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ASPAS

RESCALDO DE UM SEQÜESTRO
Renato Janine Ribeiro

"A análise de Patrícia sobre o crime", copyright O Estado de S. Paulo, 9/09/01

"O segundo ato do espetáculo apagou o primeiro. O impacto com o seqüestro de Silvio Santos foi tal que deletou as palavras da filha, Patrícia Abravanel, dois dias antes. É claro que o segundo ato não foi exatamente ao vivo. O homem da comunicação ganhou a parada porque se comunica bem, mas na verdade se comunicou com um só espectador, o que ameaçava matá-lo, e por horas disputou com ele a posição de protagonista, até se reduzir a coadjuvante - atrás do coadjuvante mais ilustre, o governador Alckmin. Assim tivemos um show da vida, e não da morte. Passados dez dias, penso que vale a pena voltar ao intervalo entre os dois atos: às palavras da filha.

A opinião pública se dividiu. Uns se comoveram com o que Patrícia disse, mas a maior parte falou ou pensou em lavagem cerebral. Os jornais até consultaram psicólogos, que disseram que ela estaria represando emoções agressivas, que seria natural sentir em relação a bandidos. Quero comentar isso.

Primeiro, o que surpreendeu, na entrevista de Patrícia, foi o tom absolutamente sensato, racional, até generoso. Se tirarmos a referência ininterrupta a Deus, sua fala poderia ser assinada por um bom sociólogo. Ela distinguiu seu drama pessoal, intenso mas pequeno, e as causas maiores do crime. Atribuiu a criminalidade a causas sociais - o que atesta um raciocínio inteligente. E criticou o próprio pai, afetuosamente, mas com firmeza: afinal, o que faz Silvio Santos pelos pobres? Não é dando dinheiro num show que se melhora a condição dos miseráveis. Muitos esperariam, de Patrícia, o mantra da extrema-direita: tem de matar bandido, esquecer os direitos humanos, adotar a pena de morte. Nada disso: foi um discurso inteligente e mesmo sofisticado.

O que incomodou ao menos parte da sociedade - eis meu segundo ponto - é que esse discurso sociológico tenha um suporte visivelmente teológico. Deus foi invocado o tempo todo. A Igreja Católica há tempos cortou qualquer elo imediato dos seus fiéis com o Altíssimo. A idéia de que Deus dialogue comigo, se ocupe de mim pessoalmente (e de cada criatura Sua), sumiu. É forte, porém, entre evangélicos e religiões afro-brasileiras. Aí, sim, o mundo cotidiano se liga a algo que o transcende, ao divino. Por isso, para evangélicos, podemos ser submetidos à prova por um Deus justo, mas bom e misericordioso.

Essa visão já foi dominante no mundo cristão. Basta ver a Inglaterra dos anos 1640. Há 30 anos, o melhor historiador atual daquele período, Christopher Hill, num livro que por sinal traduzi (O Mundo de Ponta Cabeça), estudou as teologias dos revolucionários que depuseram o rei Carlos I e proclamaram uma efêmera república inglesa. Hill é pensador de base marxista, mas percebeu que religião era tudo, menos o ópio do povo. Sua tese: na época, a religião era o canal por onde passava toda discussão relevante. Para tratar de política, era preciso montar uma teologia. Quem sabe alguns meios de nossa sociedade vivam algo parecido. Deus foi a cifra para Patrícia pensar o social.

Essa passagem da política pela religião choca o público talvez mais sofisticado, leigo, cosmopolita. Mas vejam o problema. Patrícia proferiu um discurso racional, sem rancor. Não é fácil. Ora, por que, para proferir um discurso tão racional, ela o sustentou numa base tão irracional? Por que, na sua fala, a razão brotou da fé, e não da razão mesma? Deveríamos indagar quais potencialidades, de nós desconhecidas, dessa intensa ‘religiosização’ que hoje presenciamos.

E isso implica - nosso terceiro ponto - perguntar por que incomoda, a tantos, esse link da fé com a razão. Não tenho resposta. Mas sinto um desconforto quando as frases mais inteligentes de todo esse drama são desqualificadas. Dizia-se, o que pode ser verdade, que Patrícia abafava sua raiva, assumia um papel, iludia-se. Insinuou-se uma histeria. Mas fica a pergunta: por que só no interior de todo esse erro brotou o melhor discurso?

Estaremos tão virados pelo avesso que só a desrazão gera a razão? Nossos amigos psicólogos estarão tão ligados ao micro (ao que imaginam da psique de Patrícia) que perdem de vista o macro (o significado social do episódio)? Questões a refletir."

 

Daniel Piza

"O show e a ironia", copyright O Estado de S. Paulo, 9/09/01

"Sobre o seqüestro da semana passada: para variar, boa parte das perguntas não foi devidamente feita e outra igual não foi devidamente respondida.

Quando a história ‘esfriar’, provavelmente ainda ficaremos sem saber diversas informações. A discussão sobre se a imprensa deve ou não divulgar a notícia de um seqüestro é, antes de mais nada, sobre o poder que a mídia se dá. Ela parece que, a priori, se põe acima das outras instituições. E isso se traduz em sua vontade de tudo explicar, em prejuízo das informações. Com a chegada da Internet e o interesse dos programas de auditório, me parece que os ‘grandes acontecimentos’ suscitam mais especulação que nunca.

Não por acaso, foi Silvio Santos quem pediu para o governador ir lá. Ele preferiu isso a ter um bandido morto em sua casa. Alckmin, além de se arriscar, abriu um precedente perigoso - depois daquele dia, muitos criminosos poderão querer o mesmo ‘privilégio’. Se Alckmin não atendesse ao pedido, poderia causar uma tragédia e reforçaria a tese de que seu governo não cuida bem da segurança; atendendo, foi criticado por fazer média com o magnata da mídia e não conseguiu evitar a crítica à falta de segurança. Tal como Alckmin, a mídia está presa ao falso dilema entre ação e distanciamento."



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