentro de um contexto de avalancha informativa. Estamos na condição de analfabetos informativos e precisamos aprender a lidar com a nova situação da mesma forma que aprendemos a escrever ou a dirigir veículos. É uma habilidade nova resultante de uma conjuntura tecnológica inédita.

Nesse processo, os jornalistas ocupam um papel fundamental porque serão eles que darão as linhas gerais sobre como as pessoas devem se conduzir dentro da avalancha informativa. A função do jornalista já não é mais só redigir ou narrar notícias como um produto pronto para ser consumido pelo leitor, ouvinte, telespectador ou internauta. A distribuição de notícias já está sendo feita por pessoas comuns pelo Twitter, chats, correio eletrônico e redes sociais.

Por dever de oficio e por formação universitária, o jornalista é, pelo menos na teoria, o personagem dotado de maior conhecimento sobre o processo de circulação de notícias e informações. Caberia então a ele a responsabilidade de orientar as pessoas e funcionar como um conselheiro ou instrutor na adaptação a um problema totalmente novo no quotidiano de boa parte da humanidade.

Trata-se de uma nova função que deveria ser incorporada o mais rápido possível aos currículos das escolas de jornalismo e comunicação, ao mesmo tempo em que as organizações de jornalistas teriam à sua disposição um tema para discutir a nova relação entre os profissionais e o público

Mas mesmo que os jornalistas assumam integralmente essa nova função, ainda assim eles serão poucos em comparação à massa de consumidores de notícias. Isso gera a necessidade de as pessoas desenvolverem a sua própria cultura informativa de forma individual ou em comunidades de informação. Uma modalidade particular de orientação é a recomendação, ou curadoria de notícias, praticada em grupos de pessoas com interesses afins. 

‘iTunes’ de reportagens faz sucesso entre leitores e jornais

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

Os maiores jornais do mundo já estão com as barbas de molho porque um projeto lançado na Holanda, há menos de seis meses, pode colocar de pernas para o ar todo o sistema de acesso pago ou assinaturas online. A plataforma Blendle funciona como uma banca de jornal online, só que ela vende os artigos que interessam ao leitor, que não precisa comprar uma edição inteira só para ler um texto.

A novidade vendeu como pão quente na Holanda, onde todos os jornais e revistas de circulação nacional já fecharam parcerias com o projeto desenvolvido por um grupo de jornalistas e programadores com menos de 30 anos. A página do Blendle tem 130 mil usuários registrados, que pagam o equivalente a 20 centavos de dólar (R$ 0,60) por artigo, podendo o assinante pedir o dinheiro de volta caso não gostar do que leu, ouviu ou viu.

Empresas estrangeiras como a revista britânica The Economist , o jornal americano The New York Times e o grupo midiático alemão chefiado pelo todo poderoso Axel Springer já formalizaram parceiras com o Blendle, recebendo 70% do valor arrecadado com cada artigo vendido. Os jornalistas holandeses lançaram o seu projeto com dinheiro do próprio bolso, mas hoje já têm financiamentos assegurados no valor de 3 milhões de euros (cerca de 9,5 milhões de reais).

O mundo dos negócios da imprensa está chamado o projeto holandês de “iTunes da notícia”, numa alusão ao site iTunes, da Apple, onde o cliente pode comprar uma única música em vez de um CD inteiro. O estrondoso sucesso do iTunes acabou criando um varejo musical de grandes proporções, frequentado especialmente por jovens.

A segmentação dos conteúdos jornalísticos já é uma tendência mundial em que se destacam projetos como The MediumLong FormLongForm Stories e LongReads, que se especializaram na oferta de artigos produzidos por jornalistas, pesquisadores e escritores autônomos ou vinculados a empresas jornalísticas ou editoras de livros. São textos voltados para um público que deseja ler narrativas literárias e jornalísticas, não vinculadas a livros ou veículos de comunicação da imprensa. Curiosamente, os jovens compõem uma parcela considerável da audiência desses sites.

A multiplicação deste tipo de projeto mostra também que existem pessoas interessadas em textos mais longos que ficam a meio caminho entre a notícia do dia a dia e as grandes reportagens ou obras literárias de ficção e não ficção. The Medium distribui quase diariamente uma lista de artigos para assinantes online fornecendo como atrativo uma indicação do tempo de leitura. LongReads também estima o tempo de leitura, mas se especializou em selecionar artigos já publicados. A seleção é feita por um grupo de curadores e por sugestões dos assinantes.

Long Form, criado em 2010, é um projeto da Universidade de Pittsburgh (Estados Unidos) que oferece aos seus assinantes artigos produzidos por intelectuais e jornalistas independentes, cujos trabalhos são selecionados por uma equipe de professores acadêmicos e críticos literários. O site também publica, no formato podcast, entrevistas e depoimentos sonoros com escritores. Todos esses projetos possuem páginas web mas trabalham basicamente a partir de aplicativos para smartphones e tablets, onde está a maioria esmagadora dos seus usuários.

O sucesso dos projetos de segmentação e personalização de textos jornalísticos acelera a transformação dos jornais em núcleos de produção de conteúdos informativos em vez de empresas voltadas para a industrialização da notícia e reportagens. É mais um indício de que o modelo atual de negócio das empresas jornalísticas está se esgotando mais rápido do que imaginam os seus executivos.

É todo um conjunto de novas soluções tecnológicas que mudam hábitos de leitura e alteram radicalmente os sistemas de produção de conteúdos. São projetos que mostram como a internet não é obrigatoriamente um sistema que impõe a superficialidade e a trivialidade. Há espaço para a experiências literárias e jornalísticas mais densas, um campo que muitos consideram um privilégio exclusivo dos textos impressos.

Ressaca eleitoral antecipa a era da incerteza informativa

Postado por: Carlos Castilho | 6 comentários

A verdadeira avalancha de notícias contraditórias deflagrada nas redes sociais forneceu uma amostra do que nos espera – num futuro não muito distante – em matéria de incerteza informativa. O resultado do segundo turno das eleições presidenciais incorporou um elemento passional às manifestações dos eleitores pela internet, mas o fenômeno da multiplicação de visões divergentes nas redes sociais veio para ficar, para o bem e para o mal.

Nos quatro primeiros dias depois do anúncio da reeleição da presidente Dilma Rousseff ficou claro que redes como o Facebook, Twitter e outras redes já são o ambiente onde as pessoas concordam, discutem e se agridem. O mundo da interatividade interpessoal está migrando irreversivelmente para as plataformas digitais, o que é um elemento positivo porque facilita a troca de ideias, mas também torna possíveis as agressões, disseminação de falsidades e propostas absurdas, como o abaixo assinado pelo impeachment de Dilma ou o pedido postado no site do Exército pedindo a volta dos militares ao poder.

Estamos ingressando na era da incerteza informativa porque nos defrontamos com duas opções pouco tranquilizadoras: de um lado temos a imprensa monoliticamente estruturada em torno de um modelo de negócios e de uma plataforma política, e do outro o caos noticioso na internet. Esta situação não é definitiva porque é inevitável uma redefinição dos papéis dos diferentes protagonistas da arena informativa.

Mas fica uma constatação que deve acelerar a mudança de nossos hábitos e valores na hora de receber noticias e passá-las adiante. Nossa confiança na imprensa como organizadora do nosso cardápio informativo diário está seriamente abalada. Por isso teremos que buscar noutras fontes os dados que viabilizam a nossa vida em comunidades e agrupamentos sociais. O ambiente que ocupa cada vez mais espaços em nossa agenda diária é o da internet e das redes sociais, onde a principal característica é a velocidade, amplitude de disseminação de mensagens e a diversidade de percepções.

A rede mundial de computadores supera todos os demais ambientes informativos analógicos em matéria de liberalização no fluxo de notícias. Mas esta liberdade tem outra face. Para sociedades que sempre conviveram com freios e limites no acesso à informação, a inédita ausência de restrições dá margem a catarses irrefletidas que criam tensão e sérios riscos à tolerância política e social.

O tiroteio noticioso provavelmente perderá intensidade à medida que as emoções pós eleitorais perderem intensidade. Mas a desorientação informativa é um fenômeno com o qual teremos que nos acostumar e saber como lidar. Cada cidadão terá que desenvolver sua “caixa de ferramentas” para lidar com a dúvida e as desconfianças. Dúvidas como a verdadeira origem do inesperado surto de autoafirmação dos nossos parlamentares, cuja imagem ainda está manchada por atentados ao decoro político e à lisura financeira.

Normalmente, o cidadão comum esperaria que a imprensa explicasse o que está por trás dessa atitude, mas ela se limitou a justificá-la como uma vendetta pelo fato de alguns deputados e senadores não terem sido eleitos por falta de apoio do governo federal. Como a maioria já se conformou com a omissão da imprensa, sobrou para os leitores, ouvintes, telespectadores e internautas a indiferença perante os veículos de comunicação e a catarse individual nas redes sociais.

A nossa “caixa de ferramentas” para lidar com a era da incerteza informativa será algo muito pessoal porque cada indivíduo vive num ambiente noticioso diferente. É um esforço que teremos que fazer sozinhos ou com a ajuda de comunidades de informação para separar o joio do trigo em matéria de notícias. Uma das ferramentas é a curadoria de noticias, mas ela dependerá do grau de confiança que teremos na competência e habilidade dos responsáveis pela sugestão de notícias relacionadas aos nossos interesses e necessidades.

Não adianta vituperar contra a internet porque ela também veio para ficar, assim com outras inovações tecnológicas que revolucionaram a história da humanidade. Também não adianta o saudosismo tipo “como era verde o meu vale” porque a história vai para frente, apesar de recuos temporários. É o preço que estamos tendo que pagar por toda a série de maravilhas tecnológicas que mudaram a nossa maneira de viver. 

Imprensa: muita calma nesta hora

Postado por: Carlos Castilho | 4 comentários

A ressaca da campanha eleitoral criou uma situação extremamente delicada em que o papel da imprensa passa a ser ainda mais relevante do que antes do segundo turno. A radicalização político-emocional, promovida por veículos como a revista Veja, fez aflorar velhos preconceitos e vestígios autoritários gerados pela frustração eleitoral.

O ambiente político surgido logo após a divulgação dos resultados do segundo turno confere à imprensa uma função complexa em que a produção de notícias torna-se menos importante do que o papel do jornalismo na extinção de um estopim informativo de consequências imprevisíveis. É o momento em que os veículos de comunicação precisam pensar mais nas implicações de suas decisões do que na preocupação com suas estratégias comerciais.

Pode parecer paradoxal, mas tudo indica que a imprensa é no momento a única instituição capaz de promover um mínimo equilíbrio entre percepções opostas da realidade política pós-reeleição de Dilma Rousseff. A presidente prometeu diálogo, mas suas intenções ainda estão marcadas pela campanha e, portanto, sujeitas a dúvidas sobre sua credibilidade.

Os políticos voltaram à velha estratégia de desconstruir a proposta de plebiscito sobre reformas políticas numa tentativa de preservar seu cacife num tema que vem se arrastando há décadas. A estratégia é clara: deputados e senadores não abrem mão de legislar em causa própria, mesmo diante da inequívoca perda de prestígio popular.

A imprensa tem um papel a cumprir neste provável confronto entre o Palácio do Planalto e o Congresso, porque isso pode radicalizar ainda mais os passionalismos políticos. A presidente provavelmente usará as reformas para neutralizar a renovada militância de deputados e senadores oposicionistas. Estes devem concentrar sua artilharia na denúncia de uma eventual tentação presidencial de repetir o caráter plebiscitário que permitiu a vitória de Dilma no segundo turno.

A imprensa não é uma instituição qualquer e nem uma máquina de fazer dinheiro. Sua matéria-prima é a noticia a partir da qual os cidadãos tomam decisões, para o bem ou para o mal, de cada indivíduo e da comunidade. A imprensa é, portanto, corresponsável nos equívocos políticos a que estão sujeitos os leitores, ouvintes, telespectadores e internautas.

Não há como fugir disso alegando que o papel dos jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão é apenas repassar conteúdos. Esta desculpa está inutilizada pelo resultado de dezenas de pesquisas científicas que mostram como as pessoas, inclusive jornalistas, incorporam percepções pessoais à narrativa de fatos e eventos.

O universo dos sentimentos desencontrados revelado pelas mensagens postadas nas redes sociais da internet logo depois do segundo turno mostra uma tendência à irracionalidade política que, se alimentada pelo noticiário da imprensa, pode acabar gerando situações cujo preço pode ser trágico, como mostram os efeitos da Marcha da Família com Deus e pela Liberdade nos idos de 1964.

A imprensa já acumulou ao longo de sua história recente experiências suficientes para mostrar que ela acaba também sendo vitimada pela radicalização que tolerou, consciente ou inconscientemente. Quando as pessoas começam a falar em muros separando pobres e ricos no Brasil, em impeachment da presidente reeleita, em supostas fraudes eleitorais e pedir que os militares retomem o poder, fica clara uma radicalização que só a imprensa pode ajudar a neutralizar. Ela deve resistir a ser protagonista de um jogo entre partidos que desejam manter ou conquistar influência nos negócios estatais.

Além disso, a imprensa precisa recompor sua relação de credibilidade com o seu público-alvo porque ela vive uma crise de transição de modelos de negócio em que a fidelização dos consumidores tem um papel crucial. Alguns veículos podem até tentar manter leitores endossando o passionalismo, sectarismo, xenofobia e autoritarismo. Mas a história recente do país mostra que esta estratégia nunca deu certo. 

Boataria desorienta eleitor e mostra omissão dos jornais

Postado por: Carlos Castilho | 4 comentários

A última campanha presidencial mostrou que se a mídia jornalística brasileira, especialmente a escrita, não mudar suas estratégias de cobertura política, ela caminhará inexoravelmente para a insignificância em matéria de informação eleitoral.

Os jornais nesta campanha se limitaram a publicar pesquisas eleitorais, geralmente com atraso, ou funcionar como caixa de ressonância para denúncias, quase sempre, geralmente associadas a algum lobby político ou empresarial.

Fora disso a cobertura foi rotineira, sonolenta e burocrática, o que tende a afastar cada vez mais os jornais e as revistas de seus respectivos públicos, justamente num contexto onde a fidelização dos leitores tornou-se o fator crítico para a sobrevivência de empresas jornalísticas.

O nicho disponível para a imprensa escrita na cobertura eleitoral é a checagem responsável das denúncias e boatos que se multiplicam viralmente durante a fase final das campanhas. A investigação de fatos, o chamado fact checking, foi amplamente esquecida pelos nossos jornais justo no momento em que os eleitores mais precisaram dela.

É um fato público e notório que a boataria corre solta quando alimentada por factoides e rumores criados por marqueteiros e políticos. Eles são os artífices do vale-tudo informativo pré-eleitoral, mas sua função seria inócua sem a participação de eleitores que, inconscientemente, passam adiante notícias inverídicas, dados falseados e informações descontextualizadas.

Essa irresponsabilidade no manejo da informação é uma consequência da avalancha de notícias, fatos, números e eventos que diariamente são jogados sobre as pessoas sem que elas tenham condições de fazer a triagem adequada. O resultado é que muitos acabam agindo como propagadores, voluntários e involuntários, de uma cacofonia noticiosa que gera confusão, perplexidade e – o que é mais grave – cenas explicitas de sectarismo eleitoral.

Tudo isso poderia ser menos intenso se a imprensa cumprisse a missão de checar os fatos einvestigar a veracidade de denúncias, em vez de servir de porta-voz para lobbies políticos, governos e empresas. 

O fact checking é a oportunidade que a imprensa escrita tem para reencontrar seu papel informativo no ambiente noticioso que está sendo cada vez mais ocupado por ferramentas digitais e redes sociais na internet. Caso os jornais e revistas impressos não optem por esta estratégia editorial, a tendência é que se tornem cada vez mais dispensáveis numa campanha eleitoral.

Não será fácil romper com um comportamento que já vem sendo adotado desde o fim do regime militar. A relação da imprensa com a elite política e empresarial do país é sólida demais para ser alterada da noite para o dia. Mas a digitalização colocou a imprensa diante de um dilema atroz: mudar ou morrer. Os veículos de comunicação do país já estão mudando em várias áreas da atividade jornalística, mas a cobertura eleitoral ficou para trás.

Os novos tempos mostram que a interatividade entre os eleitores, que é onde as decisões são tomadas, está sendo monopolizada cada vez mais pelas redes sociais, ao mesmo tempo em que a internet passa a ser o grande repositório de programas e documentos partidários. As emissoras de rádio e televisão continuam imbatíveis nos debates ao vivo, onde a impossibilidade de aprofundar temas é compensada pela carga emocional do confronto entre candidatos.

O que sobra para a imprensa escrita é talvez a parte mais importante de todas: a redução da desorientação coletiva causada pela multiplicação de versões contraditórias, denúncias e acusações de origem duvidosa. Não há nenhum outro veículo de comunicação com tantas condições favoráveis para exercer essa função como os jornais e revistas porque ambos podem ir mais fundo na investigação e na verificação dos dados.

Muitos jornais podem até alegar que já fazem isto, mas falta o envolvimento com o leitor para saber quais são as suas dúvidas e preocupações.A imprensa só faz isso superficialmente porque o seu foco prioritário são os objetivos da elite governante e empresarial do país, que é de onde saem as verbas publicitárias que até agora mantinhamequilibrado o orçamento dos jornais.A realidade está exigindo uma ruptura de modelos editoriais também na cobertura eleitoral. 

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