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ASPAS

ELEIÇÕES 2000
William Safire

"Pesquisas eleitorais influenciam cobertura da mídia", copyright Folha de S.Paulo / The New York Times, tradução de Clara Allain, 1/10/00

"Será que você está tendo a mesma sensação que eu -de que estamos sendo puxados de um lado a outro pelos resultados loucamente oscilantes das sondagens de intenção de voto?

Antes das convenções, o candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, George W. Bush, estava à frente por 17 pontos; depois delas, o democrata Al Gore tomou a dianteira.
Na semana passada, a maioria das pesquisas de opinião indicava que Gore marchava diretamente para uma vitória tranquila; esta semana, Bush o estaria tirando do caminho.

A cada oscilação do pêndulo das sondagens, a cobertura da mídia muda e passa a atacar o candidato que está à frente. Do mesmo modo, quem supostamente está ‘em queda livre’ parece errar a cada passo do caminho -até que uma nova ‘retomada’ por parte da campanha antes em franca retirada restaura a confiança no QG.

Será que a maioria do eleitorado norte-americano está realmente mudando de idéia a cada dia? Terá o beijo de Bush levado milhões de pessoas a mudar sua intenção de voto?

Nesta semana o ‘The Washington Times’ declarou, em manchete, que ‘Bush assume a dianteira e deixa Al Gore para trás, depois de bate-papos na TV com Oprah e Regis’.

É possível que uma vantagem de 13 pontos apontada na sondagem anterior e maluca da ‘Newsweek’ tenha realmente sido praticamente eliminada pela beijoca que Bush deu na bochecha da apresentadora de TV Oprah Winfrey?

Não. As razões para as oscilações inusitadas (e também da cobertura de mídia que vem exagerá-las ainda mais) são: 1) a contaminação, sob pressão, das pesquisas de opinião pública, 2) o exagero promovido pela mídia da importância das sondagens como previsão do comportamento dos eleitores.

Em meio a toda a reprodução apressada dos resultados das sondagens, como se elas fossem reflexos certeiros da realidade vindoura, será que também você se deu conta do sumiço de uma categoria antigamente conhecida como a dos eleitores indecisos?

Se um dos candidatos aparece à frente de outro por 44 pontos percentuais contra 42, isso significa que 14% do eleitorado está decididamente indeciso ou pretende votar por partidos menores.

Pelo fato de os órgãos de imprensa que encomendam as sondagens (e que estão em concorrência acirrada entre eles) exigirem uma resposta clara à pergunta ‘quem está à frente?’, os institutos que conduzem as pesquisas sofrem pressão para não aceitarem um ‘não’ como resposta. O pesquisador pressiona o entrevistado: ‘Para qual candidato você tende, hoje?’.

Se o entrevistado tiver acabado de assistir a uma entrevista na TV que o impressionou, ele ou ela vai relutantemente ‘tender em direção’ ao candidato cujo nome parece estar mais cotado na Internet ou no bate-papo transmitido pela TV a cabo, ou, então, cujo nome lhe for mais familiar.
A sondagem vai, então, contabilizar aquele entrevistado como alguém que optou por um dos candidatos.

No dia seguinte, a inclinação indecisa desse mesmo tipo de pessoa pode facilmente mudar, e, nesse caso, será captada como mudança de opinião. Não o é.

Aquilo que é relatado como um ‘crescimento forte’ de um candidato apenas representa a indecisão dos eleitores, dita em voz alta. Outra razão da aparente volatilidade dos eleitores é o fato de que aparentar estar desinformado é visto como socialmente inaceitável.

Muitas pessoas que não querem tomar partido antes dos debates citam um candidato apenas para não darem a impressão de serem apáticas ou pouco patriotas. Às vezes os institutos de pesquisas aplacam a exigência de resultados feita por seus clientes da mídia por meio da distribuição.

Se um candidato em uma pesquisa lidera por 45 pontos contra 40, e 15% dos entrevistados ainda não decidiram em quem votar, a sondagem pode distribuir os indecisos entre os candidatos, respeitando as proporções dos entrevistados decididos, exagerando com isso a vantagem do primeiro colocado na sondagem.

O segredinho inconfesso das sondagens políticas é o seguinte: ainda em 1984, o índice de resposta aos questionários dos institutos de pesquisa era de 65% -ou seja, duas em cada três pessoas contatadas se dispunham a responder.

Amigos meus que trabalham em institutos de pesquisa me informaram, por baixo do pano, que o índice de resposta hoje está em apenas 35% (dois em cada três pesquisadores para quem telefonei emudeceram ou desligaram o telefone na minha cara, desse modo validando essa cifra em minha cabeça, que nunca deixa lugar para margem de erro).

O que nos diz esse índice espantoso de recusa em responder? Significa que dois em cada três americanos estão protegendo sua privacidade com secretárias eletrônicas ou ‘binas’, ou, então, estão pedindo aos pesquisadores que ‘parem de me perturbar na hora do jantar’.

Além disso, como hoje desconfiamos que uma resposta nossa possa registrar nossas opiniões privadas no banco de dados de alguma empresa de telemarketing, a probabilidade de cooperarmos com pesquisadores é muito menor.

O um terço de potenciais entrevistados que de fato respondem, ou são os acima mencionados ‘sugestionáveis’ ou são pessoas ansiosas por dar a conhecer suas opiniões: filiadas a partidos, militantes ou engajadas.

Juntos, esses dois setores não são representativos de todos os prováveis eleitores, e a contagem de suas opiniões deixa de levar em conta a indecisão amplamente presente no eleitorado. Na eleição de 1996, todas as principais sondagens de intenção de voto subestimaram o percentual obtido por Bob Dole -no caso da sondagem ‘The New York Times’/CBS, em 7%-, afetando a cobertura da mídia e o comparecimento dos eleitores às urnas. Apenas o instituto independente Zogby/Reuter acertou em suas previsões.

Assim, telefonei para John Zogby e lhe transmiti minha visão irada dos abusos cometidos pelas sondagens. Ele, por sua vez, me ofereceu o seguinte insight: ‘Desde 1998 temos evidências de que os eleitores provavelmente vão rejeitar os pontos de vista dos especialistas’. De que me adianta saber disso? ‘Se você quiser ajudar Bush, ataque-o.’"



Jornal do Brasil

"Fim do tédio", copyright Jornal do Brasil (Editorial), 29/9/00

"Dos candidatos a prefeito e vereador os cidadãos estão livres. Acabaram os ruídos desagradáveis na televisão e no rádio. A lei eleitoral considerou indispensável o intervalo de 48 horas para os os eleitores se desintoxicarem da verborragia.

A contaminação da política pelo marketing é um dos problemas que a democracia não soube mas terá de resolver. Candidato não é produto que se anuncia para vender como sabão, eletrodoméstico, refrigerante ou enlatado. Os políticos, em nome de igualdade impraticável, proibiram a propaganda fora do horário oficial no rádio e na televisam mas deixaram a brecha para desmoralizar a norma. Vale tudo para passar por cima ou por baixo da lei. A começar do equívoco de que todos os candidatos têm direitos iguais, embora sejam tão diferentes uns dos outros.

Quando um candidato a prefeito diz que vai criar oportunidade para 1 milhão de empregos está fazendo um eufemismo evasivo e querendo extorquir o voto do desempregado mediante engodo. A promessa de acabar com o registro eletrônico das transgressões do trânsito revela outro engodo, pois trânsito é matéria federal.

O cidadão suportou tudo com resignação cívica. Fica a questão principal para a democracia reexaminar: a igualdade e a liberdade não andam juntas. As normas eleitorais proíbem propaganda fora do horário oficial. Logo, a liberdade de imprensa foi expulsa da campanha eleitoral. A Constituição, porém, não admite qualquer forma de censura. Restrição, a qualquer título, é censura. Os jornais ficaram sem noticiário político porque tudo deve ser igual, a começar do espaço dado a cada candidato. Em nome da democracia, nega-se à democracia o seu elemento primordial, que é a liberdade de imprensa.

A democracia recomenda solução urgente: que haja campanha oficial, mas que não se impeçam os jornais, emissoras de rádio e televisão de promoverem debates para que os candidatos possam ser testados, e não servidos como pílulas de efeito discutível. Pelo menos até que a eleição deixe de ser vista como quarentena da democracia."



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