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IMPRENSA CIDADÃ
Um jornal escrito em braille
Marcelo do Canto (*)
O primeiro jornal em braille do Brasil foi lançado em julho de 2000 e já está na 13ª edição. Vinculado do Diário do Povo, de Campinas (SP), o jornal tem periodicidade mensal. O projeto nasceu em 1987, quando eu concluía o curso de Jornalismo da PUC-Campinas. À época, optei por esse meio de comunicação por saber que os deficientes visuais não tinham nenhum tipo de informação exclusivamente para eles. Com o apoio de alguns cegos vinculados ao Centro Cultural Louis Braille de Campinas, formulei um projeto editorial e iniciei um contato mais direto com os deficientes visuais.
Mesmo com dificuldades financeiras e, principalmente, de impressão, ainda tentei manter o jornal – então chamado Conhecer – em circulação entre as entidades campineiras e da região. Meu esforço foi insuficiente e, após cinco edições, em meados de 1988, o jornal parou de circular.
Sair de circulação, no entanto, não enterrou meu desejo de um dia voltar a editá-lo. Há cerca de três anos, quando o Correio Popular já havia comprado o Diário do Povo, resolvi apresentar o projeto para a Rede Anhangüera de Comunição (RAC). No início de 2000 retomei as conversações com a empresa, que começava a demonstrar real interesse em sua realização.
Entusiasmado com a possibilidade de voltar a fazer um jornal em braille, mais uma vez procurei o Centro Cultural Louis Braille de Campinas. Novamente bem recebido, tive o privilégio de encontrar ex-companheiros de 1987, que pela segunda vez demonstraram muito entusiasmo com a possibilidade definitiva de fazermos um jornal para cegos.
Pesquisando tudo o que havia em braille no país, descobrimos que mesmo 13 anos depois nenhum jornal havia sido lançado no Brasil. Descobrimos, porém, que em Portugal havia um jornal editado bimestralmente – o Jornal em Notícias. Tomando como exemplo esse veículo português, mostrei aos responsáveis Rede Anhangüera de Comunicação (RAC) que também poderíamos ter um jornal exclusivamente para os cegos. Para isso, aproximei os responsáveis pelo projeto da parte do Diário do Povo com interlocutores do Centro Cultural Louis Braille de Campinas. Isso culminou em uma parceria que garante a circulação do jornal até julho de 2001.
A partir daí, recebi sinal verde para dar os ajustes finais no projeto. Definimos que todas os instituições campineiras que trabalhavam com cegos fariam parte do trabalho e que o jornal circularia em Campinas e mais 20 cidades da região. Conseguimos parcerias com a Net Cabo e o McDonald’s, além do apoio esporádico de duas empresas, Itapapel e Hansa.
Na assinatura do contrato com representantes das empresas, veiculamos uma matéria no Diário do Povo sobre o lançamento do jornal. Foi a gota d’água para que os principais veículos de comunicação do Brasil (O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, Jornal da Tarde, Estado de Minas, Zero Hora) começassem a anunciar o lançamento do primeiro jornal em braille do país.
Com toda essa repercussão, o lançamento do jornal, em julho de 2000, virou notícia nacional em todos os veículos de comunicação. As principais TVs brasileiras veicularam a informação e isso provocou uma enxurrada de telefonemas de cegos de todo Brasil, interessados em receber o jornal. Com isso, o número de exemplares – que deveria ser 100 – já na primeira edição foi aumentado para 200 exemplares. Nas edições seguintes chagamos à marca de 300 exemplares, enviados para todos os estados brasileiros e chegando às mãos de aproximadamente 500 cegos espalhados pelo país. Também leitores de Portugal e Espanha estão recebendo o Diário do Povo Braille.
Atualmente o jornal é de responsabilidade da Rede Anhangüera e sua remessa teve alterações. As entidades cadastradas que atendem aos deficientes visuais recebem o jornal gratuitamente e os leitores individuais pagam pela assinatura.
(*) Jornalista. E-mail <mcanto@correionet.com.br>

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