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O maior desafio do jornalismo no início da era digital

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

A relação com os leitores, ouvintes, telespectadores e internautas passou a ser o principal objetivo estratégico em grandes empresas jornalísticas em luta pela sobrevivência no disputado mercado da audiência em jornais, revistas, telejornalismo audiovisual e páginas web de noticiário. É que as empresas já se deram conta de que não é mais viável apoiar o modelo de negócios apenas nas receitas publicitárias.

O novo objetivo marca também uma guinada radical na estratégia editorial dos veículos porque a busca de fidelização inevitavelmente implica a necessidade de retribuição, ou seja, a prestação de algum tipo de serviço. Até agora a imprensa usava a notícia com moeda de troca, mas esta matéria-prima se tornou tão abundante e onipresente que o seu preço despencou, tendendo a zero.

O relacionamento com o público, ou o engajamento comunitário (expressão traduzida do jargão inglês community engagement) é um desafio há pelo menos quatro anos para a maioria das páginas noticiosas online preocupadas em sobreviver na concorrência brutal entre projetos muito parecidos. O grande obstáculo sempre foi a questão dos comentários postados por leitores, uma forma de dar participação do público mas que funciona como uma faca de dois gumes, dada à forte incidência de intervenções agressivas, irresponsáveis e xenófobas.

Para obter a fidelização do público, por enquanto as empresas dependem de duas estratégias principais: oferecer serviços de interesse e utilidade para sua clientela ou admitir participação por meio de comentários. A prestação de serviços esbarra na relação custo/benefício, embora já existam várias experiências em curso, especialmente nos Estados Unidos. Mas a questão dos comentários ainda provoca discussões agudas nas redações.

Há duas linhas predominantes no que se refere à participação do público: a humanizada e a baseada em algoritmos. A humanizada pressupõe a mediação de jornalistas profissionais visando a formação de comunidades de leitores, ouvintes, telespectadores ou internautas por meio da troca de opiniões e dados sobre temas de atualidade. A experiência mostrou que o processo mediado é o mais eficiente em termos de fidelização, mas é de médio e longo prazo, além de exigir a especialização de um ou mais jornalistas.

O uso de softwares baseados em algoritmos é a opção preferida de quem busca resultados rápidos e com pouco envolvimento das redações. É o objetivo do projeto que acaba de ser anunciado pelos jornais norte-americanos The Washington Post e The New York Times, em parceria com a empresa Mozilla, criadora do navegador Firefox (ver, neste Observatório, “Jornalões se unem para melhorar sistema de comentários online”). O projeto conta com um financiamento de 3,9 milhões de dólares que serão gastos no desenvolvimento de uma plataforma gerenciadora de comentários, usando processos analíticos e de linguagem natural para selecionar as contribuições relevantes e eliminar os comentários agressivos, xenófobos e/ou contenham dados falsos.

O acordo entre o Post e o Times é original não apenas pelo fato de buscar uma solução tecnológica para uma questão de fundo social, psicológico e político, mas também porque marca uma inédita colaboração entre empresas concorrentes. Se dependesse apenas dos dois jornais, provavelmente a experiência não aconteceria dada a rivalidade passada, mas como ambos enfrentam agruras financeiras decorrentes da queda da receita publicitária, o financiamento por parte de uma fundação norte-americana funcionou como eliminador de velhas desconfianças.

O certo é que o relacionamento com a audiência passou definitivamente para os primeiros lugares na estratégia de sobrevivência das empresas jornalísticas. Após mais de um século de olímpico distanciamento em relação ao público, as corporações do setor da comunicação estão sendo obrigadas a rever modelos em consequência da generalização do uso das novas tecnologias de comunicação e informação. Não é uma mudança simples de rumo e os conflitos culturais da nova orientação mal começaram a ser identificados.

O grande desafio é como os jornalistas e executivos de jornais aceitarão um diálogo em pé de igualdade com o público. A imprensa sempre assumiu um certo ar de superioridade em relação aos leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. Era uma comunicação unidirecional e hierárquica. A nova realidade digital está empurrando as redações para uma relação multidirecional e igualitária, que obriga os profissionais a ter que lidar com o ressentimento de uma parcela considerável do público. A experiência tem mostrado que isso exige paciência, tolerância, persistência e, principalmente, muita informação.

Multidirecional porque as redes sociais implantaram o sistema “muitos-para-muitos” ao descentralizar o tráfego de mensagens escritas, sonoras e visuais. Antes era um jornalista respondendo para muitos leitores, uma mesma carta. Agora os leitores tendem a ocupar os espaços e discutem entre si, independente do que propõe o jornalista ou o veículo de comunicação. Muitos comentaristas já se consideram donos dos espaços para reações do público.

Um sistema igualitário de comunicação porque o jornalista não pode mais dar conta sozinho da filtragem, seleção, agregação de valor e distribuição da massa de dados que passou a compor o fluxo diário de notícias. Os profissionais precisam da colaboração do público e, para que isso aconteça, é necessário um ambiente de parceria entre iguais, com responsabilidades, habilidades e competências diferentes.

A experiência tem mostrado também que o grande problema no chamado engajamento comunitário do jornalismo digital não é a tecnologia, embora ela seja um componente importante e indispensável. A questão crucial está no problema cultural, porque este depende de seres humanos, cuja adaptação às consequências da introdução de novas tecnologias é historicamente um processo complexo, lento e imprevisível. Este é talvez o maior de todos os dilemas do jornalismo do século 21.

Tendências no jornalismo: sola de sapato ou neurônios?

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

Na era analógica, pré-internet o senso comum no jornalismo apontaria o esforço físico como a prioridade, mas na era digital é o trabalho intelectual que começa a exigir mais dedicação dos profissionais da comunicação.

Antes da internet, os repórteres precisavam correr atrás da informação onde ela estivesse, o que exigia gastar um bocado de sola de sapato, sem que isto significasse que os neurônios deixassem de ser indispensáveis. As novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) inverteram as prioridades no trabalho jornalístico, fato que muitos profissionais experientes ainda não lograram assimilar.

O uso intensivo do intelecto tornou-se a principal exigência para os jornalistas da era digital por dois motivos:

1. As TICs deram às pessoas a possibilidade de transmitir ou publicar notícias (dados inéditos) fazendo com que os fatos, números e eventos cheguem até o repórter numa velocidade, intensidade e diversidade nunca vistos antes. As versões sobre uma mesma notícia chegam aos borbotões via blogs, redes sociais, micromensagens, correio eletrônico chats etc.

2. O problema não está mais em buscar notícias, mas em selecioná-las, filtrá-las e contextualizá-las. E isto é um trabalho basicamente intelectual, onde os neurônios são ativados de forma intensiva e constante. Para que um profissional dê conta dessa tarefa ele precisa ter cultura informativa – ou literacia, uma expressão anglófona para identificar a capacidade de trabalhar o conteúdo de uma informação e não apenas as técnicas de redação e formatação para publicação.

A cultura de valorizar o esforço físico e a obediência estrita às normas redacionais cedem espaço à exigência de estar bem informado, em vez de ter informações, e à valorização da versatilidade intelectual. A combinação desses fatores indica uma exigência de qualificação profissional muito superior a do jornalismo praticado nos moldes convencionais.

Estar bem informado não significa apenas ter fontes confiáveis e nem um nutrido caderno de telefones e e-mails. Significa ser capaz de recombinar notícias, dados, fatos, eventos e processos, bem como situá-los no contexto do público-alvo do jornalista. Os manuais são ótimos para normatizar a formatação de textos e narrativas audiovisuais, mas eles não servem para orientar o processo de remixagem de conteúdos informativos. Isto é um trabalho individual ou de grupo, onde as regras são menos importantes que a criatividade e inovação.

O trabalho numa redação jornalística está deixando de ser fordista (estratégia de produção baseada em linhas de montagens) para ganhar características de brain storm permanente. Isso não quer dizer que até agora os jornalistas não usavam o intelecto. O problema é que o esforço físico para ir buscar as notícias era tão intenso que acabava ganhando mais importância dos repórteres e editores porque atendia à necessidade de enfrentar a concorrência.

A dificuldade é que muitos professores de jornalismo e donos de empresas jornalísticas ainda lidam com o computador como se ele fosse um máquina de escrever mais rápida e versátil, bem como encaram a internet como um telégrafo inteligente e instantâneo. Está em curso uma mudança cultural mais ampla do que simplesmente adotar novos formatos, normas, equipamentos e processos.

O jornalista e o jornalismo estão imersos num ambiente informativo marcado pela avalancha de dados e informações. O trabalho com o sistema de buscas Google é obrigatório porque ele é um auxiliar indispensável para a filtragem e seleção de dados a serem usados numa reportagem.

Mas só o Google não resolve porque é necessário ver os números, fatos e eventos no seu contexto de origem e também no contexto do público-alvo. Para isso o repórter ou editor deve estar informado sobre o contexto original e sobre o do leitor, ouvinte ou telespectador. Um mesmo dado pode ter um significado na origem e outro completamente diferente no destino, e só quem pode fazer esta distinção é o jornalista.

Outra mudança importante. Os futuros jornalistas terão obrigatoriamente que saber lidar com dados porque estamos caminhando para uma sociedade movida a números. A digitalização permitiu transformar quase tudo em dígitos que podem ser processados sinalizando tendências e correlações. Caberá ao jornalista digital descobrir, na profusão de números, os sentidos e significados relevantes para o público.

Estamos diante de uma eventual quebra do paradigma “90% transpiração, 10% inspiração”.

Copa, a comercialização do patriotismo

Postado por: Carlos Castilho | 2 comentários

O futebol mobiliza paixões nacionais, entre elas a ideia do patriotismo ao qual está associada a noção de solidariedade. Esta é a tecla predominante da avassaladora operação de marketing deflagrada a propósito da Copa do Mundo e que serve para mimetizar um gigantesco negócio montado pela Fifa em parceria com pelo menos 20 conglomerados empresariais nacionais e estrangeiros.

Nós vamos torcer pela seleção brasileira, mas ao mesmo tempo estamos também participando de um empreendimento que levará 4 bilhões de dólares para os cofres da Fifa e deixará uma conta estimada em 14 bilhões de dólares a ser paga por nós. O futebol perdeu a condição de ser apenas um esporte para se tornar também, e às vezes majoritariamente, um grande negócio.

Como esporte, ele faz parte da nossa vida desde a infância. Está associado às nossas emoções, comportamentos, sonhos e desenvolvimento físico. O esporte é isso, mas a lógica do mercado o transformou numa ferramenta fantástica para gerar lucros, empreitada na qual a imprensa de todo o planeta é uma entusiasmada parceira.

A Fifa protagonizou uma verdadeira intervenção branca no Brasil a propósito da Copa do Mundo. Da administração dos estádios, organização de shows, segurança, publicidade, comercialização de ingressos até as arrogantes cobranças feitas ao governo brasileiro nos meses que antecederam o início do torneiro  torneio. Tudo passou pelo crivo da entidade com sede na Suíça, cuja contabilidade, há muitos anos, é objeto de um sigilo tão intenso quanto o dos depósitos em bancos suíços.

O fato do contribuinte brasileiro acabar arcando com uma conta de 31 bilhões de reais deveria ter sido um pretexto suficiente para que a imprensa fizesse um escrutínio sistemático dos gastos e principalmente da participação privada no orçamento da Copa de 2014. Um levantamento feito pela agência Pública indica que o investimento privado nas obras da Copa foi muito menor do que o anunciado inicialmente e que para não pagar mico, o governo brasileiro teve que bancar o grosso das despesas.

Faltou coragem à imprensa e ao governo Dilma para contar à população os detalhes da puxada de tapete dos antes entusiasmados patrocinadores privados das obras da Copa. A imprensa, porque sua preocupação com os lucros gerados pela avalancha publicitária nos meios de comunicação forneceu elementos suficientes para ela “olhar para o outro lado”, omitindo o tema. Já o Palácio do Planalto ficou mais preocupado com eventuais prejuízos eleitorais decorrentes de uma crítica direta a siglas relevantes no universo empresarial privado nacional e internacional.

Mas o que mais importa aqui é destacar que a confusão deliberada entre esporte e negócios no futebol não é de hoje e nem vai acabar tão cedo. É uma forma de enganar as pessoas, associando uma atividade esportiva – essencial ao corpo humano e ao convívio social – à busca do lucro. É uma associação complexa em que não adianta pintar um lado como bonzinho e ingênuo, e o outro como maquiavélico e ganancioso.

Essa confusão aparece a todo instante quando nos interessamos pelo campeonato brasileiro, pelos torneios de tênis, vôlei e nas competições de atletismo, só para citar algumas. O esporte está quase que totalmente mercantilizado e a imprensa assumiu um papel protagônico na promoção da indústria das competições. O problema não está em que ela participe do negócio, mas sim em que ela faça só isto, esquecendo que o esporte é, desde a sua origem grega, uma atividade não comercial.

A avassaladora preocupação com o lucro na Copa de 2014 mostrou o extremo a que pode chegar a corrida atrás do dinheiro que corrompe até mesmo os atletas, cujo desempenho passa a ser condicionado mais pelas vantagens financeiras do que pela identificação com a paixão dos torcedores. A Copa do Mundo deixou de ser uma competição sadia entre nações para se transformar num laboratório de negócios, da mesma forma em que foi transformado em arma política nos tempos da antiga União Soviética.

Quem perde é o cidadão comum, que ao assistir a uma partida de futebol ou comprar um tênis não sabe mais se está satisfazendo um impulso ou necessidade, ou se está sendo um inocente útil de uma campanha de marketing de um banco, cerveja, sabonete, operadora telefônica ou montadora de veículos. O problema não está na campanha, mas no fato dela esconder-se atrás da preocupação com o patriotismo e a paixão clubística. 

O Brasil é maior do que a sua imprensa

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

Parece frase de efeito ou afirmação de político em véspera de eleição, mas é verdade. A gente se dá conta disso ao ler o noticiário sobre a situação econômica do país, quando ora vemos dados e prognósticos otimistas e logo em seguida somos bombardeados com fatos e previsões totalmente pessimistas. O leitor fica confuso porque foi educado a achar que a imprensa é a expressão da verdade e da realidade.

Mas o que lemos, ouvimos e vemos é apenas a expressão de uma parte do país em que vivemos, e mesmo assim uma parte pequena porque temos uma população de quase 200 milhões de observadores da realidade enquanto a soma de todas as redações jornalísticas dificilmente chega a 50 mil profissionais. [Não tenho certeza deste número. Todas as fontes que consultei tinham apenas estimativas gerais.] A imprensa é o segmento mais qualificado para levar percepções da realidade até o público, mas ela é estruturalmente limitada nesta função, pois não maneja todos os dados e é obrigada a publicar versões e opiniões de outras fontes, que geralmente têm seus próprios interesses.

Por isso soa como um absurdo a pretensão de jornais, revistas e telejornais de apresentar o que publicam como se fosse expressão fiel da realidade global do país. Evidentemente a imprensa admite este absurdo, tanto que não afirma textualmente ser um espelho da vida que nos cerca. Mas de fato ela pratica esse tipo de distorção ao omitir dados, fatos e eventos que não se enquadram na sua política editorial e empresarial.

O mundo está se dando conta de sua incapacidade de perceber a realidade como um todo porque ela depende da soma e da recombinação das percepções de um número cada vez maior de seres humanos. Depois da avalancha informativa e da internet, estamos descobrindo a complexidade do mundo em que vivemos e as dificuldades para entendê-lo. Por isso, os cientistas e intelectuais que já se deram conta desse fenômeno assumem que sabem apenas uma parte da verdade e que outros conhecem o que eles ignoram.

Isso cria uma situação inédita entre nós, que é a de reconhecer nossa limitação cognitiva e de que precisamos do conhecimento de outras pessoas para identificar problemas e buscar soluções. O que nos leva inevitavelmente a um mundo com menos desequilíbrios informativos e a uma relativização generalizada do papel da imprensa como fonte de notícias para o nosso quotidiano.

Esse tipo de reflexão se torna necessário no momento em que interesses eleitorais empurram a imprensa e muitos jornalistas para situações do tipo “bom ou mau”, “contra ou a favor”, “justo ou injusto”. A realidade é bem mais complexa e tem mais do que apenas dois lados. Reduzir o mundo a apenas isso equivale a transmitir uma visão falsa e distorcida do ambiente que nos cerca e, portanto, criar condições para que o eleitor corra o risco de fazer opções equivocadas.

A economia brasileira foi eleita pela imprensa como o principal parâmetro eleitoral para o pleito de outubro. A economia é, por natureza, uma área muito complexa do conhecimento humano e, portanto, sujeita a percepções equivocadas, omissões comprometedoras e afirmações generalizantes e enganadoras. Os economistas sérios sabem disso e procuram se precaver, mesmo lidando com números que, supostamente, são um símbolo da exatidão.

Mas quando a economia cai na arena eleitoral, as distorções e absurdos ganham dimensões desproporcionais e geram consequências imprevisíveis. A imprensa tem uma enorme responsabilidade nesse processo e a obrigação de saber as limitações de sua função e dos temas com os quais está lidando. 

É difícil aos jornalistas identificar as complexidades das informações que transmitem, principalmente quando os profissionais fazem parte de verdadeiras linhas de montagem industrial de notícias em grandes jornais ou telejornais. Também não se pode fazer um julgamento dicotômico de quem trabalha num veículo de comunicação, mas isso não serve como desculpa para ignorar que a realidade do país é muito mais ampla e complexa do que a transmitida por sua imprensa.

A violência na classe média, item diário da agenda da imprensa

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

O caso do porteiro esquartejado em São Paulo parece ser o candidato fácil ao título de crime monopolizador das atenções de jornais e telejornais da primeira semana de junho, seguindo fielmente a tristemente célebre regra do “se sangrar vira manchete” (adaptação da frase inglesa “if it bleeds, it leads”). Nem mesmo o frenesi pré-Copa foi capaz de tirar das primeiras páginas o crime protagonizado por um publicitário paulista.

Este é apenas o mais recente de uma série de assassinatos que ganharam projeção nacional graças à preocupação da imprensa em explorar delitos que envolvem famílias da classe média. Os crimes na classe C e D não despertam mais a mesa curiosidade dada a sua monótona frequência e motivos quase sempre ligados à precária situação econômica das vítimas e criminosos.

Antes do caso do porteiro morto por um morador do prédio onde trabalhava, assistimos durante mais de uma semana aos detalhes sórdidos do assassinato do menino Bernardo, de 8 anos, no Rio Grande do Sul. Retrocedendo mais no tempo encontraremos uma lista consistente de crimes em família, fato que leva a uma perturbadora dúvida: está aumentando a frequência de assassinatos na classe média brasileira, ou é a imprensa que está exagerando depois de descobrir um novo filão para atrair a atenção do público?

As estatísticas policiais podem oferecer elementos para atestar a veracidade ou não da primeira parte da pergunta, mas a observação crítica da imprensa mostra que a segunda parte é, pelo menos, parcialmente verdadeira. É óbvio que os jornais e telejornais não são os responsáveis pelos delitos cometidos entre pessoas da classe média, mas o fato de terem transformado dramas intrafamiliares em item de agenda noticiosa pode facilmente ser associado a uma preocupação com o faturamento.

A monotonia da cobertura jornalística sobre corrupção pública e privada, a crescente impopularidade e desinteresse pelo noticiário político, a sucessão de manifestações de protesto e o registro impotente dos assaltos, roubos e sequestros levaram a imprensa a buscar novos temas para reconquistar o interesse de um público cada vez mais viciado em redes sociais e no voyeurismo virtual.

A classe média urbana, antes protegida por uma cumplicidade da imprensa em relação aos seus conflitos domésticos, passou agora a principal protagonista de reportagens investigativas nas quais o voyeurismo e a solidariedade passional são os principais ingredientes da nova receita jornalística. Os segredos da vida privada tornam-se públicos e tema de intermináveis debates na imprensa sempre que coincidam com tragédias impactantes.

Por outro lado, em especial na TV, há um discreto incentivo à manifestação da ira comunitária e à cobrança de justiça a qualquer custo. Como jornais, revistas e televisão deixam de lado a investigação jornalística para privilegiar informações dadas por policiais, advogados, especialistas e magistrados, acabamos perdidos num mar de jargões, opiniões disfarçadas de verdades, silêncios cúmplices e dados distorcidos. Resultado: não conseguimos entender o que aconteceu, ficamos a espera de respostas, até que um novo crime monopolize as manchetes e, consequentemente, a nossa atenção.

A exploração comercial da violência nas famílias de classe média mostra tanto o estado de nervos de um segmento da sociedade até agora relativamente imune ao sensacionalismo,, como também o fato de a imprensa não conseguir romper a dependência das vendas como fator dominante da determinação da agenda de reportagens. Todos os crimes famosos dos últimos meses não produziram resultados conclusivos e permanece uma névoa de dúvidas sobre suas causas, implicados e consequências.

A classe média é o segmento mais dinâmico no contexto social contemporâneo do país. Todas as transformações verificadas desde que começou a política de distribuição de renda geram questões de enorme interesse público por conta das tensões e contradições que provocam. Mas a imprensa parece não ter se dado conta dos fenômenos sociais em curso e foca apenas no pior lado da ascensão da classe média, o seu descontrole emocional.

A mídia não deve deixar de cobrir os crimes, mas precisa situar o seu trabalho investigativo e documental num contexto de busca de soluções coletivas. Não adianta execrar assassinos e nem muito menos destruir reputações, se isto é promovido às custas do passionalismo e da curiosidade mórbida. A prisão não é o único e nem o mais eficiente desestímulo à banalização da violência na classe média. Saber por que e como o dinheiro, a busca de status, a conquista do poder e a competição desenfreada contaminaram as relações sociais é também uma missão da imprensa, porque afinal ela existe para servir ao cidadão e à sociedade. 

A boataria eleitoral assusta partidos e eleitores

Postado por: Carlos Castilho | 4 comentários

A boataria passou a fazer parte do nosso quotidiano e teremos que conviver com ela e suas consequências. Há pouco tivemos o caso do linchamento e morte de uma dona de casa em Guarujá (SP). Depois tivemos o caso do boato que acabou se tornando um dos responsáveis pela paralisação ilegal de um grupo de motoristas e cobradores de ônibus da capital paulista. E no dia 25 de maio a imprensa revelou que o PT, PSDB e PSB estavam preparando estratégias para conter a proliferação de boatos em redes sociais na internet, na campanha para as eleições presidenciais de outubro.

É o preço que estamos tendo que pagar pela conquista do poder de publicar opiniões na internet sem passar pelo crivo da imprensa. Há muita gente que lamenta este fato, mas é impossível voltar atrás. Seria o mesmo que tentar desinventar a televisão, o motor a combustão interna ou a roda. O jeito é aprender a conviver com a inevitabilidade de informações inverídicas ou distorcidas por meio de uma permanente leitura crítica do noticiário diário.

Embora ofuscada pela maciça propaganda em torno da Copa do Mundo, a campanha eleitoral para a sucessão presidencial de outubro surge como a grande arena para a boataria online. Os três partidos envolvidos diretamente na disputa presidencial criaram grupos especializados para lidar com os boatos, mas pelas informações divulgadas até agora todos eles pretendem travar a guerra na justiça em vez de fazê-lo no ambiente digital. 

Tudo indica que a estratégia dos principais aspirantes ao Palácio do Planalto será recorrer à legislação eleitoral, o que pode ser uma proposta arriscada, pouco eficiente e que em vez de acabar com os boatos poderá avivá-los mais ainda. Um boato não se proíbe, mas, sim, se neutraliza com informação veraz e confiável. Além disso, é muito complicado identificar o autor de uma informação falsa circulando na rede, já que ela é repassada centenas e até milhares de vezes entre usuários da internet.

É aí que parece estar a principal debilidade da estratégia dos políticos na previsível guerra de informações. Em campanhas anteriores, a grande preocupação era fazer propaganda do candidato, mas na era da internet o que vale é o tipo de dados e informações que os partidos fornecerão aos eleitores indecisos. A estratégia dos partidos era tentar convencer o eleitor, em vez de ajudá-lo a tomar uma decisão. Uma atitude impositiva em vez de uma postura colaborativa.

A conjuntura mudou porque aumentou o volume de informações disponíveis na internet, contribuindo para que o eleitor passasse a ter mais versões para um mesmo fato – o que aumentou o seu ceticismo e desconfiança em relação às promessas eleitorais. Com isso, tornou-se necessária uma nova estratégia para reconquistar a atenção das pessoas. 

É previsível a ocorrência de boatos grotescos que podem ser facilmente enquadrados na legislação eleitoral, mas o que provavelmente mais preocupa os partidos são os casos sofisticados, quando é difícil rotular o tipo de mensagem que está circulando na rede. O boato com aparência de verdade é o mais perigoso porque pode destruir reputações e o mais difícil de bloquear, porque se alimenta da dúvida, da curiosidade e da morbidez. 

A preocupação em usar a justiça para punir o adversário pode até dar certo em alguns casos, mas o que mais renderá votos é a preocupação em saber como o eleitor está reagindo aos boatos. A internet criou comportamentos políticos novos entre os eleitores diante da velocidade e amplitude da circulação tanto de informações verídicas como de rumores ou boatos. Com isso aumenta a possibilidade de mudanças súbitas e inesperadas no comportamento dos votantes. Para identificar esses movimentos é imprescindível estar atento ao tipo de preocupação do eleitor.

As grandes redes sociais já sabem que estarão no centro da polêmica e podem acabar como vilãs na boataria. Por isso tratam de minimizar os eventuais prejuízos a sua imagem corporativa, mas é evidente que elas não podem controlar seus usuários no caso de uma guerrilha de boatos digitais. O certo é que, à medida que avançamos na era digital, a disputa de votos em campanhas eleitorais passa a ser uma batalha informativa.

Os métodos tradicionais de valorizar a imagem pessoal ou o recurso ao corpo a corpo nas ruas para seduzir eleitores e conquistar simpatias perdem terreno para formas mais sutis de persuasão vinculadas ao uso da informação, um item imaterial e complexo que é fácil e barato para disseminar, mas muito difícil para avaliar, principalmente em situações emocionalmente carregadas – como uma eleição presidencial como a que nos espera no dia 5 de outubro. 

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