Código Aberto

Mobilidade informativa e as novas estratégias editoriais

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Os mais recentes estudos dos hábitos de acesso às notícias mostram uma preferência cada vez mais acentuada pelo uso de celulares inteligentes (smartphones) e tablets como veículos para informação pública. Um estudo da Associação Nacional de Jornais dos Estados Unidos (NAA, na sigla em inglês) mostrou um crescimento de 18% no uso de equipamentos móveis para acessar notícias, índice superior ao de todas as demais plataformas (impressos, rádio , telejornais e até mesmo o acesso via computadores fixos ou notebooks).

O resultado consolida a preocupação com a mudança dos padrões editoriais adotados pela maioria das empresas jornalísticas do mundo, inclusive a brasileira, que, apesar de não divulgar dados tão precisos como nos EUA, enfrenta o mesmo dilema. A tendência à atualização noticiosa com o uso de smartphones e tablets aumenta a urgência na definição de estratégias editoriais baseadas na prioridade dada à notícia dura (hard news) ou à contextualização interpretada.

Gera também a introdução de um item novo nos procedimentos de produção e publicação de notícias: o tempo de leitura, audição ou visualização. Até agora, o primeiro parágrafo de uma notícia escrita ou a primeira imagem concentravam a atenção dos editores de notícia porque eram considerados os grandes “ganchos” para chamar a atenção do público. Agora, sites como Medium e Slate começaram a publicar o tempo médio de leitura ou visualização num quadro próximo ao título principal. Com este dado, os editores online pretendem ajudar o leitor, ouvinte ou telespectador a achar novos nichos de tempo para acessar notícias.

A notícia dura é menos afetada pela questão tempo do que os conteúdos contextualizados publicados por páginas informativas online. A notícia dura é a principal matéria-prima jornalística dos equipamentos móveis por causa das limitações da tela de exibição e pelo fato de o usuário estar quase sempre fazendo outra coisa enquanto acesso um noticiário online. Se a notícia dura cumprir a sua função de levar o interessado a procurar mais dados sobre o tema noticiado, aí o tempo passa a ser um fator de estímulo ou desestímulo da leitura, audição ou visualização.

Os conteúdos contextualizados (informação) são o ponto forte das páginas online construídas pela leitura em computadores fixos, onde o usuário sofre menos a influência da divisão de atenções. Se ele tiver pouco tempo disponível, será atraído para a leitura de um texto curto, o que gera um outro dilema: como evitar que ele pare no meio a abandone tudo ou deixe de ver outras informações importantes, simplesmente pela pressa?

A preferência pela mobilidade informativa vai obrigar os jornalistas a acelerar a implantação da estrutura não linear que se caracteriza basicamente pela produção de blocos de dados relacionados a uma mesma notícia – e que serão acessados segundo os interesses e necessidades do usuário. Será uma forma de interligar o material publicado em smartphones e tablets com o inserido em páginas web acessadas preferencialmente por usuários de computadores fixos.

A formatação de uma notícia online deixa de ser feita a partir de padrões fixos estabelecidos em normas redacionais para tomar em conta, prioritariamente, o contexto do público. Isso muda a rotina nas redações porque o jornalista, ao escrever uma notícia, tem que ter um olho na relevância, atualidade, pertinência bem como na credibilidade do material a ser publicado, e o outro olho nos hábitos e comportamentos de quem vai ler. Nos jornais impressos e na televisão comercial isso não acontecia de uma forma tão intensa e constante.

Outra constatação da pesquisa revela que as mulheres são o grande fenômeno novo no acesso as notícias online. Nada menos que 92% das mulheres norte-americanas entre 25 e 34 anos acessam notícias por tablets e smartphones, formando o grupo etário com o crescimento mais rápido (38% ao ano) entre todos os analisados pelos pesquisadores. Trata-se de um fenômeno surpreendente porque o público feminino, especialmente as mulheres mais jovens, era pouco representativo na audiência global. 

A indústria da distorção da notícia assusta até os jornais

Postado por: Carlos Castilho | 13 comentários

A infiltração de interesses políticos e econômicos disfarçados de informação no noticiário jornalístico deixou de ser uma exceção para transformar-se numa regra que já preocupa até os grandes jornais e revistas como o The New York Times e The Economist.

A preocupação resulta do fato de que é cada vez mais difícil distinguir dados de interesse público de fatos, números e interpretações de interesse privado, o que compromete a credibilidade do noticiário e consequentemente o faturamento das empresas jornalísticas de todos os tipos e tamanhos.

Os mais novos protagonistas no esforço para moldar a opinião pública por meio de notícias apresentadas como jornalísticas são os chamados think tanks, expressão inglesa que poderia ser traduzida como grupos de estudo e pesquisa. Eles passaram a ocupar o lugar dos lobistas e dos chamados spin doctors, outra expressão inglesa muito usada no submundo da distorção informativa. Os spin doctors são especialistas em interpretar um dado de acordo com as conveniências de quem o contratou.

Os think tanks já existem há muito tempo e muitos deles surgiram associados a instituições acadêmicas, que lhes conferiram credibilidade e respeitabilidade. Mas com a intensificação da guerra pelo controle do noticiário, os grupos de pesquisa passaram a ser usados pelos lobistas para produzir estudos financiados por empresas e governos. Em alguns casos, os think tanks chegam até a contratar jornalistas para produzir reportagens e informes, também financiados por alguém, como é o caso de algumas organizações não governamentais como Save the Children e Oxfam.

O sistema funciona da seguinte maneira: a instituição recebe um financiamento para produzir um estudo analítico ou uma pesquisa sobre um tema de interesse do financiador; as conclusões do trabalho são levadas aos jornais, revistas e telejornais como material inédito e relacionado a algum tema de atualidade. A partir da publicação, as conclusões passam a ser citadas por políticos, empresários e governantes para justificar ou refutar alguma questão em debate no Parlamento.

Esta prática tornou-se tão comum que os próprios jornais começaram a tentar encontrar maneiras de reduzir o mercado de notícias sob encomenda. Há casos claros em que a empresa participa como cúmplice dessa estratégia de vender gato por lebre, mas aumentou enormemente o número de casos em que jornais e revistas são manipulados sem saber. Algumas publicações passaram a exigir que os autores de artigos de opinião declarem empregos e posições ocupadas anteriormente. Quando se trata de relatórios ou informes, discute-se a exigência de identificação de financiadores.

Só que isso é restrito a algumas poucas organizações jornalísticas, nos Estados Unidos e Europa. Aqui no Brasil o tema ainda é tabu na grande imprensa, embora algumas tímidas iniciativas de buscar mais transparência sobre a autoria tenham sido feitas pela Folha de S.Paulo. O grande obstáculo é a complexidade da questão porque a ocultação de interesses pode obrigar jornais, revistas e telejornais a publicarem extensas explicações bem como investigações trabalhosas sobre o que está embutido numa reportagem ou notícia. Os executivos da imprensa reclamam muito do alto custo e do escasso beneficio imediato desta busca pela credibilidade por meio da transparência da autoria.

Agora o pobre do leitor passa a ter que avaliar não apenas o conteúdo da informação, mas também o seu autor, o que complica ainda mais a já difícil tarefa de separar o joio do trigo no dia a dia do noticiário. Isto reforça a necessidade de o público desenvolver o hábito da leitura crítica, algo que o Observatorio da Imprensa vem promovendo há 18 anos. Como o tempo disponível pela maioria das pessoas é limitado, não há outro jeito senão apelar para o compartilhamento de leituras críticas, por meio de redes sociais, o que pode gerar a formação de comunidades de informação.

Alguns jornais começam também a avaliar a possibilidade de incluir informações de leitores na composição da ficha sobre autorias, interessados e financiadores de estudos e pesquisas, mas segundo o editor chefe do britânico The Guardian isso só poderá ser feito em casos específicos porque é inviável para todas as notícias e reportagens publicadas pelo jornal. Outra possibilidade é a colaboração entre órgãos da imprensa para reduzir a distorção e o viés nas notícias, dados e estudos. Mas isso esbarra na tradicional autossuficiência de empresas.

O resultado é que entramos decididamente na era da complexidade noticiosa, onde o hábito de ler jornais, ouvir noticiários radiofônicos ou assistir a telejornais deixa de ser algo simples e prazeroso para ser uma tarefa árdua e muitas vezes frustrante. Basta ver o que acontece hoje com o noticiário sobre a campanha eleitoral brasileira.

P.S. Gostaria de recomendar a leitura dos dois comentários do colega José Antonio Meira da Rocha. Ele menciona o caso de uma organização brasileira envolvida  em práticas idênticas às mencionadas no texto. C.C. 

Jornalismo e democracia, uma nova relação na era digital

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Bastião da democracia, patrulheiro do governo, formador de bons cidadãos, defensor do interesse público. Os leitores de jornais estão acostumados com estas definições, ou caracterizações da atividade jornalística, repetidas constantemente tanto pelos donos de empresas como por teóricos da comunicação. Mas estes conceitos estão começando a mudar.

Em 1995, James Carey, um dos ícones da cultura jornalística norte-americana afirmou: “O jornalismo é um sinônimo de democracia, ou, noutras palavras, você não pode ter jornalismo sem democracia” [extraído do texto “Where journalism education went wrong”, de James Carey, disponível aqui]. A frase de Carey, um dos pioneiros no estudo da relação entre jornalismo, comunicação e cultura, acabou se transformando na base de uma percepção do jornalismo como um componente do contexto político institucional, desde o início do século 20.

A associação entre jornalismo e democracia foi triplamente útil. Aos donos de empresas, porque ofereceu uma justificativa ideológica para seu negócio. Para os profissionais, um escudo ético para o seu quotidiano, enquanto os pesquisadores acadêmicos passaram a buscar uma resposta para o dilema: “Qual o grau de democracia necessário para o exercício do jornalismo?”

Estudos citados pela pesquisadora australiana Beate Josephi, em seu artigo “How much Democracy Needs Journalism?”, contestam a afirmação de que o jornalismo só poderia existir em países em plenamente democráticos. Um dado numérico contradiz também o suposto cordão umbilical entre a democracia e o jornalismo. Segundo um informe da Associação Mundial de Jornais (World Association of Newspapers), a imprensa cresceu mais em países onde a entidade aponta restrições ao fluxo de informações, como os situados na Ásia e na África. [No informe divulgado em 2010, com base em dados do período 2004/2009, a imprensa asiática, em especial a chinesa e a indiana, cresceu 30%, enquanto nos EUA e Europa a queda foi de respectivamente 10,6% e 7,9%.]

O paradoxo indica que mesmo com limitações impostas por governos, castas, empresas ou grupos políticos, o jornalismo é capaz não apenas de sobreviver como de crescer em circunstâncias adversas. Mostra também que a hegemonia da cultura informativa ocidental está cedendo terreno a outras culturas como parte da globalização noticiosa. E deixa transparente a defasagem nos processos de transição da era analógica para a digital na base social de países ricos, pobres e em desenvolvimento.

A prova talvez mais evidente da quebra dos paradigmas de associação entre jornalismo e democracia é o caso da rede de televisão árabe Al Jazeera, um dos fenômenos mais controvertidos na comunicação mundial. A rede registra um surpreendente crescimento para públicos muito diferentes, inclusive o norte-americano, mesmo sendo controlada por um governo conservador e que restringe o livre fluxo de informações domésticas no emirado do Catar.

A ideia central por trás da associação entre democracia e jornalismo é a de que a função da imprensa é formar cidadãos capazes de fazer o sistema político funcionar eficientemente. Esta ideia está perdendo o seu caráter hegemônico na medida em que as novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) conferiram relevância crescente à produção de conhecimento como elemento-chave para o desenvolvimento social, econômico e político.

O novo parâmetro não é mais prioritariamente o funcionamento de um sistema político, mas a forma como o jornalismo contribui para a produção de conhecimento socialmente relevante por meio da diversificação de dados, percepções e informações. A política não deixará de existir, mas ela cumprirá uma função mais relacionada à comunicação interpessoal do que ao exercício do poder.

Trata-se de uma mudança de paradigmas que está ainda em fase incipiente, mas que promete muita discussão em todos os níveis. A liberdade no fluxo de informações já não é mais apenas uma reivindicação libertária, mas passa a ser também uma exigência econômica para a produção de conhecimento voltado para a inovação tecnológica.

Facebook, a outra cara da campanha eleitoral

Postado por: Carlos Castilho | 2 comentários

A campanha política via Facebook está mostrando uma curiosa e interessantíssima diferença no comportamento dos eleitores. Nas redes virtuais, os posicionamentos pessoais são muito mais diversificados – o que torna o debate pré-eleitoral mais variado e atrativo, embora a baixaria se faça presente com alguma intensidade.

Enquanto os jornais, revistas e até a televisão apresentam uma campanha eleitoral altamente regulamentada e inevitavelmente aborrecida, os internautas têm mais espaço para divergir e polemizar. Nota-se também uma clara separação etária na forma como o debate eleitoral é percebido. A geração mais velha segue a política pela mídia convencional, que prioriza a cobertura da baixaria na internet, fazendo com que o seu público ignore o que está sendo discutido nas redes sociais.

Os mais jovens, por seu lado, rejeitam o horário eleitoral gratuito e passam ao largo das manchetes de jornais ou revistas. Sua participação nas discussões virtuais está marcada pela frustração e pela insistência no desejo de serem ouvidos. Trata-se de um comportamento muito parecido com o que predominou nas manifestações de junho do ano passado, que se transformaram numa espécie de paradigma de interpretação da conduta política da geração com menos 30 anos.

Estima-se que cerca de 40 milhões de jovens brasileiros tenham acesso regular às redes sociais por computador e por telefone celular. É um contingente respeitável tomando em conta o seu poder de circular opiniões e percepções, embora pelo menos metade deles não esteja capacitada a votar. É este público que a imprensa convencional está deixando de lado e consequentemente pagando o preço da associação a um tipo de campanha eleitoral pouco atrativa para os mais jovens.

Quem está apostando, e alto, no público virtual é a empresa Facebook, que lançou em 2012 um aplicativo chamado Custom Managed Audiences (Gestão personalizada em audiências) que permite desenvolver mensagens com alto grau de personalização. O aplicativo cruza o conteúdo dos bancos de dados de partidos ou movimentos políticos com o as informações contidas nos perfis dos usuários do Facebook.

A ferramenta foi testada inicialmente para fins comerciais, especialmente no marketing, mas desde o ano passado começou a ser usada, com resultados surpreendentes, em campanhas eleitorais nos Estados Unidos. Além de permitir que os candidatos digam a cada eleitor o que ele gostaria de ouvir, o software permite uma economia de até 50% nos gastos de uma campanha eleitoral, conforme dados da Comissão Federal Eleitoral dos Estados Unidos.

Esta personalização das mensagens eleitorais é outra grande diferença entre o debate político nas redes sociais e a campanha na mídia convencional, que precisa ser pouco diferenciada para atrair a atenção de públicos massivos. Quando você acompanha a política dentro do seu grupo de amigos no Facebook, as divergências de opinião podem ser agudas, mas há um clima quase familiar, enquanto na mídia convencional predomina o distanciamento e a indiferença.

A campanha eleitoral via internet tem duas características bem marcantes: o comportamento minimamente civilizado nas páginas pessoais em redes sociais; e a presença marcante da baixaria, especialmente em comentários postados em sites de comentaristas políticos da imprensa ou de candidatos. A imprensa convencional demoniza os comentários grosseiros e tenta transformá-los numa marca registrada da internet, ignorando o fato de que os trogloditas políticos sempre existiram. A única diferença é que agora eles podem se expressar de forma fácil e barata. Para neutralizá-los não podemos recorrer à equivocada tese de que eliminando o mensageiro, acabamos com as mensagens que nos desagradam.

O debate público sobre as campanhas eleitorais pela internet ainda é muito reduzido no Brasil e fortemente condicionado pela mentalidade reguladora. É inútil usar normas antigas para controlar um novo contexto social e político. A personalização do debate eleitoral nas redes sociais quebra radicalmente o modelo vigente de propaganda e marketing político adotado pela maioria esmagadora dos políticos e partidos no país.

Há várias outras diferenças na campanha feita em ambiente virtual/personalizado e no analógico/massivo, mas uma delas é fundamental: a principal preocupação das pessoas no Facebook é compartilhar opiniões, dados e percepções com pessoas conhecidas, enquanto na mídia convencional o compartilhamento é estruturalmente impossível. Enquanto no terreno virtual as pessoas falam e podem ser ouvidas, no espaço físico a estrutura dos meios de comunicação impede a interatividade.

Nichos informativos como alternativa de emprego para jornalistas

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Como começar no jornalismo? Há alguns anos esta pergunta teria uma reação imediata: procure um jornal. Mas, em tempo de crise na imprensa, a resposta não é mais rápida e muito menos fácil para mais de 50% dos estudantes diplomados anualmente por faculdades de jornalismo no Brasil. No entanto, algumas experiências aqui e no exterior já permitem apontar uma direção.

Duas pesquisadoras norte-americanas trabalham há um ano para mostrar que o futuro imediato dos novos profissionais – e também dos que perderam seus empregos – está no chamado jornalismo de nicho, especializado num único tema. As conclusões do estudo devem ser divulgadas em outubro e comprovam que a alternativa é viável e, mais do que isso, já produziu casos considerados de sucesso na imprensa norte-americana, a mais competitiva do mundo.

O jornalismo de nichos noticiosos é uma variante do jornalismo praticada há muitos anos, mas que ganhou notoriedade com a ampliação do uso da Web como plataforma para a veiculação de notícias. O custo de produção e distribuição na era analógica inviabilizavam as iniciativas focadas num único tema e voltadas para segmentos específicos do público. A digitalização e a internet mudaram radicalmente esse quadro porque o custo da distribuição caiu a quase zero ao mesmo tempo em que o da produção limita-se a um computador, alguns programas, tempo e acesso à internet.

Danny Sullivan conhece bem esta receita porque ele é considerado um dos mais bem-sucedidos jornalistas que optaram pela exploração de um nicho de notícias. Em 1997, ele criou o site Search Engine Watch com notícias e dicas sobre como fazer buscas na internet, um ano antes do Google ser oficialmente lançado. Em 2006, Danny vendeu o Search Engine Watch por 46 milhões de dólares e criou o Search Engine Land, que dirige até hoje.

Lara Setrakian, uma das responsáveis pela pesquisa promovida pelo Tow Center, da Universidade Columbia, em Nova York, é a criadora do site Deeply Syria, especializado na cobertura dos conflitos na Síria, que se transformou na grande fonte de informações para toda a imprensa norte-americana sobre a crise naquele país árabe. A opção por nichos informativos tornou-se uma mina de ouro para muitos profissionais experientes e mais recentemente passou a ser também a estratégia adotada pela maioria das escolas de jornalismo dos Estados Unidos na formação de novos jornalistas, como é o caso da Universidade de Nova York (CUNY).

A prática do jornalismo especializado autônomo não é muito diferente da desenvolvida em redações ou coletivos de profissionais, mas ela exige muito em matéria de pesquisa, reflexão, conhecimento e, principalmente, credibilidade. Lisa Williams, criadora um blog para ensinar programação para jornalistas, usou a sua experiência para sugerir quatro regras básicas para quem deseja aventurar-se no mundo dos nichos noticiosos. E nenhuma das quatro regras tem a ver com tecnologia ou jornalismo, e sim com comportamentos e atitudes pessoais.

As quatro regras de Lisa são:

1. Nunca ofereça grátis algo que você pretende cobrar mais tarde. Uma mudança de comportamento como esta, irrita e afasta quem acreditou e gosta do material que você publica;

2. Evite de todas as formas possíveis que um projeto comprometa suas relações afetivas. Os projetos podem ser substituídos, amigos e parentes, não. Eles são o principal apoio nos inevitáveis tempos difíceis no início do projeto;

3. Seja o mais amplo possível na sua especialização. Parece contraditório, mas não é. Um nicho precisa ser informativamente muito completo e diversificado para concorrer com sites generalistas já estabelecidos. Quem procura um nicho quer algo especial e único;

4. Procure descobrir: você pode tocar o projeto sozinho? Esta é uma pergunta considerada básica porque no início não será possível contratar ninguém e nenhum serviço. Começar endividado ou com compromissos fixos, como salários, é o caminho mais curto para a frustração.

A estas regras poderíamos somar mais algumas recomendações fruto de experiências pessoais. A principal delas é relativa à sustentabilidade financeira do jornalista que está começando um blog sobre um nicho informativo. Escolha uma área que você gosta muito. Algo que seja quase um hobby, porque você vai precisar muito do prazer para aguentar um bom tempo sem uma recompensa financeira animadora. Durante algum tempo será necessária uma fonte suplementar de renda que não pode, no entanto, tirar tempo do trabalho no nicho noticioso.

Outros profissionais que enveredaram pelo caminho do trabalho noticioso autônomo são unânimes em sugerir um relacionamento intenso com os leitores de seu blog ou página pessoal. Mantenha sempre aberta a área de comentários do blog ou página.

A relação de quem está começando com os leitores não pode ser unidirecional, e sim de mão dupla. Quando um jornalista escolhe um nicho noticioso para explorar é inevitável encontrar pessoas que sabem mais do que ele. Em situações como esta, o ideal é estimular a colaboração e a reciprocidade, porque quem conhece muito de um assunto normalmente tem amigos que compartilham o interesse e podem ser muito úteis na formação de uma comunidade de leitores.

A multiplicação de nichos informativos é um dos prováveis sustentáculos futuros dos grandes veículos de comunicação jornalística. Um jornal, por exemplo, não pode ter uma equipe de repórteres suficientemente grande para fazer a cobertura de assuntos locais numa grande cidade. É muito caro e, por isso, muitos já estão recorrendo a nichos jornalísticos hiperlocais sempre que algo ocorre na área de abrangência do projeto independente.

relacionamento entre empresas jornalísticas e profissionais autônomos ainda é instável, mas tende a se consolidar para atender necessidades de ambos os lados. Os jornais terão que contar com uma rede de nichos noticiosos autônomos para obter matéria-prima informativa, enquanto os blogs e páginas noticiosas autônomas terão que lograr um retorno financeiro compensador. 

2014, a eleição dos partidos ‘faz de conta’

Postado por: Carlos Castilho | 3 comentários

A eleição de 2014 marcará o auge de um processo de esvaziamento dos partidos brasileiros que sobrevivem apenas em função da burocracia do sistema jurídico e do corporativismo dos políticos. A miríade de siglas legalmente registradas configura um cenário fantasmagórico onde as identidades, programas, projetos e ideologias acabaram pasteurizadas a ponto de ninguém hoje conseguir distinguir quem é quem no sistema partidário.

As evidências estão materializadas no noticiário pré-eleitoral da imprensa, que é uma coadjuvante compulsória neste processo de alienação partidária no Brasil. A mídia esperneia, reclama, mas pouco faz para mudar o status quo.

Antigamente, os partidos se distinguiam mais pelos seus programas e ideologias do que pelos candidatos. Hoje é o contrário, os programas e ideologias são acomodados segundo os interesses do candidato.

A mais nova evidência dessa inversão de prioridades é o caso da ex-ministra Marina Silva, que surgiu na política às custas da inovadora ideia da sustentabilidade como parâmetro principal para o desenvolvimento econômico. Como não conseguiu que a Rede Sustentabilidade fosse reconhecida legalmente como partido, Marina correu para os braços do Partido Socialista Brasileiro para tentar se eleger vice-presidente da República. Com a morte do candidato Eduardo Campos, a ex-ministra do Meio Ambienta acabou na cabeça da chapa socialista.

O PT, cujo sucesso eleitoral no início do século foi alavancado pela imagem operária e pelo sonho de mudança, hoje se transformou num aglomerado de interessados em cargos públicos e na continuidade no poder. O PSDB não tem mais nada da ideologia socialdemocrata. O mesmo vale para o extinto trabalhismo no PTB. 

Até os herdeiros do comunismo no Brasil adotaram um discurso revisionista em relação aos princípios do marxismo-leninismo. O Partido Socialista Brasileiro (PSB), que é outra sigla surgida da socialdemocracia, não conseguiu se atualizar ideologicamente e perdeu identidade, processo similar ao do PDT, que na falta de Brizola se transformou numa legenda de ocasião.

A maioria absoluta dos partidos políticos brasileiros transformou-se em meros trampolins para personalidades interessadas num emprego parlamentar. Cumprem uma função burocrática determinada pela Justiça Eleitoral como parte da legislação vigente. Entre elas, o polêmico loteamento do horário eleitoral gratuito, que de tanto ser regulamentado para atender a egos e interesses se transformou numa caricatura da ribalta eleitoral.

Como os programas passaram a depender das estratégias eleitorais e dos interesses dos candidatos, os conteúdos ideológicos e programáticos divergem apenas nos detalhes, quase sempre de difícil compreensão pelo eleitor. Outra consequência é a formação de alianças partidárias materializadas em coligações esdrúxulas, que contribuem ainda mais para a perda de credibilidade dos partidos.

A mística ideológica responsável pelo passionalismo de pleitos passados foi substituída pela magia do marketing eleitoral, cujos meandros são conhecidos apenas por uns poucos especialistas contratados a peso de ouro. Eles trabalham em função de resultados e migram para quem paga mais ou a quem dedicam maior simpatia, sem se importar muito com os princípios teóricos.

O sistema partidário brasileiro é um cadáver insepulto, cujo óbito os políticos não têm coragem de atestar porque isso ameaçaria posições e vantagens conquistadas. Passamos a viver uma ficção alimentada por fantasmas cuja existência nos obriga a refletir até que ponto o público e a imprensa acabaram se acostumando com o faz de conta partidário, protagonizado por 32 siglas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O desafio não é acabar com os partidos políticos, mas sim o de evitar que desvirtuem o exercício da democracia, da qual eles, teoricamente, são uma peça básica.

Página 2 de 144, mostrando 6 registros no total de 862 registros.

123456789

Voltar