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Os desafios da sustentabilidade do jornalismo em comunidades

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Este é o terceiro e talvez mais discutido item na questão da descentralização das empresas jornalísticas, em especial nas que procuram sobreviver no mercado de notícias locais ou comunitárias. Os outros dois, a tendência à segmentação na internet e o engajamento comunitário dos jornalistas foram abordados em textos anteriores (ver “Comunidades, uma opção estratégica do jornalismo” e “A imersão jornalística em coberturas comunitárias”).

As novas ideias e softwares voltados para o exercício do jornalismo se multiplicam com uma velocidade impressionante, mas na hora de pensar na sua sustentabilidade, os argumentos se confundem e muitas vezes torna-se impossível distinguir o que é novo e o que não passa de uma simples repetição de fórmulas que deram certo no passado.

O desenvolvimento de novas tecnologias e as estratégias para engajamento comunitário por parte dos jornalistas são processos relativamente simples quando comparados com o enorme quebra-cabeça sobre o que fazer para obter um retorno financeiro capaz de assegurar a sobrevivência de um projeto jornalístico em âmbito comunitário. Está claro que a descentralização e a localização das atividades jornalísticas são uma tendência irreversível gerada pela nova realidade digital na comunicação, mas só isso não garante a continuidade de um projeto, individual ou coletivo.

Além do mais, os trabalhos feitos pela pesquisadora norte-americana Penny Albernathy mostram que cada caso é um caso quando se trata de jornalismo praticado em comunidades sociais. Cada uma delas tem as suas especificidades e sua história, fatores que condicionam decisivamente a viabilidade financeira de um projeto jornalístico local. Por isso, o primeiro passo para procurar a sustentabilidade é pesquisar os valores, rotinas, comportamentos, necessidades e aspirações de uma comunidade. Quanto mais detalhada for a pesquisa, maior a chance do projeto receber a adesão dos membros da comunidade.

O jornalismo local não é um exercício de filantropia, embora ele possa ser sustentado por doações de membros da comunidade. Qualquer iniciativa só conseguirá sobreviver o suficiente para trazer benefícios para o público local se tiver um retorno que pode ser financeiro ou não. 

Financeiro quando há receitas originárias de publicidade, venda avulsa, assinaturas, doações em dinheiro ou financiamento de projetos informativos. Não financeiro, quando há troca de material publicado por serviços ou matérias-primas, como papel ou hardware. Sem retorno financeiro, a frustração é inevitável e a pior consequência é criar desconfiança em relação a futuras iniciativas de jornalismo na comunidade.

Outro desafio para empreendedores em jornalismo local ou comunitário é a transição para plataformas digitais em jornais impressos e emissoras de rádio ou TV, já existentes. Projetos novos já nascem digitais, mas os mais antigos não têm futuro sem levar em conta as novas tecnologias. Tanto quem está chegando como quem já está instalado numa comunidade enfrenta problemas de tirar o sono.

Os novos projetos se defrontam com dois tipos de dilema: o público jovem é mais receptivo à novidades mas não garante uma base financeira estável quando se trata de projetos locais com público limitado; enquanto o público mais velho desconfia das novas tecnologias e leva algum tempo para decidir pagar por informações publicadas na internet . Resultado: os novos projetos de jornalismo em comunidades têm uma maturação financeira lenta, mas quando conseguem superar a barreira do equilíbrio financeiro passam a ter maiores condições de sobrevivência porque o futuro da notícia e da informação está no digital.

De sua parte, as empresas jornalísticas já instaladas enfrentam desafios diferentes. Elas carregam a herança da era analógica como impressoras, rotativas, redes de distribuição (caminhões, venda avulsa, assinaturas, antenas, estúdios e centrais de transmissão) e uma mão de obra rotinizada e pouco disposta a se arriscar no mundo virtual. Hoje já não há muitas dúvidas de que a sobrevivência desse tipo de empresa depende da implantação de um sistema de plataformas múltiplas, com impresso e online, tanto na publicação de notícias como na estratégia de marketing e publicidade.

Pesquisas feitas por Penny Albernathy junto a jornais locais norte-americanos mostraram que as empresas organizadas em torno da produção de notícias impressas devem economizar, por ano, no mínimo 6% do orçamento em vigor durante um período de cinco anos para dispor de recursos necessários para desenvolver plataformas digitais. Isto obriga corte de pessoal, venda de prédios e equipamentos não essenciais e suspensão da distribuição de dividendos a acionistas, bem como o pagamento de altos salários para diretores.

É um remédio amargo, mas sem ele, garante Penny, só um milagre ou loteria garantem a transição para a era digital. Essa migração para um sistema de plataformas múltiplas só funciona se for acompanhada de uma nova estratégia editorial focada nas especificidades da comunidade onde a publicação está instalada, como também na reformulação do marketing e da publicidade. O jornal terá que ensinar às empresas locais como fazer publicidade online, se quiser contar com uma clientela fiel de anunciantes. 

Ciberataque à Coreia do Norte e a balcanização da internet

Postado por: Carlos Castilho | 4 comentários

Ninguém sabe ao certo quem causou o isolamento da Coreia do Norte na internet mundial durante quase 10 horas na segunda feira (22/12), mas uma coisa já ficou clara: a partir de agora todos os países do mundo estão sujeitos a um blackout cibernético como retaliação política, econômica, religiosa ou criminal. Acabamos reféns de quem controla os circuitos backbone que garantem o fluxo mundial de bits e bytes.

Já não é mais necessário disparar foguetes, deslocar tropas ou espalhar outra vez o terror nuclear. Basta um clique em algum computador misterioso e toda uma nação poderá ficar imobilizada pelo estrangulamento dos canais que asseguram a circulação de dados financeiros, informações meteorológicas, bancos de dados e a segurança pública, só para citar algumas das centenas de sistemas sem os quais o nosso dia a dia, especialmente nas grandes cidades, vira um caos completo.

Um dos sistemas mais afetados na eventualidade de um blackout cibernético é o da informação pública, uma vez que toda a imprensa está hoje vitalmente dependente da internet. Correio eletrônico, Facebook, Twitter, WhatsApp e todos os aplicativos que hoje dependem da internet se tornariam inacessíveis, com consequências fáceis de imaginar.

O episodio da Coreia do Norte mostra a nova cara dos conflitos por interesses políticos e econômicos no planeta. Paradoxalmente, o crescimento da internet acabou pulverizando o sonho dos criadores da rede mundial de computadores, que a conceberam para impedir que o sistema planetário de comunicações fosse destruído por um ataque nuclear. O pai da web, o britânico Timothy Berners-Lee, e todos os demais visionários da década de 1960 achavam que a descentralização garantiria a sobrevivência das redes virtuais por meio de circuitos interligados: se um deles fosse destruído, os demais continuariam intactos.

A descentralização alimentou o sonho de uma internet sem controle hierárquico, sem um presidente e livre de regulamentos rígidos. Mas isso parece cada dia mais ameaçado porque a dinâmica das relações econômicas mundiais ainda continua dependente da centralização globalizadora. O contexto político no qual a internet está inserida também é altamente hierarquizado, apesar da existência de dissidentes como o Wikileaks e os crackers (fanáticos pela tecnologia e defensores de um anarquismo cibernético) que insistem em desafiar o controle verticalizado.

O blackout na internet norte-coreana pode acabar fortalecendo a tendência à balcanização do universo digital com a criação de redes nacionais independentes. Trata-se de uma ideia alimentada por regimes autoritários em várias partes do mundo, porque lhes permite controlar o fluxo interno de mensagens entre usuários da internet, rompendo com o princípio da descentralização sonhado pelos criadores da rede. Mas a balcanização cibernética enfrentará fortes reações das principais empresas da web, como Google e Facebook, cujo sucesso financeiro e corporativo depende justamente de uma internet sem fronteiras.

Usar a internet como arma de guerra é relativamente fácil e sem o ônus do derramamento de sangue presente em todos os conflitos bélicos ao longo da história. As vítimas acabam sendo enquadradas no jargão “danos colaterais”, que só aparecem no médio e longo prazos, e que podem ser facilmente associados a outras causas. Mas a decisão estratégica de usar esse recurso cibernético pode acabar se constituindo num suicídio político e econômico, pois o mundo atingiu um grau de interligação entre nações, organizações, empresas e indivíduos inédito na história da humanidade. 

Nós, a internet e a liberdade de expressão

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

A internet provocou uma mudança no uso do conceito de liberdade de expressão a partir do momento em que nós, usuários da rede, passamos a ter a possibilidade de publicar textos, imagens e áudios capazes de ser acessados por até um bilhão de pessoas.

Até agora o termo liberdade de expressão era mais usado pelas empresas de comunicação para defender a sua autonomia nos negócios. Atualmente, no entanto, a liberdade de expressão transformou-se no apanágio dos usuários da internet, diante da campanha de governos conservadores e grandes conglomerados de telecomunicações para impedir que a rede escape do seu controle.

As empresas jornalísticas, tão empenhadas anteriormente em assegurar a ausência de controles sobre o fluxo de notícias, agora estão sintomaticamente silenciosas e ausentes do debate em torno da neutralidade da internet. A neutralidade propõe a ausência de privilégios e controles no acesso à banda larga por onde circulam os pacotes de dados digitalizados. As grandes empresas querem usufruir de maior largura de banda, o que significa velocidades mais altas na subida (upload) e na baixada (download) de programas e arquivos, beneficiando especialmente as que distribuem vídeos, filmes, músicas e jogos na internet.

Caso o princípio da neutralidade seja derrotado, a ideia original de uma internet descentralizada deixará de existir, prevalecendo na prática um sistema idêntico ao dos assentos num avião: classe executiva e classe econômica. A primeira com privilégios de alta velocidade e a segunda, com o que sobrar na distribuição de espaços na banda larga. 

Além das empresas, também governos estão empenhados em acabar com a liberdade na circulação de dados, notícias e informações para minimizar a disseminação de ideias e projetos de opositores e dissidentes políticos. É o caso de países como Rússia, China, Cuba e Turquia. Esses países defendem uma fragmentação da internet para voltar ao estágio onde cada governo podia controlar o fluxo de notícias dentro de seu território.

A defesa da liberdade de expressão na internet mobiliza hoje milhões de pessoas em todo o mundo porque elas já verificaram como o fluxo de informações passou a ser essencial na vida de cada individuo, e até para o futuro de nossa sociedade. A possibilidade de protestar, defender, reclamar, cobrar, exigir, elogiar e recomendar passou a integrar o quotidiano das pessoas, especialmente nas gerações mais jovens, que dificilmente aceitarão um retorno aos tempos de informação controlada e centralizada.

O livre fluxo de dados passou, também, a ser essencial para o desenvolvimento da economia contemporânea na medida em que os negócios dependem cada vez mais da inovação tecnológica e gerencial. As inovações dependem de aprendizado e produção de conhecimentos, que por sua vez dependem da intensidade e diversidade no fluxo das trocas de dados, notícias e informações.

Impor limites à recombinação de dados implica restringir a inovação – o que para muitos tipos de negócio equivale a um suicídio empresarial. A inovação acelerada criou expectativas nos consumidores que são cada dia mais difíceis de frear. Por isso, a defesa da liberdade de expressão, um sinônimo de liberdade no fluxo de informações e dados, criou um dilema complicado para governos e empresas cuja cultura ainda está baseada nas velhas rotinas centralizadoras e hierárquicas. Passou também a ser tratada como um direito básico dos cidadãos e a grande alavanca de negócios para empresas como Google e Facebook.

O exercício da liberdade de expressão divide empresas e consolida movimentos como o Avaaz, que mobiliza milhões de pessoas ao redor do mundo por meio de abaixo-assinados e petições envolvendo a defesa do livre fluxo de informações. É por isto que o site Google enfrenta tantos problemas com alguns governos centralizadores e com empresas que defendem o controle no fluxo de informações por meio da cobrança de direitos autorais. 

Tudo indica que os conflitos, as crises e mobilizações de internautas em torno da questão da liberdade de expressão na internet tendem a crescer na medida em que os interesses de cada lado forem se definindo cada vez mais. A polêmica sobre a neutralidade da internet está se tornando cada vez mais ideológica, com mostram os debates no Congresso norte-americano, onde os republicanos já colocaram a questão como um dos seus principais objetivos estratégicos tão logo passem a ter maioria nas duas casas do poder legislativo.

O tema coloca também a imprensa numa encruzilhada. Até agora ela defendeu a liberdade de expressão como um fundamento para a existência de um jornalismo livre. A coerência indicaria que ela assumiria postura idêntica quando o debate se transferiu para a arena digital, mas não é o que está acontecendo. A maioria dos jornais, como ocorreu recentemente na Espanha, prefere se entrincheirar na defesa do controle do fluxo de notícias, baseado na propriedade de dados, notícias e informações. 

A imersão jornalística em coberturas comunitárias

Postado por: Carlos Castilho | 6 comentários

De todas as mudanças que a internet está impondo ao exercício do jornalismo, a mudança da relação entre profissionais e o público talvez seja a que esteja enfrentando maiores resistências. O motivo é óbvio. Ela implica o abandono de rotinas, comportamentos e valores entranhados há mais de um século na cultura do jornalismo e sua substituição por novos procedimentos ainda pouco estruturados. [Este texto é um desdobramento do post “Comunidades, uma opção estratégia do jornalismo”.]

Ao longo do tempo, os jornalistas incorporaram dois tipos de posturas à sua rotina profissional: 

1. A identificação com uma instituição (a imprensa) qualificada como o quarto poder por conta de sua capacidade de influir na formação da opinião pública;

2. Assumir a posição de quem sabe o que é importante para o público consumidor de notícias.

Ambas as posturas os colocavam numa posição de superioridade em relação a leitores, ouvintes e telespectadores. Esta situação começou a perder sentido quando a internet e a computação deram ao público em geral a capacidade de recolher, processar e publicar números, fatos e eventos sem passar pelo filtro da imprensa. Na era digital, os jornalistas perderam o controle sobre a captação de notícias e sobre a sua publicação. A agregação de valor é a área onde eles ainda são predominantes.

Esta inversão de posições colocou os jornalistas diante do dilema de buscar uma nova relação com o público, já que a as mudanças tecnológicas eliminaram o desnível entre profissionais de imprensa e consumidores de notícias. Surgiu a expressão “engajamento comunitário” como uma espécie de síntese das novas exigências em matéria de comportamento social dos jornalistas, numa era em que a informação passou a ser a matéria-prima mais valorizada tanto na economia como no quotidiano das pessoas.

Quando o público tem nas mãos uma ferramenta de publicação igual a que os jornalistas dispõem, a relação entre as duas partes passa a ser de igual para igual. Ambos, pelo menos em teoria, têm as mesmas condições de capturar uma notícia e a disseminar por redes sociais ou pela imprensa analógica e digital. 

Mas uma grande diferença sobrevive: o profissional foi treinado para lidar com dados, informações e conhecimentos, enquanto o público faz um uso intuitivo de uma notícia, salvo raros casos em que o individuo dispõem de conhecimentos sobre leitura crítica da realidade. É este diferencial que garante ao jornalista um papel único no fluxo de dados, informações e conhecimentos na internet, seja como membro de uma equipe (empresa), ou como indivíduo (blogueiro).

Lidar com dados significa ter a capacidade de identificar contextos, significados, causas e consequências a partir de fatos, números e eventos inéditos produzidos em vários segmentos da sociedade numa intensidade e volume que já foram classificados como avalancha informativa, a maior de toda a história da humanidade.

A soma de todos esses fatores criou uma situação inédita na qual o jornalista se tornou dependente dos indivíduos e grupos sociais, tanto para colher como para disseminar fatos, números e eventos. Em vez de funcionar apenas como um mensageiro, os jornalistas estão sendo levados a assumir também o papel de interlocutores, ou seja, a coleta de dados passa a ser feita por meio do engajamento ou envolvimento comunitário, como mostrou uma pesquisa de dois anos realizada pela Universidade de Cardiff, no Reino Unido, com quase 100 profissionais na área do jornalismo em comunidades do interior.

A estratégia do engajamento ou envolvimento reduz o papel do profissional como observador distante e – pretensamente – isento em relação ao ambiente social onde ocorre o trabalho jornalístico, e amplia a sua participação no tema ou evento investigado. Até agora o envolvimento era associado com a adesão, o que implicava parcialidade e perda de credibilidade. Mas como indicou o “Engaging News Project”, do Annette Strauss Institute, da Universidade do Texas (Austin), o engajamento em atividades comunitárias não elimina a obrigação de posturas críticas no exercício da atividade jornalística.

Várias outras experiências de jornalismo em comunidades sociais nos Estados Unidos, Finlândia e Austrália mostraram que o envolvimento dos profissionais na vida comunitária permite aumentar não só o conhecimento do ambiente e dos problemas enfrentados pelas pessoas como também cria condições para estimular a confiabilidade mútua entre o repórter e suas fontes locais. Passa a existir uma situação nova em que o jornalista é ao mesmo tempo patrulheiro e patrulhado.

É caso de inúmeros projetos de jornalismo em comunidades que usam o software OpenBlock, que permite criar bancos de dados com informações sobre cada quarteirão de uma cidade permitindo aos moradores e repórteres monitorar o surgimento, reparo e solução de problemas urbanos como saneamento, transporte, segurança, mobilidade, abastecimento de água, luz, telefonia e internet.

Num caso como este fica explícito o envolvimento do jornalista na cobertura de temas comunitários na medida em que ele usa dados dos moradores, muitos dos quais serão obtidos por meio de conversas informais, para interpretá-los e oferecer elementos para que os interessados busquem soluções. Só uma imersão jornalística na realidade comunitária é que viabiliza um tipo de atividade como essa, que obviamente é incômoda para os governantes e empresários que passam a ser monitorados com mais eficiência.

Comunidades, a opção estratégica do jornalismo

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

São cada vez menores as dúvidas sobre o fim da hegemonia da comunicação em massa na sociedade contemporânea. Até agora os recursos tecnológicos disponíveis viabilizavam apenas a comunicação tipo um para muitos, onde uma mesma notícia era produzida para atender muitos leitores, ouvintes ou telespectadores devido às limitações de distribuição impressa ou audiovisual.

Mas, com a chegada da internet e da computação passou a ser possível produzir notícias para públicos agrupados em torno de interesses ou necessidades específicas, os chamados nichos informativos, formados por comunidades sociais de todos os tipos. Entramos numa era em que haverá a coexistência entre projetos de comunicação em massa e iniciativas jornalísticas em comunidades, porque a sociedade como um todo também está se reorganizando com a valorização dos espaços locais e hiperlocais.

Este contexto abre perspectivas novas para o jornalismo, cujo principal diferencial em relação a outras formas de comunicação como teatro, cinema, música, literatura e oratória é o fato de trabalhar com dados inéditos de atualidade. A descentralização urbana provocada pelos problemas das megalópoles torna-se viável na medida em que as pessoas disponham de informações para criar novos relacionamentos sociais ou culturais e identificar condições de sustentabilidade financeira.

O jornalismo em comunidades torna-se assim uma opção estratégica no campo da comunicação porque passa a ser um elemento essencial no desenvolvimento e consolidação de um novo contexto social. Mas para atender às necessidades informativas de comunidades, o jornalismo precisa encontrar soluções para três grandes desafios:

1. Desenvolver um novo tipo de relacionamento com o público;

2. Pesquisar uma nova forma de contar histórias e transmitir notícias;

3. Encontrar um modelo de sustentabilidade econômica baseado na diversificação financeira.

Cada um desses três itens, por si só, já constitui numa exploração complexa da nova realidade provocada pelo uso das novas tecnologias digitais de comunicação e informação no âmbito social, político, cultural, científico e econômico. Os próximos textos ampliarão o detalhamento de cada item, visando ampliar o debate.

O jornalismo em comunidades se distingue do conceito usual de jornalismo local porque dá mais importância ao fator social do que ao empresarial. A imprensa local e regional está integrada ao modelo global de produção em massa, o que é lógico e inevitável levando em conta as tecnologias disponíveis até agora.

A chamada pequena imprensa está diante do desafio da sobrevivência porque precisa migrar para um novo modelo informativo de empresarial, por meio da administração da herança de instalações mecânicas e dependência da publicidade vinculada a audiências e circulação. Esta herança é suficientemente complexa para ocupar 24 horas do dia da maioria dos empresários do segmento da imprensa local e regional, o que acaba deixando pouco, ou nenhum tempo, para pensar no problema mais importante que é o da relação com o público.

O dilema é o que fazer com rotativas, prédios, sistemas de comunicação e de distribuição tanto impressa como audiovisual que perderam eficiência e valor de venda com a disseminação dos equipamentos digitais. O que fazer com leitores, ouvintes e telespectadores que estão envelhecendo enquanto os jovens abandonam os veículos tradicionais de comunicação? Como manter a fidelidade de anunciantes que estão perdendo a credibilidade na publicidade analógica, mas ainda não sabem como usar a digital?

Muitos empresários apostam que a tecnologia poderá lhes dar as respostas procuradas, mas é cada vez mais claro que o grande problema da imprensa não está na compra de novos equipamentos mas na relação com o cliente. O problema da migração para o ambiente digital não está na tecnologia, mas no fator humano. A aquisição ou aluguel de um novo software ou hardware pode produzir resultados rápidos, enquanto uma mudança de hábitos informativos geralmente consome anos. A pressa empresarial por resolver um impasse financeiro prejudica a percepção do problema humano.

A imprensa comunitária, que até agora era considerada uma proposta alternativa, quase subversiva, também tem os seus dilemas para sobreviver na era digital. Ela tem a vantagem de poder contar com novos equipamentos de baixo custo relativo e ampla capacidade de difusão de notícias jornalísticas, mas ainda deve superar os vícios deixados pela preocupação com a militância centralizada e com a defesa de causas ideológicas. As novas comunidades precisam de muita informação de serviços, produção coletiva de conhecimentos e interatividade social.

O jornalismo entre a automação e a agregação de valor

Postado por: Carlos Castilho | 3 comentários

Cada vez que o tema novas tecnologias na comunicação e informação entra na agenda jornalística, ele divide opiniões e provoca posicionamentos apaixonados. Num extremo estão os que demonizam os bytes e bits, enquanto no outro agrupam-se os que consideram a internet uma especie de nirvana jornalistico . Entre os dois opostos há uma enorme gama de posicionamentos intermediários e um desafiador ponto de interrogação.

Há um segmento crescente de profissionais que defende a necessidade dos jornalistas saberem desenvolver e programar algoritmos (softwares específicos para determinadas funções) diante da automatização irreversível dos processos editoriais. O conhecimento tecnológico não só ajudaria a controlar a avalancha informativa gerada pela Web, como permitiria uma redução de custos considerável.

Já os adeptos do que poderia ser chamado de jornalismo puro (a arte de escolher o que vai ser noticiado, decidir como serão investigados os temas escolhidos, pilotar o desenvolvimento de textos ou audiovisuais e finalmente publicar o resultado final) minimizam o papel das ferramentas digitais alegando que elas não substituem o cérebro humano na hora de produzir informações.

Tanto os tecnófilos como os tecnófobos no campo da notícia parecem condenados à marginalização no debate, pois o grande desafio é identificar qual a dose certa de tecnologia e de inspiração capaz de fornecer a receita para o jornalismo em ambiente digital. A discussão vai longe porque ela muda alguns parâmetros-chave na definição dos valores, normas e rotinas do jornalismo contemporâneo.

Mas algumas coisas já podem ser consideradas mais prováveis do que outras. Sem tecnologia, em especial sem os algoritmos, o jornalismo deixa de ver viável como ferramenta de disseminação de notícias, de produção de conhecimento e, consequentemente, de capital social. Mas sem o foco na função social da notícia e na leitura crítica dos números, fatos e eventos a serem disseminados, também não há jornalismo.

Quando se fala em tecnologia, estamos nos referindo, prioritariamente, aos softwares de gestão e participação em redes sociais como o Facebook, Twitter, Google +, Ello, Linkedin, Reddit, YouTube, Flickr, sem falar no incessante lançamento de novos programas voltados para a curadoria e agregação de notícias online, como Scoop, Trove, Newsly, Feedly, Gnosy, Narrative Science, Floppy, Spotify, para mencionar apenas os mais badalados. 

A combinação adequada de tecnologia e habilidade jornalística vai variar de caso a caso porque será determinada pelo contexto social, econômico, político e cultural onde ela será aplicada. É uma exigência nova que caminha no sentido da valorização da especialização, regionalização e localidade. Só isso já quebra o grande paradigma de indústria da comunicação jornalística, toda ela baseada na concentração, hierarquia, padrões e normas de produção, linha de montagem e globalização.

O sistema fordista adotado pela esmagadora maioria das empresas de comunicação jornalística, impressa e audiovisual, busca a uniformização como instrumento para reduzir custos e erros. A globalização noticiosa permitiu que uma reportagem sobre um atentado no Iraque possa ficar mais barata que a cobertura de um protesto de rua numa cidade brasileira. Mas, por outro lado, gerou uma alienação informativa que nos leva a conhecer mais detalhes sobre as usinas nucleares japoneses do que sobre os mananciais de água que abastecem a população de São Paulo.

alienação informativa provocada pela globalização dos processos de produção noticiosa afastou o público de jornais, revistas e telejornais, levando as empresas a investirem ainda mais na tecnologia tentando compensar a queda de receitas. O jornalismo puro foi perdendo cada vez mais espaços, criando condições para que a notícia digital conquistasse cada vez mais adeptos.

As TICs (tecnologias de informação e comunicação) foram uma benção e um dilema para a indústria dos jornais, por exemplo. Se por um lado permitiram baratear os custos de produção, por outro quebraram um modelo de negócios e, principalmente, retiraram dos jornalistas o controle sobre a captação e distribuição de notícias. As empresas 100% digitais como Google e Facebook monopolizam hoje, respectivamente, a coleta de dados e a distribuição de informações. O jornalismo tende cada vez mais a ficar restrito à agregação de valor.

É na agregação de valor que ocorre a fase crítica da polêmica entre tecnófilos e tecnófobos no jornalismo. Os tecnófilos contam com o apoio velado dos produtores de softwares e dos que lucram com a redução de custos e aumento de eficiência gerados pela inovação tecnológica. Os jornalistas, herdeiros dos valores da imprensa pré-internet, não são e nem podem ser avessos aos novos recursos. Mas não há dúvida de que as TICs ameaçam um status quo profissional e consequentemente geram tensões que se manifestam na forma de argumentos teóricos contra a automação da agregação de valor às notícias.

Se levarmos em conta que a nossa sociedade é cada vez mais movida a dados (big data), e que estes dados passam a ser analisados por softwares analíticos que apontam correlações entre fatos, números e eventos, não fica difícil constatar como as máquinas estarão produzindo notícias. O projeto Laboratórios Vivos, em desenvolvimento no MIT, nos Estados Unidos, já fornece dados captados por sensores instalados em pessoais vivas. São notícias geradas por monitoramento de ações e atitudes. Caberá aos jornalistas ampliar a contextualização dessas notícias.

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