SÃO GONÇALO, RJ
Abuso da PM contra jornalista
Adilson Gonçalves (*)
No dia 14 de setembro de 2001, trabalhando como repórter do jornal O São Gonçalo, com o repórter-fotográfico Luis Ackermamm, fui designado pelo chefe de reportagem Flávio Araújo para a cobertura de um caso policial: um cão fila brasileiro havia devorado parte da cabeça de uma criança de 2 meses, matando-a. O fato ocorreu na localidade de Jardim Independência, naquele município. Matéria trágica e de grande repercussão: à comunidade acorreram jornalistas de vários veículos, inclusive da capital.
Por trabalhar em jornal local, fui um dos primeiros a chegar, entrando (e saindo) várias vezes na vila onde estava localizada a casa. À medida que os companheiros de outros veículos chegavam, eu lhes passava as informações sobre o que acontecera. Do conjunto de imóveis, somente a residência onde ocorrera a tragédia havia sido interditada pelos policiais do 7° BPM (São Gonçalo). Os moradores circulavam normalmente pela área comum de acesso às casas. Estranhamente, já que não era comunidade de risco, havia vários policiais e carros, inclusive o subcomandante do batalhão, major Peçanha, e o chefe de Operações, tenente Cariello.
Até hoje credito a confusão armada pelos policiais militares, principalmente por parte dos dois que estavam no comando, a três fatores: a grande repercussão do fato; a presença de vários veículos de comunicação; a maciça presença de moradores da região e sua frustração pelo não-comparecimento de equipes de TV.
Prisão e algemas
Algum tempo depois, para completar a matéria, me ocorreu contar as casas da vila e indagar aos moradores quantas crianças moram ali, correndo o mesmo risco. Com um colega, do qual não lembro o nome, do jornal O Fluminense, como já o fizera tantas outras vezes, retornei ao local. Estranhamente, o major Peçanha disse que a área estava interditada. Repliquei que já entrara ali outras vezes e que somente a casa, onde ocorrera a tragédia, estava fechada, e os moradores circulavam normalmente.
Enquanto argumentava com o oficial, o tenente Cariello, gritando e colocando as mãos no meu peito, disse para que saísse dali imediatamente. Falei a ele que sairia, que não colocasse as mãos em mim. Foi o bastante para ele me empurrar, auxiliado pelo soldado Duarte, o primeiro a chegar ao local, e que durante o todo o transcorrer da ocorrência agira de forma exibicionista, como o protagonista de um espetáculo.
Logo depois de ter sido expulso à força da vila, liguei para a redação informando sobre a impossibilidade de continuar a trabalhar no local. Por estar muito escuro, não notei que estava próximo ao cão que matara a criança. Ouvi os gritos de alerta dos populares, mas não percebi a proximidade do animal. A pretexto de me proteger, os policiais me cercaram, segurando minhas mãos e depois colocando-as às costas, para me algemar.
Cala-boca
Creio que foram cinco os policiais que me agarraram e dominaram. Preso, algemado com às mãos às costas, como um bandido perigoso – e já vi publicadas muitas vezes fotos de traficantes perigosos, como Celsinho da Vila Vintém, algemados com as mãos à frente, até mesmo fumando –, fui colocado numa viatura. A princípio, fui levado para a 75ª DP (Rio D’Ouro), jurisdição do local do incidente. Por ser noite, dali fui levado para a 74ª DP, responsável pelo registro de ocorrências após as 18h. Nesse ínterim, cientes do erro que haviam cometido, os oficiais Peçanha e Cariello acenavam com a proposta de que se eu não levasse o caso à frente eles fariam o mesmo, "não registrando queixa contra mim, com a capa vermelha", que configura delito em flagrante. Não aceitei.
Logo depois, o diretor do jornal, Mário César, e seu editor-chefe, Arialdo Lopes da Silva, foram ao local, acompanhados do advogado do jornal. Ele me instruiu a registrar a queixa, por arbitrariedade, dizendo que eu estava "com a faca e o queixo nas mãos". No entanto, tudo mudou repentinamente. No pátio da delegacia, mas já liberto das algemas, fui chamado por Mário César para uma conversa.
Na presença de Arialdo, em seu carro, com as portas fechadas, ele disse ser portador de uma proposta do filho do dono do jornal: caso eu não registrasse a queixa contra os policiais receberia como gratificação dois salários, além do meu vencimento normal em contracheque. Novamente recusei. O senhor Mário César ainda tentou me convencer, argumentando que o filho do dono do jornal estava sendo "por demais generoso, pois quando seu pai fora seqüestrado mostrou-se irredutível, recusando-se a pagar o montante do resgate exigido pelos bandidos". Ele foi resgatado do cativeiro por policiais do batalhão da cidade.
Relação estreita
Enquanto aguardava no pátio da delegacia minha vez de prestar depoimento ao delegado, entreouvi Mário César e Arialdo Lopes ligando para colegas de jornais que não haviam enviado equipes de reportagem ao local, pedindo que a notícia sobre o incidente no qual eu e os policiais nos envolvêramos não fosse publicado. Através do celular do editor-chefe cheguei a falar com o repórter Sérgio Meirelles, do jornal Extra. Com ele conversei sobre os dois fatos ocorridos, a morte da criança e minha prisão. No dia seguinte, já em casa, ao comprar o jornal vi que somente a notícia da morte da criança fora publicada.
Na quarta-feira da semana seguinte, vim a conhecê-lo pessoalmente: ele foi trabalhar no jornal O São Gonçalo, no cargo de editor. Ele seria efetivado informalmente, pois as Organizações Globo, como várias empresas de comunicação, exigem exclusividade. Alguns dias depois ele pediu afastamento.
Minha prisão não foi noticiada em nenhum outro jornal, nem no São Gonçalo, que teve um seu repórter – no caso, eu, – preso e, as evidências o provam, num gesto de arbitrariedade policial. (Tenho várias fotos documentando minha prisão.)
A relação entre a família Salgado Oliveira, proprietária do jornal O São Gonçalo e de vários estabelecimentos de ensino (fundamental, médio e de terceiro grau) e o comando do batalhão da cidade é estreita. Chega-se a esta constatação observando-se a localização de cabines veículos da PM, em frente às várias unidades de ensino, à sede do jornal, no Alcântara, e em residências da família.
"A madrugada é nossa"
O caso foi encerrado já no início da madrugada de sábado, com os policiais militares saindo com ar de vitória da delegacia. Companheiros, como o fotógrafo Marcos Silva, me alertaram para o risco que poderia correr, pois o batalhão de São Gonçalo sempre foi problemático para o governo estadual. Durante um período, chegou a ser extinto pelo governador, devido a denúncias comprovadas de execuções sumárias.
Para mim, ficou o dilema: o que fazer pela minha segurança? Dormir na redação e voltar ao Rio na manhã seguinte? Ou embarcar numa van, passando por locais ermos, e correr o risco? Houve ainda a sugestão da direção do jornal para que eu pernoitasse em hotel da cidade. Esta, por tudo que ocorrera, me deixou desconfiado. Um motorista do jornal se prontificou a me levar ao Rio, e o fiz com outros colegas, também moradores da cidade.
Do dia da ocorrência, 14 de setembro de 2001, à data de minha saída do jornal, no dia 2 de outubro, sofri todo tipo de intimidação de policiais: à minha passagem alguns levavam a mão ao coldre ou coçavam o queixo.
Ainda no dia do incidente, no gabinete do delegado, claramente dirigindo-se a mim, o major Peçanha, subcomandante do batalhão disse, na presença de várias pessoas: "Em São Gonçalo a madrugada é nossa". Por fim, mais um exemplo da consciência de que haviam incorrido em erro: na semana seguinte foi acenada pelo diretor do jornal a possibilidade da ida do comandante de Policiamento do Interior (CPI), Renato Hotz, à sede do jornal, para um pedido de desculpas em nome da corporação. Talvez ele estivesse preocupado com a repercussão do fato, que poderia prejudicá-lo em relação ao cargo que possivelmente já almejasse à época e que hoje exerce: o de comandante-geral da corporação.
(*) Jornalista profissional