ASPAS

FACTÓIDES
Márcio Moreira Alves

"Sobre factóides", copyright O Globo, 13/03/01

"Devemos ao prefeito Cesar Maia a palavra factóide. Significa algo que parece ser um fato político mas, na realidade, é apenas um truque para uso dos marqueteiros. Não sei quem inventou marqueteiro, mas vem de marketing, uma profissão em ascensão. As duas palavras são muito úteis. Na política, estiveram ambas em evidência na semana passada, juntamente com outra, reposta em circulação: agatunado.

Agatunado parece ser o atual prefeito de Rio Branco e ex-governador do Acre, Flaviano Melo, que a Polícia Federal considera suspeito de ter desviado o equivalente a dois bilhões de reais quando governador de seu estado. Usava o mesmo método de Jader Barbalho: depositava o dinheiro do Fundo de Participação dos Estados e Municípios em sete contas-fantasmas no Banco do Brasil de Rio Branco. Passado um tempo, devolvia o principal e ficava com os rendimentos, num período de inflação de mais de 40% ao mês. Flaviano é do PMDB, claro, e partilha a moral homogênea da sua liderança. O caso está com o procurador-geral da República, Geraldo Gaveteiro, que breve não poderá contentar-se com gavetas para guardar tantos processos incômodos que lhe chegam às mãos. Terá de comprar um armário, dos grandes.

Factóide é a declaração de Jader Barbalho, dizendo-se favorável a uma CPI sobre o Banco do Pará. Factóide, por dois motivos: CPI sobre banco estadual tem de ser instalada na Assembléia Legislativa do estado; e tendo o presidente Fernando Henrique declarado que os parlamentares que assinarem pedidos de CPI serão considerados réus de deslealdade, nem que o presidente do Senado realmente quisesse investigações, não seria possível reunir assinaturas suficientes para instaurá-la.

Jader, que continua silenciando sobre a dança de milhões na sua conta do Banco Itaú, agência Jardim Botânico, acabará tendo de se explicar. Não é possível sonegar-se por tempo indefinido os relatórios do Banco Central elaborados pelo inspetor Abrahão Patruni, em 1990. O repórter Alex Ribeiro, da ‘Folha de S.Paulo’, publicou, quinta-feira, uma didática matéria sobre o assunto. Descreve quatro operações, revelando o número dos cheques administrativos do Banco do Pará, a data dos depósitos feitos em aplicações em títulos de renda fixa ao portador e o caminho que o dinheiro tomou para familiares, laranjas e empresas ligadas a Barbalho. Em 1991 o Banco Central enviou a documentação ao Ministério Público do Pará, que diz tê-la perdido. Agora o MP pediu de novo e o Banco Central se recusa a enviar a cópia, alegando que, desde então, a lei de sigilo bancário ficou mais rígida.

Cesteiro que faz um cesto... O juiz da 9ª Vara Cível de Belém pediu explicações à família Barbalho sobre a compra da TV RBA (Rede Brasil Amazônia de Televisão), da família de Jair Bernardino de Souza, após a morte deste num desastre de avião. Segundo reportagens juntadas ao processo, os Barbalho pagaram US$ 13 milhões pela TV, mas, na Junta Comercial, só registraram o valor de R$ 1,5 milhão.

Estes negócios não são factóides. São operações reais, verificáveis e não podem ficar ocultas indefinidamente, como uma nuvem de lama pairando sobre o Congresso.

Factóide foi a declaração do deputado Michel Temer, dizendo que o seu partido, o PMDB, teria um candidato próprio à Presidência da República em 2002, citando os nomes de Itamar Franco e de Pedro Simon como possibilidades. É mais fácil um burro voar. Em 2002 se renovam a Câmara dos Deputados e dois terços do Senado. Os candidatos ao Congresso não haverão de querer embarcar em canoas furadas. Aliás, terão muito trabalho em se desvencilhar da moral homogênea da liderança do PMDB.

Factóide também foi o lançamento solene do tal plano de ação governamental para os próximos dois anos. Não traz nada de novo. Apenas reitera o que já estava decidido, o que aliás não é mau. Tem, no entanto, uma informação que as oposições não parecem ter percebido: a soma de todos os investimentos previstos até 2002 é de 67 bilhões de reais. Somente este ano há, no Orçamento, 68 bilhões de reais previstos para o pagamento de juros e serviço da dívida interna. Ou seja, o próprio governo revela que, se a gestão do Plano Real não tivesse sido tão inepta, dava para construir um Brasil novo em folha.

Finalmente, uma dura realidade: amanhã à tardinha será rezada na Catedral de Brasília a missa de sétimo dia em memória de Mário Covas. Minha prima Lucinha, que tem alma cívica e que era muito amiga de Mário, mandou-me uma citação de Bertold Brecht que julga apropriada para o epitáfio do nosso amigo desaparecido:

‘Existem homens que lutam um dia e são bons; existem outros que lutam um ano e são melhores; existem aqueles que lutam muitos anos e são muito bons. Porém, existem homens que lutam toda a vida. Estes são imprescindíveis’."



MERCADO
Cidade Biz

"O Globo pode comprar o Diário Popular", copyright Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br), 10/03/01

As negociações entre O Globo, do Rio de Janeiro, e o ex-governador de São Paulo Orestes Quércia para transferência do controle do jornal Diário Popular, teriam entrado na fase de avaliação de ativos e passivos. O ex-governador estaria consultando especialistas para definir o valor de um item que considera importante: o título do jornal, fundado por José Maria Lisboa e Américo de Campos em novembro de 1884. O negócio poderá ser fechado ainda este mês, pois dependeria apenas da convergência dos dois lados quanto à questão do preço.

As negociações entre João Roberto Marinho e Quércia passaram por avanços e recuos durante o ano passado. Sempre esbarraram na definição do preço.

Quércia tem repetido a amigos que considera a situação do jornal muito boa, que não tem interesse nem pressa em vende-lo, mas que, na condição de empresário, está sempre disposto a ouvir propostas. Quércia comprou o Diário Popular, em 1988, de Rodrigo Lisboa Soares, bisneto do fundador José Maria Lisboa."



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