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CADERNO DA CIDADANIA
CENSURA MODERNA Beatriz Singer Deveriam os jornalistas desistir de seus sítios pessoais? A pergunta, feita no subtítulo de um artigo de Carl Sullivan para a Editor & Publisher [24/4/03], soa irônica no momento em que mais um jornalista americano recebe "firme solicitação" de encerrar seu weblog. Agora foi a vez de Denis Horgan <http://www.denishorgan.com/> editor do caderno de turismo do Hartford Courant, em Connecticut. Horgan era colunista no jornal. Perdeu o espaço, foi transferido para a atual função no começo deste ano e resolveu montar seu próprio website em que comenta tudo, de beisebol e união entre homossexuais à guerra no Iraque. "[O blog] me deixava feliz e através dele eu pude fazer coisas que sempre quis", disse Horgan à E&P. "Faço no meu tempo livre, de casa. Não penso em competir com o Courant. Não procuro anunciantes." O editor Brian Toolan, que comunicou o "pedido" de fechamento do blog, vê a história sob outro outro prisma. "Todo o perfil profissional de Denis Horgan é resultado de sua conexão com o Hartford Courant, mesmo ele criando um universo jornalístico paralelo em que comenta sobre instituições que o jornal tem de cobrir, sem qualquer edição supervisionada pelo Courant", afirmou Toolan. "Isso torna o jornal vulnerável." O editor ainda disse que a permissão a um funcionário de dispor suas opiniões em um blog era um mau precedente, já que "há 325 pessoas que poderiam criar [sítio] similares para si", referindo-se aos empregados do jornal. Toolan acrescentou que sua decisão foi baseada no senso comum. "Jornalistas assumem certas responsabilidades em troca de salários e benefícios", afirmou. "Há restrições com as quais concordamos", disse Horgan, em relação a seu editor, "mas não acho certo abrir mão do direito de sentar na sala de minha casa e digitar observações [sobre outros jornais]". No último post de seu blog, publicado em 17/4, o jornalista afirmou que o editor do Courant, "um jornal maravilhoso e digno no qual me sinto honrado em trabalhar", julgou que seu blog estabelecera um "conflito de interesses" e ordenou que a coluna não fosse mais publicada na web. "Não é meu papel explicar esta decisão, com a qual discordo profundamente, mas não tenho opção outra que não suspender as atividades daqui... A página continuará aberta...e a função ‘feedback’ continuará ativa caso alguém queira continuar a discussão", escreveu. "Sinto muito que as coisas tenham atingido esse estágio e que a promessa com a qual esta iniciativa fora lançada seja extinta. Para mim, parecia uma ótima idéia." A idéia é mesmo boa e responde a pergunta inicial. Até que se receba um pedido oficial da empresa jornalística para interromper as publicações em blogs, os jornalistas devem continuar escrevendo em seus próprios espaços. E se receberem a solicitação de fechar o sítio, que o último post esclareça o que houve, como no blog de Horgan, para que a censura seja escancarada. Censura faz história O mais recente caso de censura a blogs (até Denis Horgan) havia sido de Joshua Kucera, free-lancer da revista Time, então no Iraque. Seu blog pessoal, "The Other Side" <http://www.serendipit-e.com/otherside>, não é atualizado desde 28 de março, logo após a revista, uma unidade da AOL Time Warner, pedir silêncio. Dias antes, a CNN.com também havia emudecido o blog de Kevin Sites <http://www.kevinsites.net> outro correspondente, que interrompera as publicações em 21/3 com uma mensagem aos leitores em que dizia que foi "solicitado a suspender" seu blog de guerra "por uns tempos." "Meus editores me mandaram parar de publicar neste sítio até que a guerra termine", escreveu Kucera, em 25/3. "E eles pagam as contas, o que se pode fazer?" Em 28/3, Kucera voltou ao blog para publicar seu último post. "Eu sei que disse que pararia de publicar aqui, mas quero dizer minhas últimas palavras", escreveu. "De alguma forma, aos meus visitantes mais recentes, tornei-me símbolo de uma voz independente sendo encoberta pela mídia corporativa. Ironicamente, recebo mais visitas agora que fui proibido de escrever por causa de referências por toda a net ao meu ‘silêncio’. Um jornalista não gosta de se tornar notícia, e sinto que estou sendo usado contra minha vontade como um exemplo do monólito terrível da mídia americana". E prossegue: "Estou feliz de ser americano e por trabalhar na mídia de massa. Eu estava feliz por ter este blog e ficaria feliz se muitas pessoas o lessem pelo que é, não como um símbolo de algo ruim". Após sofrer censura, Horgan aliviou o discurso e agora sai em defesa de sua empresa empregadora. | ||