CADERNO DA CIDADANIA

MAIORIDADE PENAL
O rabino e as invasões bárbaras

Luciano Martins Costa (*)

"A história da humanidade é uma história de horrores", diz Rémy, o personagem central do último filme de Denys Arcand, As invasões bárbaras. Ele se refere aos milhões de mortos no processo a que chamamos civilizatório, lembrando que as religiões foram responsáveis pelos maiores massacres que a História pôde registrar. É um momento de desesperança, o confronto do intelectual com a morte, o destempero de quem percebe o fim das ilusões e se questiona sobre o significado da existência.

No último fim de semana, assistimos a um momento de desesperança e desistência de um personagem que tem freqüentado a mídia brasileira nos últimos 30 anos, uma figura que de certa forma os brasileiros aprenderam a respeitar numa semana lúgubre de 1975, quando um grupo de religiosos decidiu enfrentar a ditadura militar e celebrar um culto ecumênico em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, assassinado sob torturas. O rabino Henry Sobel também desistiu. Horrorizado com o bárbaro assassinato da adolescente Liana Friedenbach, de 16 anos, e de seu namorado Felipe Caffé, de 19, ele anunciou oficialmente que passa a defender a pena de morte para os condenados por crimes hediondos.

Ao lado do pastor protestante Jaime Wright e do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, então arcebispo de São Paulo, Sobel foi, depois de 1975 e durante todo esse período, uma referência de ponderação no processo de desmanche da ditadura. Com seu forte sotaque nova-iorquino, que nunca pretendeu abandonar, era uma figura comum nos telejornais e personagem sempre disponível para os repórteres. Sua voz serena e firme sempre foi um contraponto para as manifestações mais radicais entre um lado e outro durante os debates que marcaram a reconstrução da democracia no Brasil. Longe de ser uma unanimidade na comunidade judaica paulista, era, no entanto, uma voz respeitada.

Sobel acaba de desistir. Sua imagem ao lado da apresentadora de TV Hebe Camargo – que sempre representou a face mais conservadora da mídia brasileira, renitente apoiadora do pior extrato que a política nacional conseguiu produzir nas últimas décadas – é um retrato do nosso tempo. Entre o oportunismo de Hebe e a desesperança de Sobel, o pai de uma das vítimas, Ari Friedenbach, desfilou no alto de um trio elétrico seu papel de cidadão desamparado cuja dor não tem remédio. Nem mesmo o noticiário de sua tragédia é capaz de lhe trazer algum alento – a mídia apenas noticia, a mídia está tão desconcertada quanto seus leitores.

Uma luz a menos

Nossos jornais foram caprichosos ao calcular o número de pessoas que aderiram à manifestação, descreveram burocraticamente as palavras de ordem e apenas registraram a declaração do rabino e as repercussões na comunidade judaica de São Paulo. A edição que nos relata a manifestação contra a violência antecede a edição que nos conta sobre o descaso das autoridades policiais de São Paulo nos crimes de estupro, o preconceito que ainda atinge as vítimas e os números irrisórios das ocorrências que resultam em investigações.

Segundo a Folha de S.Paulo, menos de 50% dos casos são denunciados à polícia e, das ocorrências anotadas, pouco mais de 30% têm produzido inquéritos. A rotina banaliza o crime, o entorpecimento da sociedade desanima nossos melhores quadros.

Henry Sobel abre mão de antigas convicções. Sua obstinação humanista resistiu a centenas de estupros e assassinatos de jovens negras, mulatas e brancas na periferia da cidade, mas não pôde suportar o martírio a que os criminosos submeteram a jovem Friedenbach. Como em 1975, a violência chegou perto demais, e a dor do homem parece ter superado a tenacidade do rabino.

Sobel decepciona muitos daqueles que o procuraram nestes anos todos para dar à sociedade o apoio da ponderação, a base de serenidade, tolerância e firmeza com que se constrói a cidadania. Esperemos que seu conhecido apreço pelos holofotes, que o ajudou a educar a opinião pública para a democracia, não o transforme agora em seu contrário. Que ele resista à tentação de atender aos convites oportunistas das viúvas da ditadura, dos saudosistas de esquadrões da morte, e que se recolha a suas reflexões para que o seu momento de fragilidade não venha a reforçar o poder de influência de "ratinhos", "hebes" e outros porta-vozes do obscurantismo.

Os bárbaros avançaram portões adentro. Não precisamos que o líder religioso dos judeus de São Paulo lhes dê mais combustível para suas pregações em favor de mais vingança e mais sangue. Como diz o personagem do filme de Arcand, a inteligência parecer estar em extinção. A conversão do rabino às hostes incivilizadas que defendem a pena de morte é uma luz a menos na nossa quase escuridão.

(*) Jornalista