CADERNO DA CIDADANIA

PORTUGAL: CASO CASA PIA
O pedo-filão da pedofilia

Rui Paulo da Cruz (*)

O jornalista e professor de comunicação Mário Mesquita, na crônica dos domingos no Público (um jornais portugueses de referência), cita uma famosa frase do "camarada de profissão" Jean Lacouture : "Nunca gostei dos jornalistas-polícia". É que, em Portugal, nas últimas semanas, os jornalistas se têm, de fato, confundido com os policiais.

Digna profissão, a de policial. Digna profissão, a de jornalista. Mas ser jornalista e brincar de policial, ou ser polícia e tentar escrever manchetes de jornal é indigno. Ponto final.

Ponto final? Eu gostaria... mas não me deixam...

Hora a hora, a coisa piora. Na origem desta turbulência insana está, apenas, um caso de pedofilia. Mais um. Também em Portugal.

O caso em questão é de certa forma recorrente. Porque envolve uma instituição centenária de solidariedade social tutelada pelo Estado que acolhe menores – a Casa Pia, de Lisboa. Instituição há décadas infelizmente conhecida como viveiro de prostituição jovem, dos dois sexos.

São muitas as reportagens publicadas pela imprensa portuguesa, nos últimos anos, abordando o tema. Sem conseqüências.

O que mudou agora? Por que o escândalo e o desvario investigativo dos jornalistas portugueses? Ficam algumas dúvidas sobre origens e timings do processo. Mas o que efetivamente fez disparar o interesse público pelo tema foi a prisão de um conhecido apresentador da TV, figura popular dos corredores da mídia, da finança e da política, um senhor de mais de 60 anos muito colunável, muito socialite, recentemente casado, pela enésima vez, com uma jovem mais bonita do que prendada...

Dividiram-se os jornalistas, e através deles o país, em dois grandes grupos: os que acreditam na inocência do homem e os que já o condenaram. Os primeiros culpam os denunciantes (des)conhecidos – testemunhas que, quando crianças, foram vítimas de abusos sexuais –, os policiais e os juizes. Os outros suspiram de alívio: finalmente, fez-se justiça!

Jornalismo de preguiça

O elevado grau de midiatização do incidente judicial é agravado pela cortina de silêncio que envolve o processo. Invocando as normas de segredo de justiça, a polícia e os magistrados que conduzem a investigação recusam divulgar (mesmo aos advogados de defesa) as provas que reuniram contra os argüidos – estão detidos mais dois homens, um ex-funcionário da instituição e um médico; e foi libertado, sob fiança, um advogado.

Enaltecem alguns o papel da imprensa neste processo. E muitos jornalistas vangloriam-se, a pretexto deste caso, das virtudes do jornalismo de investigação. A minha opinião, para grande pesar de mim próprio, não podia ser mais oposta. Não vejo nas páginas dos jornais, nem nas matérias dos telejornais, nada que se pareça com investigação. E vejo muito pouco jornalismo.

Jornalistas e barões da mídia estão querendo passar para o exterior a idéia de uma grande investigação jornalística que não existiu. Tudo começou com uma reportagem de antecipação à prisão do primeiro suspeito, matéria que resultou de informações recebidas (e não investigadas) por uma jornalista de um membro da polícia que lhe é muito próximo. Excessivamente próximo, para o meu gosto, e para o que a ética aconselha...

Nessa matéria, e nas outras que se seguiram, fatos confirmados e autores identificados: quase nenhum. Mas multidões de notáveis a falar sobre eles.

Resulta desta perversa mistura (segredo de justiça e jornalismo de preguiça) que nada se sabe e quase tudo se inventa. Mas porque o julgamento dos protagonistas acontece na praça pública, não há lugar a exigências processuais. Condena-se ou absolve-se com o que há. E se, para absolver, for preciso inventar outros suspeitos... que se inventem!

Danos colaterais

Triste episódio desta farsa (dolorosa para muitos) foi o de uma diretora de jornal, por "acaso" filha do advogado de um dos suspeitos, que tentou introduzir na história um pretenso sósia do cliente do seu pai. Ou o de um outro diretor que desmentiu, em "comunicado público", e no próprio dia, a manchete do seu jornal anunciando a existência de uma lista de suspeitos notáveis nas mãos da ministra de Justiça!

De tudo se tem visto neste triste folhetim. E ninguém sabe o que ainda se verá.

De primeira baixa das guerras verdadeiras, a verdade está cada vez mais a ser a principal baixa das guerras de "faz-de-conta" da mídia contemporânea.

E tal como os danos colaterais da guerra moderna levam anos a conhecer-se, também as conseqüências nefastas sobre a cultura e a prática jornalística portuguesas do caso Casa Pia levará muito tempo a avaliar. Não percebo que os meus colegas jornalistas se sintam incomodados com o fato de parecerem jornalistas-policiais. Mas também é verdade que provavelmente eles nunca leram Jean Lacouture e lêem cada vez menos o Mário Mesquita.

(*) Jornalista em Lisboa, um dos fundadores do Observatório da Imprensa de Portugal

Leia também

Clique aqui para ler um dossiê preparado pelo diário Público sobre o caso Casa Pia