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JORNAL ESPÍRITA
Perseguição a um jornalista

Marcelo Fiorini (*)

O que poderia ser considerado o sonho de todo jornalista tornou-se um pesadelo sem fim para J. G. Pascale. Nenhum curso prepara alguém para esse tipo de experiência, até porque Pascale é daqueles jornalistas que desenvolveram, ainda nos bancos escolares, a técnica do texto claro, objetivo e elegante; a conduta profissional veio pronta de casa: bom caráter, responsável, disciplinado, gentil e generoso.

Pascale começou a trabalhar em jornal em fins dos anos 60 – ele foi um daqueles "jovens eternos", cabelos longos, barba etc. –, em Imprensa Comunitária, na Tribuna Paulista, onde teve um grande mestre, Francisco de Azevedo Vasconcellos, repórter especial de O Estado de S.Paulo. Participou do lançamento de pequenos jornais, como o Casa Verde, com Joel Scala, Luiz Carlos de Mattos e João Alves Tiradentes; e de experiências análogas no Comunidade, com José Carlos Lara; Século 21, com Adailce Maganha e Eracelis Prado Azevedo; Jornal da Zona Norte e outros (sempre na capital paulista).

Não foi para a grande imprensa, o rádio ou a TV, optou pela especialização: aceitou convite para trabalhar, em meados dos anos 1970, no Jornal Espírita, então um sucesso de público e grandes vendas em bancas. Ali desenvolveu experiências bem-sucedidas de edição, redação, diagramação e fotografia, em parceria com outros profissionais.

Idealista, discreto e dedicado, para ele o que deveria aparecer era a notícia, o fato, o assunto, não o jornalista; fez o seu trabalho, a bem dizer, como um "profissional invisível". Sabia não estar errado porque tinha o feedback do que era feito.

Pascale conquistou o reconhecimento, o respeito e a admiração dos leitores, dos colegas, dos diretores da publicação e da crescente comunidade espírita. Certamente esse é o sonho de todo jornalista. Não ficou rico com a profissão, mas enriqueceu profissionalmente; estudou – é bacharel em Filosofia – e estuda até hoje – faz Psicanálise –, sem perder seus principais traços de caráter: a simpatia e a humildade. Talvez por isso, resultante de uma confusão semântica, os diretores da Federação Espírita do Estado de São Paulo – onde Pascale trabalha – iniciaram um longo processo de ameaças, coações, ofensas e humilhações. Aí começou o pesadelo.

Impossibilidade de trabalhar

Desde dezembro de 2002, quando uma nova cúpula diretiva assumiu o poder naquela instituição, Pascale tornou-se alvo de verdadeiras torturas morais praticadas por essa gestão tirana. Também o seu colega de Redação, Altamirando Carneiro, recebe o mesmo tratamento. Em janeiro o presidente, Avildo Fioravanti, e o diretor da Área de Divulgação, Clodoaldo de Oliveira Mello, deram início a uma série de reuniões em que apresentavam propostas as mais esdrúxulas. Demissão, devolução dos 40% da multa do FGTS, e os jornalistas abririam uma "empresa" para prestação de serviço; demissão, devolução dos 40% e prestação de serviço pela metade do salário; demissão, devolução dos 40% e prestação de serviço como free-lancer; demissão, devolução dos 40% e um "contrato" de trabalho por três anos, sem os benefícios da vinculação empregatícia – as propostas variavam na forma, mas a essência era a mesma...

Ante a recusa dos jornalistas – que manifestaram o desejo de manter o emprego, ou a demissão com todos os direitos adquiridos –, começaram as ameaças de demissão por justa causa, cobranças com rigor excessivo, desqualificação profissional, coações, desrespeito e humilhações. As reuniões começavam e terminavam com a técnica de amedrontar quanto ao desemprego; no dia-a-dia multiplicavam-se as torturas morais e as pressões psicológicas – "Manda quem pode, obedece quem tem juízo", alertava o diretor Clodoaldo –, com os jornalistas sendo submetidos a rotineiras situações humilhantes, chamados de ociosos, incompetentes, burros e inúteis.

O Jornal Espírita passou a sofrer uma censura severa, com os seus mais importantes autores excluídos, e uma lei draconiana foi imposta, após a formação de um certo Conselho Editorial: "Impedir que os jornais (O Semeador e Jornal Espírita) tornem-se instrumento de crítica a pessoas, filosofias, obras, livros ou instituições".

Depois de meses de submissão, J. G. Pascale não resistiu: caiu na rua, foi socorrido e encaminhado ao médico. Sob o diagnóstico de "reação ao estresse grave e transtornos de adaptação", ele faz psicoterapia e se submete a tratamento farmacológico.

Pascale está impossibilitado de trabalhar, mas sabe que – conforme escreveu Ernest Hemingway, que ele tanto admira – "o homem não foi feito para a derrota; o homem pode ser destruído, mas não vencido". Não sabemos se superará as seqüelas, mas estamos com ele, pois "um homem sozinho não tem chance", como disse o velho Hem.

(*) Jornalista

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