|
CORRUPÇÃO
A solução possível
Luiz Otávio Borges
Os problemas "grandes" muitas vezes têm como nascentes problemas "pequenos" inadequadamente tratados. Repito aqui o que disse em artigos anteriormente publicados neste Observatório: a serpente mais venenosa começa a crescer dentro de um inofensivo ovo; o câncer mais maligno se dissemina a partir de um microscópico grupo de células doentes. Em outras palavras: problemas "grandes" freqüentemente são a etapa posterior de problemas "pequenos" que não foram enfrentados no momento certo.
Os esquemas de roubalheira e de vagabundagem, que tanto debilitam o corpo do Estado brasileiro, não apareceram do dia para a noite. Cresceram e se consolidaram até atingir o nível em que se encontram hoje, a partir das "pequenas" safadezas que vêm sendo consentidas, ano após ano, pela coletividade.
Não vão aparecer salvadores para nos socorrer de nossas omissões. Nós, a sociedade civil, é que precisaremos livrar-nos de nossa inércia. Deveremos aprender a reagir. A quebrar os pequenos ovos antes que se transformem em grandes serpentes. A curar os pequenos tumores antes que evoluam para grandes metástases. Somente assim conseguiremos recuperar a máquina pública, colocá-la a serviço da população e livrá-la do descompromisso, do apadrinhamento, da irresponsabilidade e da corrupção que tanto a contaminam.
Teremos de desenvolver ou aprimorar o hábito de nos insurgir sempre que soubermos, direta ou indiretamente :
** que, em dado órgão oficial, servidores criam dificuldades para vender facilidades;
** que "sem recibo é mais barato";
** que, sem propina, "vai ficar tudo parado";
** que alguém arranjou um apadrinhamento ou uma boca no serviço público e recebe salário, portanto, trabalhando pouco ou trabalhando nada;
** que falsários intermediam fraudes no INSS;
** que contrabandistas oferecem a possibilidade de importar qualquer coisa;
** que espertalhões vendem gabaritos de vestibulares ou de concursos públicos;
** que ocorreu favorecimento em certa concorrência;
** que determinada obra ou serviço foi superfaturado;
** que o atendimento em alguma repartição é péssimo;
** que usuários de um serviço público são forçados a pegar filas na madrugada ou no dia anterior.
A lista acima é apenas ilustrativa. O leitor certamente pode adicionar a ela outras situações que não deveríamos tolerar mas que, por este ou aquele motivo, toleramos.
Nosso conformismo diante dos crimes "pequenos" é a autorização de que precisa a mafiocracia, que se apossou de parcelas do aparelho estatal, para nele implantar esquemas de roubalheira e de corrupção. Apenas com a modificação de nossas atitudes, diante dos ovos de serpente em que tropeçamos cotidianamente, seremos capazes de reduzir a quantidade de répteis que tantos danos infligem à nação brasileira.
Se continuarmos subjugados pela cultura do não-adiantismo, seremos forçados a conviver com a série infindável de desgraças de que são exemplos:
** os assaltos perpetrados na Sudam, na Sudene, no INSS, no DNER, no Fundef, nos Detrans, nas obras superfaturadas;
** os apadrinhamentos desavergonhados cometidos em todos os poderes da República;
** o envio para paraísos fiscais, entre 1992 e 1998, de 124 bilhões de reais;
** as redes de corrupção que em oito anos roubaram, apenas da cidade de São Paulo, mais de 11 bilhões de reais (quase dois orçamentos anuais!) ;
** a inclusão de diversos políticos, policiais e magistrados de vários estados na lista de suspeitos gerada pela CPI do Narcotráfico (São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Mato Grosso, Goiás, Paraná, Amazonas, Acre, Rondônia, Piauí, Pernambuco, Alagoas, Maranhão, Bahia);
** a desfaçatez de pessoas físicas e jurídicas e microempresas que, apesar de omissas, isentas ou desativadas, não declararam a movimentação, em 1998, de 185 bilhões;
** o deboche com que nos tratam alguns políticos ao explicar, cinicamente, que ninguém é de mais confiança do que seus pais, mães, tias, sobrinhas, primos, amantes, ex-maridos, cunhados, concunhados, irmãos, avós, aliados políticos e parceiros de sinuca;
** um líder do Governo no Congresso que afirma que, nas campanhas eleitorais, "o caixa-dois é corriqueiro, seja de políticos da situação e da oposição";
** a falta de punição para os que, por negligência, acarretaram a crise de energia atual;
** o desespero de ver o Senado e sua Comissão de Ética serem dirigidos, durante meses intermináveis, por Jader Barbalho e Gilberto Mestrinho .
(*) Associado ao IEDC – Instituto de Estudos Direito e Cidadania

|
|