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CAMPOS, RJ
A refinaria é nossa, o coronelismo também
Felipe Sáles Gomes (*)
A situação é crítica. Após anos de marasmo midiático, com manchetes "combinadas" – não raro pautadas por releases da prefeitura –, o município de Campos dos Goytacazes, no interior do Estado do Rio de Janeiro, sucumbiu em denúncias de corrupção em outubro De 2002, envolvendo pessoas íntimas do prefeito Arnaldo Vianna, entre as quais sua esposa Ilsan Vianna, responsável pela Secretaria de Planejamento. Desde então, os jornais apresentaram suas caras: de um lado, o jornal O Diário, orquestrado por Anthony Garotinho; do outro, o restante dos quatro impressos norte-fluminenses. As denúncias passaram, as apurações nem se avistaram e o que ficou de tudo foi apenas a guerra diária das bancas. E a população – os leitores – como mera platéia.
Ao ver seu índice de popularidade cair vertiginosamente em sua terra natal, e usando de sua presença na mídia nacional logo após as eleições do ano passado, a metralhadora do ex-governador Garotinho entrou em ação, "seu" jornal idem, e, como até o Jornal Nacional da Rede Globo noticiou, não teve jeito e todos saíram das tocas. Durante quase um mês, as manchetes tiveram tema certo. Tal como ocorre na Bahia de todos os grampos, a população de Campos fica à mercê de um jornal cinicamente de oposição para saber o que se passa com o dinheiro público. Só que, nesse caso, as credibilidades tornam-se cada vez mais questionáveis.
Os dois maiores jornais de Campos, O Diário e Folha da Manhã, travam desde então uma verdadeira guerra em busca da mais descarada manchete, cada um levantando – ou aguardando – a denúncia da vez para atacar o adversário. Os outros – A Cidade, A Notícia e Monitor Campista – buscam uma postura que continua a apoiar, ainda que veladamente, o governo municipal.
Seria isso o máximo que se pode esperar das mídias regionais, sempre fiéis às rédeas das respectivas oligarquias? Suspeitas no governo municipal eram – e são – muitas, e apesar de o jornal de "oposição" ter livrado as denúncias do silêncio, a abordagem é descarada e vergonhosa. Pois então, é só o que se espera? É aguardar o duelo interpoderes para, enfim, saber o que se passa?
De tão ridículo, vão pensar que é mentira... mas, meninos, eu vi. Todos os campistas, infelizmente, viram acusações sem qualquer pudor, até de assassinato da prefeitura. Explico: certo dia, um menino engasgou com um alfinete e por falta de um equipamento simples e barato, quase morreu no leito do Hospital Ferreira Machado, orgulho do prefeito. A manchete do Diário? "Menino quase morre engasgado por um alfinete por culpa da prefeitura". Sem comentários.
Eis outra manchete bastante elucidativa e, infelizmente, tragicômica: O Diário, edição de 21/2/03, sobre o depoimento do ex-secretário de Fazenda, Antonio Carlos Sasse, na CPI dos Fiscais: "Fábio Paes afirma que Sasse, ex-secretário de Fazenda, mentiu na CPI". E no subtítulo: "Segundo Fábio Paes, ex-secretário de Turismo e Comércio de Campos, em nenhum momento empresários queriam um paraíso fiscal no município e o então governador Garotinho não admitiria tal ato ilícito".
Fábio Paes é dono do jornal que estampou a manchete – e, claro, homem de confiança de Garotinho, sendo esses os motivos argumentados pelo prefeito Arnaldo Vianna para demitir seu então secretário, quando O Diário era uníssono às denúncias do ex-governador. Parênteses: nem nas colunas que assina no dito jornal Fábio Paes especifica seu cargo, como de praxe em todos os outros artigos. Todavia, boatos quanto ao verdadeiro dono do diário sempre foram muito fortes na sociedade campista.
O óleo de peroba continuou sendo usado nas impressões dos jornais, até que um dia... acabou. Silêncio. Nada mais se fala sobre o assunto. O prefeito ameaçou demitir os acusados de corrupção, voltou atrás e demitiu apenas o Fábio Paes. Até CPI se fez e desfez, e quando se desfez, sem qualquer cerimônia, a Folha da Manhã estava exultante, com algo mais ou menos assim: "Acabou o show de Garotinho". Os acusados? Até hoje trabalham livremente. As denúncias de corrupção, como se sabe, mudaram de lado, e recentemente a Folha apareceu até no Jornal Nacional, ironicamente nas mãos de Garotinho, que exibiu a foto de capa e escondeu o ácido e irônico texto da edição.
A pauta do dia foi se revezando, mas, sempre que possível, continuou sendo a corrupção no governo estadual e municipal com enfoque de folhetim, e, claro, cada um defendendo ou acusando seu candidato. Enquanto isso, a população de Campos se pergunta, até hoje, o que restou de todas as denúncias. Mas a resposta está a cada dia nas páginas dos jornais: desperdício de dinheiro público é o de menos: vale mais o embate entre as segundas intenções dos jornais.
Qualidade de vida
A pergunta certa seria: o que é que debaixo dessa terra tem? A resposta para qualquer conterrâneo, por mais simples que seja, seria "petróleo". O autor adverte: o parágrafo seguinte contém excesso de "milhões"; recomenda-se aos campistas manterem distância, sob os riscos de altas voltagens de realidade.
O município de Campos recebe nada menos que R$ 1,3 milhão por dia, estando entre os 20 maiores orçamentos municipais, dentre 5.561 cidades brasileiras, incluindo as capitais. Atualizando: só no mês de janeiro de 2003, o caixa municipal recebeu aproximadamente R$ 84 milhões de recursos de royalties do petróleo extraído na Bacia de Campos. Até o dia 20 de fevereiro, a prefeitura embolsou mais R$ 16 milhões. Foram R$ 100 milhões em apenas 50 dias, R$ 2 milhões por dia. Cerca de R$ 500 milhões ao ano.
O único município que se aproxima de Campos em recursos é Macaé, com seus R$ 15 milhões mensais. Já o município vizinho de Quissamã – que, diga-se, construiu recentemente uma estação de tratamento de esgoto, recebe a "esmola" de R$ 3 milhões. Enquanto isso, os moradores da comunidade de Chatuba, uma das mais carentes de Campos segundo dados do IBGE, só agora vêem o início das obras de uma central de tratamento, já que vivem à margem de um valão de esgotos. A promessa de casas populares, em contrapartida, resiste há mais de cinco anos. Detalhe: investir na qualidade de vida da população é uma das prerrogativas para os municípios beneficiados com royalties de petróleo, de acordo com a Agência Nacional de Petróleo (ANP).
Enquanto isso...
Segundo estudos do IDH-M (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal), utilizando-se de dados do IBGE para itens como expectativa de vida ao nascer, longevidade, escolaridade e renda familiar, Campos ficou em 54º lugar, entre as 92 cidades do Estado, e em 1818º dentre as 5559 cidades de Brasil. Em 1991, a colocação era 44ª, no Estado, e 1579 no país.
Em suma: nas gestões de Garotinho, Sérgio Mendes e Arnaldo Vianna (os dois últimos eleitos sob a tutela do ex-governador e ambos atacados por ele após o crescimento de seus índices de popularidade), com toda a arrecadação proveniente do petróleo, o IDH piorou. Por quê?
Enquanto isso, rádios (várias, muitas inclusive piratas), emissoras de TV (quatro telejornais locais) e mídia impressa (cinco jornais) se unem em prol da Refinaria do Norte Fluminense (Renorte), lançando a campanha "A Refinaria é Nossa". Além do interior do Rio de Janeiro, o Espírito Santo e o Nordeste também desejam refinarias "e seus 30 mil empregos e enorme progresso", como não se cansam de propagar toda a mídia norte-fluminense.
Discussões quanto a impactos ambientais e na infra-estrutura da cidade? Que nada... não há tempo para isso. Melhor e mais prático é fazer campanha para arrecadar assinaturas e assim tentar diminuir mais um dos amargos índices campistas: segundo ranking anual da revista Exame, Campos ficou de fora das 1.000 cidades brasileiras que mais atraem investimentos.
(*) Estudante de Comunicação Social
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