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A vocação comunitária do jornalismo do futuro

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Quando se fala em relações com a comunidade, a reação de repórteres e editores numa redação jornalística convencional não chega a ser de entusiasmo. Em geral os profissionais preferem dar atenção aos “grandes” temas como política, economia e assuntos internacionais, mas o veterano Tom Rosenstiel, um dos gurus do jornalismo norte-americano, acaba de dar munição para os que defendem a vocação comunitária do jornalismo.

Num artigo publicado fevereiro e que foi usado há uma semana como base para um seminário organizado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), Tom Rosenstiel afirma que todas as letras que “o futuro do jornalismo é transformar-se num serviço capaz de ajudar no desenvolvimento de comunidades sociais”. E Rosenstiel não está sozinho nesta profecia. O próprio MIT tem desde 2006 um projeto para desenvolvimento de mídias comunitárias chamado Centro para a Midia Civica, onde o brasileiro Alexandre Gonçalves é um dos pesquisadores.

Tanto Rosenstiel como o MIT procuram responder a uma pergunta ainda sem resposta: qual o papel que o jornalismo desempenhará no novo ambiente da comunicação digital? Embora ambos ainda não tenham uma posição definitiva sobre a questão, o caminho que apontam é o mesmo. A plataforma industrial de produção de notícias não consegue mais preencher sozinha a ligação histórica entre o jornalismo e as necessidades informativas de comunidades sociais.

No seu artigo, o coautor do livro Elementos do Jornalismo [com Bill Kovacs, publicado no Brasil pela Geração Editorial, 204 pp., 2003], conta que os primeiros jornais e os primeiros repórteres surgiram no século 16 em tabernas de portos europeus para publicar a lista de navios atracando e com que tipo de carga. Não demorou muito, esses mesmos folhetins passaram a publicar histórias de marinheiros vindos de terras distantes. “Desde o seu surgimento os jornais viabilizaram a conversa entre jornalistas e a comunidade”, diz Tom Rosenstiel, que acrescenta: “Esta ligação foi perdida quando a imprensa se tornou uma atividade majoritariamente comercial e o lucro passou a ser a preocupação principal”.

A vocação comunitária do jornalismo ganha agora – no contexto digital – uma nova dimensão porque as novas tecnologias tornaram possível a segmentação do noticiário e o restabelecimento da conversa com o leitor. Quando as limitações técnicas e econômicas obrigaram a imprensa a seguir a fórmula da produção em massa para baratear custos de produção, a conversa foi substituída pelo discurso e a notícia personalizada cedeu espaço para uma agenda determinada pelo jornal.

Agora as pessoas começam a descobrir que podem ter notícias que atendem às suas necessidades e desejos, o que provocou uma fuga de leitores e a consequente crise no modelo de negócios dos jornais convencionais. Com isso abriu-se um espaço para a redescoberta da vocação comunitária do jornalismo agora num contexto diferente, onde o desafio não é mais o quê e nem como publicar, mas a fórmula econômica capaz de manter essa prestação de serviços informativos de maneira sustentável.

Este é o principal objetivo das pesquisas em curso no MIT, onde há mais de 30 projetos sendo desenvolvidos. Contrariando o chamado senso comum, tudo indica que não haverá uma formula salvadora, mas sim várias fórmulas e que o sucesso de cada uma delas vai depender diretamente de sua adequação ao contexto em que estão inseridas. Também já possível vislumbrar que a maioria das propostas inclui a economia da troca direta como um dos componentes básicos. Trata-se de uma modalidade de comércio na qual o dinheiro não entra, onde o valor de uso é mais importante do que o valor monetário. Para os economistas modernos, a troca direta, ou escambo, é uma forma primitiva de relação econômica entre indivíduos e entre instituições, mas a ultramoderna economia dos Grandes Dados [fenômeno econômico gerado pela avalancha informativa e que se baseia na colaboração não monetária entre empresas para compartilhar grandes massas de dados com resultados individualizados para cada protagonista; é um tema complexo e quem desejar maiores detalhes pode encontrar o livro Big Data, a Revolution that Will Change the Will Transform How We Live, Work and Think, ou a página A inteligência em Big Data começa com a Intel (em português)] está recuperando o hábito da troca baseada na confiança.

Simplificando muito para facilitar a compreensão, a possibilidade da economia de troca alavancar o jornalismo comunitário está na construção de uma cadeia de produtores de informação em que cada parte tem algo a ganhar com a colaboração entre todos. Esta rede de colaboradores vai desde o cidadão comum que pratica atos jornalísticos pensando no interesse coletivo – como, por exemplo, identificar um ponto de venda de drogas – até uma instituição encarregada do planejamento da segurança pública numa metrópole, como outro exemplo.

Dito dessa maneira parece uma sonhadora utopia, mas, acredite quem quiser, empresas como a Federal Express (Fedex), uma multinacional de transporte de encomendas, entregou seus dados sobre gastos de combustível com sua frota de 69 mil caminhões para uma empresa independente especializada em identificar correlações a partir de grandes números. Esta empresa também recebe dados da DHL, a principal concorrente da Fedex, que tem outros milhares de caminhões distribuindo pacotes pelo mundo inteiro.

A soma dos dados de ambas as frotas ofereceu um resultado que nenhuma das duas conseguiria individualmente e que apontou correlações surpreendentes como o fato de que a economia de combustíveis depende, entre outros fatores, do número de curvas à direita feitas pelos veículos de transporte. Quanto maior o número de curvas à direita, maior a economia de combustíveis. Sem entrar na discussão dos porquês deste fato, ambas as empresas alteraram os trajetos de seus caminhões, lucrando com um compartilhamento de dados inimaginável numa economia de competição feroz e carregada de desconfiança.

A pesquisa sobre o escambo na nova cadeia produtiva de informações jornalísticas ainda está longe de apresentar resultados como esses porque ainda estamos impregnados pelos valores do individualismo e da exclusividade noticiosa. Mas esta nova lógica da colaboração substituindo a competição como forma de melhorar desempenhos inevitavelmente levará à descoberta de fórmulas de sustentabilidade tão inimagináveis quanto o fato de grandes empresas compartilharem suas caixas pretas para ganhar mais dinheiro. A fórmula ainda pode ser uma grande incógnita, mas são cada vez menores as dúvidas de que ela será desenvolvida num contexto comunitário.

O jornalismo está sobre uma mina de ouro e não percebe

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

Não sabe ou não quer saber. Esta é a dúvida, porque informação não é o que deveria estar faltando na mesa de um repórter ou editor. A internet é um dos assuntos onipresentes na agenda de uma redação, mas por incrível que pareça uma das mais rentáveis áreas do jornalismo está sendo explorada, com muito sucesso, por não jornalistas.

A matéria-prima do jornalismo são os dados, fatos, eventos e processos que depois de contextualizados e publicados se transformam em informação, um bem que está sendo disputada a tapa por algumas das mais poderosas empresas do mundo financeiro, industrial, agrícola e comercial. E é justamente essa matéria-prima informativa que jaz inerte nos arquivos digitais ou físicos de empresas jornalísticas cuja sobrevivência está ameaçada por conta da crise no seu modelo de negócios.

O imenso volume de informações acumuladas pelas empresas jornalísticas é tratado como arquivo morto e não como insumo para sistemas de processamento baseados na teoria dos Grandes Dados (tradução literal do jargão Big Data), um dos mais revolucionários subprodutos da inovação tecnológica contemporânea. 

Grandes Dadosé um conceito genérico para conjuntos de dados em volumes tão grandes que os números já não são mais capazes de representá-los de forma significativa. Trata-se de uma realidade nova criada pela avalancha informativa e que inexistia até o surgimento da internet e da digitalização. Uma realidade que está mudando nossos conceitos tradicionais de medição e avaliação.

Foi movido pela ideia dos Grandes Dados que um jovem empreendedor norte-americano, Bradford Cross, e o PhD linguagem computacional Aria Haghighi criaram o projeto Prismaticpara garimpar informações jornalísticas, que já está no terceiro ano de funcionamento. Os dois chegaram ao Prismatic, acredite quem quiser, a partir do sucesso de um programa gratuito que prevê atrasos de voos comerciais nos Estados Unidos e que foi vendido , em 2011, por várias dezenas de milhões de dólares. Todo o desenvolvimento do programa custou 800 mil dólares.

Cross e Haghighi simplesmente pegaram dados públicos de vários milhões de voos domésticos e internacionais de companhias aéreas americanas durante os últimos 40 anos, e misturaramcom outros milhões de informações meteorológicas e registros de centenas de aeroportos para criar uma megabase de dados de onde saíram previsões que deixaram boquiabertas as autoridades aeronáuticas, companhias de aviação, agentes de turismo e, principalmente, os passageiros. Foi um sucesso instantâneo de acessos pelo público.

Essa intuição ou faro por oportunidades alimentadas pelos Grandes Dados normalmente é aproveitada por quem não é do ramo, como afirmam os autores do livro Big Data, Revolution that Wil Transform How We Live, Work and Think, o professor Viktor Mayer-Schonberger e o jornalista Kenneth Cukier. Trata-se de uma questão cultural, porque os donos de grandes arquivos geralmente os acumularam com outros objetivos, aos quais se agarraram sem perceber que o entorno de seus negócios mudou.

É o caso, por exemplo, das empresas de cartões de crédito, que acumularam durante anos dados valiosíssimos sobre os hábitos de consumo de seus usuários mas estavam apenas preocupadas em administrar rápida e eficientemente o pagamento das contas . Há dois anos elas se deram conta da mina de ouro que haviam acumulado e hoje ganham tanto dinheiro comercializando as informações que já poderiam deixar de cobrar anuidades dos usuários, sem que seus orçamentos sofressem o mínimo baque.

As empresas jornalísticas possuem um registro de fatos, dados, eventos e processos nos mais variados campos da atividade social, econômica, política, cultural e esportiva em nível internacional, nacional, regional e local. Algo que ninguém tem e cujo valor é incomensurável. 

Só para citar um exemplo: caso um investidor desejasse iniciar um megaempreendimento no entorno de uma grande cidade ele poderia comprar de um jornal um informe com dados processados sobre a região escolhida num lapso de tempo de várias décadas, com um grau de certeza infinitamente maior do que um levantamento pontual. O investidor pagaria algumas centenas de milhares de reais pelo estudo e ainda sairia no lucro porque estaria evitando prejuízos de milhões caso o investimento esbarrasse em questões ambientais de longo prazo, por exemplo.

O problema está na cultura empresarial predominante entre os nossos executivos de empresas jornalísticas, em sua maioria herdeiros de tradições analógicas. Na luta pela manutenção de seu negócio acabaram inteiramente absorvidos pela dinâmica financeira, perdendo oportunidades óbvias que acabam sendo detectadas, em geral, por quem não tem nada a ver com o jornalismo.

Terrorismo do Bolsa Família e os efeitos letais do boca a boca

Postado por: Carlos Castilho | 4 comentários

O episódio do pânico coletivo causado pelo boato em torno do fim do Bolsa Família mostrou os efeitos devastadores do boca a boca quando as pessoas temem perder algo importante para suas vidas. As consequências foram visíveis e impactantes, mas as causas estão envoltas num emaranhado de suspeitas, que provavelmente exigirão algum tempo para serem esclarecidas.

O certo é que não foi algo espontâneo, fortuito ou ocasional. O fato de ter atingido dez estados brasileiros, na sua maioria localizados no Norte e Nordeste do país, em bairros periféricos e cidades do interior, mostra que existiu algum tipo de sincronismo para mobilizar pessoas, em geral mulheres, com reduzido acesso às fontes primárias de informação.

A única pista possível e concreta para identificar a origem é a velha pergunta: a quem interessa um episódio como esse? É claro que a questão será inevitavelmente politizada e com isso cada parte terá o seu discurso para livrar-se das suspeitas.

Quem poderia resolver a questão é a Polícia Federal, encarregada pelo governo de investigar o caso, mas a natureza sincronizada da corrida à Caixa Econômica Federal, inclusive para receber um pouco plausível e extemporâneo presente doDia das Mães, no valor de 200 reais, vai exigir da PF um esforço bem maior do que o dedicado costumeiramente a casos de corrupção entre políticos ou em ações espetaculares contra o narcotráfico.

Se a Polícia Federal for capaz de esclarecer rapidamente o caso do Bolsa Família, apresentando resultados irrefutáveis, ela estará prestando um enorme serviço ao país porque se mostrará capaz de neutralizar o uso criminoso do boca a boca para implantar o medo, insegurança e dúvida na população. Isso não é pouca coisa numa realidade onde a informação passou a comandar quase tudo em nossa sociedade.

Este é o nosso grande dilema contemporâneo. Como gerenciar individualmente processos coletivos de disseminação de boatos, rumores e notícias? Todos nós passamos a ter algum tipo de responsabilidade informativa para interromper a sequência de eventos que transformam o boca a boca numa arma letal.

A origem de um boato geralmente é centralizada e verticalizada, mas as suas consequências só podem ser neutralizadas de forma coletiva, com base na soma de vontades e conhecimentos individuais. 

Alguém tem um interesse direto e uma estratégia preestabelecida para iniciar o processo viral de disseminação de um rumor ou informação distorcida. Os receptores reagem em função de seus interesses, estado de espírito e nível de informação. Mas quando o boato atinge o bolso, crenças religiosas ou relações familiares, as reações quase sempre são instintivas e emocionais, ampliando os efeitos pretendidos pelo cérebro por trás da boataria.

No caso do Bolsa Família, não adianta politizar porque – aí, sim – cairemos num bate-boca estéril que só aumentará o clima de dúvida e incerteza sobre o qual se apoiou a corrida à Caixa Econômica. O episódio, pelas suas consequências, pode ser classificado como um delito porque provocou vítimas, destruição e gerou o terror entre famílias temerosas de perder um benefício que hoje é a base da política de redistribuição parcial de renda no país. É um tipo caso para a polícia, não só da Federal (a quem cabe a maior responsabilidade), mas todas as demais corporações policiais do país.

Projeto jornalístico online troca editorias por 'obsessões'

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

A estrutura tradicional do jornalismo, baseada em editorias, está sendo questionada por uma série de iniciativas no campo editorial na internet – nas quais, em vez de setores, a organização interna está baseada em problemas e fenômenos. A mudança parece cosmética, mas na realidade ela vai bem mais fundo ao incorporar a complexidade e diversidade do novo ambiente informativo digital às rotinas e valores do jornalismo.

Até agora, a estrutura das redações e também do exercício do jornalismo estava baseada na segmentação de áreas como economia, política, internacional, esporte, cultura, cidade, polícia etc. Essa divisão, que orienta também as especializações assumidas pelos profissionais independentes, começou a apresentar problemas operacionais quando os jornalistas passaram a ter que lidar com temas complexos que abrangem mais de uma editoria. Surgiram conflitos de áreas de atuação, de conhecimento, de egos e de enfoques.

O projeto Quartz, uma publicação online da empresa norte-americana Atlantic Media, que edita a revista cultural Atlantic Review, começou a quebrar o modelo das editorias ao adotar uma estratégia baseada no que os seus responsáveis chamaram de “obsessões informativas”. As pautas noticiosas são organizadas em função de problemas e executadas por jornalistas sem distinção de especialidade.

Isso porque a redação adotou a tese da complexidade, uma consequência da avalancha informativa deflagrada pela combinação da internet com a digitalização. Uma maior disponibilidade de informações inevitavelmente aumenta a diversidade de percepções e dados sobre um mesmo fato ou evento, o que complica muito a tarefa jornalística, tradicionalmente acostumada com atitudes simples como certo ou errado, justo ou injusto, legal ou ilegal. 

A preocupação com a complexidade no tratamento de um problema ou fenômeno implica uma forte integração entre os repórteres e editores envolvidos na reportagem ou no projeto multimídia, o que gera uma ruptura com o individualismo vigente na maioria das redações. O enfoque jornalístico baseado na complexidade obriga também os profissionais a identificar suas limitações, porque, cada vez mais, o conhecimento individual se mostra insuficiente para compreender o que está acontecendo e, mais ainda, para transformar o que foi investigado em narrativas inteligíveis para públicos diversificados.

Como os próprios editores do projeto Quartz reconheceram, a consequência inevitável é que as contribuições externas de leitores, curiosos, especialistas, testemunhas etc. deixam de ser elementos acessórios numa reportagem para serem peças indispensáveis. Isso cria a necessidade de substituir o tradicional sistema de fontes, consultadas esporadicamente, por relacionamentos constantes com redes sociais virtuais ou presenciais para feedback e busca de informações.

A experiência coloca também em questão a tese de que no ambiente digital os jornalistas tenderão a se especializar como forma de achar um nicho onde sobreviver, já que é quase certo que a maioria dos novos profissionais não terá emprego fixo em redações. Trata-se realmente de uma questão em aberto.

Sem a segmentação das editorias, as coberturas jornalísticas passam a ser iniciativas multidisciplinares –noutras palavras, grupos de trabalho diversificados. O que determina a natureza e a composição do grupo encarregado de uma reportagem jornalística é o tema, e não a especialidade de seus membros. Mas é claro que em tarefas complexas será necessária a participação de jornalistas especializados em questões situadas dentro dos objetivos da reportagem.

Lançado em 2012, o projeto Quartz colocou a cobertura da economia como seu foco de referência, mas suas reportagens não têm nada de economês tradicional. São trabalhos multidisciplinares capazes de chamar a atenção de visitantes que não sabem como funciona uma bolsa de valores, por exemplo. Em dezembro de 2012, o site recebeu 1,4 milhão de visitantes únicos e espera chegar aos 2 milhões, em junho de 2013.

Depois da crise nos jornais, chegou a vez da televisão

Postado por: Carlos Castilho | 3 comentários

O negócio do jornalismo na televisão, que até agora sobreviveu aos efeitos do tsunami dainternet, começou a dar sinais de que também vai enfrentar uma crise no seu modelo de negócios, como já acontece com os jornais e revistas impressos. São cada vez mais impactantes os números que mostram a migração do público, especialmente o mais jovem, da TV aberta e por cabo para vídeos na internet.

Em setembro do ano passado, um relatório do Pew Research Center mostrou que a audiência mÉdia dos telejornais norte-americanos caiu de 68% em 1991 para 55% em 2012, enquanto a busca de notícias em vídeo na internet subiu de 24% , em 2002, para 39% em 2012. No mesmo período os jornais e os noticiários radiofônicos despencaram de 56% e 54% ,em 1991, para 29 e 33%, em 2012, respectivamente.

Entre os adultos jovens, com menos de 30 anos, as estatísticas são ainda mais reveladoras na migração para a webTV. A audiência simplesmente está dobrando a cada três anos nos Estados Unidos, conforme o informe do Pew Research Center. 

Aqui no Brasil não temos ainda dados tão detalhados, mas o Ibope informa que a audiência do Jornal Nacional patina em torno dos 27 e 28%,com picos de 30%, dependendo do acontecimento em manchete. Nos anos 1990, o JN se orgulhava de ter índices em torno dos 60 a 70%, dependendo da novela que o precedia.

O telejornal continua fiel à sua receita editorial, mas o público já não é mais o mesmo. Antes, o JN enfrentava uma frágil concorrência de outras emissoras que nem de longe tinham o mesmo cacife financeiro e jornalístico para fazer frente à emissora do Jardim Botânico. Em 2012, 92% dos domicílios brasileiros tinham pelo menos um aparelho de televisão, com um crescimento médio da ordem de 10%. A venda de novos aparelhos não só perdeu fôlego como aumentou o número de equipamentos desligados. Agora são 61%, contra 58% em 2009

Mas agora a concorrência está em qualquer computador conectado à internet. Segundo a Pesquisa Nacional de Amostragem de Domicílios, divulgada em setembro do ano passado, 46% dos brasileiros têm acesso à internet (cerca de 78 milhões de pessoas), mas o índice vem dando saltos de 40% ao ano. Já há previsões de que, em 2020, o número de aparelhos de TV instalados em domicílios brasileiros seja igual ou até menor do que o de computadores.

Os dados demográficos mostram como o mercado está mudando e com ele os comportamentos sobre os quais se apoia o modelo de negócios das emissoras, no fundamental quase o mesmo dos jornais: atrair a atenção dos telespectadores por meio de notícias para vender inserções comerciais entre blocos de informação.

A crise na TV demorou a chegar por conta do chamado infotainement, combinação de entretenimento e informação, que funciona bem no vídeo, mas não tem o mesmo apelo num jornal. O Jornal Nacional também sempre usufruiu do fato de estar colocado entre duas novelas, herdando audiência da novela das 7 com a responsabilidade de não deixar a peteca cair até a novela das 8. [Os horários são apenas referências herdadas dos anos 1980 porque o marketing acabou atropelando a grade de programas. Hoje a novela das oito entra no ar as nove e tanto, enquanto a novela das sete começa perto das 20h. O JN fica com o intervalo entre uma a outra.] 

O problema não é mais o que está acontecendo hoje, mas o que vai acontecer nos próximos dez anos. É aí que está a questão estratégica que obrigará as emissoras a revisar sua programação, porque as pessoas estão cada vez mais recorrendo à internet para ver programas que antes assistiam no aparelho de TV. As mudanças devem afetar os conteúdos, mas principalmente as estratégias comerciais.

Os programas jornalísticos devem incorporar a interatividade e apoiar-se cada vez mais em redes presenciais ou virtuais. A Globo jáestá experimentando alternativas em vários horários, mas ainda de forma muito tímida, diante do medo de perder o controle sobre os conteúdos. A concorrência também aumentará porque os independentes ganham cada vez mais visibilidade na web, com programas baratos e focados em temas específicos.

Tudo indica que o principal adversário das emissoras atuais será o Google, dono do YouTube, quejá tem séries completas disponíveis para todos os gostos e faixas etárias. O Google pega programas de emissoras e produtores autônomos da mesma forma que o Google News usa material de jornais e revistas impressas. Vai haver queda de braço na hora de fixar a divisão de lucros, mas nada que não possa ser acertado, porque afinal os dois lados têm algo a ganhar.

O Google leva vantagemporque tem muito mais experiência na web e sua penetração no ambiente digital é simplesmente esmagadora. Por isso sua desvantagem em termos de produção de conteúdos jornalísticos acaba compensada pela maior capilaridade de sua implantação na web.

O grande dilema das emissorasconvencionais está na infraestrutura comercial. Até agora a programação das emissoras seguia o princípio da massificação, ou seja, um produto para o maior número possível de espectadores, a mesma estratégia adotada pelos jornais. Antes da chegada das novas tecnologias de comunicação e informação, esse era o único esquema possível. Agora, com a digitalização, avalancha informativa e a internet fixa ou móvel, entramos na era da personalização dos conteúdos.

O que era economicamente viável até agora não funciona mais porque os custos, mesmo drasticamente reduzidos, continuam acima das receitas online, que não chegam nem à vigésima parte do que as emissoras cobravam. O modelo publicitário também está mudando, como revela o artigo “The End of Traditional Ad Agencies”, publicadono blog da Harvard Business Review.

A Globo,como líder do mercado de televisão no Brasil, pode empurrar com a barriga o problema por muito mais tempo que suas congêneres norte-americanas e europeias. Mas o tempo acabou,como adverte o site Follow the Media, no texto “The Television Business Will Never Be The Same” [para assinantes[.

Obsessão com noticiário policial esconde crise de criatividade jornalística

Postado por: Carlos Castilho | 4 comentários

A frequência e intensidade da cobertura policial nos telejornais brasileiros deixou de ser apenas preocupante para ser irritantemente monótona. Qualquer noticiário em qualquer horário apresenta uma massacrante sequência de ocorrências policiais, deixando no ar uma intrigante pergunta: trata-se de uma maquiavélica estratégia editorial para implantar a paranoia da violência na população ou é um sintoma da falta de criatividade das redações?

É difícil saber qual das duas hipóteses é a pior e mais danosa à relação de confiança entre a população e a imprensa. Uma relação que está sendo submetida a um triplo estresse. Se a criminalidade domina nos telejornais, nas páginas web de jornais a tendência é destacar informações bizarras ou fofocas de personalidades, enquanto nos jornais e revistas impressas predomina a preocupação em impor uma agenda política desfavorável ao governo e voltada para as eleições de 2014.

Assim fica fácil perceber a orfandade do público em relação à imprensa do país, pois, com raras exceções, os problemas concretos da população ficam em segundo plano. Uma das exceções é o jornal local da rede RBS em Florianópolis (SC), que regularmente identifica problemas de atendimento dos serviços públicos e cobra soluções das autoridades. Não sei se situação idêntica acontece noutras capitais brasileiras, porque moro em Floripa e não tenho acesso ao noticiário local de outras cidades. Os leitores podem me ajudar a montar um quadro mais completo postando comentários com informações.

Crime, escândalos e corrupção não são um monopólio da mídia brasileira. Nos Estados Unidos e até em alguns países europeus o noticiário local também está contaminado pelo vírus da violência. A máxima do “se sangrar é notícia” tem seguidores em todo o mundo, mas ela se tornou insuportável nos últimos tempos aqui no Brasil por falta de opções editoriais em redações que parecem dominadas pela falta de criatividade e ousadia jornalística.

É difícil encontrar razões editoriais para justificar uma cobertura tão detalhada e prolongada de julgamentos como os do goleiro Bruno, para um crime ocorrido em 2010, e o dos seguranças de PC Farias, morto há 17 anos. O noticiário quotidiano virou um circo de horrores em que o caso do norte-americano que sequestrou e estuprou três mulheres durante 10 anos vai logo ser substituído por outro caso tão ou mais macabro. 

O noticiário policial sempre foi um prato forte no menu dos jornais populares, nas rádios e nos telejornais, mas a concorrência feroz entre empresas jornalísticas fez com que elas passassem a focar em detalhes, mesmo sórdidos, e no impacto emocional. É quase uma regra induzir o entrevistado ao choro, no caso de televisão. As entrevistas de policiais, então, são um primor de jargão e recitação do Código Penal, principalmente sobre as penas a que está sujeito um suspeito.

Os editores parecem mais preocupados com a concorrência do que com o público que é obrigado a suportar a batalha de egos e de marqueteiros, enquanto reclama dos transportes, da falta de água, do atendimento médico e da escassez de vagas em creches e escolas primárias. Qualquer repórter que for a uma comunidade vai encontrar uma farta pauta para reportagens e principalmente campo para uma interação com moradores. Mas quando ele volta para a redação encontra uma realidade muito distinta: a da concorrência e subordinação à agenda política dos donos do jornal, revista ou emissora.

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