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CORRUPÇÃO
Mesmo a cara de bobo tem preço
Luiz Otávio Borges (*)
Em uma recente e bem-humorada propaganda transmitida pela televisão, uma mulher muito bonita e bem produzida chega a uma festa. A câmera focaliza, então, um rapaz que olha para ela, evidentemente admirado com a beleza da jovem. A voz do locutor diz, nesse momento: "a cara de bobo de seu ex-namorado não tem preço...".
Volta e meia aparecem, na imprensa brasileira, matérias relativas a esquemas de assalto aos cofres públicos que nos deixam admirados por conseguirem perdurar por períodos de tempo inacreditavelmente extensos (às vezes, por décadas).
Aqui vão alguns casos:
** a turma do Lalau;
** o bando do DNER;
** as máfias da Sudam e da Sudene;
** o grupo de fraudadores do Ministério da Fazenda em São Paulo;
** a quadrilha da Jorgina.
Seria possível adicionar à lista inúmeros outros esquemas de roubalheira. Mas não é necessário fazer isso, pois os leitores do Observatório da Imprensa certamente são pessoas interessadas nas interações entre a máquina pública e a sociedade civil e, conseqüentemente, estão cientes da multiplicidade de tais esquemas. A intenção aqui não é relacionar uma longa série de mazelas, mas ressaltar que uma das causas principais desse panorama é a postura de cara de bobo com que grande parte da coletividade reage (ou não reage) ao que acontece diante de nossos narizes.
Somos colocados a par, com freqüência, das mais variadas falcatruas cometidas por pessoas que usam as instituições estatais como mecanismos de transferência de dinheiro público para bolsos privados. Recebemos cotidianamente informações, diretamente ou através de nossos relacionamentos, sobre indivíduos e organizações que praticam ou facilitam os mais diversos tipos de procedimentos ilegais: contrabando, favorecimentos em concorrências, superfaturamentos, fraudes em concursos, desvios de verbas, cobrança de propinas, sonegação de tributos, golpes contra o INSS, contratação de fantasmas e apadrinhados etc.
Quem aceita tudo isso quietinho tem seus motivos para ficar simplesmente fazendo cara de bobo por váriadas razões:
** porque não quer ser chamado de dedo-duro;
** porque tem medo de denunciar e sofrer represálias;
** porque não sabe a quem apelar;
** porque está convencido de que não há a quem apelar;
** porque o Brasil sempre foi e sempre será isso mesmo;
** porque não vai adiantar nada;
** porque não quer dar murro em ponta de faca;
** porque também tem pecados a esconder;
** porque não sente obrigação de fazer alguma coisa pois, como não está roubando, já está fazendo sua parte;
** porque está procurando um jeito de também arranjar uma boca em algum esquema;
** etc. etc.
É provável que a maioria da sociedade não tenha percebido com a devida clareza que, se a cara de bobo do ex-namorado da moça do anúncio não tem preço, a nossa tem vários preços. Que são, aliás, muito altos. Eis alguns deles:
** o Estado arranca cada vez mais tributos da nação mas, segundo o site do Banco Central, a dívida líquida do setor público chegou, no fim de agosto, a 658 bilhões de reais, ou seja, passou de 30% do PIB em 94/95 para 53% em 2001;
** matéria da Folha de S.Paulo (15/2/01) mostra que, nas duas décadas finais do século passado, o PIB nacional apresentou as duas menores taxas de crescimento dos 100 anos anteriores;
** nossa posição no ranking mundial da corrupção, elaborado pela Transparência Internacional, piorou. Saímos da 36ª colocação, em 1997 para a 46ª, em 2001;
** temos um Senado em que 41 senadores chegaram a eleger, para presidente, Jader Barbalho – um político marcado, desde 1986, por graves suspeitas e denúncias;
** diversos ministros do Poder Executivo foram acionados na Justiça, no primeiro semestre de 1999, por usar aviões da FAB para viagens de lazer (e até agora ficou quase tudo por isso mesmo);
** José Pastore, em artigo publicado pelo Jornal da Tarde (3/10/01), citou pesquisa do Instituto Latinobarômetro que mostra que somente 30% dos brasileiros acham a democracia melhor do que outros tipos de regime (em outras palavras: estamos desistindo da democracia);
** a distribuição de renda aqui vigente é a mais injusta do planeta;
** Clóvis Rossi, na Folha de S.Paulo (25/9/01), escreveu sobre as fraudes na seleção do Programa Bolsa-Escola e lamentou que "políticos e outras pessoas com ‘algum poder aquisitivo’ não têm pudor algum em meter a mão em até R$ 45, um benefício macérrimo, que vai para os miseráveis, sem nenhuma outra fonte de renda".
As informações e opiniões acima relacionadas são uma microscópica amostra dos preços pagos pelos que se mantêm omissos e inertes, olhando, com cara de bobo, para o avanço da mafiocracia sobre significativas parcelas dos órgãos oficiais. Não sei se é importante, para o rapaz da propaganda, reatar seu namoro. Mas tenho certeza de que é essencial que um número maior de cidadãos decidamos tirar do rosto a cara de bobo e impedir, por todos os meios ao nosso alcance, que as diversas formas de corrupção hoje atuantes continuem mantendo o país subjugado a índices inaceitáveis de desenvolvimento econômico e social.
(*) Associado ao IEDC – Instituto de Estudos Direito e Cidadania

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