MÍDIA & VIOLÊNCIA
A guerra civil molecular
Muniz Sodré (*)
Uma notícia de quase todos os dias no Rio de Janeiro, mudando-se os personagens:
"Os corpos dos soldados da PM Fábio Ribeiro da Silva e Henrique Daniel Cardoso serão sepultados às 15h desta quarta no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap. Eles foram baleados na terça à noite em Jacarepaguá por ocupantes de um Astra, que conseguiram fugir. No tiroteio, uma bala perdida feriu de raspão nas costas o morador Antonio Barbosa, de 27 anos. O soldado Fábio, lotado no 18o. BPM (Jacarepaguá), morreu na hora e o soldado Henrique, do mesmo batalhão, morreu no início da madrugada no Hospital Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca. Os corpos dos policiais serão velados na capela C do Jardim da Saudade." (O Globo, 22/10/03).
Uma semana depois, ocupava a primeira página dos jornais cariocas um massacre – 12 mortos num só dia – na Ilha do Governador, desta vez entre supostos traficantes. Mais um pequeno intervalo e, no Morro do Zinco, no Estácio, seis jovens procedentes da cidade de Macaé são arrancados de uma Kombi que havia errado o caminho e sumariamente fuzilados por traficantes. Quem se der ao trabalho de pesquisar, verá que se registrou a cada dia um acontecimento similar: policiais atacados e mortos, marginais idem.
O que para mim particulariza o evento da morte dos dois soldados em Jacarepaguá é que eu conheço a mãe de um deles, lá se vão mais de vinte anos. É funcionária da Universidade Federal do Rio de Janeiro e trabalha numa sala bem próxima à minha, onde oriento estudantes. Mulher humilde, profissional exemplar, ela criou e educou os filhos com o maior dos zelos. Lembro-me de cruzar nos corredores com ela e eles, dentre os quais, ainda adolescente, o que seguiria a carreira ingrata e perigosa de policial militar.
Ocorre-me agora que o público-leitor da grande imprensa nada fique sabendo da dimensão humana de carrascos e vítimas dessa epidemia de violência que grassa nos grandes centros urbanos do país, com raras exceções. Nenhuma ONG compareceu às casas dos policiais mortos, nenhum repórter dispôs-se a investigar se eram efetivamente traficantes todos os 12 que tombaram na Ilha do Governador. As notícias costumam pecar por frieza estatística, quando não pela adesão pura e simples às regras da decantada objetividade jornalística. São raros os textos de interesse humano, faltam as reportagens extensivas.
À beira do descontrole
O público-leitor certamente gostaria de saber, para além do registro técnico de lide e sublide, sobre o pano de fundo existencial disso que o poeta e ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger chama de "guerra civil molecular das metrópoles". É um tipo de guerra sem fundamento ideológico, como ele explica, que não se encaixa no esquema das históricas lutas de classes:
"O modelo de interpretação baseado na oposição entre brancos e negros tornou-se do mesmo modo insuficiente. As vítimas de assaltos, pilhagens e assassinatos são sobretudo os próprios negros. Em Los Angeles, o alvo da revolta não foram os bairros das requintadas vilas residenciais; os criminosos atearam fogo principalmente às instalações de sua própria community, entre as quais a mais antiga livraria norte-americana, então de posse dos negros, e o escritório do político local mais atuante. Na luta de gangues atiram por toda parte perdedores contra perdedores. (Guerra Civil, Companhia das Letras).
Como não comparar esta descrição com o que se passa atualmente nos redutos carentes de serviços públicos, plenos de desempregados ou subempregados, que caracterizam a periferia de nossas grandes cidades? O policial assassinado é geralmente vizinho de seu assassino, assim como o marginal executado pode conhecer de perto o seu carrasco. O assassinato costuma ser impessoal e aleatório. Os jovens PMs de Jacarepaguá foram mortos quando inspecionavam um automóvel abandonado. Poderiam ter sido quaisquer outros, já que os dois haviam sido enviados em resposta a uma denúncia telefônica – na realidade, uma cilada.
Por que matar um policial fora de uma situação de confronto? No Rio, a resposta deve ser, em muitos casos, buscada no sentimento de vingança ou de reação às extorsões policiais contra traficantes. Enzensberger recorre à explicação da "guerra molecular", cujos verdadeiros fundamentos são a indiferença social e o ódio generalizado.
"A guerra civil molecular inicia-se discretamente sem que haja uma mobilização geral. Pouco a pouco, multiplica-se o lixo nas ruas. No parque, amontoam-se seringas e garrafas de cerveja quebradas. Nas paredes surgem pichações monótonas, cuja única mensagem é o autismo: elas exorcizam o eu que já não mais existe. Na sala de aula os móveis são destroçados, os jardins fedem a merda e urina. Trata-se de declarações de guerra mudas e diminutas, mas percebidas pelo experiente morador da cidade. Logo se revela o anseio por um gueto mediante sinais eloqüentes. Pneus são furados, telefones de emergência inutilizados, automóveis incendiados. Nas ações espontâneas expressa-se a raiva das coisas em bom estado, o ódio por tudo que funciona e que forma um amálgama indissolúvel com o ódio por si mesmo" (Enzensberger, ibidem).
É discutível a idéia de uma "guerra civil", pelo menos a partir dos parâmetros tradicionais para o entendimento desse tipo de conflito, principalmente quando se leva em conta que não existem finalidades guerreiras muito bem definidas, nem a possibilidade de pactos explícitos para assegurar a paz. Mas não resta dúvida quanto à anomalia da incidência e da intensidade desses conflitos civis. Moleculares ou não, eles parecem obedecer a uma dinâmica que os torna estruturalmente semelhantes em qualquer grande cidade. Só que no Rio e em São Paulo – onde, num só dia de novembro, houve 13 ataques armados à polícia e onde eventos desta natureza se repetem desde então – a situação beira o descontrole, tornando evidente que o Estado não pode mais alardear o exercício do monopólio da violência. Daí, a multiplicação indiscriminada das tropas de segurança privada.
Brados de indignação
Daí, também, a escalada da blindagem contra munição de alto calibre, característica das emergências de guerra. Um exemplo:
"Empresário carioca mandou blindar sua Cherokee para bala de calibre 7.62 dos fuzis FAL e AK-47. É o primeiro caso de proteção para essa munição. Até agora, blindava-se contra 5.56. O preço ficou em R$ 240 mil, mais R$ 150 mil do carro. Só os vidros vão pesar 454 kg. A blindagem da lataria, mais 200 kg. Para o serviço, foi preciso pedir ajuda a uma empresa americana, a única que faz a blindagem e exporta os carros para o Oriente Médio" (O Globo, 1/11/03).
Outro:
"A Escola Americana, cuja mensalidade é de R$ 2.400,00, estuda usar um tipo de blindagem no prédio [depois do carro blindado, pode vir aí a escola blindada] ou procurar um endereço longe da Rocinha" (O Globo, 3/11/03).
Autoridades estaduais e municipais só se arriscam a uma incursão pela cidade em carros devidamente blindados.
Diante da generalização ou contágio desse quadro de violência e insegurança, a expressão de Enzensberger – guerra civil molecular –, aparentemente exagerada, pode terminar ganhando consistência. E não se trata apenas de luta entre polícia e bandidos. Nela têm seu papel os chamados "homens de bem" na forma do relacionamento que mantêm com seus filhos. Pois diz o ensaísta:
"A atitude dos adolescentes antecipa a guerra civil (...). O que leva os jovens à violência está latente também em seus pais: um rancor destrutivo, que apenas em casos agudos é canalizado para formas toleradas socialmente, como a obsessão por automóveis, comida e trabalho, avareza, agressividade, racismo e violência na família".
O que pode a imprensa fazer? Bem, pelo menos tornar publicamente mais clara a parte que toca a cada privilegiado da renda na transformação violenta – por consumo conspícuo e relação social de droga – dos padrões de convivência. Também, mostrar de todos os modos o quanto insuportável se tornou a hipocrisia objetiva da classe média confortável. A missão histórica da imprensa é falar, em especial quando a maioria é muda.
A imprensa pode e deve ficar muito preocupada com tudo isso, uma vez que, como já está patente, apesar de brados de indignação aqui e ali, o governo federal está basicamente preocupado com superávits fiscais, reforma tributária e pagamento em dia do serviço da monstruosa dívida nacional de mais de 150 bilhões de dólares. Governos estaduais e municipais? Estes não parecem preocupar-se com nada, além da blindagem de seus carros.
(*) Jornalista, escritor e professor-titular da UFRJ