O Inferno da Paraíso
Lira Neto (*)

o início da semana passada, a Paraíso - um dos maiores anunciantes da imprensa local - pediu concordata. A rede de lojas, que emprega mais de mil pessoas e é a primeira do Nordeste no setor de eletrodomésticos, amarga hoje uma dívida de R$ 67 milhões. O fato rendeu matérias, com destaque, com direito a chamadas de primeira página, nos jornais Folha de S. Paulo, Gazeta Mercantil e Diário de Pernambuco. Já a imprensa cearense, que tem parte de suas receitas alimentadas pelos anúncios gigantescos da Paraíso, hesitou em tocar no assunto. Quando o fez, apelou para a informação camuflada, para a antinotícia.
Primeiro, o silêncio: no começo da semana, nenhuma linha nos jornais locais sobre a concordata da empresa cearense. Depois, quando já era impossível tapar o sol com a peneira, nossos jornais disputaram entre si para ver quem dava pior a notícia, quem conseguia mimetizar melhor a informação, quem resfriava mais o inferno da Paraíso.
Entre os jornais locais, O Povo partiu na frente. Foi o primeiro a dar o assunto, em sua edição de quinta-feira, dia 12. Apesar disso - e do escorregadio editorial de primeira página -, O Povo não conseguiu esconder de ninguém que tentou camuflar o episódio o máximo que pôde. Não entro no mérito das idéias ensaiadas pelo editorial. A crítica do Ombudsman é direcionada aqui aos procedimentos jornalísticos em relação à informação básica: a concordata da Paraíso. O nome da empresa, por sinal, não era citado no Editorial. A matéria também não recebeu qualquer chamada na capa.
Na verdade, a matéria ficou escondida ao pé de uma página interna, sem nenhum destaque, sob o título "Justiça aceita pedido de concordata de empresa cearense". Por que "empresa cearense"? Por que não "Paraíso", com todas as letras? O nome da Paraíso não estava sequer na abertura da matéria.O texto, cheio de dedos, antes de informar, cuidava de ressaltar "os bons propósitos do concordatário", observou um leitor ao Ombudsman.
A política de supressão, de ocultamento ou camuflagem de informações é tão antiga quanto a própria história da comunicação humana. E muito mais velha que a crença - às vezes ingênua - na liberdade de expressão. O cerceamento dessa liberdade não se dá apenas pela forma violenta e explícita da censura. Nos meios de comunicação contemporâneos, assume formatos mais sofisticados, aparentemente menos aviltantes. É assim que os jornais aumentam, reduzem, suprimem fatos, de acordo com sua conveniência, interesses e intenções. Ou, às vezes, até mesmo por pura incompetência de saber lidar com esses mesmos fatos.
A tentação do antijornalismo - A desastrosa cobertura do O Povo sobre a concordata da Paraíso foi tema de um duro comentário interno do Ombudsman, enviado à Redação e à Diretoria na quinta-feira passada. "Caímos na tentação fácil do antijornalismo", afirmei.
Como resposta, recebi no último sábado dois e-mails de Demócrito Dummar, presidente do O POVO. No primeiro, Dummar informava ao Ombudsman que o jornal tem jurisprudência de não noticiar, "salvo relevante motivo", suicídios e concordatas.
"Suicídio, sendo um ato de vontade ou desespero estritamente pessoal, preservamos eticamente o nome da família, registrando o falecimento da vítima, sem enfatizarmos a causa", diz Dummar. Já em relação às moratórias, sua divulgação "poderia estigmatizar a empresa que pede concordata, fragilizando seus vínculos relacionais com a clientela e inviabilizando a recuperação de sua vitalidade empresarial original. Por isso não noticiamos", argumenta o presidente do O Povo.
Pois havia um "relevante motivo" para noticiar, sem pudores, a concordata da Paraíso. Tal pedido de moratória explicitaria um cenário conjuntural, um estrangulamento econômico provocado, entre outros fatores, por uma política oficial de juros escorchantes e por uma crescente inadimplência no mercado.
A Paraíso não foi a primeira empresa a recorrer ao legítimo recurso da concordata. Nem será, com certeza, a última. Cabia pois ao O POVO dar a matéria com todo o destaque que ela merecia, sem maquiar ou sonegar qualquer informação aos leitores. Ou seja: cabia à diretoria do jornal deixar a Redação à vontade para fazer jornalismo. Não foi o que aconteceu. Não foi jornalismo o que se viu naquela edição de quinta-feira de O POVO. Em vez da contextualização, a camuflagem. No lugar do esclarecimento, o disfarce. A resposta dos leitores foi imediata, violenta, indignada. Faxes, e-mails e, principalmente, telefonemas ao Ombudsman. Todos queixavam-se do procedimento antijornalístico adotado pelo jornal.
Torço para que o episódio nos tenha servido para tirar algumas lições. Em seu e-mail enviado ao Ombudsman, Dummar afirma que "a partir da presente data, até que se normalize esse desequilíbrio conjuntural, noticiaremos as concordatas. No futuro, dependerá dos leitores e da Redação". Os leitores estão convidados, portanto, mais do que nunca, a continuar se manifestando sobre o tema. O que o leitor prefere: a informação ou o silêncio?
Ombudsman demitido - A instituição do Ombudsman, que está apenas dando seus primeiros passos no Brasil, já corre perigo de vida. Até agora, apenas três dos mais de 1.500 jornais diários do País ousaram manter um funcionário pago para defender os interesses dos leitores: Folha de S. Paulo, O Povo e AN Capital (Florianópolis). Mas justamente no último dia de seu mandato como Ombudsman do jornal catarinense, 31 de agosto do ano passado, o jornalista Mário Xavier foi demitido.
Dois anos antes, o AN Capital não havia poupado marketing para divulgar a implantação da nova função. Assim mesmo, 24 meses depois, desrespeitou a cláusula e compromisso públicos impressos semanalmente ao pé da coluna assinada pelo Ombudsman: a garantia de estabilidade na empresa por mais um ano após o cumprimento do mandato. Xavier acaba de ingressar com ação na Justiça do Trabalho. Já na Folha de S. Paulo, a direção do jornal paulista resolveu agora diminuir o prazo de estabilidade do Ombudsman de um ano para seis meses após o mandato.
A imprensa brasileira parece não estar mesmo segura de seu compromisso com o leitor. Lá fora, a figura do "representante dos leitores" é uma realidade consolidada em grandes jornais da Europa e Estados Unidos. Ali, ao contrário do que aconteceu no AN Capital e na Folha, as regras do jogo são respeitadas.
(*) Ombudsman do jornal O Povo, de Fortaleza. Coluna publicada em 16/2/98.
Solidários com o demitido

is um resumo de mensagens que recebi até 10/2 de colegas e instituições do Brasil e do exterior após o envio de minha primeira mensagem denunciando o assunto Ombudsman X A Notícia Capital.
Embora eu não tenha solicitado autorização expressa dos autores das mensagens para divulgação na mídia, creio que elas dão uma idéia da repercussão do assunto. (M.X.)
1) "I was very pleased to hear again from you, even though you had to transmit some unhappy news. One cannot help but wonder why precisely A Noticia decided not to continue the ombudsman function and break its commitments. I hope the paper’s managers will be forced to
answer. Please accept my best wishes for your success in the coming court battle. Promise that you will tell us the outcome". Art Nauman, jornalista, ombudsman, membro dirigente da Organização dos Ombudsmen de Imprensa (ONO), Califórnia, Estados Unidos.
2) "Desconocía por completo tu situación, que me produce la natural alarma y, por descontado, mi total solidaridad. Si crees que puedo hacer algo más efectivo en algún campo específico, no dejes de decírmelo, así como de mantenernos informados de la marcha del proceso. Con mis sinceros deseos de que asunto tenga un bien final para tí, recibe un cordial abrazo de tu buen amigo". Roger Jiménez, Defensor del Lector de La Vanguardia, Espanha.
3) "Agradeço a comunicação do conflito que se estabeleceu entre A Noticia e você, na condição de ex-ombudsman. Darei divulgação integral a sua nota a publicação Polêmicas Midiáticas, que circula no campus da UMESP - Universidade Metodista de São Paulo. Lamento o ocorrido, esperando que a Justiça do Trabalho reconheça seus direitos". Prof. Dr. José Marques de Melo Titular da Cátedra UNESCO de Comunicação Universidade Metodista de São Paulo / Brasil.
4) "Recebi a sua denúncia. A nossa edição de 5/2 já está no ar. Mas vamos preparar coisa grande para a próxima edição (20/2). Fique tranqüilo quanto a isso. Vamos levar o caso à Associação Brasileira de Ouvidores, que começa um sub-site nesta mesma edição". Alberto Dines, jornalista, editor do OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA.
5) "O caso, de fato, é grave. Como já afirmei em um e-mail anterior, abre um perigoso precedente. Justamente quando a Folha resolve reduzir pela metade a estabilidade do Ombudsman. Faço questão de acompanhar esse caso detalhadamente. (....) Você já entrou em contato com OBSERVATÓRIO DE IMPRENSA e o Instituto Gutenberg? Lira Neto, ombudsman do O Povo.
6) "Recebemos teu e-mail e realmente ficamos chocados com o que está acontecendo... Eu pessoalmente, junto com Raquel, me solidarizo contigo e pode crer que vamos publicizar isto ao máximo. É inadmissível que o jornal tenha usado a figura do ombudsman para se diferenciar e agora esteja fazendo isso". Jornalistas Elaine Tavares e Raquel Moysés, Agência de Comunicação da Universidade Federal de Santa Catarina (Agecom-UFSC).
7) "Você fez muito bem em procurar a justiça e sinceramente fico torcendo para que, desta vez, ela não seja cega como vem sendo ultimamente". Fábio Brüggemann. Escritor e editor da Letras Contemporâneas, Florianópolis.
8) "Só agora tomamos conhecimento dos fatos..., mesmo que tenhamos achado estranho o cargo (ombudsman de imprensa do AN Capital) ter sido extinto! Enfim, gostaríamos de ver o assunto trazido a publico, ate para que se deixem as hipocrisias de lado. Evidentemente queremos acompanhar o caso". CECCA - Centro de Estudos Culturais e Cidadania, Florianópolis.
9) "Lamento o que aconteceu com você. Não estava sabendo de nada. Torço por você e, claro, quero receber noticias a respeito do processo. ...Sei o quanto isso machuca. Mas acho que você vai dar a volta por cima". Jornalista Sérgio Boeira.
10) "Meus cumprimentos pela tua ação trabalhista, ao mesmo tempo em que me solidarizo contigo. Não estava muito a par do que havia ocorrido no processo da tua saída. Algumas perguntinhas: (....) Há alguma semelhança entre o teu caso e o do ombudsman da Folha? Sabes o que rolou por lá?" Nei Manique, jornalista e webmaster.
11) "O episódio é lamentável e, como qualquer outra injustiça, precisa ser reparado. Se o dialogo amigável e direto não frutificou, o contencioso - e a própria mídia não corporativista - e’ a alternativa. Desliguei-me ha algum tempo da Assoc.Bras.de Ouvidores-RJ. Entretanto, continuo dando consultoria nesta área e na de Atendimento de Qualidade, em geral. (Visite http://www.indiana.edu/~baiu/dessaune.html) Seguem alguns telefones que julgo de valia para você:
ABO-RJ, (021) 240-0750, presidente Gilberto de Lucena
ABO nacional, (011) 883-3334 e 605-4540/5240, pres. Edson Vismona
Jornal O Dia, (021) 272-8052/8167, ouvidora Magda de Almeida
Ouvidor-Geral Estado do PR, João Elias de Oliveira, (041) 252-7119". Marcos Dessaune.

Mario Vitor Santos, Entre aspas