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PINDAMONHANGABA
Imprensa livre, eis a questão

Cidoval Morais de Sousa (*)

Esta semana o prefeito de Pindamonhangaba, Vito Ardito (PSDB), protagonizou cena digna dos tempos mais duros da ditadura militar. Foi a uma estação de rádio "chamar a responsabilidade da TV Setorial pelo desserviço que a emissora vem prestando à cidade, fazendo jornalismo tendencioso e não abrindo espaço para que a prefeitura se defenda". Enfático, fez ameaças: vai fazer uma representação contra a TV no Ministério das Comunicações, e anunciou articulações com deputados para a tomada de providências e consultas à Anatel. No seu entendimento, a Setorial não vem cumprindo a sua missão de mostrar as coisas boas da cidade, como "emissora cultural", e só tem trabalhado para "machucar o prefeito" e comprometer "o desenvolvimento do município".

Em primeiro lugar, e de forma sucinta, vamos contextualizar o destempero do prefeito: a TV Setorial é uma emissora de natureza educativa, afiliada da Rede Brasil (TVE-Rio), gerida por uma fundação sem fins lucrativos e que está hoje em 23 municípios do Vale do Paraíba e em processo de expansão. Há pouco menos de dois anos a direção decidiu investir numa proposta diferente de jornalismo, que foi denominada de Jornalismo Cidadão. O primeiro ano foi de treinamento, discussão de formato (ainda não de todo definido, dadas as dificuldades financeiras e técnicas), modelos de gestão, em suma, experimentação. Mas desde o início ficou claro que a opção era polêmica, considerando a cultura política e os vícios do jornalismo "chapa branca", comum na maioria das cidades do interior.

As dificuldades técnicas, a carência de um projeto de marketing e vendas mais agressivo, um mercado "querendo ver para crer" não desestimularam a equipe, que, apesar de pequena, se desdobrou para oferecer informação de qualidade. A emissora abriu suas portas e recebeu a comunidade para discutir, de igual para igual, seus projetos e sua pauta de cobertura jornalística. Hoje, 75% das matérias que vão ar no Jornal Setorial, dos programas especiais, das entrevistas, dos projetos comunitários da emissora são discutidos e decididos nesta reunião semanal – bastante conhecida e freqüentada por ONGs, associações de moradores, entidades de classe, ativistas culturais, empresas e universidades de todo o Vale. A iniciativa, inédita, só tem reforçado a nossa convicção de que se existe um caminho para o jornalismo esse é o caminho.

Entretanto, nossa postura crítica diante das políticas públicas locais, que deixam sem transporte ou passe escolar centenas de crianças da zona rural que precisam estudar; que privilegiam interesses particulares em detrimento dos interesses públicos; que desviam recursos e manipulam verbas com fins eleitoreiros; que usam as verbas destinadas à infra-estrutura para valorizar os imóveis particulares não agradou aos coronéis de plantão. Apanhados, agora, em seus pontos fracos, se passam por vítima e despejam toda a ira contra o bem mais caro da democracia: a liberdade de expressão. A atitude do senhor Vito Ardito deixa claro que o coronelismo continua vivo e cheio de vontades. Quem não reza por sua cartilha é um obstáculo a ser removido, não importam os métodos. E nada mais incomoda aos coronéis do que uma imprensa livre, independente, comprometida com a cidadania.

(*) Diretor de Jornalismo da TV Setorial e professor da Universidade de Taubaté

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