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CORRUPÇÃO
Não podemos nos desesperar

Luiz Otávio Borges

Quem acompanha os acontecimentos políticos e econômicos (e policiais) noticiados pela imprensa, certamente notou que os últimos dias foram extremamente desalentadores. Ao mesmo tempo em que soubemos que investigações da Polícia Federal indicaram que pelo menos 7 bilhões de reais foram roubados dos cofres públicos, somente no ano passado, a corregedora-geral da República, que parece morar em Júpiter ou em Saturno, afirmou que a corrupção diminuiu e está em níveis aceitáveis (como se fosse aceitável sermos obrigados a sustentar um Senado em que 41 senadores, possivelmente em estado catatônico há mais de 15 anos, elegeram o Jader barbalho para presidente).

Para tristeza dos que lutam para ver revertido o avanço da mafiocracia sobre o Estado brasileiro, várias matérias informaram que dois procuradores do Ministério Público estadual de São Paulo, instituição em que depositamos nossas melhores expectativas de recuperação da máquina pública, recebem salários de 33 mil e 25 mil reais (e ainda nos gozam, com a desculpa cínica de que seus ganhos estão de acordo com a lei).

Não vou cansar o leitor com mais exemplos de desgraças, que nos atingem diariamente e em quantidade quase infinita. Até porque o objetivo deste artigo não é aumentar nosso desespero e nosso pessimismo. Ao contrário, é mostrar que, apesar de todas essas tragédias, continuamos avançando. Devagar, mas avançando. Demonstram nosso progresso:

** as prisões, cassações, investigações e indiciamentos de ministros, governadores, prefeitos, senadores, deputados, vereadores, desembargadores, juízes, secretários, superintendentes, diretores, delegados, fiscais, banqueiros, empresários e outros figurões a quem a polícia, o Ministério Público e a imprensa não têm dado descanso;

** o desmoronamento de esquemas antigos, entre eles alguns que surgiram há décadas (está sendo combatida, finalmente, a farra com o dinheiro público na Sudam, na Sudene, nos Detrans, no DNER, no INSS, no Ministério da Fazenda em São Paulo, em órgãos executivos, legislativos e judiciários etc);

** o fato de que os tribunais de contas, federal e estaduais, estão atuando de forma mais ágil e eficiente.

Uma das surpresas animadoras, reservadas a todo aquele que resolve participar ativamente do incremento da seriedade na máquina pública, é a descoberta de que estão ao seu dispor vários meios de colaborar para o combate à corrupção: a imprensa; o Ministério Público Federal e os Ministérios Públicos estaduais; ouvidorias e corregedorias instaladas em alguns órgãos públicos, sindicatos, federações e associações de classe, tanto laborais quanto patronais; ONGs e entidades que defendem a cidadania.

Ao leitor que se interessa em contribuir, em alguma medida, para a intensificação do processo de resgate moral e funcional do aparelho governamental, ficam aqui dois temas para reflexão:

** uma semente de eucalipto tem o tamanho de um grão de areia mas pode, se cair no terreno adequado, transformar-se em uma árvore com 40, 50 ou mais metros de altura e com várias toneladas de peso (quem lança sementes sempre pode ter a esperança de que algumas delas caiam em terrenos férteis);

** Madre Teresa, pessoa que o mundo inteiro sempre admirou e respeitou, disse que "meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ela o oceano seria menor".

(*) Associado ao IEDC – Instituto de Estudos Direito e Cidadania. E-mail <loborges@terra.com.br>



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