segunda, 17 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

A divisão de poder entre os Maiorana

Em agosto do ano passado cruzei pessoalmente pela primeira vez com Ronaldo Maiorana um dos donos do grupo Liberal, desde que ele me agrediu, sete anos antes. Foi por acaso. Eu saía e ele entrava numa padaria da cidade, manhã cedo. Ele me estendeu a mão e eu aceitei o cumprimento.

Ronaldo admitiu que me agredir – ainda por cima tendo a cobertura de dois PMs, usados indevidamente como guarda-costas particulares, conforme prática corrente na alta elite paraense – foi um erro.

Ele estava profundamente arrependido do que fez. Prometeu dizer isso de forma pública. E não ficaria nesse gesto de grandeza. Iria também retirar as ações propostas contra mim e que ainda estivessem tramitando pela justiça, a me atormentar desde 2005. Registrei o ocorrido neste jornal.

Os meses transcorreram e nada. No mês passado aconteceu outro encontro casual entre nós, numa livraria que é também loja de vídeo e lanchonete. Ele repetiu as promessas, que igualmente não cumpriu ainda.

Logo depois, pela primeira vez, o advogado Ronaldo Maiorana, diretor jurídico do jornal O Liberal, renovou sua palavra, agora por escrito e em um ambiente público, no face-book do jornalista Ronaldo Brasiliense. Os interlocutores dessa rede social tratavam das infelizes (como de regra) declarações do ator José de Abreu contra Roberto Civita. O corpo do dono da Editora Abril estava ainda quente quando o ator, que provocou furor ao se proclamar bissexual, o atacou com grosserias.

Seguiu-se um diálogo a partir da primeira intervenção de Ronaldo Maiorana, que reproduzo, com os ajustes necessários para facilitar a leitura fora do mundo digital (que usa outra língua):

Ronaldo Maiorana – Infelizmente tem jornalista no Pará que também não respeita.

Walter Pinto – Assim como os donos de jornais não respeitam jornalistas.

Ronaldo Maiorana – Eu estou me referindo aos que já faleceram, e não podem mas se defender como é o caso do Civita, somente isto.

Walter Pinto – Eu estou me referindo aos donos de jornais que andam com brutamontes que não permitem qualquer chance de defesa aos jornalistas espancados, somente isso.

Paulo Emman Emman – Uns merdas, somente isso.

Luiz Pinto – É, Ronaldo Maiorana, nesse quesito respeito não tens nenhuma moral. Devias até ter vergonha de fazer um comentário desses.

Luiz Pinto – Falei! Agora vou apanhar.

Ronaldo Maiorana – Não, Luís, eu sei que errei e pedi desculpa a seu irmão, que com muita generosidade aceitou, Também peço desculpa a toda família. Errar é humano e só Deus sabe o quanto me arrependi.

Luiz Pinto – Aceito as desculpas, mas não aceito essa perseguição ao Lúcio, que sempre se comportou com a maior lisura, merecendo todo respeito pelo profissional que é. Apesar de tudo, tenho consideração por vocês, principalmente pela Loloca [Rosângela Maiorana Kzan] e o Rominho [Romulo Maiorana Júnior], com quem sempre tive um relacionamento profissional de mão dupla. Mas em relação ao Lúcio, sou totalmente contra o comportamento de vocês. Gostaria que ele pudesse fazer seu trabalho e sendo respeitado. Quanto a apanhar, é só um sarro.

Ronaldo Maiorana – Concordo. Da minha parte vou retirar as ações da justiça. Obrigado por aceitar a minha desculpa, tudo de bom para você.

Luiz Pinto – Ronaldo, se isso acontecer terei por ti grande apreço e consideração. Assim se portam os grandes homens. Tudo de bom pra ti e teus filhos.

Ronaldo Maiorana – Obrigado, Luís.

Luiz Pinto – Conheci de perto a relação do Lúcio com o Romulo e posso testemunhar o enorme respeito que teu pai tinha por ele. Tratava-o com um filho. Isso que vocês têm que considerar.

Luiz Pinto – Abraços.

Ronaldo Maiorana – É verdade, abraços.

Jorge Reis – Ronaldo é um cara bom. Trabalhei com ele e tenho muito apreço. Lúcio também é um querido. Uma pena estarem (até agora) em campos opostos. O jornalismo do Pará só tem a perder. Apesar deles e agora Luiz aceitarem as mútuas desculpas, vai aparecer gente aqui e ali (os que querem ver o circo pegar fogo) condenando esse perdão…

De minha parte eu me euforio [alegro?] com isso.

Benny Franklin – Grande gesto [esse] de Ronaldo e da família de Lúcio. Retirar as ações da justiça, é coisa de gente de bem. Da vida só levamos o que plantamos. Bem gera o bem. Gentileza gera gentileza. Erros [cometidos] são reparados com humildade. As partes, que esqueçam o que houve.

Jorge Reis – Graande Ronaldo… (Num falei?)

João Ramid – Paz na terra aos homens de boa vontade!

Jorge Reis – Amem, João …

Ronaldo Brasiliense – Fico feliz em saber que ainda existe bom senso na relação de pessoas inteligentes e cultas. Que este seja um inicio de novos tempos nas relações entre vocês. Grande abraço!

Jorge Reis – Isso aqui, agora, merecia uma manchete de jornal e comemoração com champanhe e fogos ..

Ronaldo Brasiliense – Tim Tim!

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E agora, Ronaldo?

Desde esses diálogos se passaram três semanas. Foram três oportunidades que Ronaldo Maiorana teve. Podia aproveitar o espaço nobre que tem no seu jornal, na página dois dominical de O Liberal, e registrar o seu arrependimento. Só há dois motivos para essa omissão: ou ele não quer materializar a promessa feita aos blogueiros (e a mim) ou, mesmo que queira, não poderá escrever a respeito. Seria censurado.

Meu nome está vetado nos veículos de comunicação das Organizações Romulo Maiorana há mais de 20 anos, desde que Rosângela Maiorana Kzan, diretora administrativa da empresa, tentou me calar através de cinco ações sucessivas na justiça. Uma vez ou outra meu nome apareceu, por acidente ou falha no controle central exercido pelos donos das ORM. O número desses acidentes não chega ao segundo dígito. O controle se tornou mais forte e os vazamentos já não acontecem há bastante tempo.

Mas Ronaldo é também dono das empresas e diretor jurídico do jornal. Pode fazer prevalecer sua vontade, ou pelo menos tentar que ela passe por cima do veto a tudo que me diz respeito. Seria interessante o surgimento de um conflito desse tipo entre os irmãos. Não por qualquer vontade de criar cizânia entre eles, para usar uma expressão típica dos quartéis quando neles estava a fonte do poder nacional. Mas porque assim, talvez, quem sabe, O Liberal redescubra-se como uma empresa jornalística, não apenas um balcão de negócios.

Ou nenhuma outra voz pode se levantar quando sai uma ordem das cordas vocais de Romulo Maiorana Júnior? É ele – e só ele – a origem do poder decisório nas ORM? Os outros seis irmãos têm que se conformar e se submeter ao que ele determina?

Quando morreu, Romulo dividiu as ações da Delta Publicidade, a única sociedade anônima da corporação de informações que criou. Sua viúva, Déa, ficou com 51%. Cada um dos sete filhos recebeu 7%. Logo, a vontade de Déa era que devia prevalecer e sua intervenção manter a unidade e a harmonia entre os filhos. Na prática, porém, havia a força do primogênito, que leva o nome do pai. Déa se submeteu a esse princípio, muito caro a Romulo, descendente de italianos daquele sul do país.

No caso, até havia legitimidade na sucessão do poder através do primogênito. O Júnior tinha algumas das características mercantis do pai, do seu tino para os negócios. Exercendo-as, expandiu o império. Mas inflou, acima de tudo, e de forma hiperbólica, a autoestima, a sua presunção de poder. Passou a querer cada vez mais concedendo cada vez menos.

Por isso a mãe lhe adiantou os 7% que cabiam a ele na herança materna. Depois Romulo Jr. comprou os 7% da irmã mais velha. Assim passou a ser o único dos filhos com três cotas, somando 21%. Como não é maioria suficiente para o mando legal, cultivou o apoio da mãe, além da parceria com Ronaldo, o caçula e o segundo dos homens numa família ainda patriarcal, mesmo com seis mulheres (as cinco irmãs e a mãe).

Se o crescimento do grupo Liberal é, em boa parte, produto da administração de Romulo Jr., é a mesma a origem dos seus males, dos problemas internos que o ameaçam mais por dentro do que por fora. Esses problemas, criados por um ego sem fronteiras, começam a se manifestar publicamente de forma grave.

Tão grave que talvez Romulo Maiorana Júnior se tenha tornado o dirigente de empresa jornalística mais processado na justiça por abuso de poder. Ora querendo estar acima da ação fiscal do Estado, para não pagar impostos ou praticar fraude para conseguir dinheiro público, ora coagindo aqueles que não correspondem aos seus desígnios e interesses para que se submetam à sua vontade, como se ela fosse absoluta. Ao invés de júnior, ele se deveria chamar Romulo II, o grande.

No caso do episódio atualmente mais grave, que envolve sua empresa de táxi aéreo, seu modo autocrata de proceder acabou por expor a mãe, às vésperas dos seus 80 anos, a ser denunciada e processada na justiça federal, a partir de denúncia da Procuradoria Regional da República – e pelo crime de contrabando. Mais atentos e sensíveis à idade de Lucidéa Maiorana, os seis procuradores lotados no Ministério Público Federal em Belém preferiram não incluí-la na ação, que atingiu o filho. Mas não deixaram de mencionar esse fato. E condicionar a exclusão ao que foi produzido na instrução processual (risco que não se materializará: como nas demais empresas do conglomerado, Déa não participa dos atos do primogênito).

Os outros Maiorana, incluindo Ronaldo, deviam pensar com atenção e seriedade nesse recado. E nos demais que a história está lhes mandando. Enquanto há tempo de evitar males maiores.

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Lúcio Flávio Pinto é jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)