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ASPAS
FONTES E PODER
Eduardo Graeff
"‘Off’", copyright Folha de S. Paulo, 27/04/01
"Como será que fica o ‘off’ no projeto de defesa da língua portuguesa do deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP)? Será um estrangeirismo consagrado pelo uso, com direito de permanecer no vocabulário nacional? Ou será um desses corpos estranhos que o projeto quer ver banido ou adequadamente traduzido para o vernáculo? Eu aposto no primeiro. Não que chegue a ser desejável, mas parece, em todo o caso, a hipótese mais plausível.
Alguém consegue imaginar a vida sem o ‘off’? Eu, francamente, não. Pelo menos não em Brasília. Proibi-lo no resto do país e abrir uma exceção para os usos e costumes da capital federal seria uma tremenda discriminação. As alternativas de tradução, por outro lado, não me soam convincentes. ‘Anônimo’ tem uma conotação pejorativa que nem sempre se justifica. ‘Fora do registro’, tradução literal do inglês ‘off the record’, não capta toda a complexidade do ‘off’, tal como nós o empregamos. Esse é um caso em que a palavra estrangeira foi adotada tal e qual, mas a coisa em si foi transformada no processo de aclimatação.
Em sentido estrito, ‘off’ é a afirmação não destinada a publicação que o jornalista usa como pista para apurar suas reportagens com outras fontes ‘on the record’. Assim funcionou com ‘Deap Throat’, codinome da fonte nunca revelada dos repórteres do jornal ‘The Washington Post’ no desmascaramento do caso Watergate. O uso brasileiro do ‘off’, no entanto, admite a publicação sem corroboração ‘on the record’ -às vezes com, às vezes sem a ressalva de que se trata de informação não-confirmada. As duas acepções têm em comum o sigilo da fonte. A diferença é a autonomia que a fonte anônima pode assumir no ‘off’ à brasileira.
O anonimato - a oportunidade de expor os outros publicamente sem expor a si mesmo - tende a imprimir ao ‘off’ uma marca de ambiguidade. Quem fala em ‘off’ pode querer revelar um fato de interesse público ou querer aproveitar para expressar uma mera preferência pessoal ou espalhar um boato malicioso. Quem publica pode estar usando o ‘off’ para descobrir a verdade ou pode estar sendo usado. Isso não diminui o valor do ‘off’ no jornalismo investigativo. Mas, quanto mais livre o seu uso, quanto menos sujeito à corroboração em ‘on’, mais larga a faixa de risco moral em que ele opera.
Banalizado, o ‘off’ é a matéria-prima por excelência das colunas ‘de bastidor’ do poder. Aí ele se presta à troca de mensagens cifradas entre políticos, para entretenimento casual dos leitores e considerável excitação dos próprios envolvidos. Na corte republicana, como em todas as cortes, não há sigilo que aguente. O bom entendedor é capaz de identificar a procedência de uma notinha pelo teor de veneno. A identidade da fonte acaba ela própria virando assunto de mexerico em ‘off’, claro entre políticos, assessores de imprensa e jornalistas. O segredo de ‘Deap Throat’, nesse circuito, não duraria um dia.
Até aí, tudo bem. O público se diverte um pouco e, fora alguns egos hipersensíveis, nenhum prócer com um mínimo de traquejo chega a perder o sono. Política sem alguma maledicência seria de matar de tédio.
O risco se agrava em duas situações. Primeiro, quando a maledicência resvala para o campo da ofensa, o sigilo da fonte deixa à parte ofendida a opção de comprar uma briga desigual com o próprio veículo ou levar o desaforo para casa. E, segundo, quando o uso permissivo do ‘off’ envolve instâncias de poder normalmente mais circunspectas, que, por regra escrita ou costumeira, devem guardar uma distância prudente do burburinho da pequena política. Aí é a respeitabilidade das instituições que acaba sofrendo.
Separar a mera maledicência da ofensa e da informação de interesse público é problema ao mesmo tempo da fonte, do jornalista e do leitor. A julgar pelos índices de leitura das colunas de bastidor, os leitores não estão saturados nem ofendidos com a latitude do ‘off’ na nossa imprensa. Os jornalistas, gostando ou não, também não parecem ter por que ou como se auto-restringir.
Sendo assim, o problema é, em última análise, da fonte das diferentes categorias institucionais de fontes junto ao poder. Elas sabem ou deveriam saber quanto lhes custa frequentar as rodas de mexericos da corte, mesmo -e especialmente- sob o véu do anonimato. E, como o véu é diáfano, sempre tem chances de conter os pares mais afoitos, se assim entenderem. Não precisa de nenhum código especial para isso. Só de conversa franca e de bom senso.
É claro que o ajuste de comportamento entre pares não dispensa nem impede a discussão pública dos usos e abusos do ‘off’. Até pela sua presença conspícua na cena pública brasileira, não teria o menor cabimento fazer do uso corrente do ‘off’, ele próprio, um segredo de polichinelo. (Eduardo Graeff, 51, sociólogo, é assessor especial da Presidência da República)"
NORDESTE: INJUSTIÇAS DA MÍDIA
Rachel de Queiroz
"Eles não sabem o que dizem", copyright Valor Econômico, 26/04/01
"Quando a gente se queixa de que a mídia eletrônica brasileira padece de sinistrose, o pessoal da televisão e dos rádios se aborrece, diz que somos injustos. Mas vejam só se é injustiça.
Durante os últimos anos, o Nordeste brasileiro padeceu o seu mais terrível período de secas, intercalado por dois anos de enchentes, igualmente calamitosos. Não há registros, na nossa história, de tantos anos secos seguidos.
O recorde, datado de há cerca de dois séculos, alcançara apenas quatro anos. A mídia nacional deu a essa quase década de calamidade uma cobertura completa. Mostrava a terra esturricada, os açudes sem água com o fundo de lama ressequido, gretada como adobes. Os roçados sem uma folha, lá onde deveria haver o esplendor dos milharais, das moitas de feijão, dos verdes dos algodoais.
E, principalmente, mostrava-se de norte a sul o aspecto famélico da população nordestina, gente magérrima, crianças só na pele e osso, barriga inchada e olhar mortiço.Vendo essas imagens, o Brasil inteiro justamente se comovia, como se comoveu muita gente no estrangeiro, tocados todos pela tragédia que se abatia sobre tantos milhões de seres humanos.
E aí, no embalo de êxito, os jovens repórteres eletrônicos se entusiasmaram, e deram de exagerar. Tinha repórter que tirava de frente das câmeras (eu não vi, me contaram) qualquer pessoa mais gordinha, ou mesmo um vaso de tinhorão ou canteiro de coentros, penosamente regados com água de cacimba.
Mas foi principalmente no item alimentação que eles se excederam. Recordo uma reportagem em que o moço sensacionalmente exclamava que os flagelados estavam se alimentando até mesmo de ratos! E expunha à câmera um bicho quase do tamanho de um coelho, pendurado pelo longo rabo.
Os nordestinos riram do espalhafato do rapaz: na verdade tratava-se de um mocó, roedor da família dos cávidas, semelhante à cobaia (está no Aurélio), caça com sabor semelhante ao do preá, muito apreciada, mesmo nos bons tempos de abundância. Já outro exibiu (sempre pendurado pelo rabo) ‘um lagarto horroroso, o povo está comendo calangos!’ Esse é também outra caça fina: o teju, tejuaçu ou teiú, como ensina Mestre Aurélio.
E por fim, surge na tela uma mocinha horrorizada ao ver mulheres caçando ‘cobras de lama’, e apresentava, para espanto do público, um negro e serpenteante muçum. Sim, muçum, que não é cobra nenhuma: segundo ainda o Aurélio, ele é um ‘peixe teleósteo, da família dos simbrânquios, também chamado enguia de água- doce’. Come-se como se come a enguia do mar. Vejam só.
Mas agora despontou o novo milênio, trazendo um rico inverno. As águas abundantes ressuscitaram a terra do Nordeste, que toda se cobriu de verde e flor. Os rios correm, os açudes sangram, os peixes saltam nas cachoeiras dos riachos. Nos roçados os legumes (milho e feijão) já estão em plena safra. O povo, gordo, de barriga cheia, cozinha feijão duas vezes por dia, seu maior sinal de fartura. A mandioca cresce para as farinhadas de agosto. O gado está lindo, roliço e cheiroso. Nas fazendas faz-se queijo.
Todo mundo larga da enxada, pega nas tarrafas e vai se divertir nas pescarias. Os pés de pau branco são imensos buquês de flor; daqui a pouco os pau-d'arco com seus roxos e amarelos, encherão a caatinga, já florida pelos sãojoões, umaris bravos e jitiranas. É uma glória. Mas quem já ouviu falar nisso, ou viu a imagem disso nas telas de TV? Se é bom, se é bonito, não dá notícia. Como naquela anedota de Portinari com o príncipe, eles só querem miséria."
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