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ASPAS
CASO PIMENTA NEVES
Darlan Alvarenga
"Um ano depois da morte de Sandra Gomide, Pimenta Neves permanece em silêncio", Copyright Último Segundo <www.ig.com.br>, 19/8/01
"Passados 12 meses do assassinato da jornalista Sandra Gomide, no Haras Setti, em Ibiúna (interior de São Paulo), o jornalista Antônio Marcos Pimenta Neves aguarda solitariamente e em silêncio o seu julgamento, que ainda não tem data marcada e pode ocorrer só daqui dois anos.
Morando sozinho em uma casa em Santo Amaro, na zona sul, o ex-diretor do jornal O Estado de S.Paulo, recebe poucos amigos e parentes, e praticamente não sai de casa.
‘Ele leva uma vida solitária, praticamente espartana’, afirma o seu advogado Aurélio Marco Antonio, que assumiu a sua defesa após a desistência dos advogados José Carlos Dias e Arnaldo Malheiros Filho, em junho.
‘Ele não tem nem empregada, uma faxineira vai uma vez por semana em sua casa. É ele que cuida de suas coisas e limpa a casa’, diz o advogado.
Desempregado, a única fonte de renda fixa do jornalista é uma aposentadoria do INSS e outra do Estadão, que não atingem R$ 1.500. ‘O que ele vai fazer, procurar emprego? Que redação vai aceitar contratar um homem como ele?’, pergunta Marco Antonio.
Deprimido e ainda abalado pelo episódio, na descrição do advogado, ele recebe acompanhamento psiquiátrico e toma anti-depressivos. ‘Está totalmente desestruturado’, afirma Marco Antonio. ‘Imagine um homem que tinha a posição que ele tinha se ver agora desse jeito’.
Depois de passar pouco mais de seis meses em uma cela especial no 77o DP, ao lado de outros presos ilustres como Vicente Viscome, o estudante de medicina Mateus da Costa Meira, o atirador do shopping, e o juiz Nicolau dos Santos Neto, Pimenta Neves aguarda em liberdade o seu julgamento.
No dia 23 de março, um habeas-corpus obtido junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), garantiu a suspensão da prisão preventiva. A decisão dói confirmada no dia 26 de junho. Os ministros entenderam que não há razão para manter a prisão preventiva do jornalista, até o seu julgamento.
Mesmo em liberdade, Pimenta Neves continua se negando a se pronunciar publicamente sobre o episódio. ‘Ele não tem a menor condição. Ele não consegue concatenar direito as idéias, não possui um pensamento lógico’, explica seu advogado aos jornalistas que solicitam uma entrevista junto a seu cliente.
Em todas as vezes que compareceu à Justiça, Pimenta permaneceu em silêncio e negou-se a falar durante interrogatório, alegando não se encontrar em pleno domínio de sua consciência.
A única vez que falou oficialmente sobre o homicídio foi no interrogatório prestado à polícia no hospital Albert Einstein, quatro dias após o assassinato. Mas, na única vez que falou, assumiu o crime e entregou a arma do crime, através do seu advogado na época, Antonio Mariz de Oliveira.
O seu advogado atual descreve Pimenta como ‘um homem de poucas falas’, mas quer que a Justiça insista no interrogatório de seu cliente.
‘Ele tem que se interrogado, tem que falar alguma coisa’, afirma o advogado. ‘O juiz José Mauro Rodrigues Novaes, da 15ª Vara Criminal Central, já aceitou uma petição minha para que ele volte a ser interrogado’.
Neste processo, Pimenta Neves responde por agressão a jornalista Sandra Gomide, semanas antes do assassinato. O juiz marcou o novo interrogatório do jornalista para o dia 22 de outubro.
Já o processo referente ao assassinato corre pela Justiça de Ibiúna e está dependendo do depoimento da ex-mulher de Pimenta, Carole Neves, à justiça dos EUA, por carta rogatória. Na avaliação dos advogados de defesa da família de Sandra Gomide, o julgamento dificilmente ocorrerá antes de dois anos.
Para os pais de Sandra, João e Nilda Florentino Gomide, a preocupação é que a demora seja ainda maior. ‘Sabemos que quando o réu está solto a Justiça anda mais devagar. Sabemos que os advogados do assassino farão de tudo para que ele não seja julgado nos próximos anos. Enquanto isso, tudo pode acontecer. O assassino pode fugir do Brasil’, dizem através de nota.
Sandra Gomide tinha 32 anos, era jornalista e trabalhou junto com Pimenta nos jornais ‘Gazeta Mercantil’ e ‘O Estado de S. Paulo’.
Marco Antonio garante que a defesa não tem nenhum interesse em adiar o processo. ‘Para ele quanto mais tempo à espera do julgamento pior’, diz.
O advogado admite, no entanto, que uma absolvição neste caso é praticamente impossível. ‘Foi um crime passional e ele é um réu confesso. É praticamente inevitável uma condenação’.
A estratégia da defesa será mostrar a excepcionalidade do crime, na tentativa de aliviar a pena. ‘Ele não é um homicida comum. Ele tornou-se criminoso aos 64 anos’.
A promotora Lúcia Nunes Bromerchenkel Cunha denunciou Pimenta Neves por homicídio duplamente qualificado, alegando motivo torpe e que a vítima teria sido surpreendida pelo jornalista. Ele também pode ser acusado de ter empregado crueldade no crime ao usar as balas profissionais e de maior poder de destruição.
‘O crime foi totalmente premeditado, ele foi ao haras com essa intenção e ficou por três horas à espera de Sandra e ao encontra-la a matou’, afirma o advogado Luis Flávio Gomes, parceiro de Marcio Thomaz Bastos na defesa da família.
Marco Antonio nega que o crime tenha sido premeditado e tem uma única explicação para o assassinato de Sandra Gomide, ainda que, segundo ele, seja muito difícil ‘entender os mistérios da mente humana’.
‘Ele foi movido por desespero e amor, por mais inacreditável que possa parecer’, diz."

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