CADERNO DA CIDADANIA

DEPOIS DE SONINHA
Drogas, clamor e omissão
(*)

Alberto Dines

Entre as originalidades brasileiras, a mais popular relaciona-se com trombones e trombetas: para marcar presença e mostrar pronta indignação, somos capazes de produzir enormes barulheiras e, logo em seguida, com as consciências tranqüilizadas ou simplesmente extenuados pelo esforço, despencamos na maior prostração.

Nessa alternância entre surtos de exaltação e lapsos de tédio vamos criando um perigoso antídoto para driblar perigos e fugir das convocações. Como nunca deixamos de emprestar nossa fabulosa capacidade de vibrar para as causas que nos oferecem, logo nos desobrigamos da continuidade. E com a desculpa do "já fiz a minha parte", penduramos as chuteiras aos primeiros minutos do primeiro tempo.

A questão das drogas em geral e da maconha em particular voltou há três semanas à nossa pauta das trepidações, empurrada pelo "Caso Soninha", jornalista e apresentadora de um programa juvenil da TV Cultura, de São Paulo, que teve o seu contrato rescindido depois que o semanário Época colocou-a numa de suas capas com a estrepitosa e enganosa declaração "Eu fumo maconha" (a entrevistada não sabia que seria capa e na entrevista disse "fumo muito pouco, em festas ou casas de amigos").

Passada a celeuma, acalmados os ânimos contra e a favor da punição aplicada à jovem e articulada Sonia Francine, discutido o sensacionalismo que hoje domina e desvirtua nossos semanários, o assunto aparentemente já está encaminhado para a vala comum do descaso. Mesmo que, por casualidade, no auge do bafafá, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado tenha aprovado por unanimidade um projeto de lei que abranda a pena para os usuários de drogas.

O surto anterior, em agosto passado, começou nas páginas de opinião dos jornais cariocas, teve a ajuda de uma audaciosa capa da inglesa The Economist propondo a liberação das drogas mas também caiu no vazio.

E, no entanto, a questão das drogas deveria estar carimbada com o selo de "urgência, urgentíssima", poção mágica e única, espécie de pirlimplimpim, capaz de atravessar o pântano das tramitações, quebrar o conluio das gavetas e a lengalenga do nosso processo decisório. Droga, violência urbana, crime organizado e vulcão penitenciário são nomes diferentes para um mesmo e clamoroso problema que nesta temporada eleitoral ainda não mereceu dos candidatos ou pré-candidatos qualquer menção.

Experimente-se pedir à sinhazinha Sarney uma manifestação sobre o assunto e ela fugirá como o diabo da cruz. Lula, que hoje abriga em seu partido o deputado Fernando Gabeira – um dos poucos políticos aferrados e comprometidos com o tema –, será capaz de discursar horas seguidas sobre a miséria mas não arriscará uma palavra sobre drogas, descriminalização da maconha ou narcotráfico.

Mesmo o falante e onisciente Marco Aurélio de Mello, presidente do STF, que opina com tanta facilidade sobre tantas questões – inclusive aquelas fora dos autos e processos –, nesta adota um mutismo monástico e tumular.

O próprio governo exime-se de qualquer manifestação, escondido atrás da desculpa de que não adianta falar, é preciso agir. E o PSDB de Minas também ostenta um especialista na questão, o deputado federal Elias Murad. Mais grave ainda: o governo teve a ousadia de inovar, criando uma agência específica, a Secretaria Nacional Antidrogas, selecionou um especialista de fama internacional, o juiz Walter Maierovitch, e, um ano depois de empossado, defenestrou-o num insignificante confronto de egos. O cargo está praticamente vago há quase dois anos, ocupado cumulativamente pelo ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional.

De nada adiantará preencher essa vacância, se não mudar a cultura dos nossos governantes – em todos os níveis, inclusive municipal –, ainda amarrada à noção clássica de designar para cada problema uma repartição específica. Hoje, diante da complexidade e dimensão dos problemas, questões como a droga & correlatas pedem ações conjuntas de diferentes áreas.

Repetimos os maneirismos da globalização, vivemos enfiados em seminários multidisciplinares, conseguimos até enxergar abrangências, mas só alcançamos atuar de forma tópica. Médicos de sintomas, não sabemos encarar síndromes. A idéia de networking, de redes, também se aplica à administração pública e não apenas em situações críticas, caso do colegiado interdepartamental para enfrentar a crise energética.

Além de um novo titular para a Secretaria Nacional Antidrogas, para personificar uma vontade política, precisamos criar urgentemente uma Câmara Interministerial para coordenar as inevitáveis superposições propiciadas por um problema com tantos desdobramentos e tamanha premência.

Cada vez que viajo a Brasília e passo pela Esplanada dos Ministérios – monumental vitrine da administração segmentada –, tenho vontade de pedir ao mestre Oscar Niemeyer que projete uma série de passarelas entre aquelas inexpugnáveis fortalezas do setorismo e da alienação. A questão das drogas, além de ação e convicção, pede conjugação. Ação coletiva, empenho plural.

O Caso Soninha pode ter um final feliz se, ao invés de fugazes solos de trombone seguidos de cansados silêncios, resultar a sirene das emergências. Ou o alarme para acordar.

(*) Copyright Jornal do Brasil, 1/12/01