RODÍZIO
Rodoviarismo engarrafado
Em meio ao rodízio de meia-sola e neurótico promovido pela Prefeitura de São Paulo, presa à lógica da política malufiana de infindável desdobramento de obras viárias mesmo que isto leve outros serviços públicos essenciais à breca, algumas linhas para reflexão sobre trânsito e transportes urbanos:
"O crescimento econômico na década de 80 e em anos recentes mostrou que é muito breve o alívio do congestionamento propiciado pela construção de novas vias. O grau de demanda reprimida é de tal ordem que elas atraem ainda mais tráfego. (....) O professor Phil Goodwin, economista especializado em transportes do University College, de Londres, consultor do governo britânico, afirmou recentemente que a falta de espaço (mais do que a poluição do ar, o efeito estufa ou o custo dos acidentes rodoviários) levará a uma limitação do tráfego.
(....) Além da cobrança generalizada de pedágio, outras medidas podem até certo ponto limitar o trânsito. Várias cidades européias expulsaram os carros de suas áreas centrais, tornando-as exclusivas de pedestres. Outras, como Berlim e Bremen, estimulam a formação de associações de carona programada, para que as pessoas usem individualmente seus carros apenas quando indispensável, e fora disso tendam recorrer ao transporte público. Cerca de 200 mil alemães, em mais de 20 cidades, já pertencem a associações desse tipo. A prefeitura de Edimburgo está tentando importar a idéia para a Grã-Bretanha, e também planejando um subúrbio sem carros, para o qual só se possam mudar pessoas que concordem em não ter carro próprio".
"Convencer motoristas de que vale a pena generalizar a cobrança de pedágio é uma tarefa que políticos no mundo todo estão apenas começando a aceitar. O uso que será feito da receita é crucial para convencer eleitores de que cobrar pedágio faz sentido. (....) Daqui a 20 anos, pagar para usar espaço rodoviário será a norma. Então, as pessoas olharão para trás e ficarão imaginando por que aceitaram algum dia a poluição, o ruído e a paralisia das cidades de hoje".
Fonte: The Economist, 6/12/97, reportagem de capa.
Na grande imprensa paulista, o mesmo conteúdo correria o risco de ganhar um título "cívico", tipo "Europeus cobram pelo direito e ir e vir".
Pela transcrição, M.M.
ONG PELA JUSTIÇA
Lobos maus, carrapatus e bandidos
João Lopes Guimarães Júnior (*)
"Por uma espécie de memória social, como que herdada, o brasileiro, sobretudo na infância, quando mais instintivo e menos intelectualizado pela educação européia, se sente estranhamente próximo da floresta viva, cheia de animais e monstros, que conhece pelos nomes indígenas e, em grande parte, através das experiências e superstições dos índios. É um interesse quase instintivo, o do menino brasileiro de hoje pelos bichos temíveis. Semelhante ao que ainda experimenta a criança européia pelas histórias de lobo e de urso; porém muito mais vivo e forte; muito mais poderoso e avassalador na sua mistura de medo e fascinação; embora na essência mais vago. O menino brasileiro do que tem medo não é tanto de nenhum bicho em particular, como do bicho em geral, um bicho que não se sabe bem qual seja, espécie de síntese da ignorância do brasileiro tanto da fauna como da flora do país. Um bicho místico, horroroso, indefinível; talvez o carrapatu." (Gilberto Freyre, Casa-Grande e Senzala.)
Se por um ato de ousadia tentarmos lançar para o Brasil atual, urbanizado, o olhar de Gilberto Freyre, perceberemos que nossos medos já não vêm mais da proximidade da floresta. A vida urbana brasileira é relativamente recente. Nossas metrópoles formaram-se apenas nas últimas décadas.
O agravamento da insegurança em nossas cidades está sedimentando no inconsciente dos brasileiro o mito do bandido. Não se teme um homem, teme-se o terrível bandido. Suas características são apavorantes: sádico, traiçoeiro, cruel, irracional, um repositório de maldades. Exatamente como o lobo mau de nossas histórias infantis.
O lobo mau encarnou o papel de malfeitor por vários séculos por ser ele quem armava as emboscadas nas florestas que os viajantes percorriam (na época em que existiam florestas). Hoje sabemos que o "lobo mau" é apenas um pobre mamífero em extinção que só age agressivamente, por instinto, em determinadas circunstâncias.
O "bandido" é o lobo mau moderno. Crianças e adultos apavoram-se diante da possibilidade de ser atacados. E o que é o "bandido" no nosso imaginário coletivo? Criamos uma figura quase mítica em nossas cabeças. Bandido não é apenas um criminoso qualquer (o criminoso de histórias infantis e gibis é uma figura quase simpática: os irmãos Metralha, os arquiinimigos de Batman).
O bandido é outra história. É mau e deve ser eliminado impiedosamente. De preferência com um estaca no coração. Não há outro remédio: ele está programado, como um robô, para ser mau. Por isso, o linchamento é um exercício coletivo de exorcismo.
Não faz muito tempo um político insistiu em sua campanha eleitoral no tema: "Bandido é na cadeia, gente boa é na rua". Estava feito o contraponto: bandido x gente boa. Que simplicidade! Mas o que é "gente boa" e o que é "bandido"? Os donos do Bateau Mouche são bandidos ou são gente boa? Os deputados do escândalo do orçamento são bandidos? Os fraudadores do INSS são bandidos? Os sonegadores e corruptos são bandidos? Os policiais da Favela Naval são bandidos? Os estudantes que mataram o índio em Brasília são bandidos? Ou só são bandidos os criminosos menos sofisticados?
Estamos talvez criando o novo carrapatu a que se referiu Gilberto Freyre; a versão urbana do "bicho-papão" do século XXI.
É preciso repudiar os conceitos irracionais que se fixam em nossa cultura e encarar a realidade de forma menos simplista. O que existe, na verdade, é um índice de criminalidade realmente alarmante, mas com causas e feitos perfeitamente explicáveis e compreensíveis.
Não existem "bandidos" na concepção ingênua e maniqueísta. O criminoso verdadeiramente "mau" é apenas aquele que por razões psicopatológicas não possui freios morais e sensibilidade.
Não estamos negando a existência lamentável de pessoas capazes de gestos gratuitos de violência. Pessoas sem escola, sem família, sem trabalho, sem assistência. Temos leis, e eles devem ser julgados por seus atos. A sociedade deve refletir sobre as causas da banalização da violência urbana e combatê-las.
E nós precisamos ficar alertas para não substituir, no imaginário de nossas crianças, o carrapatu pelo bandido, criando uma nova "espécie de síntese da ignorância do brasileiro", não mais da fauna e da flora, mas ignorância da nossa própria sociedade.
(*) Promotor de Justiça, Conselheiro do Instituto de Estudos Direito e Cidadania
IEDC aprimora instrumentos
de realização da Justiça
O Instituto de Estudos "Direito e Cidadania" é uma organização não-governamental fundada em 1994 por Promotores de Justiça, Advogados, Juízes e profissionais de carreiras não-jurídicas que tem por objeto o Direito e a Cidadania, promovendo-os por meio do estudo das carreiras e das instituições jurídicas, bem como de atividades e ações tendentes ao aprimoramento dos instrumentos de realização da Justiça e do pleno exercício da cidadania.
Dentre os objetivos do IEDC destacam-se o estudo das diversas correlações entre Direito e Cidadania, seja do ponto de vista da analise do funcionamento das carreiras e instituições jurídicas, a sua integração entre si e sua interação com a sociedade civil e seus reflexos para a democracia, seja do ponto de vista do acesso à Justiça e da efetividade do direito e dos instrumentos legais e institucionais necessários para o pleno exercício da cidadania.
Desde sua fundação o IEDC tem promovido diversos debates, seminários e publicado um Boletim dedicado a estes temas. Em breve estará lançando uma série de "Cadernos de Estudos" sobre os temas estudados.
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