16/12/2003 3/3

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MÍDIA & PSICÓLOGOS
O (relevante) papel de um ombudsman

Eliane Scherb (*)

"Há um momento em que a objetividade jornalística deixa de ser um atributo ético. Se existe, por exemplo, um Hitler se instalando institucionalmente no poder, relatar isso, simplesmente, é sinal de conivência. A violência e o crime se instalaram de tal maneira na sociedade brasileira que hoje balizam o cotidiano da maior parte da população. É nesse momento que a mídia deve entender o que ela é capaz de fazer por um festival de jazz e se lembrar que, quando as instituições estão falidas, ela é a última instância de mobilização e defesa da população". ["A hegemonia da barbárie", de Nelson Hoineff, OI nº 254, 9/12/03, remissão abaixo]

Apesar da triste realidade, as considerações acima trouxeram-me também um sentimento de esperança, a de encontrar um espaço para falar sobre estragos que a imprensa pode causar quando não se volta para a defesa do cidadão e a uma investigação mais cuidadosa das fontes de informação, que vá além dos dados "oficiais" e meramente descritivos.

Do ponto de vista específico de minha profissão, psicóloga, e do que ando vendo publicado na imprensa a respeito de psicólogos, testes, laudos e psicanálise, o cenário não tem sido dos mais agradáveis. Desde setembro deste ano, têm surgido artigos bastante negativos e tendenciosos a respeito do assunto, na revista IstoÉ e na Folha de S. Paulo. A minha opinião é compartilhada por muitos colegas, professores, pesquisadores, profissionais de RH.

São matérias que têm coincidido com acontecimentos recentes e causadores de grande perplexidade aos psicólogos: a proibição, pelo CFP, desde o dia 6/11/03, do uso de testes considerados inadequados ou em avaliação – com base em critérios aparentemente científicos – em todas as atividades que envolvam seu uso, sob pena de "punição por grave falha ética", excetuando-se o seu uso em pesquisas acadêmicas ou de validação; e sua aparente omissão quanto ao recente decreto, assinado pelo governador de São Paulo, determinando, entre outras coisas, a eliminação de laudos psicológicos e psiquiátricos e de seu papel na avaliação de presidiários (doravante, valerá o critério "bom comportamento" para acompanhar a progressão das penas, a ser unicamente determinado pela direção dos presídios).

Os títulos das matérias já dizem muito:

Matérias publicadas na Folha de S. Paulo

6 de novembro de 2003 – Conselho reprova avaliações psicológicas/Instituto pedirá prazo para alguns testes

23 de novembro de 2003 – 50% das provas são ineficazes (Caderno Empregos)

07 de dezembro de 2003 – Psicanálise fragiliza o indivíduo, diz livro- Jurandir Freire Costa discute ‘Cultura da Terapia’, do inglês Frank Furedi, que ataca a psicanálise (Título do primeiro caderno) / Terapia de Risco (na edição eletrônica constava Terapia de Riso) – Jurandir Freire Costa discute ‘Cultura da Terapia’, livro em que o sociólogo inglês Frank Furedi afirma que a psicanálise e outros tratamentos estão fragilizando o indivíduo e esvaziando a esfera pública (título do caderno "Mais").

***

Matérias publicadas na revista IstoÉ

25 de setembro de 2001 – ação 1721 – Qualquer uma das alternativas

24 de novembro de 2003 – edição 1782 – Nota Zero

07 de dezembro de 2003 – edição 1784 – É para valer, O laudo acabou

Em nenhum dos casos houve espaço para a resposta do leitor (salvo o caso que reproduzo abaixo, que contou com a intervenção do ombudsman da Folha).

O silêncio também imperou junto aos referidos "Conselhos". Valeu, tanto nas omissões explícitas, como no único caso de resposta dada pela revista IstoÉ à Associação Brasileira de Avaliação Psicológica – ABAP, a reiteração dos dados fornecidos pelo Conselho Federal de Psicologia por seus agentes e simpatizantes, como se pode ver no exemplo abaixo:

"Psicotécnico

O Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica manifesta sua preocupação com o teor das seguidas reportagens sobre testes psicológicos que estão alarmando a população e gerando uma falsa impressão de que psicólogos estariam utilizando técnicas inadequadas em suas avaliações. A avaliação feita pelo Conselho Federal de Psicologia diz respeito à qualidade dos manuais dos testes e não dos testes enquanto instrumentos de avaliação psicológica. Psicólogos trabalham com base na literatura nacional e internacional dos testes e, em alguns casos, não é fácil contemplar décadas de pesquisa e a experiência clínica acumulada em um único manual. De qualquer forma, as sociedades científicas estão procurando solucionar com a maior rapidez possível as dificuldades com os manuais e a situação deverá estar normalizada em poucos meses. Um ponto de fundamental importância é o fato de que o uso dos testes por psicólogos qualificados e experientes não tem causado danos à população.

Pelo contrário. Os testes são instrumentos fundamentais para a prática da psicologia. Algumas ilustrações de mau uso dos instrumentos de avaliação, se verdadeiras, decorrem de problemas na formação de psicólogos. Psicólogos, como profissionais de qualquer área, em qualquer parte do mundo, ocasionalmente erram. Algumas universidades no
nosso país oferecem uma formação que deixa muito a desejar e vemos, portanto, erros profissionais graves nas mais variadas áreas. Infelizmente, a psicologia não é uma exceção. Porém, as sociedades científicas e de representação profissional estão
empenhadas na melhoria da formação dos psicólogos e comprometidas com o atendimento eficiente e ético dos usuários dos serviços de psicologia. "Nota zero" (IstoÉ 1782). Cláudio S. Hutz, presidente do Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica Porto Alegre – RS

IstoÉ responde: O questionamento da qualidade dos testes psicológicos foi referendado pela entidade mais representativa da categoria, o Conselho Federal de Psicologia. Logo, as citadas matérias não causam uma "falsa" impressão de que técnicas inadequadas estão sendo utilizadas, mas denuncia que há décadas os testes não passam por uma avaliação adequada. É questionável também a afirmação de que a utilização desse instrumento não tem causado dano à população: a multiplicação dos questionamentos jurídicos de seus resultados mostra que muitos brasileiros discordam dessa assertiva.

Valeram as afirmações que procuraram garantir a versão de que "todos os psicólogos concordam e louvam" o teor e a forma das reportagens, já que estariam retratando sinceros esforços, por parte de tais organismos, em prol da moralização da profissão. Afinal, como relatado pela própria presidente do Conselho Regional de Psicologia, Ana Maria Mercês Bock, a urgência na moralização de testes e de avaliadores teve como justificativa principal atender à demanda da população e seus questionamentos a respeito do trabalho de psicólogos que atuam em avaliação psicológica e em seleção de pessoal, especialmente feitos por candidatos a vagas em concursos públicos, "principalmente magistrados":

"(...) Temos recebido algumas manifestações de psicólogos que questionam as medidas que foram implementadas pelo CFP sobre Testes Psicológicos. O CRP SP, por meio desta, procura esclarecer aos interessados, nossas iniciativas.

Os testes psicológicos vinham sendo alvo, em nossa sociedade, de muitos questionamentos. Muitas ações eram impetradas questionando a utilização e os resultados de testes psicológicos aplicados em concurso de promoção em carreiras (principalmente de magistrados) ou em seleção de pessoal (...)". (da carta da presidente do Conselho Regional de Psicologia, Ana Maria Mercês Bock, 1º/12/03 – disponível em http://www.apsic.com.br/fique.htm).

Violência, não apenas com aval da mídia, mas do próprio Conselho Federal de Psicologia, e também dos Conselhos Regionais espalhados pelo país, pela omissão e reforço de mensagens tão depreciativas, reforçadas por um jornalismo acrítico e apegado a insígnias. Como se dados oficiais fossem a única verdade. Voltamos à ditadura? Ao refrão "ilha de paz e tranqüilidade" usado para tudo?

Nas entrelinhas das reportagens, ficou a mensagem básica: só discorda quem "não é bom sujeito... é ruim da cabeça ou doente do pé".

Certamente, a tendência a tomar partido de uma fonte de informação aparentemente mais confiável não leva a nenhum caminho, a não ser o do prejuízo ao leitor e à imagem institucional do meio de informação. Se o leitor não consegue ter acesso a versões conflitantes, é melhor ler o Diário Oficial (o que também não garante ausência de contradições), ou simplesmente ler os anúncios inseridos como matéria paga ou fazer outra coisa igualmente automatizada.

No caso em questão, foi lamentável a insistência na supressão de informações genuinamente representativas da comunidade científica, acadêmica ou profissional dessa categoria de profissionais. 

Com exceção do texto no caderno "Mais", da Folha (que tratou de uma resenha muito interessante, de autoria do psicanalista Jurandir Freire Costa, sobre um livro que critica a psicanálise, do ponto de vista de sua difusão na cultura), infelizmente prejudicado pela roupagem (títulos e subtítulos que não destacam o ângulo dado pelo resenhista, mas pelo autor, um sociólogo inglês), pelo momento e data de publicação (no dia 7/12/03, a mesma de outro artigo de cunho depreciativo pela revista IstoÉ, sobre laudos) as matérias primaram pela superficialidade e pelo tom agressivo adotada para falar sobre psicólogos.

A recorrência do estilo de reportagem, assim como a aparente insistência, nos dois últimos meses, em publicar matérias que criticam ou invalidam algum aspecto da psicologia como profissão ou ciência, levantaram não apenas perplexidade, mas dúvidas junto a muitos psicólogos: seriam notícias realmente importantes ao público em geral? Trariam, como pretendido pelos Conselhos, maior valorização e credibilidade ao trabalho e à imagem pública do psicólogo? O sentimento de desconfiança quanto aos objetivos verdadeiros de tais notícias seria apenas fruto de fantasias paranóides?

Ainda: qual seria o substrato ideológico de tais artigos? O que pretenderam de fato informar, pela via que adotaram, a da validação versus invalidação (de pessoas, de instrumentos, de conhecimentos construídos por pesquisas)? A quem quiseram atender, ou esclarecer?

Fico à espera, como gato escaldado, das próximas "notícias": "O Ministério da Saúde adverte: psicólogos fazem mal à saúde"; "Testes psicológicos: criado novo disque denúncia"; ou "Lançado o Teste do Paredón: veja o quanto de pedra você pode atirar neles" (nos psicólogos, testes etc, à vontade do freguês).

Enquanto isso não ocorre, deixo abaixo a reprodução dos contatos que mantive com a Folha de S. Paulo, solicitando reconsiderações sobre informações contidas no artigo publicado dia 23/11/03, no caderno "Empregos", de autoria de uma repórter "free-lance".

Éo único caso que resultou em alguma resposta ao leitor, graças à intervenção do ombudsman da Folha, Sr. Bernardo Ajzenberg. É prova de que se pode encontrar sensatez em meio a tanta desinformação e abuso de poder. Pena que o Conselho Regional de Psicologia – ou outras autarquias públicas do gênero – ou todas que não conseguem dar ouvidos a interlocutores – não disponham de uma ouvidoria.

(*) Psicóloga, assistente técnica do Ministério Público do Estado de São Paulo, doutoranda em psicologia clinica (diagnóstico psicológico) pela USP.

Leia também

A hegemonia da barbárie – Nelson Hoineff

***

A troca de cartas

E.S.

Mensagem enviada ao ombudsman da Folha em 23 de novembro de 2003

Gostaria de fazer ressalvas à matéria sobre testes que reproduzo abaixo. No jornal, também constam, sob o título "fique de olho", os testes supostamente considerados ineficazes.

Tanto a matéria, como o titulo, sugerem várias idéias distorcidas:

– Que os testes proibidos não têm validade (muitos deles, reconhecidos em muitos outros países, menos no Brasil, estão em processo de avaliação pelo Conselho Federal de Psicologia; além disso, pareceres antes desfavoráveis sobre determinado instrumento de avaliação podem tornar-se favoráveis com base no fornecimento de informações mais completas e atualizadas em forma de manual ou outro produto impresso pelas empresas editoras responsáveis); – que os candidatos devem desconfiar dos procedimentos do psicólogo e "ficar de olho"; – que psicólogos podem ser "enganados" pelos candidatos.

Há também erros com relação aos nomes dos testes reprovados, por exemplo, o Rorschach: confundiu-se o teste com o sistema de notação adotado (são vários, e têm sido estudados há décadas, tais como o Rorschach pelo Sistema Compreensivo de Exner – aprovado; ou o Rorschach pela Escola Aníbal da Silveira – em avaliação e outros também em estudo, mas sem parecer desfavorável), o que pode gerar mal-entendidos a respeito de sua utilização em geral (é considerado como um dos instrumentos de avaliação psicológica mais abrangentes e menos acessíveis a tentativas de manipulação de respostas).

O tom geral da reportagem sugere uma cumplicidade preconceituosa: o jornalista e leitor de um lado, com suas desconfianças e os psicólogos de outro, e os exemplos de despreparo e com a banalização dos testes. E quando o leitor é psicólogo?

Que maus profissionais também existem entre psicólogos ninguém duvida. No entanto, reportagens superficiais como esta reforçam ainda mais as dificuldades desses profissionais em vencer preconceitos e ter seu trabalho respeitado, seja em recursos humanos, como em outras áreas de atuação.

***

Resposta enviada pelo editor-assistente da Folha em 25 de novembro de 2003

Prezada dra. Eliane,

Agradecemos as colocações e informamos o seguinte:

1 – ERRATA: O artigo não deixou claro que o Conselho Federal de Psicologia reprovou apenas o sistema de Rorschach comercializado pela editora CEPA. O Rorschach – sistema compreensivo de Exner, publicado pela Casa do Psicólogo, teve avaliação favorável. O sistema de Rorschach elaborado por Aníbal Silveira e encaminhado ao Conselho pela Sociedade de Rorschach de SP ainda está em processo de análise. O jornal publicará errata esclarecendo a questão.

2 – Esclarecimento: O texto deixa claro que foram estudados 118 testes pelo Conselho Federal de Psicologia, reprovados 54 e aprovados 49. 15 permanecem sob análise. Também está citado explicitamente que, mesmo entre os reprovados, "não ter condições de uso não significa que o teste não tenha qualidade. Ele pode ser adequado, mas para outra cultura". Assim, alguns dos testes não foram considerados adequados para uso específico no Brasil, já que não havia pesquisas com o público local.

- Também está escrito que a proibição não é definitiva, mas vale até que o Conselho receba novos subsídios que possam comprovar a eficácia dos testes.

3 – Esclarecimento: A reportagem não diz que candidatos efetivamente "podem enganar psicólogos", mas sim que alguns candidatos procuram realizar os testes tendo em mente apenas agradar ao aplicador, o que atrapalha a avaliação. Há uma declaração, de um dos membros do próprio Conselho, afirmando que "circulam entre os candidatos informações infundadas a respeito da interpretação que teriam algumas respostas", contestando a idéia de que é fácil enganar o aplicador.

4 – Público: O texto não põe leitores de um lado e psicólogos de outro. Já que boa parcela dos leitores desta edição em especial são psicólogos, a divisão simplesmente não faria sentido. Ocorre que, dentre os profissionais da categoria ouvidos (nem todos são citados no artigo, por questão de espaço), todos elogiaram a decisão do Conselho em avaliar os testes. Segundo eles, essa seria uma forma de valorizar a classe e de promover oportuno e necessário debate sobre os métodos de avaliação utilizados hoje no Brasil.

Colocamo-nos à disposição para outros esclarecimentos.

***

Mensagem enviada ao ombudsman e ao editor-assistente da Folha em 26 de novembro de 2003

Agradeço a atenção e a errata com relação ao Rorschach.

Vi que houve também mudança do título do artigo disponibilizado pela Internet (de "50% das provas psicológicas são ineficazes" para "Conselho Federal proíbe antigos testes psicológicos em seleção de empregos"). Isso melhora um pouco.

Os itens 2 a 4 citados por V.Sa. realmente estão presentes na matéria, mas são apresentados de forma secundária e vêm com o estigma do título e subtítulo.

Destaque é dado a integrantes do Conselho Federal de Psicologia e a psicólogos que parecem concordar com tudo o que já foi determinado e parecem facilmente descartar-se de instrumentos que antes consideravam válidos, como se não tivessem autonomia ou elementos para defender a sua legitimidade.

O texto do artigo não aborda os que discordam das resoluções recentes do CFP e que não são poucos, apesar da pouca divulgação existente de suas opiniões pelos meios oficiais (sites e publicações de ambos os conselhos).

Em geral, testes psicológicos não são tão primários como parecem ser. Nem psicólogos.

Apesar das tentativas de relativizar os fatos – grande parte do artigo é composta por casos de candidatos que procuram "agradar" (enganar) o psicólogo, sendo o subtítulo também muito sugestivo ("Banalização dos exames gerou experts em forjar resultados"). A introdução do artigo já parece enquadrar testes de forma desfavorável.

O artigo não mencionou que boa parte dos testes costuma exigir investimento em treinamento, pesquisa e supervisão, especialmente os que não procuram meramente dados descritivos e quantificáveis, a exemplo dos testes projetivos e de técnicas de entrevista com enfoque psicodinâmico. Não são "pegadinhas".

Mesmo que pareçam estranhos a candidatos, têm fundamento teórico, necessitam de raciocínio clínico e trazem histórico de muita pesquisa (estudos de caso, estudos transversais, retrospectivos, comparativos com grupos-controle, etc). Isso poderia ter sido facilmente levantado em sites de pesquisa da internet.

O artigo de fato reconhece que os testes psicológicos devem se valer do preparo do profissional que analisa e sintetiza as informações. Mas não deixa de levantar dúvidas sobre a confiabilidade do selecionador: ele pode estar fazendo uso de testes "proibidos", antigos, ultrapassados, fora da validade, sem que o candidato saiba disso. Isso está implícito no subtítulo "fique de olho" que encabeça os instrumentos reprovados.

Subentende-se no texto, por todas as razões acima, um tom de desvalorização do psicólogo que faz uso de testes. Ele não sabe discernir testes velhos de novos ou bons de ruins e precisa de fiscalização, seja do candidato, do CFP, ou da população que lê o jornal.
O jornal está expressando opiniões de uma parcela dos psicólogos, representada pela atual gestão do CFP. Há uma outra ala que não se sente representada e não foi contatada para a elaboração do artigo.

Nesta, incluem-se muitos que estão se sentindo lesados, em sua imagem pública e prática profissional, pelas conseqüências derivadas das resoluções do CFP. Ao aprovar testes que supostamente não representam mera importação cultural e que possam ser revalidados em nossa cultura, a comissão técnica do CFP parece querer impor uma única verdade, privilegiando referências sociais para a análise do instrumento e de seus resultados em detrimento dos que derivam de teorias psicodinâmicas e destacam aspectos da vida subjetiva comuns a todos os seres humanos. Parece retorno dos anos setenta.O próximo passo talvez seja a realização periódica de um "Provão" dos testes, de forma semelhante a outras iniciativas que estão atendendo o modelo "globalizado" de vida, ensino, trabalho e pesquisa. Não parecem perceber que também há viés cultural na tendência a valorizar testes passíveis de tratamento estatístico e de aplicação para amostras grandes, como inventários, escalas e outros instrumentos padronizados em sua grande parte originados de modelos norte-americanos de pesquisa em psicologia, bastante descritivos, práticos e impessoais.
Se tudo se tratasse de "cultura" ou "viés cultural", os médicos não poderiam utilizar os critérios diagnósticos constantes no DSM-IV, elaborado por especialistas de vários países e adotado como norma também no Brasil, assim como o CID-X (Classificação Internacional de Doenças – 10ª Edição). Engenheiros não poderiam usar normas técnicas elaboradas e atualizadas em outros países há décadas, também traduzidas para o português. Filósofos, então, nem poderiam filosofar e produzir trabalhos acadêmicos. Universidades brasileiras em geral não poderiam adotar projetos pedagógicos ou modelos curriculares que deram provas de eficácia no exterior. Todos teriam de aplicá-las primeiro aqui no Brasil para eliminar algum "viés cultural" a influir na identificação de um transtorno mental, na construção de uma obra, na elaboração de um trabalho acadêmico ou na implantação de um curso. Isso se os respectivos conselhos (de medicina, engenharia, etc) tivessem coragem de fazer, levando em conta a capacidade infinitamente maior de coesão, participação e auto-defesa de seus associados, em comparação com a dos psicólogos.

***

Mensagem enviada ao ombudsman da Folha de S. Paulo em 27 de novembro de 2003

Agradeço a atenção e o encaminhamento da mensagem ao Editor-Assistente do Caderno Empregos.

Comunicou-me que o jornal vai publicar uma errata a respeito de um dos itens (o teste Rorschach).

Procurou dar esclarecimentos sobre os outros pontos levantados, que, infelizmente, não mudaram a minha opinião – a de que o artigo foi preconceituoso, superficial e lesivo à imagem dos psicólogos. Ela é compartilhada por outros colegas de profissão que leram a matéria. Em resposta, tentei expor o que está realmente acontecendo entre psicólogos e a atual gestão do Conselho Federal de Psicologia.

Está prevalecendo a "versão oficial" (CFP) como fonte de informações, inclusive para a imprensa. Para os setores discordantes há a "lei da mordaça": deles nada se vê ou se escuta, pelo menos através dos meios de divulgação oferecidos pelos Conselhos Federal e Regional de Psicologia.

Por essa razão, pesquisar a opinião "não-oficial" teria sido interessante para dar uma visão menos parcial sobre o assunto.

Muitas críticas estão sendo feitas a respeito da arbitrariedade das resoluções do CFP (por muitos entendida como inconstitucional) e a inconsistência dos critérios adotados para avaliar os testes (será que todos os testes aprovados foram revalidados no Brasil? O que são testes ineficazes ?). Vários exemplos poderiam ter sido dados por professores, pesquisadores e outros profissionais que lidam com instrumentos de avaliação psicológica.

***

Mensagem enviada ao editor do Caderno Empregos, com cópia ao ombudsman da Folha, em 30/11/03.

Ainda não consegui encontrar a Errata a respeito do artigo publicado no dia 23.11.03.
Pensei que ao menos como leitora da Folha eu fosse respeitada. Como psicóloga, estou sendo tolhida. Pena, porque o meu trabalho, que envolve o uso de testes projetivos (as tais "manchas" ou desenhos) tem ajudado a avaliar casos de crianças vitimizadas por abuso sexual encaminhadas ao Setor Técnico das Promotorias de Justiça da Infância e da Juventude do MP de São Paulo.

Geralmente, elas são muito pequenas e não têm condições de responder a inventários ou a entrevistas que se aplicam a adultos. Os desenhos e atividades lúdicas servem para ajudá-las a falar e a identificar sinais de trauma. É claro que a orientação teórica é a psicanálise.
Pena que pessoas como Freud, Melanie Klein e tantos outros que enfocaram o desenvolvimento infantil não tenham pensado em padronizar os seus dados para grandes amostras. Infelizmente, o método psicanalítico destacou sempre a singularidade. Eu devia ter cursado Estatística para entender a vida emocional de crianças.

***

Mensagem encaminhada pelo ombudsman da Folha em 02/12/03

Cara Eliane:

Agradeço por suas mensagens, que encaminhei para conhecimento da Redação. Espero que tenha visto a correção, publicada na edição de hoje.

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A errata finalmente foi publicada em 02/12/03, na seção "Erramos" do jornal

O texto "50% das provas psicológicas são ineficazes" (Empregos, pág. 2, 23/11) não deixou claro que o Conselho Federal de Psicologia reprovou apenas o sistema de Rorschach comercializado pela editora Cepa. O Rorschach Sistema Compreensivo Exner teve avaliação favorável, e o elaborado por Aníbal Silveira está sob análise. O mesmo ocorreu com o teste HTP – o sistema comercializado pela Casa do Psicólogo foi proibido, enquanto o da Vetor continua em estudo.

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