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ASPAS
GÊNOVA
Eugênio Bucci
"O olho da gente no olho do furacão", copyright Jornal do Brasil, 26/7/01
"A capa do Jornal do Brasil de sábado me pegou pelos
colarinhos, me arrancou do chão e me balançou no ar.
Uma foto ocupava quase toda a metade de cima da primeira página.
Era o rosto de alguém caído no asfalto. O rosto estava
coberto por uma dessas máscaras de malha preta que os motoqueiros
usam sob o capacete para se proteger do frio – e também banhado
de sangue. Havia mais sangue sobre o chão. Era o rosto de
um cadáver, o cadáver de Carlo Giuliani, morto pela
polícia em Gênova, na sexta, dia 20 de julho, durante
as manifestações contra a globalização.
Tinha 23 anos. Na foto, não vemos o corpo de Carlo. Divisamos
apenas uma parte do seu ombro direito, num primeiro plano, logo
no canto inferior direito. Bem no centro, jaz a sua face, mas a
máscara o esconde. Enxergamos somente seus dois olhos, para
sempre fechados. Fechados diante dos nossos olhos.
É uma fotografia fortíssima e, ainda na terça-feira,
na seção de cartas, leitores debatiam a sua publicação.
Uns sustentavam que ela é agressiva, mas necessária.
Outros alegavam que estampá-la daquele modo foi uma escolha
de mau gosto. De minha parte, fiquei chocado a semana toda. Não
com a opção editorial do JB, que não me pareceu
imprópria, mas com o que aquela primeira página me
esfregou na cara: uma sentença de morte para quem discorda.
A manchete, numa linha única, dizia: ‘A globalização
e seus descontentes’ (uma alusão ao Freud de ‘A civilização
e seus descontentes’). Pois ali estava um descontente. Assassinado.
Enquanto Carlo Giuliani perdia a vida, enfrentando um contingente
policial que chegou perto de 15 mil homens, ali, na mesma cidade
de Gênova, reunia-se o G-8. Os donos do mundo banqueteavam
enquanto os descontentes eram contidos na base da força.
O que aconteceu em Gênova é de uma gravidade extrema. A morte de Carlo fez eclodirem manifestações de rua nas cidades mais importantes do mundo. Na minha opinião, mais do que justas. Retratar essa morte é um dever jornalístico. Note o leitor que não estamos aqui falando de um desses crimes bárbaros praticados por um perturbado qualquer. Quando a mídia explora em demasia esse tipo de violência cai, sim, no vício do sensacionalismo, nosso velho conhecido. Tampouco estamos falando de uma violação dos direitos humanos cometida pela polícia corrupta de uma ditadura periférica – coisa que não seria inusitada mas que, de toda forma, é sempre dever da imprensa noticiar (com o cuidado de evitar o vício da demagogia, que é uma espécie de sensacionalismo ‘do bem’). Aqui, o caso é outro: estamos falando de um assassinato perpetrado pelo esquema de segurança do G-8. Se isso não é um escândalo, o que é que ainda nos vai escandalizar? (Há os que jogam nos manifestantes a culpa da morte de Carlo Giuliani, dizendo que eles é que provocaram o caos. Chega a ser inacreditável. É como dizer que a mulher estuprada é a culpada de seu martírio.)
O que se passou foi tão grave que foi destaque em todos os jornais e programas jornalísticos a que tive acesso esta semana. Mas algo está faltando. O que me incomoda nessa cobertura toda não é o que ela vem mostrando, nem as tintas de que ela se vale, mas exatamente o que não ela mostra e não ilumina. É como se exibir a morte fosse o bastante. Para uma imprensa viciada em imagens de impacto, a cabeça ensangüentada de Carlo Giuliani é o olho do furacão. E basta. O nosso olho – nosso olho de público, nosso olho de jornalistas, tanto faz – fica hipnotizado e não consegue se desprender daí. Não vê o entorno, não estabelece as relações necessárias. Assim, caímos numa inversão: a imagem forte, que nos alerta, serve para nos cegar. As razões menos superficiais nos escapam.
Para resumir o que quero dizer aqui, recorro a um cartum do célebre Plantu, que saiu no Le Monde deste domingo. O cartum representa três cenas simultâneas. Ao fundo, protegidos por um muro, por uma cerca de arame farpado e por um brucutu de cara fechada, os figurões do G-8 conversam em torno de uma mesa redonda. Ao centro, logo em frente ao muro de concreto e do brucutu, há um corpo no chão, ladeado de sangue vermelho (é só aí que o artista faz uso de uma cor que não seja o preto) e de uma multidão de fotógrafos. Por fim, separados de todos os outros por uma segunda cerca de arame farpado, vêm os miseráveis, esqueléticos, que olham de longe para o tumulto dos fotógrafos sem expressar reação alguma. O desenho do Le Monde sugere que tanto a miséria quanto a cúpula do G-8 estão fora do alcance dos repórteres. Tendo a concordar com a sugestão. A miséria porque é chata e não vende jornal; quanto à cúpula, é ela quem manda e não quer ser incomodada.
É verdade que o olho da imprensa deve ajudar o olho do público a ver mais de perto aquilo que não é fácil de admitir, como a idéia de que os responsáveis pela paz mundial são capazes de assassinar um manifestante indefeso. No caso da morte de Carlo, essa missão foi exaustivamente cumprida. Mas a imprensa também deveria atentar para um outro dever que ela tem, que é o de afastar o olho do público daquilo que o fascina e, ao fasciná-lo, paralisa-o. Assim como dá o close, a imprensa deveria dar visões panorâmicas. Estas são as que mais fazem falta ultimamente.
O jornalismo cumpriu sua função ao retratar os enfrentamentos em Gênova, mas deixa a desejar quando não investiga as razões de fundo desses enfrentamentos – e quando aceita acriticamente, em seu discurso cotidiano, as premissas que presidem a globalização. Penso na imprensa brasileira de modo especial. Por mais que seja perigoso generalizar, noto que ela questiona essas premissas. Ela não se pergunta sistematicamente das conexões entre as tragédias sociais – desemprego generalizado, fome, trabalho escravo – e o processo de globalização, assim como não apura como e por que as demandas do capital, no nosso tempo, acabaram se transformando em metas públicas de governo pelo mundo afora: privatizações, desmonte da previdência, asfixia das universidades públicas etc. Em todos os países periféricos ou semiperiféricos as metas de governo são idênticas. Por quê? Ela não pergunta enfim por que a globalização virou um fato consumado que se impõe sem qualquer outro diálogo que não esses ‘de cúpula’. Antes, as razões de Estado é que eram indiscutíveis e indevassáveis. Hoje, são as razões do mercado. Por quê?
O sentido histórico das manifestações que se espalham pelo mundo tem a ver com essas perguntas. Ao não ouvir e nem enxergar o que está para além dos arames farpados e dos muros no cartum de Plantu, os jornalistas e o público ficamos sem entender direito por que, afinal, esse rapaz foi morrer em Gênova, sem firmar o nobre pacto entre o cosmos sangrento e a alma pura. (Eugênio Bucci é secretário editorial da editora Abril)"
Deonísio da Silva
"O ponto G do mundo", copyright Época nº 167, 30/7/01
"É perigosa a toca do leão, mesmo quando o leão não está lá. Esses versos atormentaram as últimas noites de Gaio Mário (157-86 a.C.), general e político romano. Em vez de pesadelos com imagens, como todo mundo, tinha agitações noturnas por causa dos versos que ouvia em sonhos, sem poder discernir a figura que os pronunciava. Era filho de gente pobre, mas graças à carreira militar galgou os mais altos postos do império, tendo sido cônsul oito vezes, depois de ter ocupado os cargos de pretor e tribuno.
Os romanos, à semelhança de outras culturas antigas, prestavam atenção, talvez exagerada, aos sonhos. E também aos pesadelos. A mulher de Pilatos pediu-lhe que tomasse cuidado no julgamento de Jesus, uma sexta-feira, porque na noite anterior tinha tido presságios com aquele que o marido omisso, mesmo convicto de sua inocência, haveria de condenar, lavando as mãos. Desde então, o gesto passou a simbolizar atos de deixar de fazer aquilo que deveria ser feito, o que vale para todos nós, mas especialmente para quem está investido de autoridade. Lendas cristãs espalharam a versão de que, arrependido de ter condenado um rebelde a quem admirava, o governador romano suicidou-se por afogamento. Neste caso omitiu-se o precioso informe de ele ter caído em desgraça diante de Tibério.
O império romano fez a primeira globalização do mundo e seus líderes não disfarçavam o poder, nem fingiam dividi-lo, como fazem hoje os Estados Unidos. Dominavam o mundo e ponto final. Nem passava pela cabeça deles um G-7 ou, mais recentemente, para incorporar a Rússia, um G-8. A fixação pelo número sete também é antiga, como ressaltam sobretudo aqueles que apreciam a cabala e a sorte e o azar que podem estar disfarçados nos números.
Talvez o ponto G do mundo tenha de ser marcado com outras letras. F ou H, por exemplo. Pois o grande problema não é de grupo, é de fome, fame, faim, hambre, ou que outro nome tenha a falta de comida. Talvez fosse mais coerente denominar o grupo dos sete países mais industrializados do mundo, criado em 1975, de G-7 + 1, uma vez que o último, a Rússia, é muito diferente dos sete e mais parecido com aqueles outros que já haviam se organizado ainda em 1964, sob a sigla G-77, número depois aumentado para 130.
G é inicial cheia de sutis complexidades, como lembram Gaio, Gênova, G-8 e George Bush, a quem cabe liderar os donos do mundo. Eles não devem crer em bruxas, mas nós, como Clarice Lispector, que ia a congressos de adeptos de forças ocultas, sabemos que elas existem e interferem na ordem das coisas. E não nos passou despercebido que a próxima reunião do G-7+1, em 2002, será na remota localidade canadense de Kanaskis, onde só existem dois hotéis. Os felizardos estão fugindo de nós, que ficamos de fora. E juram que querem resolver nossos problemas. Para isso precisam que fiquemos longe deles, ainda que sejamos o assunto principal de suas discussões. Os leões ainda não estão lá, mas Kanaskis já começou a ficar perigosa. E já há sonhos e pesadelos rondando o lugarejo, assim como pretores, cônsules e generais de olho na salvação de algumas pátrias."
Alberto Dines
"A ‘dor país’ e outras dores", copyright Jornal do Brasil, 28/7/01
"Truncado pelos disfarces, o jargão dos economistas e financistas é perverso. Como todas as linguagens corporativas e gremiais destinadas aos eleitos e, por isso, protegidas do pleno entendimento. Quando as agências internacionais alteram o ranking de periculosidade oferecido por determinada economia não se dão conta de que atrás do implacável cruzamento de índices, cotações e cifras existem milhões de criaturas de repente rebaixadas para o inferno ou condenadas ao pelotão de fuzilamento dos investidores.
A psiquiatra e psicanalista argentina Silvia Bleichmar, humilhada pela curva ascendente do risco país tirou do fundo da alma portenha a dolorosa pergunta: e como se mede a dor país? Como aquilatar a quota diária de afrontas sofridas por aqueles que não têm trabalho, agora não têm aposentadoria e, porque foram bem alimentados há varias gerações, sequer podem dar-se ao luxo de morrer de inanição? A patética proclamação foi publicada no mais importante diário argentino, Clarín, e ontem reproduzida na primeira página do Estadão.
Risco país é uma sentença absoluta enfiada num índice relativo que mal se consegue aquilatar mas que, no entanto, aplica-se com igual rigor ao empregado e ao desempregado, aos poupadores e inadimplentes, à criança e ao idoso. O ratting da Moody’s é a invenção mais recente do fertilíssimo Dr. Strangelove. Eufemismo e, como todos, dissimulação. Não muito diferente de Solução Final, inventada pelos estrategistas de Hitler para camuflar o extermínio dos judeus, ou o verbo relaxar produzido nos porões da Inquisição para significar que o acusado pelo tribunal religioso seria entregue à Justiça secular para ser garroteado ou queimado.
A expressão cunhada pela psicanalista nada tem de astuciosa. Ela escancara a infelicidade nacional e propõe a impossível mensuração do sofrimento moral. Escala para as feridas da alma. Manifestação de um senso trágico muito mais profundo e pungente do que o circo de indignação que há alguns anos vem correndo mundo e que acaba de tirar a vida de um jovem militante em Gênova. Para os argentinos o perigo do fascismo é mais concre-to, está na história de cada um. A tentação da baderna é refreada pelas vivências da guerra suja. Lá não há um Berlusconi mas há memória dos Masseras e Videlas.
A Argentina vive um clima sinistro. Estranha barricada sem tiros e sem saídas. Aqui estamos rodeados de barretadas. Nossa dor país é outra. A derrota para Honduras mexeu mais com os brios do que as fotos do motim dos policiais baianos encapuzados e armados como se fossem assaltantes. Lula não percebe que quando dá o sinal verde para as greves dos agentes da lei passa uma borracha em todos os seus discursos em defesa do Estado de Direito para alinhar- se à ‘democracia direta’ proposta pelo ativista José Bové.
Barretada é quando um próspero banqueiro de investimentos, agora transformado em gestor de finanças municipais, lança candente diatribe contra o neoliberalismo sem explicar o que fará com os lucros que o neoliberalismo lhe propiciou – vai distribuí-los ao povão que vive debaixo dos viadutos da sua cidade?
Barretada é deblaterar contra a iniqüidade do mercado e, ao mesmo tempo, receber polpudos salários a serviço do mercado. É a tal ética sem dor, ambigüidade radical-chic típica de uma Belíndia cuja elite, ela própria, é algo Bélgica e muito Índia.
São de um indiano, Amartya Sen, Nobel de Economia de 1998, as palavras mais sábias, serenas e as noções mais lúcidas sobre globalização e mercados aparecidas a partir do sangrento agito de Gênova. Economista comprometido com a prioridade para as questões sociais, verdadeiro humanista, Sen consegue mostrar osavanços propiciados pela mundialização e, ao mesmo tempo, apontar para a necessidade de uma distribuição mais justa dos benefícios. Seu livro Sobre ética e economia ainda deve estar nas livrarias (Cia. das Letras, 1999), pequeno guia para acalmar perplexidades.
‘A questão não é apenas saber se existe algum ganho para todas as partes mas se a distribuição dos ganhos é eqüitativa’ escreveu no Global Viewpoint. ‘Não é possível ter uma economia próspera sem o seu uso extensivo. Mas a economia de mercado pode apresentar muitos resultados diferentes, dependendo de como os recursos físicos são distribuídos, quais as regras do jogo e assim por diante’. Se a globalização é uma loucura, a luta contra a globalização não pode seguir a mesma loucura é a con-clusão de Amartya Sen.
O desvario, aliás, nunca foi solução, ele é o problema. A dor país proposta por Silvia Bleichmar vai na direção contrária: forma de conscientização, maneira de exorcizar sentimentos engolidos, por isso, imprecisos. Por isso, perigosos.
Lembra a noção de dores do mundo, as weltschmerzen do início do romantismo quando poetas e artistas, mesmo sem os benefícios da sociedade da informação, irmanavam-se nas aflições da condição humana.
A dor país elaborada na Argentina precisa ser ouvida e percebida aqui, neste vasto território do não-me-importismo onde o que vale não é o grito mas o dernier cri, o modismo mais recente, a palavra de ordem mais quente. O drama surdo e a tragédia silenciosa aqui não ressoam. O que se passa além da esquina não comove. Este é um risco que o nosso risco país não detecta mas pode ser arrasador."

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