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CADERNO DA CIDADANIA
MAIORIDADE PENAL Deonísio da Silva O rabino Henry Sobel, presidente do rabinato da Congregação Israelita Paulista, é um homem corajoso e de posições muito claras em defesa dos direitos humanos. Notabilizou-se ao longo das últimas décadas por criticar os maus tratos a presos políticos, inconformado in extremis com os desmandos da ditadura militar que fez descer sobre o Brasil a mais longa das noites. Tempos houve em que sua voz e a de alguns hierarcas da Igreja, como Dom Paulo Evaristo Arns, eram vozes quase solitárias, brados retumbantes no silêncio atroz do grande medo que pairava sobre o Brasil. No final da semana passada, porém, a imprensa passou a mostrar um outro tipo de indignação de Sobel. Polêmico, ele defendeu a pena de morte. O senador Eduardo Suplicy tentara sem sucesso telefonar ao rabino para discordar da proposta, nascida no calor de um crime bárbaro – o assassinato do casal de namorados Liana Friedenbach e Felipe Silva Caffé, de apenas 16 e 19 anos respectivamente, nos primeiros dias de novembro. Na tarde de sábado (22/11), em São Paulo, cerca de 5 mil pessoas integraram a Manifestação pela Paz com Justiça, convocada pelos pais dos jovens assassinados. Depois de ato ecumênico realizado na frente de uma igreja pertencente ao Colégio São Luís, onde os adolescentes estudavam, a passeata tomou o rumo das avenidas Paulista e Brigadeiro Luiz Antônio. O exagero do rabino é bem menor do que o exagero do crime Não cabe à imprensa julgar declarações alheias à luz da opinião dos autores de reportagens e comentários. Mas cabe, sim, repor para exame as indignações havidas – exageradas ou não, o que é mais exagerado do que o bárbaro crime? – com o fim de fazer com que a sociedade brasileira seja mobilizada e decida, depois de muito pensar, o que fazer diante da extensão que a violência urbana vem tomando, principalmente em São Paulo, a maior megalópole da América do Sul. Não basta conclamar os aflitos à resignação. Ari Friedenbach semelha um personagem grego de célebres tragédias. É comovente e apaixonante o gesto desse pai que perdeu a filha em circunstâncias tão trágicas. Em vez do sofrimento solitário, ele está externando a sua dor, não para catarse que resolva o seu martírio, mas com o fim de conclamar outros a refletirem sobre o absurdo que vem vitimando tantas famílias. Ele mesmo declarou-se surpreso com a receptividade obtida, pois não esperava tanta gente na passeata. "Não sabia o que esperar", disse ele, "mas isso é uma prova da insatisfação das pessoas com as leis vigentes." "A população quer justiça e paz", acrescentou. As 5 mil pessoas foram as testemunhas mais visíveis de que é isso mesmo que a população quer. A mídia precisa, então, cumprir a sua missão social por excelência: ampliar e aprofundar o debate. Não será esta ou aquela autoridade que baixará por decreto a redução da idade penal. Não serão os legisladores que dirão o que fazer. A coisa tomou tal vulto que o melhor talvez seja um plebiscito, precedido de ampla discussão. "Um rosto irado não é latino nem grego", escreveu Santo Agostinho. O rabino Henry Sobel desconcertou seus admiradores, entre os quais o signatário se inclui, com uma declaração polêmica. Mas antes de reprová-la ou endossá-la – estou entre os que dele discordam neste particular, sem deixar de compreender sua fúria sagrada – é preciso fixar o contexto em que externou sua opinião. O episódio fez-me lembrar sua participação em mesa redonda sobre o tema do perdão nas diversas religiões, proposta pelo escritor Cláudio Willer quando integrava a equipe da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, na gestão do também escritor Rodolfo Konder. O signatário coordenava aquela mesa quando o rabino Henry Sobel, ao lado de autoridades católicas, protestantes e afro-brasileiras, disse que ele não sabia se os algozes do Holocausto poderiam ser perdoados. "Quem deve responder são suas vítimas e elas já não podem mais responder porque, executadas por eles, não estão mais entre os vivos." Não fugir à responsabilidade Um terrível silêncio desceu sobre aquela sala da Biblioteca Mário de Andrade. Silêncio semelhante vem caindo sobre o Brasil inteiro a propósito do crime que motivou a passeata de sábado. Presente à manifestação, João Guilherme, de 17 anos, ao lado da namorada Gabriela, da mesma idade, resumiu bem a questão: "Não é só por causa deles [Liana e Felipe]. Todo mundo quer o fim da impunidade e dessa história de empurrar com as coisas com a barriga" (O Estado de S.Paulo, 23/11). Sim, todos queremos acabar com a impunidade. Mas estamos divergindo nos modos de atingir tal objetivo. A imprensa dará contribuição à mudança aprofundando o tema. Fatos abundantes estão alargando os horizontes, a começar pelas iniciativas do governo Geraldo Alckmin, que, entre outras providências, quer ampliar a permanência dos menores infratores na Febem. Desta responsabilidade a imprensa não poderá fugir, sob pena de contribuir, por omissão indesculpável, com a banalização das mortes violentas. Do contrário, daqui a pouco a única providência talvez seja estampar algumas vinhetas destinadas a resumir a contabilidade dos mortos. | ||