CONDOMÍNIO ASSOCIADOS
Quando se está do outro lado do balcão

Ricardo Noblat (*)

Doer, doeu. E ainda dói. Mas não deixou de ser uma forma de aprendizado – embora penosa. E me ensinou a ser mais cauteloso quando me vejo diante de notícias que de algum modo arranham ou afetam gravemente a honra das pessoas.

Amarguei durante os últimos quatro anos a pecha de ter usado o cargo de diretor de Redação do Correio Braziliense para beneficiar negócios da empresa de assessoria de imprensa da minha mulher Rebeca Scatrut.

Em fevereiro de 1998, um mês depois de ter assumido o governo do Distrito Federal, o Sr. Joaquim Roriz autorizou o líder do PMDB na Câmara Distrital a criar o que foi batizado como a "CPI da Rebeca".

O objetivo proclamado da CPI era investigar supostas irregularidades cometidas na área de comunicação pelo antecessor de Roriz, o ex-governador e atual ministro Cristovam Buarque. E descobrir se a empresa de Rebeca se beneficiara delas.

Aprovada com folga na Câmara, a "CPI da Rebeca" jamais foi instalada. Ou porque o governo nada encontrou que justificasse seu funcionamento ou porque ela não fora criada para de fato funcionar. Acredito na primeira hipótese.

Ocorre que a criação da CPI serviu para detonar uma sórdida campanha contra minha honra protagonizada pelo próprio governador, por seus aliados políticos, jornais de aluguel no Distrito Federal e até por membros do Grupo Associado, onde eu trabalhava.

Sempre que fui à Justiça contra quem sugeria uma relação promíscua entre meu trabalho no Correio e as atividades empresariais da minha mulher, o alvo da ação dava um jeito de retificar em particular o que dissera de público. Ou então se valia de subterfúgios.

Não, ele não me acusara de usar o jornal para ajudar os negócios de Rebeca. Dissera apenas que havia indícios, que a Câmara Distrital até aprovara a criação de uma "CPI da Rebeca" ou que ouvira falar algo a respeito.

Assinatura em branco

O vice-presidente do Correio, Ari Cunha, inconformado com a postura crítica do jornal em relação a Roriz, chegou a remeter uma carta aos seus colegas do Condomínio do Grupo Associados informando-os a respeito "do que toda a cidade comentava".

Por fim, a agressão contra minha honra foi encampada pelos quatro condôminos que assinaram em abril último o pedido para que eu fosse expulso do Condomínio. Fui eleito condômino em 1999 com o voto dos quatro. E dos demais.

Está registrado no pedido de expulsão que "há indícios" ou "fortes indícios" de que me vali do cargo de Diretor de Redação do Correio Braziliense para favorecer a empresa de Rebeca. Como "prova" foi anexada uma publicação apócrifa da última campanha eleitoral de Roriz.

A peça foi montada por assessores do governador. Repete os ataques desferidos contra mim e o jornalista Paulo Cabral de Araújo, na época presidente do Correio, em três programas de propaganda eleitoral na televisão do então candidato à reeleição.

Mas a peça não foi assinada por ninguém – salvo, de maneira indireta, pelos quatro condôminos que a juntaram ao pedido de expulsão. O lugar na peça reservado à assinatura do responsável aparece em branco. Ou melhor, assim: "xxxxxxxxxxxxxxxx".

Nada a ver

Para que eu pudesse me defender dessa e de outras acusações apresentadas pelos autores do pedido de expulsão, requeri uma série de informações à direção do Condomínio. Todas me foram negadas há 15 dias – e sob as mais estapafúrdias desculpas.

** Quis saber, por exemplo, como evoluiu a circulação paga dos jornais do Grupo Associados no período em que dirigi a redação do Correio (fevereiro de 1994 a outubro de 2002). A circulação do Correio cresceu 64%.

Resposta do Condomínio: "Alguns desses elementos solicitados nem existem mais e não há nenhuma objetividade para a solução deste caso no pedido. (...) A questão não merece consideração como prova para a defesa do defendente".

(Acusaram-me de ter causado sérios prejuízos ao jornal por ter "partidarizado" sua linha editorial. Eu pretendia demonstrar que o Correio foi o jornal dos Associados que mais cresceu enquanto estive à frente de sua redação.)

** Quis saber que provas havia de que eu pusera o jornal à serviço do PT. Nenhuma prova fora juntada ao pedido de expulsão.

Resposta do Condomínio: "O Correio Braziliense tornou-se antipatizado e insuportável à classe pensante de Brasília, mercê da crítica permanente, partidária e desarrazoada contra o governador local".

(O governador está para ser cassado pela Justiça com base em denúncias publicadas pelo Correio no ano passado e confirmadas pelo Ministério Público. De novembro para cá é sensível a queda de circulação do jornal segundo dados do IVC.)

** Quis saber quanto Cristovam Buarque gastou com publicidade no Correio em seus dois últimos anos de governo (1997 e 1998) e quanto gastou Roriz nos últimos dois anos do seu terceiro mandato (2001 e 2002).

Resposta do Condomínio: "Não há como comparar dados porque as épocas, inflação, recessão, influíram substancialmente na atualidade governamental. O governo Roriz não iria anunciar num jornal faccioso que só se incumbia de denegrir sua imagem".

(A Diretoria Comercial do Correio possui um estudo a respeito. Ele prova que Roriz gastou mais com publicidade no jornal "faccioso" do que seu antecessor. De novembro para cá está gastando uma fortuna com o jornal que deixou de ser "faccioso".)

** Por último, quis saber que negócios da empresa de assessoria de imprensa de Rebeca foram beneficiados por minha atuação como diretor de Redação do Correio.

Resposta do Condomínio: "É retirado deste libelo qualquer relação de causa e efeito entre sua direção e o órgão familiar".

(Ou seja: assim como Roriz e sua turma jamais instalaram a chamada "CPI da Rebeca" porque de fato nada encontraram que pudesse me comprometer ou à minha mulher, o Condomínio reconheceu que era infundada a acusação a respeito registrada no pedido de expulsão. E durante quatro anos repetida por meus desafetos.)

Em tempo: na mesma sessão em que negou as informações que lhe pedi, o Condomínio aprovou minha expulsão sob o pretexto de que não presto mais serviços ao Grupo Associados.

Não presto porque não querem que eu preste.

Juridicamente, a condição de membro do Condomínio nada tem a ver com o exercício de algum cargo executivo em qualquer empresa do grupo. Há vários condôminos sem cargo executivo e que continuam condôminos.

Defenderei meus direitos na Justiça.

(*) Jornalista, consultor editorial do jornal A Tarde, de Salvador (BA)