09/12/2003 3/5

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MAIORIDADE PENAL
Quem acha, vive se perdendo

Marcio Varella (*)

No filme Beleza Americana, o motivo que levou o pai do rapaz a matar o vizinho foi a maneira como ele enxergava o filho. Da janela de sua casa, viu o garoto se abaixando junto ao vizinho, como se estivesse fazendo sexo oral, e não usando drogas, como era a realidade do filme.

O velho militar de pijama não conseguia enxergar o filho de outra maneira. Era um menino mau, sem dúvida, pensava ele. Não havia, em sua consciência, espaço para ampliar sua visão sobre o próprio filho.

Assim é a imprensa brasileira hoje. Sensacionalista, ávida por pontos na audiência e vendas nas bancas, a mídia nacional enxerga na juventude apenas o seu lado ousado, desregrado, sem controle. Todos são assassinos, moleques, safados. Isso vende.

Casos como o de São Paulo (a morte do casal de jovens) ocorrem todos os dias, a cada cinco minutos, no país. Mas o crime atingiu a classe média de Sampa, aquela que consome aos montes o acessório caro, que padroniza seus costumes nas novelas.

O telespectador/leitor fica numa posição em que a única saída é co-participar dos sentimentos dos envolvidos no crime – sem dúvida, de acordo com a filosofia midiática, a notícia mais importante do dia, destacada das demais.

A tal da globalização, que é na verdade a oficialização do caixa 2 dos países do G-7 e que obriga os habitantes desses continentes dependentes do FMI a consumir o restolho do lixo capitalista, calou de vez a alma e as vozes latino-americanas. Não há mais possibilidade de retorno, pelo menos por enquanto.

No caso de São Paulo, a notícia, acho eu, depois de 30 anos de jornalismo, deveria ser assim: "Mais um crime vem se somar aos 40 mil assassinatos de jovens que ocorrem no país todos os anos. Desta vez, foi em São Paulo: fulano e cicrano foram assassinados por tais e quetais".

A reportagem em si, tratando-se de TV, deveria começar com a polêmica sobre a maioridade penal dos jovens, entrevistas com psicólogos para analisar o comportamento dos criminosos, mas que fossem profissionais que honrassem seus diplomas, que dissessem que o capitalismo exacerbado, a inveja do que se vê na TV, a falta de trabalho, de saúde, ensino e lazer, tudo isso provoca mais e mais crimes todos os dias desde quando Adam Smith decidiu escrever aquele tremendo besteirol.

Vida em grupo

É para isso que deveria existir a TV e o mais eficiente dos meios de comunicação: o rádio, a partir do qual se dão informações que interessem ao público, que façam com que o público pense e reaja, que desperte o interesse pelo que é público. Enfim, os meios eletrônicos de comunicação deveriam ser públicos, voltados para a comunidade em que estão inseridos.

No entanto, e muito infelizmente, os meios de comunicação hoje defendem apenas o enriquecimento de seus donos, sejam as riquezas relativas ao poder, ao dinheiro ou aos bens materiais. É assim há muito tempo e ficou ainda mais durante o tempo em que os generais dedicaram sua falta do que fazer ao exercício de comandar o público brasileiro como se todos fossem uma tropa só.

Hoje não se pensa universalmente, não se dão motivos para o alargamento das mentes e corações. É tudo na base do marketing, do brainstorm, do upgrade, do agregar valores. Imitação pura e barata do executivozinho americano preconceituoso.

O jornalista brasileiro desaprendeu a profissão, não sabe mais colocar uma polêmica na rua, despertar o interesse pelo debate comunitário de temas importantes. A maioridade penal é um grande exemplo.

Retirar da juventude um pedaço de suas vidas – é isso o que significa baixar a maioridade penal. O ser humano tem um tempo para tudo: para viver a infância, a adolescência, a maturidade, a velhice. Mas, para isso, é preciso se preparar, é preciso tempo. Dar mais responsabilidades, como já deram com o voto, é deixar o jovem mais velho antes do tempo.

O tempo ajuda o jovem a compreender as coisas da vida, a música, as ciências, a alegria, a dor, o espírito. Com certeza, essa sugestão de baixar a maioridade penal não veio com o crime de Sampa. Já vem de erros cometidos no passado, veio das rebeliões da Febem, das novas responsabilidades para a idade, e, principalmente, do sensacionalismo provocado pela mídia. As emissoras de televisão passaram a dar preferência, em suas pautas, aos erros cometidos pela juventude.

E os acertos? Cadê aquele vendedor de frutas de Brasília, o Raimundo, que nesta sexta-feira recebe uma homenagem do Corpo de Bombeiros? Ele salvou a vida de um bebê; o carro em que a criança estava caiu no Lago Paranoá e ele a retirou lá de dentro. É o maior exemplo da caridade nacional, ele é o maior herói brasileiro. Ao Raimundo devemos render todas as homenagens porque seria um exemplo de como podemos ajudar os outros sem conhecê-los formalmente. A vida em grupo, por mais que a globalização deseje, é perfeitamente possível. Quanto mais gente, mais luz.

Dor da saudade

Sensacionalizando os crimes cometidos por jovens, baixando a maioridade penal, estaremos cometendo um crime maior ainda, que é o de evitar que a juventude pense e perceba as coisas que realmente valem a pena ser pensadas e percebidas.

Mas nem tudo está tão perdido assim. Vi nesta semana no programa da Marília Gabriela (GNT) uma entrevista com o Luís Fernando Guimarães, que tratou São Paulo como uma velha e sábia senhora. Fiquei feliz quando a entrevistadora pediu ao ator que dissesse sua frase preferida. E ele repetiu a primeira frase de uma das músicas mais bonitas já feitas no planeta, "Feitio de oração", de Noel Rosa e Vadico, que nunca ouvi ser tocada nas emissoras de rádio mas que, garanto, já foi tocada várias vezes naquele que talvez tenha sido um dos grandes programas do rádio brasileiro, O pick-up do Pica-pau.

A frase: "Quem acha, vive se perdendo". O complemento: "Por isso agora eu vou me defendendo, da dor tão cruel desta saudade que, por infelicidade, meu pobre peito invade... Batuque é um privilégio, ninguém aprende samba no colégio".

É isso aí, pessoal da imprensa, ninguém aprende samba no colégio. Para ser jornalista tem que ter veia própria.

(*) Jornalista em Brasília

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