PREFEITOS & FACTÓIDES
Gilberto Dimenstein

"Marta está certa", copyright Pensata (www.folha.com.br/pensata), 23/01/01

"Brocha em punho, a prefeita Marta Suplicy participou do mutirão, sábado passado, para limpar o estádio do Pacaembu, tentando construir o símbolo de uma cidade que reage à sujeira. Apenas uma jogada de marketing?

A primeira – e óbvia – leitura é que Marta Suplicy manipula os meios de comunicação, oferecendo-lhes cenas de apelo cinematográfico, para desenhar a imagem de alguém preocupada com a cidade.

Tradução instantânea: factóide, obra destinada apenas para o consumo noticioso. Empulhação para compensar a incapacidade de mostrar ações mais concretas. Talvez. Ainda é cedo para dizer se esse tipo de fato é entulho mercadológico – apesar de Marta estar revelando um certo pendor ao deslumbramento.

Por enquanto, estou disposto a achar que ela está certa. Nada há de demagógico, em tese, na produção de fatos que mostrem cinematograficamente o corpo a corpo de um político contra problemas sociais.

O governante tem o direito de criar símbolos que facilitem, sintetizem e traduzam as prioridades de uma administração. Vivemos numa sociedade de massas, marcada pelo excesso de informação. Nada há de errado em o governante, seguindo as regras do jogo da mídia (você vale quanto aparece), facilitar o entendimento de suas mensagens, fixando uma imagem.

A sujeira física de São Paulo serve como analogia para a sujeira moral. A parceria, traduzida no mutirão, é apresentada como essência da administração. O mutirão do Pacaembu, portanto, traduz habilmente essa mensagem.

É obrigação da nova prefeitura transmitir o sinal de que, depois de tanto abandono, São Paulo está sendo acolhida, respeitada e cuidada. Seria um suicídio se aguardasse, trancada em seu gabinete, o resultado das ações coordenadas pelos assessores e secretários - algo que demora.

O símbolo vira factóide – e aí apenas uma empulhação – se estiver descolado da consistência administrativa. Por mais importante, por exemplo, que seja a consciência dos moradores para a limpeza da cidade, quem varre as ruas é a Prefeitura. Se não estiver varrendo direito, as cenas da prefeita com a brocha ficam ridículas, insossas, e ganham o status semelhante ao dos marajás, de Fernando Collor."



O Globo

"Cesar discutirá regulamentação de pesquisas", copyright O Globo, 26/01/01

"O prefeito Cesar Maia disse ontem, durante reunião com sua equipe de Governo no Riocentro, que vai receber um representante da Associação Nacional de Institutos de Pesquisa (Anep) ainda esta semana para conversar sobre a auto-regulamentação do setor. Cesar disse que os institutos concordam com ele sobre a necessidade da auto-regulamentação e que, se isso acontecer, assinará um ato anulando a validade do decreto que baixou no primeiro dia de seu governo, determinando que os institutos que quiserem divulgar o resultado de suas pesquisas têm de se submeter a uma auditoria externa.

- Eles estão preocupados também. Acham que eu tenho razão no conteúdo. Eles estão preocupados com a picaretagem que está existindo nesta área. Antes você tinha três, quatro institutos. Agora existe uma salada. O cara inventa um nome e diz que é um instituto de pesquisa - disse Cesar.

O presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, explicou que a auto-regulamentação está em discussão na Anep há dois anos, desde o fim das eleições de 1998. Segundo Montenegro, a discussão não foi provocada pelo decreto de Cesar.

Cesar disse que, em relação aos grandes institutos, a discussão é sobre amostragem, mas que este não é mais o problema. Agora sua preocupação é com os inúmeros institutos de pesquisa que são criados. Para ele, o maior prejuízo pode ser causado por pesquisas de mercado malfeitas. O prefeito defendeu seu decreto dizendo que ele foi classificado como um factóide, mas que continua válido.

- Hoje é dia 25. Uma coisa que afeta a liberdade de expressão é derrubada em 24 horas. Isso é um princípio constitucional da maior relevância - disse Cesar."



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