ASPAS

JORNALISMO DE ESCÂNDALO
Luís Nassif

"O país dos Pinóquios", copyright Folha de S. Paulo, 17/05/01

"Em períodos de catarse, o que mais abunda no noticiário é o chute -tanto de quem acusa como de quem é acusado- e o sujeito que usa o fígado para pensar. Cria-se uma competição sem limites pela notícia de maior impacto, que se sobrepõe a qualquer cuidado maior com a avaliação técnica das informações recebidas. Com essa falta de filtros, a ‘fonte’ se torna dona da notícia e da versão.

A seguir, alguns exemplos dessa barafunda informativa das últimas semanas:

Caso Sudene

Explode o escândalo Sudam (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia). Divulgam-se números assustadores de fraude, na casa de bilhões de reais. Aí começa a competição com o escândalo Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste). Com a ajuda de funcionários do órgão, o deputado José Pimentel (PT-CE), da CPI do Finor, solta a denúncia mais bombástica ainda: os rombos da Sudene chegariam a R$ 2,2 bilhões. Ganha o concurso ‘quem roubou mais’, garante as manchetes e leva o governo a fechar a Sudene.

Aí o deputado é convocado a se explicar aos funcionários da Sudene que lhe passaram as informações. Ele comparece ao seminário ‘A questão regional e a extinção da Sudene: um debate urgente’, organizado pelos funcionários, seus aliados. E o que se viu foi relatado na cobertura de Erilene Araújo, da Agência Folha em Recife, publicada em página interna da Folha da edição de terça:

‘O deputado federal José Pimentel (PT-CE) disse que ‘pode ter errado’ nas avaliações que fez na CPI do Finor, da qual foi o relator. A declaração, acompanhada por um pedido de desculpas [ele disse que até a igreja pediu perdão por erros passados’, foi feita ontem. (...) As declarações não foram suficientes para acalmar a platéia, que o vaiou. (...) Para Pimentel, ‘feliz é o povo que vive numa democracia, que pode criticar e vaiar sem ser amordaçado’.

‘O procurador-geral da extinta Sudene, Clemente Rosas, disse (...) que os processos anunciados como irregulares pela CPI foram implantados há mais de dez anos e que os parlamentares sabiam disso quando repassavam as informações para a imprensa. ‘Nós demos subsídios para os parlamentares fazerem a CPI do Finor. Posso assegurar que o rombo de R$ 2,2 bilhões não é apenas inverídico, mas inverossímil’.’

O encontro não mereceu destaque em nenhum órgão de imprensa.

CPI e verbas

A imprensa diz que houve liberação extraordinária de verbas para convencer deputados a retirar a assinatura da CPI. FHC garante que não ocorreu. Informou que: 1) liberações ocorrem periodicamente; 2) o preparativo é longo para liberar e que não podem ser feitas sem autorização orçamentária; 3) portanto não haveria como tirar coelho da cartola e improvisar liberação da noite para o dia.

Não mentiu e não disse a verdade. O Orçamento é aprovado com emendas de parlamentares. Depois, cabe ao Ministério do Planejamento avaliar as emendas, investigar se as obras são pertinentes, cumprir procedimentos de controle. Pronto o processo, a liberação dos recursos depende de autorização do Executivo. E o governo autorizou a liberação de verbas orçamentárias de pelo menos dez parlamentares que retiraram a assinatura da CPI.

Aneel e apagão

Nessa eu embarquei. A Aneel divulgou estatísticas mostrando que no governo FHC houve a entrada em operação de mais MWh do que nos governos anteriores. Apresentou os dados como prova de que o governo foi mais previdente que os anteriores.

Ora, se existe um prazo entre o investimento e a entrada em operação das hidrelétricas, é óbvio que parte da energia instalada agora veio de investimentos anteriores. Além disso, o Ilumina (Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico) me informa que pelo menos 2.000 MWh anunciados provieram de compras da Argentina, que provavelmente nem foram aproveitadas no país por falta de investimentos nas linhas de transmissão."



FHC E ASSESSORIAS
L.N.

"O modelo FHC acabou", copyright Folha de S. Paulo, 11/05/01

"Independentemente do resultado da CPI da corrupção, o modelo administrativo que FHC desenvolveu, que ajudou a sepultar velhos coronéis da política, também sepultará um personagem mais raro, mas tipicamente latino-americano: o governante erudito, com visão internacionalista, bom manejador de conceitos, mas sem nenhuma visão de gestão estratégica. Em suma, ele próprio.

No ano passado, bem antes da eleição mexicana, eu alertava que Vicente Fox, o novo presidente, representava esse novo paradigma de governante, que não apenas manobra conceitos teóricos como tem domínio da mais importante ferramenta de administração: gestão estratégica, qualidade fundamental para preparar o país para a guerra da globalização.

Em que pesem avanços conquistados em algumas frentes, a gestão econômica de governo FHC foi um monumento da imprevisibilidade, justamente pela ausência de uma gestão estratégica aprimorada, que definisse prioridades, metas, prazos e interação entre as diversas áreas públicas. A única experiência bem-sucedida de gestão estratégica, solitária, foi o Avança Brasil, e olhe lá.

A crise de energia é a expressão máxima dessa falta de imprevisibilidade. Como é que pode, nesta semana, ministros ficarem surpresos com a abrangência da crise? Como é possível que, alguns meses atrás, nem a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) nem o Ministério dos Transportes tivessem sequer um diagnóstico para a crise? Como é possível que não se tenha um plano de emergência formulado?

Mas não é apenas isso. Por falta de conhecimento e experiência gerencial, e pela vaidade de não colocar debaixo de si um superministro que operasse os diversos ministérios, FHC acabou prisioneiro da sua própria inapetência gerencial. Sem um modelo de gestão que permitisse organizar ações, definir prioridades e estabelecer itens de controle, os problemas iam se acumulando sem solução. Para contornar o estresse de tantas demandas simultâneas, FHC recorreu ao manual do gestor cansado: definiu uma prioridade por vez.

Na primeira fase do governo, a prioridade única era manter o câmbio fixo. Manteve-se por quatro anos. Arrebentaram-se as contas públicas, as contas externas, abortou-se o crescimento. No final do processo as reformas avançavam -dependendo da maior ou menor competência individual de cada gestor, porque nunca houve coordenação-, mas a economia ficava cada vez mais combalida, minando as bases da mudança.

Muda-se o câmbio, a prioridade passa a ser as contas públicas. E tem-se esse monumento de visão monofásica, em que a Fazenda corta investimentos no setor elétrico, usando como álibi a privatização, corta no saneamento, usando como álibi o déficit público. Tudo pela absoluta falta de coragem de arrostar conceitos do FMI sem pé nem cabeça.

É por isso que ontem, em uma reunião da Funcex (Fundação Centro de Comércio Exterior), seis especialistas na área relacionavam várias medidas que poderiam ser tomadas para melhorar as exportações. Se o seminário tivesse sido em 1995, o papo teria sido o mesmo, porque as sugestões eram as mesmas e simplesmente porque não se avançou quase nada nas mudanças institucionais.

Falta de gente competente à frente do setor? Longe disso. Falta, isso sim, um plano estratégico e um técnico que consiga organizar os jogadores em campo. É o que se espera do próximo presidente.

Os barra-pesada

Nos últimos anos tem havido deformação na área de assessoria de imprensa. Ao lado de muitas assessorias técnicas e sérias, surgiram no mercado especialistas em montar dossiês, em armar notas injuriosas contra adversários e até em pagar colaboradores de jornais para que assinem reportagens em favor de seus clientes.

Esse processo ficou muito nítido no episódio Kaiser versus AmBev, de lado a lado. E agora, na empresa de assessoria contratada pelo Opportunity para atacar adversários -denunciada recentemente por Ricardo Boechat.

É importante que as empresas se dêem conta de que sua imagem vai para o buraco, com esse estilo de assessoria. E que nós, jornalistas, comecemos a definir critérios para separar o joio do trigo e impedir a disseminação dessa praga."



INDENIZAÇÃO
Consultor Jurídico

"Folha de S.Paulo é condenada a pagar R$ 270 mil a juiz", copyright Revista Consultor Jurídico, 16/05/01

"A Folha de S.Paulo foi condenada a pagar indenização de R$ 270 mil (1.500 salários mínimos) para o juiz do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, Roberto Haddad. O pedido foi motivado pela publicação de uma série de reportagens exibindo o patrimônio do juiz. O jornal também foi condenado a pagar as despesas processuais corrigidas e 15% dos honorários advocatícios da parte vencedora.

O juiz Paulo Alcides Amaral Salles, da 12ª Vara Cível de São Paulo, determinou, ainda, que a Folha publique a sua sentença, com chamada na primeira página. O jornal deve recorrer da decisão."



BEIRA-MAR
Márcio Moreira Alves

"O caso Fernandinho", copyright O Globo, 17/05/01

"Será que alguém é tão ingênuo que pensou que Fernandinho Beira-Mar fosse fazer revelações e citar nomes de cúmplices e autoridades corruptas na CPI do Narcotráfico, na frente das câmeras de TV? O que se podia esperar foi o que aconteceu: deboche, cinismo, evasivas, mentiras. Fernandinho fez até uma declaração de princípios: ‘Sou homem, não vou 'cacuetar' ninguém’.

No perverso código de honra do crime, alcagüetar é infração punida com a pena de morte. O pentito, criminoso arrependido que colabora com a polícia, é considerado um ser desprezível, um verme a ser esmagado, com toda a família. O mais célebre de todos, Tomaso Buscetta, que entregou centenas de membros da máfia siciliana, passou o resto da vida protegido pelo FBI, mas, como a proteção era individual, todos os seus parentes foram exterminados.

Fernandinho Beira-Mar não parece disposto a seguir o exemplo do italiano. Mesmo porque não tem motivos para acreditar na eficiência do programa brasileiro de proteção às testemunhas, que, entre outros defeitos, pode ficar sem dinheiro de uma hora para outra, com as verbas cortadas pelos tesoura-boys do ministro Martus Tavares. Além disso, tendo subornado policiais e autoridades, seu respeito pelas instituições é mínimo. Esse desprezo ficou patente até na expressão corporal e na indumentária que usou para depor. O aparelho de metal que lhe aparafusaram no braço direito para imobilizá-lo impedia o uso de terno e gravata. Mas não precisavam exagerar na tolerância, permitindo que comparecesse de bermudas.

Sentindo-se à vontade, espojou-se na cadeira e respondeu com o maior deboche às inquirições. Mentiu descaradamente, como se fosse um senador. Houve um momento até em que senti um tom de ameaça, quando se dirigiu à deputada Laura Carneiro, acusando-a de perseguir sua família. Atribuiu a fama de grande traficante de que goza à polícia e à imprensa. Disse:

- A imprensa distorce quase tudo o que falo e não investiga o que deveria investigar. Contei a um repórter que fui mineirado pela polícia em Belo Horizonte e ninguém deu importância ou foi apurar.

Mineirar é chantagear. Fernandinho afirma ser um peixe pequeno, mas o ministro José Gregori, que assistiu ao depoimento, diz:

- Antes de o Fernandinho ser preso na Colômbia, reuni policiais do Rio, de Minas e da Polícia Federal para que fizessem uma avaliação da sua periculosidade e importância. Foram unânimes em me dizer que era, realmente, um grande traficante e, além do mais, um criminoso muito mau. Quando a polícia chama um criminoso de mau, é que é mau mesmo. Tem o hábito, por exemplo, de mandar pedaços dos inimigos que assassina de presente para as famílias.

Gregori conta com orgulho a operação policial diplomática que possibilitou a rápida extradição de Fernandinho Beira-Mar:

- Estava na minha casa de São Paulo, numa noite de sábado, quando recebi um telefonema de uma repórter do GLOBO, perguntando se tinha confirmação da notícia da prisão de Fernandinho, uma informação que corria na redação. Respondi que não, mas que a avisaria do que conseguisse saber. Liguei para o chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, Alberto Cardoso, que também só recebera boatos não confirmados. O diretor geral da Polícia Federal, Agílio Monteiro, que tinha em Bogotá um delegado, também não tinha a confirmação. Ela veio, pouco depois, por intermédio da mais alta fonte possível: o presidente Andrés Pastrana, que estava em Quebec, na reunião dos presidentes das Américas, informou o presidente Fernando Henrique da prisão. Fernando Henrique ligou para Cardoso, que ligou para mim, informando ainda que era possível que o governo dos Estados Unidos reclamasse a extradição do prisioneiro para Miami, onde queria julgá-lo. Imediatamente liguei para uma das secretárias da secretária nacional de Justiça, Elizabeth Sussekind, em Brasília, pedi que procurasse o doutor Luís Paulo, que é desses funcionários exemplares que conhecem todos os segredos de sua repartição, e que preparassem um pedido oficial de extradição para o governo da Colômbia. Enquanto redigiam, consegui achar em Bogotá o embaixador Marcos de Vicenzi, avisei-o de que deveria receber o pedido por fax e que deveria apresentá-lo imediatamente ao Ministério da Justiça colombiano. Foi o que aconteceu. O pedido foi entregue às 2h e quando os americanos acordaram já estava protocolado, atestando o interesse do governo pelo caso. O governador Garotinho tentou levar o Fernandinho para o Rio, mas quando o secretário de Segurança, Josias Quintal, chegou a Bogotá, domingo, era tarde. O avião da FAB transportando policiais federais dormiu em Tabatinga e, assim que Fernandinho foi liberado pelos serviços de inteligência do Exército da Colômbia, foi buscá-lo e o trouxe para Brasília. Tivemos sucesso porque agimos mais rapidamente do que os outros."



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