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O ESTADO DE S.PAULO
Leitores na Terra ou em Marte?
Ana Lúcia Amaral (*)
O noticiário da sexta-feira, 22/6/, pelo menos em dois jornais de grande circulação, como O Estado de S.Paulo e a Folha de S.Paulo, revela quão pouca consideração merece a inteligência do leitor. Ao noticiarem a terceira recondução – quarto período – do procurador-geral da República Geraldo Brindeiro, aqueles jornais parecem referir a pessoas distintas.
O Estado teve a ousadia de tentar caracterizar como qualidades o que é normalmente apontado com defeito pelo outro jornal, tradicional concorrente. Enquanto a Folha insiste na expressão "engavetador geral", mencionando vários episódios envolvendo escândalos afetos ao
governo federal, sobre os quais nada fez o procurador-geral da República, o Estado publicou que Brindeiro foi mantido no cargo por sua "discrição" , e por manter-se distante das questões polêmicas. Parece que o jornalão pretende concorrer ao Prêmio Nobel em Física, pois tenta transformar a natureza das coisas.
Que um jornal como o Estado seja sempre a favor do governo federal até se admite. Mas, por ser pró-governo, não pode pretender ir contra fatos. Muitas investigações, que seriam da esfera de atribuições do procurador-geral da República, noticiadas pelo jornalão, não foram levadas à frente. É um fato. Portanto, publicar frases atribuídas ao procurador-geral, pelas quais Sua Excelência se defende da acusação de "engavetador geral" ao argumento de autonomia e indepedência – o que o livraria, assim, de ser compelido a processar sem provas –, pretende
passar atestado de débil mental a cada um dos seus leitores. Ao agente incumbido da persecussão penal, para quem não sabe, incumbe investigar pois o delinqüente – de qualquer naipe – não deixa registrado em cartório os delitos que praticou.
Ao publicar tal matéria, só demonstrou o Estadão, mais uma vez, que o papel aceita tudo. O jornal "dourou a pílula" para que ela descesse goela abaixo do leitor, evitando que este ponderasse sobre as mais evidentes razões pelas quais o Presidente da República (que pode ser processado pelo procurador-geral) explicasse o porquê da escolha para o exercício de tão elevado cargo de alguém que se caracteriza pela omissão. Na vã tentativa de justificar o injustificável de um governo, que parece ter perdido o rumo, vem o jornalão atribuir "qualidades" ao procurador-geral recém-reconduzido: é pessoa discreta, distanciando-se das polêmicas!!! Tenta o jornalão mudar a concretude dos fatos, dando outros nomes ao que pretende ocultar.
Pode o jornal estar servindo ao poder de plantão, mas não cumpre a sua função de informar. Não se perca de vista a posição do Estado durante o governo Collor...
Sem gravatas
Parecendo continuar a falar com Marte, o jornalão prossegue em seu intento de adular o poder a qualquer preço. Anunciou na mesma sexta-feira reunião da equipe econômica para o sábado, após a volta do presidente da República de mais uma de suas viagens, tentando demonstrar o controle da governabilidade que mostra-se perdida há um bom tempo. A crise energética, que tomou de surpresa até o governo, bem revela o "dinamismo" de um governo que tenta demonstrar que não acabou, a mais de ano e meio de seu término.
Na edição de domingo [24/6], publica o Estado, com destaque, a referida reunião, acontecida em clima "descontraído", com direito até à ausência de gravatas, com "bom humor", onde importantes decisões teriam sido tomadas, coisa que a Folha não deu o menor destaque. Mas tudo indica que vem por aí mais um "saco de maldades". Alô, alô Terra!!!
(*) Procuradora regional da República, associada do IEDC – Instituto de Estudos Direito e Cidadania

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