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Alberto Dines

"O mapa de Barléu", copyright Jornal do Brasil, 4/7/01

"Frenesi especulativo, clima de ‘crash’, império do absurdo: paira uma insanidade retrospectiva, obrigação de reviver a loucura da Terça Negra de 24 de Outubro de 29 já não mais ao som do charleston mas do rock’n’roll. A diferença é que estamos no limiar da Era do Conhecimento e o atual burburinho opinativo está longe de qualquer coisa relacionada com o esclarecimento e o bom senso. Os que nada têm a perder dizem tonterías, os aflitos extravasam suas paranóias.

Neste clima é fácil plantar qualquer tipo de engodo. Um assessor de Delfim Netto, por exemplo, garante em primeira página que o Rei da Lorota está no páreo presidencial ‘com grandes possibilidades de disputar o segundo turno’ e, inclusive, ‘está recebendo discretas mas entusiásticas manifestações de apoio do establishment’. Resta saber qual o estabelecimento – Bangu, Carandiru ou a ala das baianas da Escola de Samba Unidos de Cotia?

Triste mesmo é a situação do Delfim meridional, Domingo Cavallo, Hamlet estouvado agora estraçalhado pelas dúvidas, obrigado a recitar solilóquios tranqüilizantes a cada meia hora. Na enxurrada de declarações ontem disse algo que não mereceu muito destaque: para resolver o problema argentino o Brasil precisaria adotar seu modelo atrelando-se também ao dólar e ao euro. Seria bom até para o Mercosul, aconselhou o macanudo que adora espancar esta Geni sul-americana.

Considerando que a ciência econômica tem tanto de exata como as teorias para ganhar uma partida de fútbol, o conselho do czar argentino não pode ser inteiramente descartado. Na histeria dos números, vaticínios apocalípticos e declarações nada inocentes do Senhor Mercado e da Senhora Especulação há um componente de política externa que necessita ser reiterado: as economias do Brasil e da Argentina estão cada vez mais atreladas, condenadas a contágios, contaminações e, sobretudo, convergências.

Não se trata do velho fluxo de turistas portenhos atraídos pela taxa de câmbio favorável que achavam tudo muito barato e entoavam o refrão consumista: dáme dos.

O que nos une em primeiro lugar é a percepção cretina do investidor internacional – sobretudo das casas financeiras norte-americanas – de que abaixo do Equador é tudo a mesma coisa. O aforisma setecentista Ultram Equinocialem non peccari (debaixo do Equador não há pecado), cunhado por Gaspar Barléu, o respeitável historiador encarregado de registrar a presença holandesa no Brasil sem jamais ter pisado nestas plagas, ganha leituras pós-modernas. Tão simplistas como a original.

A percepção generalizadora e reducionista de antigamente é tão válida quanto colocar as duas Coréias no mesmo saco, só porque estão próximas e iniciaram um degelo. A injusta homogeneização, agora incluindo até mesmo a tradicional solidez chilena, curiosamente, aumenta à medida que o governo Bush força o jogo em favor da Alca enquanto exibe visível algidez diante da nervosa situação do hemisfério sul.

Hoje não é dia de fazer a fezinha num hedge cambial ou comprar umas verdinhas no doleiro da esquina. O bom do sábado é que até o mercado descansa. Nestas condições ideais de temperatura e pressão vale a pena arriscar um olhar menos afobado, com mais perspectiva. Mesmo porque se abdicamos do nosso dever de pensar a realidade como um processo histórico e delegamos a magna tarefa de cogitar sobre nosso destino e nossa condição aos economistas, analistas ou diletantes de economia (neles incluídos empresários, corretores e aplicadores) estamos literalmente ferrados.

A crise argentina é irreversível, os cenários alternativos são igualmente dramáticos: um corte abrupto e iminente deve interromper esta milonga que já dura mais de três anos. Com graves implicações na política interna. E nós? Uma comentarista de TV reproduziu, quinta à noite, a opinião de um investidor nacional que confessou ter participado de um pesado ataque ao real durante a semana mas que naquele momento via a situação sob controle. Em outras palavras: apesar de vizinhos e tão confundidos, o poço argentino é muito mais fundo do que o nosso.

Isto posto, lucros e perdas contabilizadas, conviria pensar no tal do dia seguinte. O pós-hecatombe. Significa que está na hora de examinar a esfera geopolítica. O Mercosul-Mercosur não é só um projeto de mercado comum, união aduaneira ou área de livre comércio. Não é problema, é solução. Qualquer alternativa de médio ou longo prazo para os países do Cone Sul passa obrigatoriamente pelo fortalecimento desta parceria eminentemente política.

Assim foi com a Comunidade do Carvão e do Aço que em apenas 50 anos acabou convertida na poderosa União Européia. Assim foi com os demais prodígios econômicos que assistimos desde o New Deal de Roosevelt, nos anos 30. Planos de recuperação econômica não podem prescindir de novas formatações políticas sobretudo no âmbito externo. Convém deixar de lado uma vez por toda os chavões e estereótipos contra a globalização etc. etc. Se falamos em mundo temos que falar em mundialização, isto é tão velho quanto as migrações daquele hominídio recém-descoberto na Etiópia. Nosso presumível ancestral não deixou a África Central para fazer windsurf no Mar Vermelho, foi levado pela necessidade de alimentar-se e sobreviver – primeiro passo do processo econômico. Se a China Comunista jogou todos os trunfos para hospedar as Olimpíadas de 2008 é porque estava de olho em objetivos que tanto incomodam as esquerdas retrógradas: o concerto das nações, convergência e interdependência.

Nós também não podemos perdê-los de vista. Sobretudo por causa de Barléu. Se o sábio, piedoso e intolerante calvinista utilizou a cartografia para fazer uma divisão moral, cabe-nos usar a geografia em nosso favor, como linha de defesa e autodeterminação. Aconselhado pelo desespero, o ministro Cavallo sugere âncoras cambiais que apagarão o traço de Barléu. Impossível: ele aí está, palpável, indelével. Definido e concreto. Real ou austral."



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