Código Aberto

Notícia líquida, jornalismo fluido

Postado por: Carlos Castilho | 2 comentários

Parece jogo de palavras, mas não é. A notícia deixou de ser algo estático, definitivo e acabado. A avalancha informativa na internet permite agregar novos detalhes, de forma ininterrupta. A notícia torna-se assim algo, por natureza, mutável, líquida como a água. Isso faz com que o jornalismo acabe assumindo também características fluidas, sem verdades definitivas, sem categorias fixas e, sobretudo, assumindo a dúvida e a relatividade como constantes no ato de informar.

Esta nova forma de caracterizar a notícia e conceber a atividade jornalística tem a ver com a nova realidade que estamos vivendo, onde dicotomias tipo bom/mau, bonito/feio, verdadeiro/falso ou justo/injusto são cada vez mais relativizadas na medida em que a diversidade de dados veiculados pela internet permite multiplicar as visões de um mesmo fato, número ou evento.

Nessas circunstâncias, o leitor, ouvinte, telespectador ou internauta acaba tendo que revisar seus comportamentos e seus valores gerando dois tipos de postura: assumir a fluidez do ambiente informativo ou agarrar-se aos comportamentos e valores conhecidos e seguros, apesar de questionados pela realidade que nos cerca.

A imprensa brasileira, e também a de outros países, vive hoje o dilema de abandonar rotinas, valores e procedimentos tidos como seguros para aventurar-se no terreno desconhecido e inseguro do novo, daquilo que ainda não foi testado e experimentado. Isso reflete um divisor de águas de toda a sociedade contemporânea, que vive um momento de transição de modelos, que lembra o início da revolução informativa provocada pela descoberta dos tipos móveis, por Gutenberg, na metade do século 15.

A atual campanha eleitoral não é apenas uma corrida entre candidatos e uma disputa entre grupos políticos e econômicos pela conquista de mais quatro anos de controle da máquina estatal. Ela é também um laboratório para as empresas de comunicação e para os jornalistas, onde está sendo posta à prova a relação entre a imprensa e os leitores.

A “onda” Marina mostrou que existe um movimento difuso, sem líderes, sem propostas estruturadas e fora dos padrões ideológicos convencionais que, volta e meia, emerge no cenário político nacional, como aconteceu nas manifestações de junho do ano passado e na eleição de Lula, em 2002. São manifestações de uma bolha de inconformismo social que a imprensa não consegue entender e, por isso, é sempre apanhada de surpresa, adotando geralmente a posição conservadora ao não conseguir enquadrar o fenômeno dentro do seu modelo de análise da realidade.

A ‘ola’ Marina e a cobertura da imprensa

Postado por: Carlos Castilho | 3 comentários

A onda Marina surgiu como as olas tradicionais em estádios de futebol. Ninguém sabe quem começou tudo, mas o certo é que ela assumiu logo a proporção de um tsunami ao catapultar a candidata socialista dos 9% aos 34%  29% das intenções de voto, segundo o Ibope. A única explicação possível para um desempenho tão espetacular é uma identificação espontânea dos eleitores desiludidos, especialmente os mais jovens, com a enigmática Marina Silva.

Foi o suficiente para os três maiores jornais do país (Folha de S.PauloEstado de S.Paulo e O Globo) mudarem de estratégia assumindo os receios temores da elite política do país, temerosa de que a ola Marina sinalizasse uma perda de controle sobre o processo eleitoral graças à participação não estruturada de grupos jovens, muitos dos quais se identificam com as manifestações de rua de junho do ano passado.

A imprensa adotou uma posição sutilmente crítica a Marina insistindo na questão da controvertida posse do avião que matou Eduardo Campos e na igualmente discreta referência às contradições da plataforma e das alianças partidárias por trás da candidatura socialista. É o método de plantar dúvidas para colher posicionamentos, estratégia que deu resultados com a campanha do pessimismo para colocar Dilma Rousseff na defensiva.

A imprensa não ataca diretamente porque isso violaria a imagem de independência e isenção na campanha eleitoral, que serve de escudo contra acusações de subordinação a alguma das candidaturas. Mas semeia suposições, insinuações, informações sem contexto definido, denúncias vagas e, com isso, vai sedimentando uma desconfiança difusa que impregna o modelo mental dos eleitores na definição de voto.

Por mais que a propaganda eleitoral seja regulamentada e regulada nos mínimos detalhes, ela não consegue atingir os meandros do complexo processo de captação dos insumos informativos que alimenta a formação do que os psicólogos chamam de mapa mental, o conjunto de informações arquivadas na memória de curto prazo do indivíduo e que servem de base para a tomada de decisões.

É difícil, quase impossível, parar uma ola, porque ela é alimentada por predisposições muitas vezes ignoradas pelos próprios participantes. Parar uma ola num estádio de futebol equivale a ser antipatizado e hostilizado imediatamente pelos demais torcedores. No caso Marina, vale a mesma regra e a estratégia é plantar dúvidas e incertezas, como vem fazendo a grande imprensa, ao insinuar que as ondas passam e que muita coisa ainda vai acontecer até o dia das eleições.

ola Marina pode não aguentar até o dia 5 de outubro, assim como as manifestações de junho do ano passado não chegaram até a Copa do Mundo com o vigor mostrado nas ruas de São Paulo, Rio, Brasília e outras cidades brasileiras. Mas o fato de ser não estruturada, pois até os adeptos de Marina foram surpreendidos pela disparada nas pesquisas, mostra que há muitas outras razões por trás do fenômeno.

O enigma Marina desafia a imprensa da mesma forma que os jornais e as emissoras de televisão foram apanhados de surpresa nos protestos, há um ano. É que a nossa mídia está de tal forma condicionada pelo pensamento da elite política do país que tem dificuldade em interpretar fenômenos que fogem às regras tradicionais de comportamento eleitoral.

A massa difusa de desiludidos políticos que alimentava o voto nulo ou branco e a abstenção parece agora se materializar na ola em torno da frágil figura da ex-senadora acreana. Politicamente é um fenômeno relevante, porque um alto percentual de votos nulos e brancos sinaliza um protesto marginal, mas o crescimento da simpatia popular por Marina traz a incerteza e a insegurança para dentro do sistema.

ola Marina é um processo independente da candidatura e não necessariamente tem os mesmos objetivos. É bem provável que ocorra um divórcio, em algum momento, antes ou depois das eleições, porque a dinâmica dos desiludidos e indignados é bem diferente da dos militantes partidários da coligação liderada pelo Partido Socialista. A ola é ao mesmo tempo a grande força e a principal debilidade da candidata Marina Silva. 

Por que o horário eleitoral gratuito é tão chato?

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

A resposta é simples: porque os indivíduos que aparecem na TV e no rádio estão prioritariamente preocupados com seus objetivos pessoais, ou do partido onde estão hospedados. Assim, o eleitor não tem o menor interesse em deixar o que está fazendo para ouvir uma sequência monótona de promessas e currículos pessoais. E nessas condições, o horário eleitoral não cumpre, nem de longe, a sua missão teórica de preparar as pessoas para votar.

Na verdade, o espaço gratuito para propaganda política virou um teatro e uma arena. Teatro porque por ele desfilam personagens que tentam atrair a atenção dos poucos espectadores e ouvintes mais pelo histrionismo do que pelas propostas. Arena porque os candidatos disputam segundos de visibilidade como uma questão de vida ou morte, onde a preocupação com a concorrência dos demais candidatos pesa mais do que a com o interesse do público.

Pesquisas acadêmicas mostraram que as pessoas procuram notícias que lhes permitam produzir mais, consumir melhor e ter mais opções de prazer. Estes são os três elementos mais importantes no poder de atração de uma notícia, do ponto de vista dos leitores e audiências. A política não se encontra entre essas prioridades, o que é um grande paradoxo, porque é por meio dela que são tomadas decisões que afetam a vida das pessoas.

A política só ingressa na agenda de interesses do público quando é associada a escândalos, violência, ou quando ganha, durante processos eleitorais, características que a assemelham a uma corrida de cavalos. Quando isso não acontece é muito pouco provável que um indivíduo decida ir a uma sessão da Câmara Municipal, Assembleia Legislativa ou da Câmara de Deputados para ver o que está sendo discutido e votado. Só vai, em grupo, para fazer lobby por alguma questão corporativa.

A política, como prática social, é algo complexo – o que a coloca de imediato fora das preocupações da imprensa cuja sobrevivência financeira depende da publicação de notícias de consumo fácil para servirem de chamariz para a publicidade. O debate de questões como política salarial envolve uma diversidade enorme de dados, conhecimentos, contextos, interesses e procedimentos. 

A imprensa deveria traduzir toda essa gama de fatores num formato comunicativo compreensível por diferentes segmentos da população, procurando alimentar debates em grupos sociais para que estes possam participar melhor na solução de seus desejos e necessidades. Mas como a política é um item noticioso de vendagem difícil para os anunciantes, o resultado é um arremedo de cobertura que cumpre uma função burocrática formal, mas profundamente entediante para o eleitor.

Como a maioria dos candidatos usa a política para manter ou conquistar empregos e poder, enquanto a imprensa sabe que a mistura de negócios e eleições sempre acaba atropelando a ética, fica fácil perceber como o eleitor se transformou num personagem descartável na propaganda eleitoral pelo rádio e televisão.

Os políticos só mudam de comportamento sob pressão porque isto ameaça seus empregos. Quem pode alavancar esta pressão é a imprensa, se ela resolver apostar em quem realmente garante a sua sobrevivência, o leitor. Os jornais e a televisão começaram a alimentar esse processo com as denúncias de corrupção e mau uso do poder pelos políticos. Mas a estratégia ainda não conseguiu provar que seu objetivo é a mudança da cultura política e não um instrumento para que partidos e políticos promovam retaliações recíprocas.

Enquanto a imprensa não vestir a camiseta do esforço para mudar a cultura política por meio de um processo longo e inevitavelmente complexo, ela ficará na incômoda posição de ter que aguentar um horário eleitoral gratuito que afugenta o público, e ao mesmo tempo contribuir para a chatice da propaganda ao tornar-se cúmplice de um sistema que aumenta a tentação do voto em branco, nulo e abstenção

Não há notícia sem conhecimento

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

A afirmação é do professor dinamarquês Teun van Dijk, que ficou mundialmente conhecido por suas pesquisas sobre a relação entre notícia, conhecimento e psicologia. Para ele, a qualidade da notícia está ligada ao conhecimento do jornalista sobre o tema abordado e ao contexto psicológico onde a matéria foi investigada e redigida.

A observação cai como uma luva para entender a natureza da cobertura da nossa imprensa sobre a situação atual do país. A qualidade das notícias publicadas em jornais, revistas, telejornais e sites noticiosos vem se degradando aceleradamente porque os repórteres e editores não conseguem mais agregar conhecimento devido ao ritmo industrial de produção jornalística e à complexidade dos temas em debate.

Isto ocorre paralelamente à intensificação da incerteza psicológica dos profissionais causada por fatores como temor ao desemprego, insegurança cognitiva sobre os assuntos pautados para publicação, dúvidas sobre o tipo de interesse embutido em dados fornecidos por fontes e entrevistados e, finalmente, o efeito patrulhamento, exercido por leitores.

Tudo isto contribui para que a informação publicada sobre a campanha eleitoral brasileira de 2014 possa ser considerada uma das mais burocráticas e desinteressantes das últimas décadas. Isto porque o noticiário atual procura transmitir agora uma imagem de imparcialidade para sacramentar a estratégia do pessimismo informativo desenvolvida desde o início do ano e que procurou criar o clima no qual os eleitores decidirão seu voto.

O noticiário sobre a campanha não transmite absolutamente nenhum conhecimento ao eleitor e, portanto, não o ajuda em nada na difícil tarefa de separar o joio do trigo na verborragia dos políticos. A cobertura limita-se a registrar os deslocamentos dos candidatos, referências telegráficas aos temas abordados em discursos e entrevistas. O máximo de conhecimento que a imprensa procura agregar são interpretações superficiais sobre o desempenho dos candidatos em entrevistas no Jornal Nacional

A maioria dos candidatos, especialmente os presidenciais, adotou um estilo de comunicação extremamente pontual, ou seja, dirigem-se a públicos específicos abordando problemas também específicos. Quem não pertencer a um destes públicos simplesmente fica, como se diz na gíria, vendido, ou seja, não tem condições de entender nada, porque a imprensa não fornece dados para que o discurso eleitoral possa ser contextualizado.

Se a imprensa estivesse realmente a serviço do eleitor, já estaria cansada de perceber que se transformou numa mera repassadora de recados. A ausência de agregação de conhecimento torna difícil classificar o que é publicado como sendo notícia jornalística.

A polêmica afirmação de van Dijk, feita num artigo publicado em 2004, tem como base o pressuposto de que, quanto mais o jornalista conhecer o assunto sobre o qual escreve ou narra, mais fácil de ler e compreensível será o material publicado ou transmitido. Todo jornalista conhece, ou deveria conhecer, esta relação estreita entre a notícia, como dado inédito, e o conhecimento, mas são raros os que têm condições para pô-la em prática na rotina diária. O ritmo industrial de produção informativa faz com que a mecânica do preenchimento de espaços em papel ou em tempo de radio ou TV se sobreponha à preocupação em contextualizar a notícia.

Cada leitor desenvolve uma representação mental, construída a partir de notícias, da realidade que o cerca. Este modelo mental é consolidado ou desestruturado pelo conhecimento contextual adquirido por um indivíduo. Quando você recebe diariamente notícias sobre o deterioro da situação econômica do país, mas não tem elementos para saber se isto é real ou fictício, acaba assumindo que a situação está realmente ruim (o modelo mental) e a partir daí toma suas decisões pessoais.

O que o noticiário eleitoral da imprensa faz é sonegar conhecimento aos seus leitores, gerando com isto uma agenda enviesada e partidarizada, com a aparência de imparcialidade e objetividade. Não existe imprensa imparcial porque ninguém é imparcial. Todos nós reagimos em função das percepções que captamos da realidade por meio dos nossos sentidos. O que torna a nossa parcialidade socialmente correta é a preocupação com a agregação de conhecimento, ou seja, de outras percepções possíveis da realidade. Mas isto a imprensa não faz e, consequentemente, o que publica não é notícia e sim marketing eleitoral

Jornalistas na faculdade, professores na redação

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

Esta pode ser a saída para um problema que já era grande antes da internet e aumentou ainda mais de intensidade na era digital. Academia e redações sempre tiveram uma relação tensa por conta de prioridades diferentes na forma de encarar o exercício do jornalismo. Agora, a crise no modelo de negócios das empresas jornalísticas e a preocupação dos profissionais em encontrar alternativas para o enxugamento das redações criaram uma situação em que a academia e as redações estão condenadas a buscar um novo relacionamento.

O programa “Back to Newsroom” (De Volta às Redações) é uma das raras experiências em curso no mundo da comunicação onde a meta é dar aos professores de jornalismo a oportunidade de conviver durante algum tempo com a dinâmica das redações na era digital. O projeto é uma iniciativa do International Center for Journalists (Centro Internacional de Jornalistas) e tem como objetivo, além da troca de experiências e perspectivas profissionais, buscar estratégias para ampliar a diversidade étnica e cultural nas redações norte-americanas.

Alguns professores que participaram das primeiras turmas do “De Volta às Redações admitiram que há uma grande defasagem entre o que é ensinado nas faculdades e o que é praticado nas redações em matéria de jornalismo em ambiente digital. Embora, por exemplo, o discurso da convergência de plataformas seja consensual nas faculdades, ele assume outra perspectiva na prática das redações. A maioria dos cursos ensina os alunos a usar o vídeo segundo técnicas da televisão e não conforme as condições para aplicação em telas pequenas como tablets e celulares.

Mas o retorno às redações pode ir muito além das questões técnicas na nova realidade digital do jornalismo. E a principal delas está na discussão das mudanças no contexto social, econômico e cultural no qual está inserido o jornalismo praticado na internet. Há um enorme descompasso entre as universidades e as redações na forma de encarar o jornalismo dentro da chamada sociedade da informação e do conhecimento. A academia avançou muito mais do que as redações na análise das mudanças estruturais e conjunturais da comunicação na era digital. Mas em compensação tem grande dificuldade em acompanhar o surgimento ininterrupto das chamadas TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação) e mais ainda de verificar as consequências sociais e econômicas da inovação tecnológica.

As redações tendem a encarar as TICs como meras ferramentas para agilizar o trabalho de repórteres e editores, deixando de ver que a chamada revolução digital é muito mais do que a substituição do telex e da máquina de escrever pela internet e pelo computador. A desatenção com as consequências sociais das TICs levou as redações a não perceber como a revolução digital está mudando a natureza do jornalismo praticado na era da digitalização e da computação.

O jornalismo está deixando de ser uma atividade predominantemente voltada para a produção da commodity notícia para se transformar num componente indispensável da produção de conhecimento – e, através dele, da geração de capital social, um item obrigatório para crescimento social e econômico de comunidades sociais. A notícia jornalística está perdendo a sua condição de mercadoria de troca por anúncios publicitários para ser o elemento gerador de informações, que por sua vez são a matéria-prima do conhecimento.

A troca temporária de papéis entre professores e profissionais no jornalismo é talvez a única forma disponível no momento para procurar eliminar, ou pelo menos reduzir, o descompasso entre redações e academia no que se refere às incompreensões mútuas sobre o papel da atividade jornalística na conjuntura atual.

O programa “Back to Newsroom” prioriza o intercâmbio entre redações e as faculdades de jornalismo, mas a atividade informativa é hoje cada vez mais interdisciplinar. É impossível desenvolver um jornalismo voltado para a produção de conhecimento sem uma interação com outras disciplinas. A velha técnica de “pescar” na economia, por exemplo, os dados para inserção no contexto da notícia commodity visando a audiência, afastou o jornalismo profissional dos centros de pesquisa acadêmica.

O jornalismo na era digital é uma atividade multi e interdisciplinar, ou seja, ela precisa de outras disciplinas para poder cumprir com a sua função de participar na produção de conhecimento socialmente relevante. A academia não é uma espécie de reserva intelectual do jornalismo, um banco de conhecimentos que é consultado em momentos de necessidade ou quando o jornalista precisa dividir a responsabilidade de uma informação com algum professor ou pesquisador. 

A troca temporária de papéis é uma oportunidade única para buscar uma nova relação entre as redações e a academia. A experiência do “Back to Newsroom” sinaliza um caminho a ser percorrido, ampliado e diversificado. Caso isso não aconteça, os dois lados sairão perdendo.

A alternativa comunitária no jornalismo contemporâneo

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Cento e trinta profissionais perderam seus empregos na Rede Brasil Sul (RBS), parceira da Rede Globo no sul do Brasil. E nos Estados Unidos, a Associação Americana de Editores de Jornais (ASNE) revelou que 1.300 jornalistas norte-americanos foram demitidos por empresas jornalísticas durante o ano de 2013. 

Os dois fatos mostram a manutenção da tendência das empresas de comunicação em cobrir perdas operacionais com o enxugamento de redações, uma política que já foi comparada inúmeras vezes ao ato de dar um tiro no próprio pé. Já se tornou um lugar comum afirmar que a minimização das redações e a substituição de profissionais experientes por recém-formados implica uma queda de qualidade na produção jornalística, o que inevitavelmente se reflete na perda de leitores e redução da receita dos jornais e revistas.

No caso americano, o desemprego entre jornalistas no ano passado foi menor do que em 2012, quando chegou a 2.600 demitidos em 12 meses. Mas se tomarmos em conta os números desde 1989, a redução do número de empregos em redações jornalísticas nos Estados Unidos chega a espantosos 35%, um índice que a própria ASNE considera preocupante.

A insistência no recurso à redução da força de trabalho nas redações mostra a dificuldade dos executivos de empresas jornalísticas em aceitar o ajuste de expectativas financeiras nesta transição da era analógica para a digital no setor da informação e comunicação. Acostumados a lucros líquidos da ordem de até 30%, os donos de conglomerados jornalísticos qualificaram inicialmente como transitória a queda abrupta de lucratividade na virada do século; com isso, perderam tempo precioso para ajustar-se à nova realidade e agora ficaram sem reservas para enfrentar a mudança que é permanente e irreversível.

Ninguém tem ainda uma fórmula para resolver a crise do modelo de negócios das empresas, mas os jornalistas demitidos já começam a vislumbrar alternativas e elas se concentram em duas áreas: os nichos informativos especializados e o jornalismo comunitário. Nenhuma delas oferece salários milionários, mas pelos dados mais recentes, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, os profissionais estão mais preocupados em explorar novas oportunidades do que com o contracheque.

Os nichos informativos são atraentes na medida em que o profissional pode explorar de forma individual – ou com um reduzidíssimo número de parceiros – a experiência, dados, informações e contatos acumulados durante o trabalho em redações. Muitos estão vendendo matérias jornalísticas para as mesmas empresas que os demitiram. O problema é que a consolidação financeira de um nicho informativo demora tempo, o que vai exigir paciência e uma poupança prévia para sobreviver. Mas depois de consolidado, o nicho informativo é financeiramente estável, como demonstram os casos de profissionais que renunciaram a empregos sólidos para criar o seu próprio negócio.

Mas a maioria dos desempregados está procurando uma forma social de sobreviver à perda do emprego com garantias trabalhistas. Trata-se do jornalismo comunitário, uma tendência em franca ascensão na imprensa norte-americana, alimentada pela emergente preocupação das pessoas em resolver problemas locais diante da ineficiência e gigantismo da máquina administrativa estatal. O ressurgimento da pequena imprensa local, que está sendo estudado aqui no Brasil pelo projeto “Grande Pequena Imprensa”, do Instituto Projor/Observatório da Imprensa, gerou um aumento da vendagem das publicações locais da ordem de 2,78% em 2013, apesar da crise na indústria da comunicação jornalística.

Em agosto deste ano, a Columbia Journalism Review identificou um forte crescimento no número de iniciativas de jornalistas na captura, processamento e análise de dados municipais, um filão do jornalismo em base de dados que estava inexplorado. Esta emergente tendência revive a ênfase no patrulhamento das gestões municipais diante da preocupação dos cidadãos com a aplicação dos recursos pagos em impostos.

Ainda segundo a CJR, jornais locais como o The Plain Dealer, da cidade de Cleveland, no estado de Ohio (EUA), já produzem quase metade de sua pauta diária de notícias a partir da análise de dados da prefeitura. A produção de notícias a partir de estatísticas está sendo realizada essencialmente por profissionais recém-formados e por jornalistas experientes, uma combinação de talentos que tem se revelado fundamental para o aumento dos acessos ao site do jornal e na vendagem em bancas.

Na Holanda, o jornal Dichtbij transformou-se num fenômeno do jornalismo local ao acumular lucros nos últimos dois anos, apesar do ceticismo dos executivos centrais do conglomerado Telegraaf Media Group (TMG), que controla a publicação. Criado em 2010, o Dichtbij, um dos 44 jornais locais do grupo, foi deficitário até 2012, quando passou a colher os frutos de uma controvertida estratégia publicitária. O jornal oferecia dois anos de publicação grátis para anunciantes se eles firmassem um contrato de cinco anos, os três últimos com pagamentos mensais.

Hoje o Dichtbij tem 30 funcionários, metade deles jornalistas, e deixou de ser um peso dentro das finanças do TMG, cujos executivos já começaram a copiar o mesmo esquema para outros jornais locais do grupo.

Aqui no Brasil o jornalismo comunitário ainda é pouco valorizado, apesar da experiências significativas como O TREM Itabirano, em Itabira, Minas Gerais ou o Voz de Rio das Pedras, no Rio de Janeiro. Há várias outras iniciativas que ainda não ganharam relevância nacional por falta de circulação de informações sobre o segmento. A troca de experiências neste segmento é vital para a sobrevivência das publicações porque todas podem aprender com os erros e sucessos mútuos.

Para os jornalistas desempregados no Brasil, a alternativa da imprensa comunitária pode ser bem mais do que a busca de uma nova fonte de renda. Pode ser a reinserção da profissão na utilização da notícia na produção de conhecimento socialmente relevante e com ele gerar mais capital social capaz de alavancar o desenvolvimento socioeconômico de comunidades sociais. 

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