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PESQUISA ANDI
A infância e a adolescência na mídia
Agência de Notícias dos Direitos da Infância
A ANDI – Agência de Notícias dos Direitos da Infância lançou, em 21 de março, durante a entrega do Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo, em São Paulo, a 12ª edição da pesquisa "Infância na Mídia". A publicação traz uma radiografia das virtudes e dos "pecados" da cobertura jornalística de 2001 sobre os temas da infância e adolescência. Contém ainda uma análise especial sobre o noticiário específico a respeito da exploração e do abuso sexual infanto-juvenil.
Um dos principais destaques da pesquisa é a constatação de que o volume de reportagens publicadas sobre a infância e a adolescência continua em curva ascendente desde 1996. De lá para cá, o número de matérias sobre o universo infanto-juvenil cresceu 608%. Em 2001, foram publicados 75.797 textos sobre vários temas relacionados ao universo infanto-juvenil, 11.401 (ou 15%) a mais do que em 2000. Dos 49 jornais pesquisados, 43 publicaram mais matérias do que em 2000.
Além do crescimento numérico de inserções, o estudo identificou que a qualidade das abordagens também melhorou, com os jornalistas se focando em temas vitais à uma nova realidade para a infância – como Educação, Saúde, Direitos & Justiça e Terceiro Setor. Educação, por exemplo, está no topo do ranking de temas mais abordados, pelo quarto ano consecutivo.
A pesquisa, produzida em parceria com o Instituto Ayrton Senna e com apoio do Unicef, do Instituto WCF e da Fundación Arcor, apresenta também a relação dos temas e subtemas mais abordados pela imprensa, os jornais e revistas mais atuantes e dados sobre o Concurso Rede ANDI para Projetos em Comunicação pelos Direitos da Criança e do Adolescente, que busca incentivar um comportamento mais pró-ativo no sentido de qualificar a informação sobre a infância.
Imprensa atenta
O ano de 2001 foi pródigo em fatos de forte impacto e repercussão mundial. Alguns deles roubaram a cena no noticiário. Houve Bin Laden, Bush, renúncia ou cassação de senadores e a crise nacional de energia elétrica. Nada, porém, fez ruir em termos quantitativos e qualitativos a cobertura dos jornais e revistas sobre as crianças e os adolescentes brasileiros. Em curva ascendente desde 1996, o noticiário cresceu, apesar daqueles eventos dramáticos, indicando que se firma nas redações a preocupação com oportunidades melhores e maior dignidade à infância. De 1996 a 2001, o crescimento consolidado do número de matérias publicadas sobre a infância e a adolescência na mídia brasileira foi de mais de 600%.
A pesquisa mostra que 49 jornais e 10 das mais importantes revistas brasileiras publicaram, em 2001, 75.797 matérias sobre crianças e adolescentes, 11.401 a mais do que em 2000. Dos 49 jornais monitorados pela ANDI, 43 publicaram mais matérias em 2001. Os cinco temas mais cobertos pelos jornais dão a medida da atenção editorial: Educação, Violência, Saúde, Direitos & Justiça e Terceiro Setor. Só a abordagem deles ocupou 78% do espaço, com Educação no topo do ranking quanti-qualitativo da ANDI, pelo quarto ano consecutivo.
A maioria das revistas também publicou maior quantidade de reportagens sobre a infância brasileira. É extremamente positivo isso, pelo alcance das tiragens dessas edições e pelo fato de terem circulação nacional, o que aumenta a responsabilidade dos jornalistas.
O mais relevante, além da elevação quantitativa e da prioridade temática, é que a qualidade dos textos evolui. Com base nos critérios do estudo, a imprensa ainda não alcança o tratamento jornalístico ideal, mas é evidente que progride para uma cobertura qualificada. Esta evolução se verifica no crescimento, principalmente nos jornais, em 2001, do volume de matérias que investigam problemas sociais relacionados à infância e adolescência, sob a ótica de suas possíveis soluções. Quase 36% delas abordam os temas enquanto fenômeno social, ou seja, investigam causas e conseqüências, cobram o Poder Público por omissão e mostram ou debatem soluções para os problemas. A ótica construtiva se impõe sobre menos de 9% de matérias centradas somente na denúncia.
O noticiário se apresenta ainda mais pluralista, pela constatação de que vem caindo a distância entre o espaço para as fontes de informação oficiais e o que cabe aos atores da sociedade civil. Jornais e revistas ouvem mais os representantes do Terceiro Setor, hoje vistos como fontes imprescindíveis à compreensão dos fenômenos. A maior diversidade de fontes tem propiciado, em benefício da sociedade, o exercício de um jornalismo plural, crítico e independente.
Crimes sexuais
A imprensa brasileira tem feito um esforço louvável para romper com o silêncio que ainda encobre o delicado tema da exploração e do abuso sexual de crianças e de adolescentes. Esta preocupação fica clara na análise especial "O Grito dos Inocentes", produzida pela ANDI – Agência de Notícias dos Direitos da Infância e pelo Instituto Ayrton Senna, com apoio do Unicef, da Fundación Arcor e do Instituto WCF-Brasil, ONG presidida pela Rainha Sílvia, da Suécia. Esta análise ocupa 22 páginas da edição da pesquisa "Infância na Mídia".
O estudo analisou a produção dos 49 maiores jornais do país na cobertura do delito sexual contra a infância e a adolescência. De 3.717 textos publicados sobre o assunto no ano 2000 e no primeiro semestre de 2001, especialistas convidados pela ANDI analisaram 718 textos a partir de três questões:
** Como ocorreu a cobertura?
** Como está deveria ser feita?
** E quais os instrumentos necessários à melhoria do noticiário?
A imprensa brasileira cobre com maior qualidade o crime sexual do que as outras formas de violência contra o universo infanto-juvenil, avaliadas na pesquisa anterior da ANDI, "Balas Perdidas". Nesse caso, comparativamente, os avanços na cobertura dos crimes sexuais são visíveis e indicam a disposição da mídia de abordar esse tema com maior profundidade. A maioria dos jornais trata o assunto com maior qualidade, profundidade e contextualização do que acontece na cobertura dos demais tipos de violência que afetam a infância e a adolescência. Ao mesmo tempo, diversificam mais as fontes de informação e recorrem menos a relatos ditos "sensacionalistas" do que o fazem em relação aos outros crimes contra a infância brasileira.
Considerando isoladamente os resultados da pesquisa "O Grito dos Inocentes", fica evidente que a imprensa ainda pode (e deve) melhorar muito a qualidade investigativa e a abordagem dos crimes de exploração e abuso sexual que atingem o universo infanto-juvenil. Muitos jornais passaram a analisar aspectos que explicam o delito (os econômicos e culturais) e que ajudam a entendê-lo enquanto fenômeno social. Mas ainda não o fazem na medida em que poderiam. Algumas constatações deixam claro esse ponto de vista.
Embora a dependência da fonte de informação policial não seja regra (como o é na cobertura de outras formas de violência), o repórter ainda tem na Polícia sua fonte preferencial, deixando em segundo plano a investigação das causas, soluções e conseqüências do drama, mesmo que a abordagem de políticas públicas voltadas à questão tenha razoável espaço.
A imprensa pouco exercita, no caso, uma de suas principais características: a investigação e o olhar crítico. Os governos não são fiscalizados e cobrados na medida correspondente ao impacto dos casos ou das evidências de existência do crime organizado. Prostituição infantil, por exemplo, continua a ser tolerada no Brasil como traço cultural. Chama atenção, do mesmo modo, que o incesto só ganhe destaque quando envolve pobres, quando, sabe-se, acontecem igualmente entre os ricos. Aí está um tema que exige maturidade ímpar por parte da imprensa, inclusive para reconhecer que muitas vezes o abusador reproduz a violência que sofreu na infância; que não é um monstro, mas um ser humano que precisa de tratamento.
Além da timidez das matérias, é reveladora a baixa presença de artigos e editoriais e o fato de a maioria das matérias – 54% – não ser assinada. Se o anonimato assegura ao repórter proteção diante dos criminosos, por outro lado pode incentivar relatos restritos aos Boletins de Ocorrência Policiais ou então à descrição "sensacionalista" do ato violento. Outro aspecto relevante é o fato de que indicadores sobre crimes sexuais estão presentes em menos de 1% dos textos analisados. É preciso reconhecer que a "invisibilidade" do delito decorre também da falta de estatísticas nacionais confiáveis, situação que estimula temerárias projeções por parte da imprensa e de organizações não governamentais.
A crescente menção jornalística ao sistema legal de direitos da infância e adolescência (Estatuto da Criança e do Adolescente) reforça no brasileiro a idéia de que há leis, que as leis são boas, mas que sua aplicação é inibida. A percepção é legítima. A corrupção foi apontada há pouco, no Japão, no II Congresso Mundial Contra a Exploração Sexual Comercial de Crianças, como fator preponderante de incentivo ao delito.
Desenvolvimento humano
A pesquisa "Infância na Mídia" confirma que na última década a imprensa consolidou, primeiro nas redações, e depois na sociedade, a consciência da "ótica dos direitos da infância". Nesse sentido, o Estatuto da Criança e do Adolescente, nascido há 10 anos, foi marco deste reposicionamento. A imprensa e a sociedade, passaram a ter novas referências legais e pedagógicas sobre a proteção à criança e aos adolescentes. Tudo leva a crer que a imprensa e os atores sociais podem ampliar e aprimorar seu diálogo. Nesse caminho, impõe-se à imprensa o desafio de entender e questionar porque o Brasil, sendo a 10ª economia mundial, está na 69ª posição no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (da ONU) – atrás, por exemplo, do Brunei (32ª colocado) e do Suriname (64º).
É essencial que a imprensa seja mais explícita na construção de notícias e reflexões que possam compor uma agenda de equidade social que facilite o acesso das crianças e adolescentes às oportunidades e aos frutos gerados pelo processo de crescimento econômico do país. A criança e o adolescente são personagens que ocupam o centro da pauta do desenvolvimento humano.
(*) ANDI – Agência de Notícias dos Direitos da Infância # SDS - Ed. Boulevard Center, Bloco A, Sala 101, Brasília-DF, CEP 70391-900. Telefone (61) 322.6508 / Fax:(61) 322.4973
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A íntegra da pesquisa "Infância na Mídia" – [necessário ter o software Acrobat Reader]
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