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"Vestibular não tem exame psicológico"
Entrevista de Edson Stefanin
O Dr. Edson Stefanin, chefe da UTI do Hospital Sírio e Libanês de São Paulo, viveu em janeiro deste ano um episódio que considera caraterístico das relações difíceis entre médicos e jornalistas. Foi a internação do ex-prefeito Paulo Maluf, com o nome de Paulo Maurício, para fazer uma cirurgia de câncer da próstata.
Inútil uma pessoa como Paulo Maluf tentar ficar incógnita num hospital de São Paulo. A primeira enfermeira que entrar no quarto vai espalhar a notícia no mínimo para a torcida do Corinthians. Também foi inútil tentar esconder que se tratava de câncer da próstata. O ex-prefeito quis despistar. Raul Cutait, diretor-clínico do hospital, que havia sido seu secretário de Saúde na Prefeitura, distribuiu nota dizendo que se tratava de "cirurgia para correção de obstrução prostática", mas a reportagem da Folha de S.Paulo, por exemplo, já chegava bem perto da verdade na primeira notícia, em 3 de janeiro: "O ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf foi operado ontem, às 8h, para retirada completa da próstata. A Folha apurou que Maluf tinha um pequeno tumor. O órgão retirado foi submetido a exames a fim de verificar se o tumor era benigno ou maligno, conforme a praxe nesses casos." E, adiante: "Funcionários do hospital informaram que foi realizada uma prostatectomia radical, cirurgia utilizada para a retirada da próstata e das vesículas seminais. Especialistas ouvidos pela Folha afirmam que a prostatectomia radical só é realizada quando há uma suspeita de câncer localizado."
Na opinião de Edson Stefanin, o que deu errado na história foi a tentativa de despistar a imprensa. "Mas a imprensa ficou lá na porta 24 horas. Alguém acabou descobrindo que poderia ser câncer. Os médicos não estão preparados para isso, como, mal comparando, ninguém está preparado para ser assaltado por alguém que fica o tempo todo à espreita."
O médico afirma que o boletim médico, em princípio, é seco. "Se for desejo do paciente, faz-se relatório completo. É melhor, porque todos ficam devidamente referenciados com os seguintes elementos: antecedentes, condutas indicadas, o que foi feito, resultado obtido e prognóstico."
Não se pode tirar o direito do paciente à privacidade. O médico deve respeitar a ética. "Mas, quanto mais claro o médico for, com o intuito de esclarecer, melhor. O compromisso do jornalista é ser claro também."
Segundo Stefanin, a imprensa presta serviço se conversa com médicos sérios da área:
- É preciso separar quem quer fazer propaganda, quem tem a síndrome do holofote. "Meus 15 segundos de glória." Muitas vezes está lá para fazer propaganda.
O chefe da UTI do Sírio e Libanês relata que foi a um programa de televisão falar de UTI, explicar o significado do tratamento intensivo. Deparou-se com o seguinte conceito, corrente na imprensa: "UTI é um lugar onde as pessoas entram para morrer" (1):
- Vão morrer ao lado de gente que está morrendo. Mas é o caso de se perguntar: toda a técnica e recursos especializados são usados para isso? Quem vai morrer, morra dignamente no quarto do hospital, em casa.
Segundo Stefanin, a medicina é uma profissão e uma ciência que beira o charlatanismo. "O limite que a divide da picaretagem é muito estreito. E há um comentário que se faz nos hospitais: vestibular não tem exame psicológico. Não se avalia a personalidade. Há médicos sem nenhuma preparação, que vendem soluções miraculosas."
Edson Stefanin acha necessária uma denúncia séria da estrutura da saúde. Preconiza a realização de movimentos que aproximem médicos e jornalistas para que aprendam juntos a trabalhar. Benefícios para os dois lados. "É preciso aprender a usar os recursos da mídia para educar, divulgar conhecimento, promover saúde. E dar à imprensa plenas condições para fazer um trabalho de informação didática."
(1) Eis o que publicou a Folha de S.Paulo em 18/2/97, citando Darcy Ribeiro sem qualquer contestação ou ponderação: "UTI é uma m..., UTI fede. Só fica lá quem está querendo morrer. Um monte de gente gemendo, esperando a morte. Pedi para o médico me dar alta. Ele não deu, então eu fugi."
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Lembram-se do médico da família?
Alberto Dines
Vamos por partes, como dizia no meio da sua faina Jack, o Estripador.
* A mídia em matéria de saúde & medicina & ciência é, em geral, sensacionalista e simplista.
* O poder público, por falta de recursos, não tem capacidade de desfazer as "ondas" armadas pela mídia.
* O paciente-cidadão-leitor, porque carece de uma base cultural mais sólida, navega desnorteado, sem condições de defender-se das manchetes alarmistas ou salvacionistas.
* Restam os médicos e, com eles, a pergunta: não poderiam exercer também um papel de educadores e consultores?
A Arte de Curar compreende também uma Arte de Esclarecer. Acontece que o médico de hoje, geralmente, está mais preocupado com a Doença do que com o Doente.
Os médicos do serviço público não têm tempo - numa consulta de 15 minutos pode-se avaliar os sintomas mais gritantes e receitar a medicação imediata. Sem tempo para levantar o histórico familiar, menos ainda para dois dedos de prosa capazes de orientar o paciente.
Os médicos privados (em geral os mesmos, no expediente da tarde) têm a agenda apertada. A grande maioria, recém-chegada de um congresso, está preocupada com a tecnologia de ponta e a pílula da última geração. A sala de espera cheia, não há tempo para desempenhar o papel do "médico de família" - lembram-se? - aquele que tratava de todos os membros da família, conhecia todos os chiliques e achaques, tinha explicação para tudo. Sobretudo tinha tempo e disposição para ouvir e falar.
O médico privado, assim como o jornalista, presta um serviço público - pode ganhar muito dinheiro mas não pode esquecer seu compromisso com a saúde, o bem-estar e a vida do cidadão. A maquina de faturar - em que se converteram a grande maioria dos consultórios particulares - nada tem a ver com esta tripla missão.
O corporativismo médico brasileiro é um dos mais retrógrados e anti-sociais. Enquanto os jornalistas já começam a auto-criticar-se em público, os médicos brasileiros jamais se dispuseram a discutir abertamente os descaminhos para os quais muitos colegas empurraram a profissão. Parceiros de Deus, arrogantes, sua infalibilidade não pode ser posta em questão.
Além disso, há o mercantilismo, em outras palavras - a grana preta. A sempre instrutiva Veja (edição 1495) publica em apenas duas páginas um dos maiores libelos contra a medicina privada e seu cúmplice predileto, o jornalismo médico-mundano. Divulgar o nome de um cliente é antiético, fere o princípio da confidencialidade, o sigilo contratual entre o doente e aquele que deve curá-lo. Sem entrar no mérito da matéria (a extorsão de cobrar 1.200 reais por uma consulta que o Conselho Regional de Medicina deveria investigar), é inimaginável que médicos sérios numa publicação séria estejam fazendo propaganda enganosa de seus divinos atributos curadores usando outras pessoas - sem a necessária licença - para comprová-lo.
O pessoal da linha natureba (medicina alternativa), certamente dará urros de felicidade ao ler as linhas acima. Mas acontece que entre os "médicos de ouro" fotografados por Veja há dois profissionais ortomoleculares (teoricamente alternativos, já que os planos de saúde não reembolsam consultas com médicos desta orientação).
Este Observador já andou num consultório de um Prof. Dr. da linha ortomolecular - ninguém é de ferro. Sua pressa era a mesma dos alopatas tradicionais ou dos tecnólogos vanguardistas. Não tinha tempo para explicar e, sobretudo, ouvir. A informação do paciente não lhe importava, ele tinha a sua verdade, o cliente, para ele, era um ser passivo, sem direito a opinar.
Portanto, o problema da medicina privada brasileira não reside nesta ou naquela linha terapêutica. É uma questão que resvala no papel do médico numa sociedade como a nossa, servida por uma imprensa como a nossa - sua consciência profissional, seu senso de solidariedade, sua responsabilidade e, principalmente, compostura.
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Reparação, nem tardia
Norma Couri
Há oito anos o dentista Maximiliano Giona Gangemi teve um surto esquizofrênico no consultório onde trabalhava. Internado às pressas na clínica Santa Mônica, em Petrópolis (RJ), acabou transferido para a Pensão Margaridas do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, especializada no tratamento de psicóticos em tempo integral. Dez dias depois da internação, na manhã de uma segunda-feira, e depois de um tratamento de sonoterapia aplicado após forte crise, Maximiliano começou a passar mal. Foi levado ao Hospital Miguel Couto, onde morreu na noite do mesmo dia. Tinha 25 anos.
O laudo cadavérico indicando "intoxicação exógena" não deixou dúvidas ao pai do dentista, Giuseppe Gangemi. Maximiliano teria sido morto por excesso de barbitúricos ministrados pelas atendentes da clínica sob supervisão de uma das sócias, a psiquiatra e psicanalista Carmem Dametto, 47 anos. Disposto a acabar com a carreira da médica, Giuseppe levou o caso a julgamento no Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro. Dois anos depois Carmem acabou condenada pelo Cremerj a um mês de suspensão.
Prato cheio: a condenação da médica foi noticiada no Jornal Nacional, da Rede Globo, virou manchete dos jornais do Rio e tema de conversa em diversos programas populares de rádio sobre a eficiência da psicologia, psiquiatria e psicanálise na cura dos doentes - Carmem foi crucificada sem ser ouvida. Cumpriu a pena. A Pensão Margaridas fechou, os envolvidos sofreram abalos profissionais em suas carreiras mas nem o pai do dentista nem a médica sossegaram. Giuseppe considerou a sentença "um prêmio, um mês de férias". Carmem, inconformada depois de anos de carreira bem-sucedida, seminários, congressos e livros publicados, dedicou-se com obsessão à limpeza do seu nome. As duas partes recorreram ao Conselho Federal de Medicina, que o remeteu novamente ao Cremerj. Giuseppe Gangemi decidiu levar o caso à Justiça comum, acusando Carmem de assassinato. Condenada a dois anos de prisão, ela recorreu.
A sentença final saiu no começo deste mês. A juíza Salette Maria Polita Maccalóz, da 7a Vara de Justiça Federal, considerou o processo um poço de irregularidades. Suspendeu os efeitos da execução da pena impostos a Carmem, anulou o primeiro julgamento e a condenação - embora a médica já tivesse sido suspensa por um mês. Na sentença publicada no Diário Oficial do dia 8/5/97, a juíza alega: "Não lhe foi [a Carmem] permitida a produção de prova pericial, os depoimentos e teor dos documentos foram flagrantemente distorcidos para se encaixarem na tese condenatória, os pedidos de diligências probatórias foram negados e no contexto do acórdão [a médica] fôra taxada com expressões injuriosas. (....) O processo administrativo, moral e ideologicamente, não existe, porque duas figuras importantes se confundem numa só: o Conselho [Regional de Medicina] é parte e julgador ao mesmo tempo".
Decidida a corrigir as manchetes de seis anos atrás ("Psiquiatra é suspensa um mês por causar morte de paciente" - Jornal do Brasil de 7/6/91, e "Médica é Punida com 30 Dias de Suspensão" - O Globo do mesmo dia), Carmem tenta em vão reabrir o caso na imprensa para discuti-lo em condições mais justas e repetir o que disse desde o momento da morte do dentista, mas ninguém ouviu.
"O LSD homeopático não é nem uma droga nem uma aberração: vem sendo utilizado há anos no tratamento dos internos da Colônia Juliano Moreira e no mundo inteiro em pacientes que apresentem os sintomas de violência de Maximiliano Gangemi", diz Carmem Dametto. "A medicação ministrada na Pensão era compatível com a massa física do paciente e vinha sendo gradativamente reduzida desde a sua transferência da clínica de Petrópolis, onde recebeu altas doses de medicação forte. O paciente morreu de mal-súbito, até agora inexplicável porque só as denúncias dos familiares foram ouvidas".
Nenhum jornal ou revista reabriu o caso. Nenhum jornal de televisão comentou a decisão recente da Justiça Federal. A violenta morte de um paciente violento de 25 anos, sob medicação, não requer aprofundamento.
Página virada. Ninguém se interessa em rever o que a Justiça Federal reviu. Assunto, agora, só se o morto falasse.
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