MARANHÃO
Em luta contra a mordaça
Gilberto Lima (*)
Pelo meu trabalho de militância na imprensa do Maranhão, há 15 anos, dispenso apresentações. Ao longo desse período tenho me dedicado às causas das camadas menos favorecidas, dos excluídos da sociedade, dos desamparados pela elite política do estado, que mais tem investido em seus próprios empreendimentos do que na melhoria de vida da população. Convivendo com as dificuldades do povo, aprendi a me indignar, aprendi a lutar contra as injustiças sociais. Não poderia negar minha origem de lutas nas Comunidades Eclesiais de Base, ainda no império da ditadura. Nasci no ano da implantação da ditadura e passei minha adolescência e juventude vendo e participando de movimentos que lutavam contra o arbítrio daqueles que açoitavam quem ousasse infringir ordens dos militares.
Infelizmente, com a redemocratização, aqueles que foram fiéis escudeiros da ditadura, que ajudaram a perseguir os que queriam liberdade, terminaram assumindo o poder e hoje permanecem no alto escalão do governo, mesmo com a eleição de um presidente que sentiu na própria pele o peso do arbítrio. É lamentável vermos Sarney, um dos principais responsáveis pela miséria do povo do Maranhão e que teve um dos governos mais corruptos da história política do país, como homem de primeira linha do governo Lula. Esse alinhamento do governo Lula com remanescentes da ditadura, como Sarney, ACM e Jader Barbalho, e tantos outros, foi um duro golpe na luta pela libertação do povo do Maranhão, que há 40 anos sofre com os desmandos do grupo Sarney.
No Maranhão, ao longo dos meus 15 anos de rádio, tenho me juntado àqueles que estão na trincheira de luta contra os desmandos praticados pelo grupo Sarney. Nessa trincheira, destacam-se o ex-prefeito de São Luís, Jackson Lago, o ex-deputado Roberto Rocha, o ex-governador Cafeteira, e deputados estaduais como Aderson Lago, Domingos Dutra, Julião Amin e Luiz Pedro, dentre outros. Talvez esse meu posicionamento, enquanto formador de opinião no rádio e na TV, com certeza, desagrada aos donos do poder no Maranhão e aos seus comandados. Já venho sofrendo perseguições há algum tempo. Por exemplo, na Rádio Educadora, onde eu apresentava o programa "Roda Viva" e era coordenador de jornalismo, cheguei a ser demitido por pressões da então governadora Roseana Sarney, que andava incomodada com as denúncias de desvio de recursos públicos. O método utilizado para calar os que se contrapõem aos desmandos já é bastante conhecido: comprando, subornando ou mesmo pressionando direções de veículos de comunicação para tirar o profissional dos programas ou das redações. Prevalece a censura que marcou o regime militar.
A agressão que sofri na ante-sala do plenário da Assembléia é mais uma investida para intimidar, para me fazer recuar. A agressão não foi a mim, mas à imprensa do Maranhão, que tem seus direitos constantemente aviltados. A prepotência do presidente da Assembléia e de seu secretário de comunicação não podem se sobrepor ao direito constitucional de ir e vir, do livre exercício da profissão, e, acima de tudo, da liberdade de expressão. É bom lembrar que fui o primeiro a me posicionar favoravelmente ao credenciamento, pela Ascom, dos profissionais que fazem a cobertura política do Legislativo. Fui o primeiro a pegar o crachá e utilizá-lo conforme o que fora determinado. Na correria do dia-a-dia, perdi o tal documento. Recorri por diversas vezes à Ascom para pegar uma segunda via, já que o documento está no computador e basta um clique para se imprimirem tantas vias quantas forem necessárias.
Desmandos do poder
Na verdade, o que aconteceu foi ocasionado pelo excesso de autoritarismo do secretário de comunicação, Jacir Moraes, que tem mostrado extrema falta de habilidade para lidar com os profissionais da comunicação que estão em busca de informação – e não em busca de favores de deputados. O presidente da Assembléia, deputado Tatá Milhomem, foi conivente com a violência praticada por policiais militares, que me arrastaram na ante-sala do plenário. No momento, o presidente saía do banheiro e disse que se eu não tivesse crachá teria que ser retirado, endossando a ordem do capitão Ismael.
Faz-se necessário lutarmos contra esse excesso de autoritarismo. Já entrei com representação no Ministério Público contra o presidente da Assembléia e contra todos aqueles que participaram dessa agressão, que se constitui um atentado à liberdade de imprensa. Uma outra ação será de indenização por danos morais e impedimento ao livre exercício da profissão. Quero mostrar que, mesmo sabendo que a lei quase sempre favorece os detentores de algum poder, todo e qualquer cidadão que tiver seus direitos negados ou cerceados tem que lutar até a última instância para que a justiça se faça. O Maranhão não pode continuar um feudo dessa gente beneficiária da impunidade.
Infelizmente, a situação econômico-financeira leva a maioria dos veículos de comunicação a ficarem reféns das verbas publicitárias de órgãos públicos, o que os torna, de certa forma, sujeitos à pressão de quem está de plantão nas mais diversas esferas de poder. Num momento como este, em que a liberdade de imprensa está ameaçada, são poucos os que têm coragem de continuar cobrando respeito a veículos e profissionais da comunicação. Quem o fizer, contrariando o mandatário, a ordem é a seguinte: cortar o contrato publicitário. Ora, a verba publicitária não pode deixar os veículos reféns de quem quer que seja, porque é dinheiro público e qualquer poder está comprando espaço para divulgação de seus atos. Não está comprando a liberdade de quem quer que seja. Não podem dizer amém às arbitrariedades. O objetivo também é tentar calar profissionais em troca de cargos nesses poderes. Quero ressaltar a importância da Rádio Capital, comandada pelo suplente de deputado federal Luiz Rocha Filho, para a democracia no Maranhão, ao denunciar os desmandos praticados pelos donos do poder no estado.
Direitos respeitados
Neste momento, gostaria de agradecer o apoio recebido da maioria dos companheiros de profissão. Logo na terça-feira recebi o apoio imediato dos jornalistas e radialistas Silvan Alves (Rádio Educadora e TV Difusora) e Geraldo Castro (Rádio Mirante), somando-se ao apoio dos repórteres Álvaro Luiz (Rádio Educadora), Egídio Pacheco (Tribuna do Nordeste), Robson Paz (O Imparcial), Jorge Vieira (Jornal Pequeno) e Marcos D’Eça (O Estado). Também não poderia deixar de agradecer ao advogado Carlos Nina que, no momento em que tomou conhecimento da agressão, colocou-se à minha disposição para movermos ações na Justiça contra os agressores, além de formular a denúncia no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil. Agradeço, ainda, ao deputado federal Wagner Lago (PP), que fez pronunciamento na Câmara dos Deputados, relatando a violência contra minha pessoa nos corredores da Assembléia. A Federação Interestadual dos Trabalhadores em Rádio e Televisão (Fitert) também se colocou à disposição para encaminhar todo o material comprobatório da denúncia ao ministro da Justiça. São apoios que vêm somar nessa luta pela liberdade de imprensa no Maranhão.
Ao povo do Maranhão, obrigado pelas mensagens de apoio e incentivos manifestados através dos microfones da Rádio Capital. É o reconhecimento ao trabalho da imprensa que se constitui porta-voz da sociedade, que é a caixa de ressonância dos reclames dessa sociedade. A imprensa livre é fundamental para a manutenção da democracia e da luta pela garantia dos direitos da sociedade.
O Maranhão só será livre quando se fizer justiça social, quando o nosso povo não estiver mais passando fome, quando todos nós tivermos nossos direitos respeitados, quando ficarmos livres desse império nefasto, que concentra renda e exclui milhões de maranhenses. A imprensa do Maranhão tem que ter a coragem de lutar contra a mordaça. Viva a liberdade de imprensa!
(*) Radialista, âncora do Plantão da Tarde, na Rádio Capital
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