CADERNO DA CIDADANIA

DEMOCRACIA RACIAL
A mídia à beira-mar

Jessé Nascimento (*)

Os números frios de uma recente pesquisa do IBGE aqueceram o debate. Como se fosse necessário esperar pela pesquisa para constatar o que o cotidiano revela, políticos oportunistas apressaram-se em realçar os supostos acertos de suas ações.

As cassandras de sempre insistem na tecla do derrotismo e oferecem ao público o nada como opção. Consenso apenas entre os cínicos assumidos, racistas velados (e cordiais) e os bem-intencionados (porém equivocados) que insistem na necessidade de admitir que somos um país racista, como se a catarse em si pudesse evitar o inferno, tal como tentaram alguns poderosos e lacrimejantes figurões-figurantes da República.

De onde nada se espera – dizia o imortal Aparício Torelly, o Barão de Itararé – é que não sai nada mesmo. E nisso a mídia não contrariou o adágio. Parece seguir o conselho do Evangelho: não atira a primeira pedra porque tem os seus pecados e sabe que não são poucos. Talvez por ser em alguns casos o emblema maior do establishment e dos neobobos do Brasil atual, parece receosa de questionar e ser surpreendida no contrapé para explicar que as práticas que teria a obrigação de identificar e condenar, pratica-as em suas telas, redações e editorias.

Os jornalões, distraindo-se em busca da próxima fita gravada sorrateiramente e na esperança de incrementar o escândalo e o faturamento, negam espaço ao protesto. As revistas, aparentemente pautadas por "fontes" e reféns de dossiês produzidos por duvidosas assessorias de imprensa, perdem tempo ressuscitando defuntos e criando outros. A televisão, seguindo o padrão Dinamarca, esconde sistematicamente a verdadeira cara do país tropical.

Prova viva

Os dados e a realidade parecem mostrar que o atraso é o nosso futuro e que o preconceito e o racismo continuam prosperando e resistindo, aparentemente incólumes, à voz rouca, minoritária, patrulhada e multicor dos que se negam a calar diante da infâmia da exclusão. Ícones positivos não pareciam capazes de mudar o conceito e o preconceito. Não bastava ter o "nosso presidente-mulato" Fernando Henrique e a inteligentzia – Milton Santos, Agílio Monteiro, Albuíno Azeredo, Collares, Pitta, Benedita, Hélio Santos, Sueli Carneiro, Zezé Mota, Milton Gonçalves, Glória Maria, Edivaldo Brito, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Camerindo do Jardim Coimbra –, além da miríade de atletas e artistas, profissonais liberais, empresários e, sobretudo, os quase 9 milhões da classe-média negra, trabalhadora, anônima, ordeira, silenciosa, mas que ainda hoje enfrenta no grito (e na raça!) o porteiro pau-mandado que aponta o elevador de serviço; o empregador néscio que, ao negar o trabalho ao negro, esquece que preto é a cor do lucro no balanço da contabilidade; o policial incompetente e preguiçoso (ele mesmo discriminado) que, usando a "psicologia" do "crioulo no fusca" ou o racial profiling dos gringos, intercepta o automóvel para averiguação sem motivo.

Na prática, estes últimos parafraseam a piada de mau gosto dos maridos que surram as esposas: podem não saber (ou não quererem saber) por que estão agredindo... mas os negros sabem porque são agredidos. E como sabem.

Para afastar a mentira da suposta periculosidade do negro, não adiantavam pesquisas indicando que a população carcerária não-branca é inferior a de brancos nos presídios de onde saem os que podem pagar o preço e não entram os que que podem comprar apreço. Pois bem: nada parecia ser eficiente para estirpar desta sociedade o câncer do preconceito, provando que a iniqüidade no Brasil passa de geração em geração.

Entra em cena Fernandinho Beira-Mar. Com o tipo físico que cinegrafistas e fotógrafos caolhos, ávidos por perpetuar o estereótipo, adoram usar para ilustrar matérias mundo-cão. Beira-Mar, neonegro globalizado, fruto da cartilha neoliberal que prega o sol da prosperidade para todos, inclusive aos favelados que terão futuro se se dedicarem de corpo e alma aos mercados liberalizados enquanto esperam passivamente o aumento do bolo. Qual futuro? Ninguém diz.

O ex-favelado, misto de militante e Robin Hood, este ex-pária da sociedade, a mesma que insiste em empurrar unicamente aos governantes, hipocritamente, a responsabilidade que sabe ser sua, de promover justiça étnica e social. Pois bem: o Beira-Mar do celular, o maior traficante do hemisfério, traduzido em muitas línguas e nas hipérboles em moda na mídia omissa, se confirmadas as acusações talvez, sabe-se lá, seja ele finalmente capaz de nos unir. Beira-Mar é prova viva, por enquanto, que em matéria de corrupção e banditismo nosso país oferece equal opportunity.

Outra metade

Ninguém precisa de ação afirmativa. Não há racismo, não somos preconceituosos. A mídia pode continuar calada, omissa e parceira, em muitos casos, na perpetuação da mentalidade escravocrata. Não há black out, apesar dos apagões. O capo negro tem cérebro. É tão bom e hábil naquilo que é mau quanto eles – os que entre os não-miscigenados, classe quase em extinção neste país mestiço, se destacam no banditismo. Somos todos iguais, ao menos no pior. Os escândalos, inclusive os fabricados, que parecem já não mais chocar a nação, estuporados nas últimas semanas, meses, séculos; orquestrados por políticos larápios travestidos de legisladores, juízes corruptos, empresários fraudadores, funcionários públicos de baixo calão; todos caras-pálida de cabelos maleáveis, de ternos, gravatas, tailleurs, bem vestidos (ou pouco vestidas), bem alimentados e bajulados pela mídia, mesmo quando derramando nauseantes lágrimas-incolores após seram pegos com a boca na botija e obrigados a confessar o comprovado, já não causam inveja, nem divisão, nem revolta.

Beira-Mar ameaçou entregar metade do país. Que não ouse cometer mais este desatino pois a mídia, constrangida, diariamente entrega-nos a outra metade. Se juntarem as duas, talvez escape incólume apenas você que esta lendo este artigo. Deixe isso pra lá. Vamos comemorar. Viva a democracia racial brasileira e a nossa mídia, à beira-mar.

(*) Doutorando em Sistemas de Informação, Mestre em Comunicação pela University of Leicester, consultor de Tecnologia de Informação e Comunicação em Massachusetts, EUA. E-mail: <jnascime@aol.com>