As partes anteriores deste Dossiê foram publicadas quinzenalmente desde o número 21, edição de 5 de maio de 1997, e podem ser lidas na seção Cadernos, nas Edições anteriores.

Nesta edição, o Dossiê Saúde publica artigo de Victor Gentilli ("Sempre te vi, nunca te amei") sobre o seminário Jornalismo, Cidadania e Saúde, que reuniu em Vitória, no início de junho, médicos e outros profissionais de saúde, jornalistas, assessores, militantes de ONGs para debater o jornalismo de saúde praticado no Espírito Santo. A Universidade introduziu-se como um estranho na relação entre duas áreas profissionais que se parecem em certas formas de organizar sua prática, se relacionam o tempo todo, mas "não se bicam".


O presidente do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais, Ricardo Menezes, chama a atenção, em "Imprensa não assimilou conceito de Saúde universal", para o que considera uma visão distorcida dos meios de comunicação, "a antiga concepção de Saúde enquanto garantia para quem produz, negligenciando o princípio de que Saúde é um direito constitucional".

Em "Pequenos curativos", Mauro Malin aponta informações erradas em reportagem de Veja sobre médicos milionários, já comentada por Alberto Dines em "Lembram-se do médico da família?", no Dossiê Saúde II.


Sempre te vi, nunca te amei

Victor Gentilli, jornalista, professor da UFES



- Conhece a diferença entre um médico e um jornalista?

- Não.

- É que o médico se acha Deus.

- E o jornalista?

- Tem certeza de que é!


No Espírito Santo, dias 5 e 6 de junho, a Universidade intrometeu-se onde não foi chamada. Reuniu médicos e outros profissionais de saúde, jornalistas, assessores, militantes de ONGs para debater o jornalismo de saúde praticado localmente. Mexeu num vespeiro - ou melhor, qual é mesmo o coletivo de Deus?

Anedotas à parte, o workshop Jornalismo, Cidadania e Saúde foi incrivelmente rico, mas gerou desconforto, mal-estar, incômodo e tensão. Afinal, um elemento estranho introduziu-se numa relação entre duas áreas profissionais que se relacionam bastante mas não se bicam. A experiência, que julgo pioneira, induziu artificialmente um diálogo que em circunstâncias normais jamais ocorreria.



Jornais e hospitais se assemelham na organização de sua rotina. Ambos só processam fenômenos idiossincráticos, como lembra Gaye Tuchman. Em outras palavras, o "normal", o previsível, sem novidade, fica de fora. O que foge da normalidade, no jornal é notícia, no hospital é paciente. Se é o mais grave de todos, no jornal vai para a manchete, no hospital para a mais equipada UTI. De qualquer forma, há outros espaços na primeira página ou outras UTIs, para aqueles igualmente graves, mas não o maior de todos. Se é simples, fica na geral, seja a editoria, seja a clínica. Se tem alguma especificidade, vai para a especialidade e suas sub-especialidades. Economia ou Esportes são grandes especialidades. Finanças e Futebol, sub-especialidades. Pediatria é uma entre tantas especialidades, igualmente com suas subs.

Os profissionais de ambas as organizações - jornais e hospitais - trabalham com um sentido de urgência que outros profissionais desconhecem. As operações e matérias realmente urgentes não podem ficar para o dia seguinte (embora matéria tenha deadline, operação não). Tal circunstância impõe rotinas, hierarquias, plantões, tudo muito parecido, mesmo que completamente diferente. Tenta-se prever tudo com antecedência, para que o processo não seja paralisado.

Embora trabalhe-se com alta previsibilidade, a organização está sempre preparada para o imprevisível, eis a matriz da urgência, seja ela médica ou jornalística. Além disso, o erro muitas vezes é incorrigível. Aliás, todo este conjunto de circunstâncias impõe uma concepção de erro às vezes diferente daquela do cidadão comum.

O erro é sempre grave. Porque ambos os profissionais, o médico e o jornalista, trabalham em relação direta com outros seres humanos. Perguntam, entrevistam, atendem, enfim: dialogam com o outro e o resultado do trabalho tem um dos seus pilares nesta relação. O fato é que, para o homem comum, ser o "outro" na relação com médico ou jornalista é sempre preocupante. O profissional, domina um saber, uma técnica ou um poder que quase sempre incomoda na relação. Tudo isso pode gerar - ou produzir a aparência de - arrogância, prepotência etc.

Grosso modo, o médico não pode ser imperito, imprudente ou negligente; o jornalista não pode cometer calúnia, injúria ou difamação. A falta de rigor, a imprecisão são erros graves, para ambos.

Apesar de todas estas semelhanças, há uma diferença fundamental no trabalho de médicos e jornalistas. Os jornalistas operam essencialmente as ocorrências da chamada esfera pública. Ou melhor (pior?), seu trabalho faz as ocorrências selecionadas como noticiáveis tornarem-se públicas. Por outro lado, os médicos operam essencialmente na esfera privada. E quando tornam públicas suas ocorrências, cometem delitos éticos.

A pessoa comum - que podemos chamar também de "homem privado", de leitor, de cidadão, em geral, quer distância dos dois. Embora consuma o produto final do trabalho do jornalista, inclusive quando ele trata de assuntos de saúde. Porque ele sabe que, se na vida tudo andar direito, ele tem risco quase zero de ser o "outro" do jornalista. Uma vez ou outra, pode vir a ser o "outro" do médico. Neste caso, a palavra escolhida já diz tudo: paciente.

O chamado "homem público" quer distância apenas do médico. Gosta muito de um jornalista por perto. No entanto, quando freqüenta o consultório, quer o jornalista o mais longe possível. O "homem público" gosta do jornalista por perto apenas no seu momento público de vida. Norberto Bobbio, este vecchio fantástico, já mostrou em um de seus livros que a distinção público x privado é mais complexa do que se pensa porque a expressão público pode ter dois sentidos, radicalmente distintos: oposto de privado e oposto de secreto. Vale a pena os jornalistas pensarem um pouco nisso. Os médicos e os leitores, também.

Os problemas de saúde, hoje, exigem muita informação pública, muita comunicação: Aids, dengue, meningite e outras pandemias, epidemias ou endemias (o jornalista sabe a diferença entre uma e outra?) têm na informação um dos seus elementos decisivos. Esta publicização, no entanto, não pode invadir o terreno privado. Este o elemento decisivo para a ética, a chave que desvenda o fator unificador tanto da ética médica quanto da ética jornalística.



o O o



O workshop dos dias 5 e 6 de junho, que me propiciou pessoalmente estas reflexões, foi fruto de uma parceria entre o professor Bernardo Kucinski, da ECA-USP, bolsista da Fundação MacArthur, e o autor deste texto, coordenador de uma pesquisa sobre o noticiário de saúde e educação nos jornais impressos diários do Espírito Santo, A Gazeta e A Tribuna, patrocinada pela Prefeitura Municipal de Vitória. Igualmente pesquisador do tema, o bolsista de Iniciação Científica Ademir Pereira da Cruz Jr. coordenou o evento.

O workshop contou com três módulos. No primeiro, na tarde de 5 de junho, o jornalista Bernardo Kucinski apresentou seu projeto de criação de cursos de graduação, pós-graduação e extensão em jornalismo de saúde. O relato de uma pesquisa que envolveu os estudantes Andréia Silva Lopes, Luciana Cristina Pereira, Ademir Pereira da Cruz Jr. e Leonêncio Nossa Jr. foi o mote para a discussão. O professor Victor Gentilli e o pesquisador Ademir Pereira apresentaram os resultados parciais da pesquisa que envolveu todo o noticiário de saúde nos dois jornais diários do ES de julho de 1996 a fevereiro de 1997.

A pesquisa estudou todas as notícias (num total de quase 850) que tinham relação com o tema saúde em todas as editorias. Um dos estudos feitos foi relativo à presença de fontes. De um modo geral, as fontes oficiais e a população em geral são as fontes mais presentes, representando, grosso modo, 50% da vocalização expressa no noticiário. O movimento sindical e os especialistas na área representam juntos algo em trono de 25% das fontes citadas. Os movimentos sociais e as Organizações Não-Governamentais estão praticamente excluídos do noticiário. O grupo Pela Vidda, ONG de apoio a doentes de Aids, é a única ONG presente no noticiário. Todas as fontes com presença marcante no noticiário foram entrevistadas demoradamente pelos pesquisadores e evidenciaram as suas dificuldades de relacionamento. De um modo geral, a pressa, a urgência dos jornalistas foram muito criticados. Alguns chegaram a observar uma quase chantagem expressa na expressão "vou publicar a matéria amanhã e se o senhor não falar vou publicar que o senhor não quis falar à imprensa".



Jornalismo declaratório e pautas perdidas

De forma resumida, a pesquisa apontou as seguintes conclusões:


1. A ênfase no jornalismo declaratório é ostensiva. Ela se agrava no fato de que grande maioria das fontes são oficiais.

2. A única ONG presente, o Grupo Pela Vidda, movimenta-se para ter presença na imprensa. ONGs importantes na área de saúde, como Alcoólicos Anônimos, Centro de Valorização da Vida, grupos de apoio a hansenianos, a tuberculosos, a fissurados, entre outros, estão ausentes do noticiário.

3. Embora o estado produza material de qualidade em pesquisa de doenças tropicais e fisiologia cardiovascular - duas pós-graduações muito bem avaliadas pela Capes - suas pesquisas e seus pesquisadores estão totalmente ausentes da imprensa. Perdem-se pautas excelentes sobre hanseníase, tuberculose, malária, leishmaniose, esquistossomose e outras, praticamente ausentes da pesquisa no período pesquisado.

4. Há uma dificuldade de diálogo muito grande entre jornalista e fonte. Particularmente com os especialistas. A desconfiança é mútua.

5. Apesar do espaço para o noticiário de saúde ser relativamente grande, ele não conta com editoria própria nem repórteres especializados. Violência, esportes e cultura, por exemplo, têm editorias e jornalistas especializados. Saúde divide espaços com educação, meio ambiente, transporte, trânsito, clima, serviços, feriadões, etc. numa editoria chamada geral ou cidades.

6. Registre-se o espaço para a saúde nas reportagens especiais de A Tribuna (que, aliás, desmentem aqueles que dizem que a grande reportagem morreu) e a seção Medicina publicada aos domingos por A Gazeta. Em A Tribuna, a maioria das matérias é assinada por Giovana Rangel. Em A Gazeta, a seção é de responsabilidade da free-lancer fixa Denise Gonring. Tal seção na maioria das vezes é editada sem destaque, abaixo de uma coluna adquirida da agência JB.

Os jornalistas, com exceção das acima citadas e de uns outros poucos, não estão preparados para a cobertura. Seja pelas condições de trabalho, seja pela própria cultura profissional. Da mesma forma, os profissionais de saúde não estão sensibilizados para a importância da informação pública produzida pelo jornalismo para a melhora das condições de saúde da população.


Pressa X insensibilidade

No segundo dia, pudemos ver a avaliação dos participantes diretos do noticiário.

Dia 6, uma mesa-redonda reuniu as duas editoras de geral/cidades dos dois jornais, Tanit Mário, de A Gazeta, e Alelvi Carneiro, de A Tribuna, a presidente do CRM (Conselho Regional de Medicina) capixaba, Sandra Martins, os secretários municipal e estadual de saúde, Anselmo Tose e Luís Carlos Ciciliotte (este último subsecretário) e o coordenador da pós-graduação em doenças infecciosas da UFES, Reinaldo Dietze.

Os problemas de comunicação apontados individualmente nas entrevistas com os pesquisadores foram expostos num momento em que os profissionais estavam frente a frente. Os médicos enfatizaram os erros dos jornalistas, a pressa, o poder autoritário do jornalista. Os jornalistas esforçaram-se por produzir explicações para os problemas apontados. E observaram a falta de sensibilidade dos médicos com as circunstâncias de sua atividade profissional.

Por fim, uma sessão de relatos de 'casos' extremamente rica: assessores, jornalistas e médicos relataram suas experiências.

A iniciativa do Nexo - Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão da Universidade Federal do Espírito Santo não se encerra aí. O trabalho certamente terá desdobramentos em outras iniciativas.

Uma delas é um workshop sobre jornalismo e educação, previsto para breve, com a segunda parte da pesquisa.

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Imprensa não assimilou conceito de Saúde universal

Ricardo de Menezes Macedo - presidente do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais



É impressionante a visão oficialista da imprensa em relação ao tema Saúde. Entendo que esse vício não ocorre apenas pela escassez de crítica. Acontece que, historicamente, no Brasil, o acesso à Saúde sempre trilhou os caminhos da produção do capital.

Na chegada do primeiro médico às terras brasileiras, em 1543, seu trabalho era voltado para a saúde dos que detinham poder e para os que necessitavam possuir uma vida saudável a fim de que pudessem produzir riquezas. Na industrialização do país, quando se deu o controle de grandes epidemias, o foco da assistência à saúde ocorreu nas indústrias e nos portos, objetivando melhorar a qualidade de vida daqueles que produziam capital. Assim aconteceu com os institutos previdenciários - somente os trabalhadores formais possuíam a carteirinha do Inamps e podiam usufruir do sistema público de saúde - e, mais recentemente, é o que pretendem os atuais planos de saúde privados, em que só quem puder pagar terá acesso à saúde.

Aqueles que não tinham real importância na produção de riquezas eram os chamados indigentes, atendidos por instituições filantrópicas e notadamente hospitais públicos, sem qualquer proteção legal.

Foi com a Constituição de 1988 que a Saúde passou a ter uma concepção de universalidade. Pela primeira vez, no país, o acesso à Saúde Pública não dependeria do papel desempenhado pelo cidadão na força de trabalho, mas do fato de ser simplesmente gente.

Mas, por não ter ainda assimilado essa inovadora e democrática concepção de Saúde - formalizada sob a sigla SUS (Sistema Único de Saúde) -, a imprensa nacional continua abordando o assunto sob a antiga concepção de Saúde enquanto garantia para quem produz, negligenciando o principio de que Saúde é um direito constitucional.

A assimilação de um conceito novo é sempre lenta. Isso é compreensível. No entanto, há que se ter em mente que o que está em jogo, no momento, é a manutenção ou não desse sistema, já que a reforma da Saúde pretendida pelo governo federal, notadamente na Reforma Administrativa e no projeto de regulamentação dos planos de saúde, tem na sua essência a privatização do sistema, abrindo a oferta de leitos hospitalares para ser regulada pelo mercado.

O governo, alegando que a universalidade é incompatível com a possibilidade de financiamento do sistema, propõe, através de dois mecanismos, as Organizações Sociais e a Regulamentação dos Planos de Saúde, uma "parceria" com o sistema privado. Com isso, tenta-se garantir o atendimento público de Saúde apenas à população pobre, oferecendo-lhe uma cesta básica da Saúde e deixando os cuidados especiais para o esfomeado mercado, o qual poderá escolher quem ocupará determinado leito hospitalar, por exemplo. Assim é que o governo federal coloca a população mais pobre e obviamente com menos poder político numa condição de suposta importância, enquanto, na verdade a está condenando à morte, por não ter o menor poder ou importância num mercado que lhe é hostil.

O que se pretende é a absurda e desumana volta da indigência. A supremacia do mercado sobre a própria vida. Ora, saúde não é mercadoria! O Sistema Único de Saúde (SUS) tem uma das legislações mais avançadas sobre direito constitucional, controle social e eficiência por combate às fraudes que existe em todo o mundo. No entanto, falta-lhe um financiamento adequado para que efetivamente funcione, como pretende a "Emenda Constitucional 169" a ser votada no próximo mês de setembro, no Congresso Nacional.

A imprensa ainda está subordinada ao pensamento administrativo vigente e acompanha com poucas críticas o avanço da privatização da Saúde. Algumas Santas Casas já perderam a Misericórdia que adotavam nos seus nomes. Isso é muito sintomático, já que o fim da misericórdia se deu com o ingresso das instituições filantrópicas na política de mercado. A imprensa não pode perder a crítica, atualmente reduzida a questões morais, para permitir a volta da indigência. Ainda não assimilaram a Saúde como um direito fundamental.

A Europa já despertou suas atenções para a necessidade de políticas sociais. Nos campos político e intelectual, vários setores da sociedade se mobilizaram para o resgate do pensamento humano, pela valorização dos direitos do trabalho e à vida. Chegar ao primeiro mundo parece que tem outros caminhos que não apenas a subserviência a uma economia brutalizada.

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Pequenos curativos

M.M.



Veja publicou na edição de 14/5 uma reportagem ("A peso de ouro") em que consultas médicas são apresentadas como artigos de consumo de luxo.

Anotem-se, como se fossem pequenos curativos, as seguintes imprecisões:

1. O médico cuja consulta tem preço mais elevado (Geraldo Medeiros, R$ 1.200,00, endocrinologista), é apresentado como "professor titular da Universidade de São Paulo", mas não o é. Há alguns meses perdeu um concurso para titular na USP.

2. O médico Walter Guerra Peixe (consulta a R$ 280,00) foi afastado da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

3. A médica Mariana Jacob (geriatra, consulta a R$ 600,00) escreveu na semana seguinte a Veja - a carta foi publicada - desmentindo que Roberto Marinho tenha sido um de seus clientes, como está no crédito junto a sua fotografia e no texto.

4. A reportagem não menciona que, em sua maior parte, os exames solicitados nos consultórios-ribaltas, que tornam as consultas mais caras, são considerados ilusórios pelos chamados "médicos tradicionais".

Mas, como diz um dos médicos incensados por Veja, "cinqüenta por cento da minha clientela é de artistas e políticos. Eles dão entrevista, falam meu nome na televisão e atraem novos pacientes".

Com certeza. Entre os luminares científicos e intelectuais citados na revista para atestar a competência dos médicos de luxo estão, além deles mesmos, Hebe Camargo, Luma de Oliveira, Marcelo Serrado, Marcelo Novaes, Diogo Vilela, Luiz Fernando Guimarães, Letícia Spiller, Luiza Brunet, Ricardo Amaral e Cláudia Raia. Quantum satis para Veja publicar a reportagem.

Leia também:
Lembram-se do médico da família?"

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