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SUPERPOP
Máquina de moer gente
Valéria Melki Busin (*)
No programa Superpop do dia 12/3/02, minha mulher e eu, lésbicas assumidas, fomos humilhadas numa situação previamente armada para virar baixaria, sem ao menos nos ser dado o direito digno de expressão. Abaixo, meu protesto diante do ocorrido.
Prezados produtores, direção e apresentadora do programa Superpop:
Minha mulher e eu fomos convidadas pelo produtor do programa Superpop – que é veiculado diariamente na emissora Rede TV! – e por sua assistente para comparecer ao programa do dia 12/3/02 para falarmos sobre direitos, preconceitos e problemas enfrentados por casais de lésbicas. Fomos contatadas por termos aparecido em uma matéria belíssima escrita para a revista Elle de março pelo jornalista Mário Viana, profissional ético que muito nos honrou com a seriedade e delicadeza com que abordou o tema.
Quando conversei com a assistente de produção, perguntei como seria o programa. Ela me disse que seria uma entrevista, que o programa iria no mesmo sentido da Elle, ou seja, a proposta era séria. Perguntei quem mais iria e ela me disse que estava contatando as mulheres que tinham saído na revista e ainda elogiou a seriedade da matéria publicada. Em nenhum momento ela usou a palavra debate e não nos informaram com antecedência que haveria um advogado para falar contra o projeto de parceria civil. Fomos surpreendidas pela notícia quando já nos encontrávamos nos estúdios, quase para ser iniciado o programa. Minha mulher ficou preocupada, dizendo que nos haviam enganado, mas como um dos convidados era Luiz Mott, militante ferrenho pela causa gay, achamos que seria um debate com algum nível.
Quando a editora do programa veio ao nosso camarim para dizer que o advogado era muito radical, mas que não era para nos deixarmos abater e que devíamos reagir, achei tudo estranho, mas na minha ingenuidade ainda esperava que as palavras dadas fossem válidas e que existisse alguma ética no programa. Quando fomos chamadas para o palco, antes mesmo de se iniciar o suposto debate, já havia um rodapé na tela anunciando: "Barraco: gays falam sobre adoção" . Barraco? Como, se a discussão ainda nem tinha sido iniciada? A palavra "barraco" foi substituída por "polêmica" e ainda permanecia um estranhamento – não tocamos no tema adoção em nenhum momento!
A apresentadora Luciana Gimenez fez perguntas aos outros convidados, mas, antes que minha mulher e eu fôssemos inquiridas, a pergunta foi dirigida ao advogado Celso Vendramini, que começou a responder em voz alta, logo passando a gritos, ofendendo-nos de uma forma grosseira e absurda, impedindo qualquer possibilidade de troca de idéias, de debate sério. O objetivo era o mero achincalhe, o que foi comprovado quando houve a intervenção de Vera Verão por telefone, para minha estupefação apoiando totalmente as opiniões homofóbicas do tal advogado.
Não tivemos direito de falar, não pudemos expor calmamente nossas idéias, não pudemos fazer nada além de tentar conter o fluxo alucinado de ofensas que o advogado nos dirigia contínua e impunemente, sem nenhuma intervenção séria da apresentadora, que não impediu que fôssemos humilhadas em rede nacional de TV.
Acontece que somos pessoas sérias, realizamos trabalhos importantes pela causa dos gays e lésbicas de nosso país e não estávamos lá para servir de palhaças para animar o circo do programa. Não admitimos que os (ir)responsáveis pelo programa possam continuar impunemente usando pessoas para conseguir elevar os pontos de audiência de seu risível programa. Não estamos atrás de fama, não somo pessoas deslumbradas, não pagamos qualquer preço para aparecer na TV. Se concordamos em nos expor, correndo riscos de perdas profissionais, inclusive, era com um único objetivo: tentar fazer nossa parte para diminuir preconceitos e lutar por nossos direitos. Ao sermos ridicularizadas, ofendidas e humilhadas sentimo-nos não em um programa de auditório, mas passando por uma enorme máquina de moer gente. O que justifica isso? O que justifica usar pessoas para uma situação previamente armada para virar baixaria? Que ética existe em um programa que mente para conseguir levar convidados e os expor publicamente ao ridículo?
Não me venham com a risível desculpa de que o programa e as pessoas saíram de seu controle. Hoje sabemos que vocês armaram o "barraco" propositadamente, já que uma convidada (uma conhecida e respeitada advogada) foi "desconvidada" na véspera porque o produtor não quis expô-la ao ridículo, já que ele sabia de antemão que a direção do programa desejava apenas baixaria para aumentar audiência. Quem deu direito ao senhor produtor de não nos considerar pessoas sérias? Quem deu aos senhores da direção do programa o direito de nos fazer passar por um vexame daquele? Quem deu à apresentadora o direito de abusar da nossa imagem, constrangendo-nos sem prévia autorização? As pessoas que passam por aquelas ridículas pegadinhas têm direito de não autorizar sua exposição vexaminosa, direito que nos foi negado, já que o programa foi ao vivo e previamente preparado para virar um bate-boca inútil e sensacionalista.
Queremos com este protesto, prezados senhores, avisar que gays e lésbicas sérios não se prestem a esse papel. O mundo está mudando, estamos conseguindo – com muita luta e sacrifícios pessoais – conquistar direitos mínimos que aos outros são garantidos sem esforço. Vocês estão na contramão da história, prestando um desserviço não só a gays e lésbicas, mas a toda a população, na medida em que, em vez de informar e educar, vocês usam o poder que lhes é conferido para humilhar e ridicularizar.
Queremos também avisar que exigimos respeito e que vocês vão responder na Justiça pelos danos que nos causaram. Não fosse o movimento gay estar altamente organizado e articulado, talvez ainda estivéssemos em profunda depressão por tudo o que nos fizeram passar de forma cruel, absurda e grotesca.
Queremos que vocês saibam que daqui para a frente sairá mais barato e dará menos dores de cabeça se vocês contratarem palhaços profissionais para o picadeiro que armam sem nenhum sentido de ética e decência. E que não há nada que justifique essa agressão que sofremos de forma vil e covarde. E não se esqueçam: somos pelo menos 17 milhões de pessoas no país. Se há meia dúzia de inconseqüentes como Vera Verão (ser grotesco que ganha a vida fazendo gays caricatos na TV), vocês podem ter certeza de que há 16.999.994 gays sérios e decentes que não suportam mais agüentar calados este tipo de achincalhe grosseiro e nojento.
Aguardem notícias nossas. Sua atitude foi vil e vocês podem esperar que não ficará por isso mesmo, podem ter certeza! Atenciosamente, Valéria Melki Busin
(*) Escritora, e-mail <vmbusin@uol.com.br>
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