BIOGRAFIAS
Histórias de quem faz história
Nádia Almeida (*)
Como sempre, no horário do almoço, quando a redação fica silenciosa e na penumbra, gosto de curtir a solidão para ler, acessar o Observatório da Imprensa ou apenas refletir. Jornal pequeno tem dessas coisas. No que eu trabalho, como editora, o dono ordenou uma pausa obrigatória de duas horas para economizar energia e telefone. Nem o argumento de que muitas notícias chegam, sem aviso, também na hora do almoço convenceu o patrão. Sem nada para fazer, todos saem. Exceto eu, incorrigivelmente insurreta.
Sentada na poltrona cor caramelo, a mais velha, porém confortável, terminei de ler Musácea – Crônica de uma morte acidental, do jornalista João Paulo Soares. Comecei a ler porque o autor já ocupou a mesma função que eu hoje levo adiante, no mesmo jornal, quem sabe na mesma poltrona. Apesar de não sermos amigos, temos amigos em comum. Na verdade, busquei no livro mais que entretenimento e cultura. Busquei inspiração. Acho que todo jornalista pensa em, um dia, escrever um livro. Contar as cenas dramáticas e hilárias que acontecem nas redações, inclusive nas dos pequenos jornais. No meu caso, diários da "imprensa nanica", como chamam.
E o livro de João Paulo enfoca exatamente isso: as aventuras de um repórter iniciante, a vontade de superação de um fotógrafo que trabalha como jornalista mas não tem formação universitária, os dramas de consciência de uma editora experiente entre os arroubos da sua equipe de "focas" e o ceticismo incrustado pelo tempo, a censura do patrão, a promiscuidade dos poderosos.
Vivos ou mortos
Administrando os prazeres de duas horas, deu para almoçar, em cinco minutos, no minúsculo restaurante japonês e terminar de ler o livro. A glória foi ter sobrado tempo para acessar o Observatório, obrigada a eleger um só texto desta vez. Escolhi pelo título: "Balada para um repórter", que me fisgou pela nostalgia. Recordei uma música antiga, instrumental, Balada para um verão, ou algo assim. Comecei a ler e fiquei emocionada com o texto de Ali Kamel, cujo nome aparece no fim do letreiro do Jornal Nacional – o talento está impresso em textos e imagens por esse Brasil. Emocionada com cenas que as pessoas que compram e lêem jornais e revistas, ouvem rádio ou assistem a telejornais nem imaginam. Através daquele artigo pude sentir a energia vibrante de Alessandro Porro, tão distante e, ao mesmo tempo, íntimo. Com a sensação fraterna que embala um grupo de iguais, situações diferentes me pareceram semelhantes.
Talvez por atuar em pequenos jornais desde o início da carreira, costumo ler biografias, reais ou fictícias, de jornalistas que se destacam onde a maioria nasce e morre anônima. É um modo de sair do ostracismo que tenta nos acorrentar a funções repetitivas, às mesmas fontes, aos rituais diários. Emergir para respirar. Mas também porque é curioso saber quem são as pessoas por trás das notícias – não as que constituem as notícias, mas as que as registram. Celebridades ao inverso, elas fazem a história. De vez em quando, revelam suas próprias histórias. Interessante é desvendar esse universo underground.
No jornalismo, o anonimato prevalece. Mas também prevalecem mediocridade, acomodação e resignação. Ignoro o que se passa em grandes redações (nunca trabalhei num jornal diário ou numa grande revista, não por falta de vontade, mas, digamos, de contexto), e não deixo de me sentir frustrada, como público, quando me deparo com reportagens parciais, textos sem criatividade, matérias sem paixão, tanto em jornais de bairro como nos de abrangência nacional. Não me refiro ao envolvimento pessoal que provoca tendenciosidade, mas ao sentimento que instiga o profissional a submergir num caso, se aprofundar em busca da verdade. E aí tanto faz trabalhar em Musácea ou no Rio de Janeiro.
Histórias de vida de bons jornalistas, que tantas vezes colocam família, saúde, dinheiro e status em segundo plano para se entregar à grande paixão de revelar notícias, são exemplos vivos, mesmo que eles estejam mortos. Principalmente para os que vivem, mas, profissionalmente, parecem mortos.
(*) Jornalista
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