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ABO
O inferno das boas intenções

Lira Neto, ombudsman de O Povo, Fortaleza, 16/3/98.

 

"As piores coisas são feitas sempre com as melhores intenções"
Oscar Wilde (1856-1900), escritor irlandês

N


a semana passada, O Povo publicou uma oportuna série, de seis matérias, sobre a reforma agrária no Ceará. Para isso, a equipe de reportagem percorreu, durante 15 dias, 47 assentamentos em todo o Estado. Um grande esforço de reportagem, que deixou evidente a necessidade dos jornais investirem cada vez mais em coberturas de longo fôlego. O grande mérito
daquela série - ilustrada com o belo trabalho do repórter-fotográfico Dário Gabriel - foi mostrar que os números apresentados pelo governo federal em relação à reforma agrária esbarram numa certeza: não adianta, simplesmente, distribuir terras. A série de matérias assinadas pela repórter Silvia Bessa revelou que os agricultores cearenses beneficiados com a reforma agrária não
conseguem viver da terra que conquistaram: falta crédito, falta assistência técnica, falta tecnologia. Falta transformar sonhos e promessas em realizações concretas.

Idealismos e reforma agrária

Mesmo um tanto quanto fora de moda, uma certa dose de idealismo talvez ainda faça parte dos pré-requisitos do jornalismo. E o tema da reforma agrária é contagiante. Desperta ódios, paixões e, também, idealismos. A realidade injusta da vida no campo é um terreno fértil para posições extremadas, avaliações passionais, embates ideológicos. No entanto, a imprensa tem obrigação de resistir ao emocionalismo e manter a imparcialidade. Fugir, principalmente, da tentação maniqueísta de dividir o mundo entre as forças do bem - supostamente representadas pelo conjunto dos sem-terra - e as brigadas do mal - encarnadas por todo e qualquer proprietário de terra. Do idealismo à passionalidade, é um pulo.
 

Denúncia vazia

Na quarta-feira passada, 11 de março, O Povo estampou a seguinte manchete: "Comércio nas desapropriações". Em tom de denúncia, a segunda matéria da boa série de reportagens do O Povo sobre a reforma agrária no Ceará afirmava que "65,97% das desapropriações de 1997 foram oferecidas pelos proprietários".

Os proprietários estariam aproveitando a reforma agrária para vender ao governo terras que não lhes interessavam mais. O texto da matéria não tomou muito cuidado em explicar a origem daqueles números estampados, com destaque, em nossa primeira página. Contentou-se em
afirmar que "dos 47 assentamentos feitos em 1997, a população aponta que 31 áreas foram oferecidas pelos proprietários" e que "apenas 11 áreas foram resultado de ocupações e somente cinco reivindicadas pelos sem-terra". Para chegar àquele número, a investigação se resumiu a ouvir os assentados, a reproduzir apenas o que a "população apontava". Os proprietários não foram ouvidos.

Se existe uma denúncia, tem que existir uma irregularidade. Mas a matéria não dizia qual a irregularidade que há no fato dos proprietários estarem vendendo suas terras para o governo. O texto explicava que, com o fim dos incentivos agrícolas, o preço das terras caiu. Por isso os fazendeiros estavam interessados em se desfazer delas. Ora, desde que o Incra não se utilize de superfaturamento na negociação - e a matéria não levantava nenhuma suspeita sobre isso - a compra dessas terras pelo governo, para fins de reforma agrária, é absolutamente legítima. Por que apenas as terras que por acaso sejam alvo de "ocupações" deveriam ser objeto de reforma agrária?

Logo em seu primeiro parágrafo, a reportagem dizia que o antigo proprietário de uma fazenda chamada Lagoa dos Negros, em Itarema, havia simulado uma invasão para que o Incra comprasse a terra dele. Na reportagem, o fato é narrado a partir da versão dos assentados. A reportagem, mais uma vez, não cumpriu o procedimento jornalístico básico de tentar ouvir o acusado.

A resposta da Redação

A partir da provocação de um leitor, os problemas acima foram discutidos em meus comentários internos enviados à Redação na semana passada. Como retorno, recebi um longo e-mail assinado pelos jornalistas Silvia Bessa, autora da matéria, e Demitri Túlio, Chefe de Reportagem.
No e-mail ao Ombudsman, Sílvia e Demitri diziam que o índice de 65,96% havia sido calculado a partir do depoimento dos assentados e que "querer descredenciar o depoimento dos trabalhadores rurais é aceitar que somente fontes oficiais são capazes de sustentar uma manchete de jornal". Os dois afirmavam que a negociação entre Incra e fazendeiros é legítima, mas chamavam atenção para alguns "perigos desse processo": "a região cearense onde há maior número de assentamentos é Canindé, área em processo de desertificação". Mas reconheciam, laconicamente, sem maiores autocríticas, que a reportagem não ouviu o outro lado no caso da Lagoa dos Negros.

Respondi-lhes, em novo comentário interno, que o Ombudsman não estava querendo "descredenciar o depoimento dos trabalhadores", mas chamar atenção para procedimentos elementares do jornalismo. Longe de defender que "somente fontes oficiais são capazes de sustentar uma manchete". O que cobrei foi uma apuração rigorosa da tal "denúncia". Se houvesse acontecido o contrário, se os fazendeiros tivessem feito "denúncias" contra os assentados, qual o
procedimento que a reportagem adotaria? É claro que teria ouvido os próprios assentados a respeito.

Se os próprios colegas reconheciam que a negociação do Incra com os fazendeiros era "legítima" e que não havia nenhum indício de superfaturamento, qual o sentido daquela manchete de quarta-feira, "Comércio nas desapropriações"? Se o jornal queria mostrar "os perigos desse processo", por que não tinha deixado isso explícito na manchete, com algo do tipo "Assentamentos estão em áreas de desertificação"? Nossa manchete de quarta, de fato, não se sustentava.

Moral da história

Ao descuidar de ouvir o outro lado, ao emocionalizar a cobertura do problema, a reportagem daquela quarta-feira havia caído na velha tentação maniqueísta em relação à reforma agrária. Dessa vez, nem sequer se dera ao trabalho de ouvir "os vilões". Mas, em um tom agressivo, o e-mail de Silvia e Demitri atribuía a mim uma suposta miopia de interpretação. Afirmavam que maniqueísta era a avaliação do leitor, contemplado pelo comentário do Ombudsman, que "alimenta o conceito ultrapassado de que o mundo está dividido entre pessoas boas e más".
Não há dúvidas de que as falhas apresentadas pela matéria não foram provocadas por "maldade". Todos nós somos passíveis de erro. E temos, aqui, a oportunidade de exercitar o aprendizado de criticar e ser criticado. O papel do Ombudsman é justamente esse, chamar atenção para as lacunas, falhas e omissões do jornal. Para isso, às vezes tem mesmo que cortar a própria carne. A crítica é claro, pressupõe a dor. Mas a dor parece ser mesmo a companheira inseparável do crescimento. E não há nenhuma virtude em alimentar ainda mais o já superlotado inferno das boas intenções.



Fique de olho nos colunistas

Lira Neto

 

O Povo, 9/3/98.

"O colunismo é a doença infantil do jornalismo"
Norman Mailer, escritor norte-americano

H


á poucos dias, o leitor Denilson Pinheiro escreveu para a seção de cartas do O Povo. Ele fazia uma crítica genérica à imprensa esportiva cearense. Mais especificamente, criticava uma das edições da coluna Contra-Ataque, assinada pelo jornalista Marconi Alves. O leitor não havia concordado com a análise do colunista sobre a goleada sofrida pelo Ceará Sporting diante do Palmeiras: 6 X 0.

Aquele poderia ter sido apenas mais um caso corriqueiro na vida do jornal: desde sempre, os leitores têm todo o direito de fazer ressalvas ao material que o jornal publica. No entanto, a despropositada resposta de Marconi Alves, publicada na edição do O Povo do dia seguinte, deu oportunidade para que o Ombudsman discutisse com a Redação algumas questões - que julgo inadiáveis - sobre o colunismo que costuma ser praticado na imprensa cearense. E, por conseqüência, também no O Povo.

No dia seguinte à publicação da carta de Denilson Pinheiro, Marconi Alves dedicou toda a primeira parte de sua coluna a responder o leitor. Disse que "99,9%" dos torcedores do Ceará teriam ficado satisfeitos com sua coluna. "Mas existe uma minoria", lamentou Marconi. Ou seja: existiria um certo 0,01% de descontentes, encarnado pelo leitor Denilson. Tomemos a fantasia estatística de Marconi como mero recurso de argumentação. Não vem ao caso discutir agora como é fácil lançar mão de estatísticas - mesmo as fictícias - para tentar legitimar um discurso. Não é isso o que, pelo menos nesse momento, está em discussão.

Poderíamos também discutir aqui a velha incapacidade dos jornalistas em lidarem com a crítica em relação a seu trabalho. Poderíamos ainda criticar a deselegância do colunista, que chegou a afirmar que o leitor havia "gastado dinheiro" com Correio. Mas não foi (apenas) para isso que o Ombudsman resolveu chamar a atenção da Redação. O fato é que o colunista se utilizou de um longo espaço, na coluna, para responder a uma crítica feita a ele na seção de cartas do jornal. Havia uma visível desproporção entre o tamanho da crítica e a dimensão da resposta. A pergunta que o Ombudsman fez a Redação foi clara e direta: é ético o colunista utilizar sua coluna para esse tipo de coisa?

Cobrando responsabilidades

A partir do caso narrado acima, sugeri na semana passada, em um de meus comentários internos enviados diariamente à Redação, que o jornal deveria, urgentemente, normatizar alguns procedimentos em relação ao que escrevem os nossos colunistas. O primeiro procedimento parecia óbvio: respostas a cartas de leitores devem ser publicadas, necessariamente, também na seção de Cartas. A Chefia de Redação acatou a sugestão do Ombudsman e promete distribuir, nesta semana, uma circular a todos os colunistas tratando do assunto. A propósito: a maioria dos jornais e revistas utilizam tal expediente. Uma prática que, convenhamos, não deixa de ser ainda um privilégio e de denotar um certo corporativismo. Afinal, por que os jornalistas da casa têm a oportunidade de defesa imediata - no mesmo dia em que foram citados - se outras pessoas, que por acaso se julguem atingidas por uma carta de leitor, não têm como se defender na mesma edição?

Jornalismo de grife

Uma coisa é certa: coluna não é, definitivamente, lugar para defesa de interesses estritamente pessoais do colunista. O problema é que esta regra ética nem sempre é cumprida à risca. Na verdade, parece existir uma distorção na essência do próprio colunismo, espécie de "jornalismo de
grife", onde a assinatura do jornalista às vezes é mais valorizada do que as próprias informações que ele veicula. Para um certo tipo de gente, sair nessa ou naquela coluna é a glória das glórias. Há algum tempo, isso parecia restrito ao colunismo social. Hoje, na imprensa do País inteiro, o fenômeno se multiplica e se repete em praticamente todas os setores, da economia ao esporte, da política aos cadernos de automóveis. E, assim, a imprensa repete as técnicas do marketing e da estética da mercadoria: o fetiche da marca famosa vale mais do que o produto em si.

Em um de seus verbetes, o Guia de Redação do O POVO informa, laconicamente, que o colunista é um "jornalista que escreve coluna em jornal ou revista, sobre assunto em que é especialista". Talvez os colunistas tivessem mesmo essa função indispensável, em meio a um noticiário cada vez mais massificado. Se o resto dos jornalistas são "especialistas em generalidades", caberia ao colunista, o verdadeiro "especialista", dar um sentido à avalanche de informações fragmentadas a que o leitor é submetido diariamente.

Infelizmente, nem sempre é o que ocorre. Em vez da análise de "especialistas", o que se vê é a incidência renitente das colunas feitas de pequenas notinhas, os chamados gossips, balões de ensaio que, boa parte das vezes, reproduzem interesses inconfessáveis. Ou, o que é pior, servem de veículo para interesses absolutamente explícitos.

Causas próprias

No O Povo, a coluna assinada por Lúcio Brasileiro é um dos exemplos mais visíveis disso. O colunista não perde a oportunidade de utilizar a coluna diária Reportagem para fazer propaganda do restaurante que mantém no Cumbuco e do programa que apresenta, aos domingos, em uma emissora de tevê local. O exemplo de Lúcio pode ser o mais visível. Mas, com certeza, não é o único.

Impressiona também o número de vezes em que o grupo de teatro Balaio é citado pela coluna Domingo, assinada semanalmente por Alan Neto. Ou a sistemática publicação de fotos e notas generosas sobre "amigos do colunista" - sintomaticamente, todos gerentes de concessionárias de automóveis - na coluna Por Dentro das Curvas, assinada por Estácio Brígido no caderno Veículos.

Há casos ainda mais graves. Como o da coluna Anuário do Ceará, que, contrariando todo o seu propósito editorial, já serviu até para seu redator, Dorian Sampaio, atacar pessoalmente o dono de uma empresa de intercâmbio cultural, que está sendo alvo de processo movido pela filha do colunista.

Nesse caso, o Ombudsman interveio e foi garantido ao acusado o devido direito de resposta. Já a coluna de Sônia Pinheiro costuma, em nome de um discutível tom de blague, publicar notas com fatos absolutamente inverossímeis.

De bandeja

Nem sempre O Povo sabe capitalizar as exceções à regra quase geral do colunismo marrom. Na semana passada, a coluna Política, assinada por Fábio Campos, publicou em primeira mão as denúncias de irregularidades na licitação dos terminais rodoviários de Fortaleza. Abrindo mão dos gossips, a coluna dedicou-se a fazer uma longa, detalhada e pertinente análise sobre o caso, o que levou o Governo do Estado a adiar e rever imediatamente, em pleno domingo, as irregularidades da tal licitação. No dia seguinte, O Povo poderia ter repercutido amplamente o que foi levantado, com exclusividade, por um de seus colunistas. Ao contrário, o assunto foi parar um dia depois na manchete de nosso principal concorrente, o Diário do Nordeste. Detalhe: o concorrente, que capitalizou o assunto em manchete, não citou a coluna Política, do O Povo, como fonte exclusiva da denúncia.

 

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