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Ombudsman, Midiagate
e o novo barulho da Folha

 

E


ste OBSERVATÓRIO não pretende ser o fiscal dos Ouvidores da mídia. Ao contrário, quer servir de estímulo à multiplicação destes agentes do interesse público como forma de estabelecer um contra-poder aos abusos da mídia.

Preferimos valorizar os acertos no campo da interlocução com o leitor do que apontar eventuais disfunções e desvios. Razão pela qual estamos incluindo regularmente em nossas edições os textos exemplares do jornalista Lira Neto, de O Povo, de Fortaleza, no momento o Ouvidor que melhor cumpre com as finalidades da sua função.

Não nos cabe esmiuçar as razões da profunda alteração conceitual que a nova Ombudsman da Folha, a partir de 7/3/98, imprime à coluna pioneiramente introduzida pelo jornal há uma década.

Está evidente uma radical reorientação de objetivos, contrariando o compromisso exposto no pé da coluna: "criticar o jornal sob a perspectiva do leitor....e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação". Na edição de 15/3, a crítica ao jornal ocupou apenas 10% do espaço concedido à mídia em geral.

Assunto ideal para um seminário da Associação Brasileira de Ouvidores tomando-se o caso hipotético de uma Nestlé (a primeira empresa brasileira a adotar a função) que, ao invés de abrigar as queixas dos consumidores de seus produtos, começasse a cuidar dos defeitos da concorrência.

Não podemos, porém, nos eximir de avaliar o teor, explícito e implícito, do texto publicado na mencionada coluna sob o título "Socos, pontapés e privacidade".

A pretexto de grosseiro insulto proferido por governista no dia seguinte à conturbada convenção do PMDB sobre "as preferências sexuais" de um dos presidenciáveis do partido, a Ouvidora lança a idéia de uma enquete entre os leitores para saber se, caso estivesse no comando do jornal, publicaria uma revelação de caráter pessoal sobre um candidato à presidência.

Tão despropositada proposição preferimos atribuir a um jornal cujo projeto, às vezes, parece resumir-se apenas ao "fazer barulho" do que à nova representante dos seus leitores, profissional competente e reservada.

O leitor espera do seu jornal uma orientação segura e firme em todos os campos, inclusive no ético. Do outro lado daquele papel que lhe entregam todos os dias, o público espera encontrar jornalistas maduros e experientes, plenamente capacitados para exercer suas responsabilidades sociais e políticas. Cabe ao jornalista passar à cidadania os pressupostos para uma sociedade democrática e uma convivência edificante. O contrário, como está proposto, faz do jornalismo caudatário dos piores instintos, mercadoria aviltante e aviltada pelas forças do mercado.

Ao invés de observar comportamentos jornalísticos para corrigi-los, a coluna da Folha está pretendendo "pautar" a mídia, isto é, produzir factóides, comandar os assuntos que vão dominar o debate eleitoral. Para, em seguida, submetê-los ao apressado escrutínio da Datafolha e, no dia seguinte, à autolegitimação do Datadia.

Claro que esta questão já foi cogitada no BatConselho e ensaiada pelo BatGuru na farisaica peça "Puritanismo jornalístico" (analisada neste OBSERVATÓRIO, edição de 5/3/98, ver remissão abaixo). Nos dois textos o mesmo artifício capcioso: os críticos da onda inicial da mídia americana (entre os quais somos obrigados a nos incluir porque não houve outros) estão querendo proteger o presidente Clinton da exposição pública de sua intimidade. Errado: condenamos apenas os procedimentos irresponsáveis e sensacionalistas para trazer o assunto ao conhecimento da sociedade (ver O Circo da Notícia nesta edição).

Na Folha nada acontece por acaso. Isto explica por que um jornal, usualmente na vanguarda das discussões sobre mídia, omitiu ostensivamente e ao longo de muitos dias as repercussões dos 12 antológicos artigos do New York Times sobre os graves erros éticos e técnicos cometidos pela mídia americana no início do caso Lewisky. Também omitiu o pedido de desculpas do repórter David Brock ao presidente Clinton por ter iniciado o caso Paula Jones em 1993 insuflado por seus inimigos políticos (Estadão, 11/3/98, p. A-15 e Veja de 18/3, p...).

Sintomaticamente, a única matéria da Folha sobre o Midiagate deu-se na edição de 8/3/98 e foi reproduzida do USA Today, jornal popular sem prestígio político, integrante da facção jornalística reacionária que vem tentando derrubar Clinton. Título: "Caso Monica revela mídia mais rápida".

Todo poder à mídia, inquestionável, acima de qualquer suspeita. A Folha está preparando um bote e previne-se, não quer oferecer um antídoto antes de disseminar o veneno. Colocar sob suspeita os espasmos sensacionalistas da mídia americana equivale a abafar por antecipação os efeitos da sua próxima bulha.

Este OBSERVATÓRIO solidariza-se com a Folha insultada numa campanha de anúncios do concorrente a propósito da Guerra dos Classificados. Mas repudia as manobras de retaliação a partir de uma disputa comercial com tão graves ingredientes.

Nos jornais também há vida privada, atenção para o bumerangue.

Os Observadores

 

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O texto da ombudsman da Folha

Puritanismo jornalístico

O Circo da Notícia

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