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AGRESSÃO NO CEARÁ
Brutalidade em meio à festa
Danilo Pinheiro (*)
Em tempos de euforia na mídia sobre a "grande festa da vitória", desejaria poder mandar mais uma entre as tantas notícias entusiastas sobre a consolidação do ideal democrático brasileiro. Entretanto, repasso-lhes e-mail de um professor universitário daqui do Ceará (com seu endereço eletrônico), no qual narra uma das muitas histórias de agressão física, fraude eleitoral e boca-de-urna irregular constatadas no estado, e que andam chegando em número sempre maior à sede do PT em Fortaleza (e com as devidas comprovações!).
Aqui o "arrodeio" é breve: nunca houve eleição em segundo turno em toda a história do Ceará, e há 16 anos Tasso Jereissati exerce o cargo de governador ou indica seu candidato ao governo ou ao Senado. Contudo, nessas eleições houve segundo turno, entre os candidatos José Airton (PT) e Lúcio Alcântara (PSDB), indicado por Tasso: José Airton foi derrotado por uma diferença de 0,04% (3 mil votos)!
Em vista dessa diferença irrisória e das tantas denúncias de fraude registradas, está havendo grande mobilização em Fortaleza para a recontagem dos votos e a impugnação desse segundo turno. Assim sendo, encaminho-lhes esse e-mail para que compartilhem de tão lamentável incidente.
Esses fatos é que realmente têm de vir à tona, pois somente assim poderemos conscientizar a população e aprimorar nossa democracia, em vez de apenas agitarmos bandeiras e nos aglomerarmos nas ruas como se vitória política fosse sinônimo de final de Copa do Mundo.
(*) E-mail: davidpinetreexxi@hotmail.com
Que democracia existe no Ceará?
Angelo Brayner (*)
Domingo, ao caminhar numa rua de Fortaleza, meu filho André, adolescente de 16 anos, e eu observávamos alegres a festa democrática de uma eleição histórica para o Brasil e para o Ceará. Após a experiência de duas eleições na Alemanha, comentávamos orgulhosos como o brasileiro tinha um sentimento de participação no processo político muito profundo.
Numa fração de segundo, um comboio de carros do batalhão de choque da Polícia Militar do Ceará pára em frente a nós. Dezenas de policiais fortemente armados descem e partem para cima de nós. Desesperado, digo que não somos bandidos, pensando tratar-se de algum engano. Quando um soldado afirma que eu não era bandido, mas era um "vagabundo", percebi que o problema é que trajávamos camiseta do candidato José Airton, do PT, adversário do candidato de Tasso Jereissati, Lúcio Alcântara. No mesmo instante, recebia um tapa no rosto do soldado.
Mais de seis policiais partiram para me agredir e, o mais doloroso para mim, para agredir meu filho. Ele implorava para que não fizessem aquilo, informando que era menor de idade. De nada adiantou. Bateram em mim e em meu filho de forma brutal e covarde, ameaçando meu filho com escopetas. O que mais doía não eram as pancadas que levava, mas ver meu filho sendo agredido por brutamontes, cujos salários saem dos impostos pagos com o suor de nosso trabalho.
Toda aquela seção pública de tortura era assistida – e comandada – por um capitão do batalhão de choque. A pancadaria só não foi maior porque um colega, o professor Mauro Pequeno, da Universidade Federal do Ceará, interveio a nosso favor, com o argumento de que eu era professor universitário. Quando recuaram, tornou-se claro que a brutalidade tinha sido comandada na realidade pelo Cambeba (sede do governo do estado do Ceará). A intolerância com o diferente e com o contrário tem sido a marca registrada da Era Tasso Jereissati-Ciro Gomes, que agora será continuada por Lúcio Alcântara.
Hoje, com o corpo dolorido pelas agressões físicas e com o coração triste pelo fato de ter assistido meu filho ser covardemente agredido e ameaçado como um bandido, questiono- me sobre nossa democracia. Podemos considerar democrático um estado onde um cidadão não tem o direito de pensar diferente do governo de plantão? Podemos considerar democrático um estado em que sua polícia bate em seus cidadãos (menores de idade, inclusive) sem nenhum motivo?
(*) Professor do mestrado em Informática Aplicada da Universidade de Fortaleza
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