
FSP & NO LIMITE
A gênese do factóide
Colaboradores do Observatório da Imprensa têm abordado com freqüência e discernimento as relações íntimas entre Grupo Folha e as Organizações Globo, atestadas pelos veículos de mídia controlados por esses conglomerados. Entretanto, me parece que a prova mais descarada dessa tal cartelização (para usar um termo querido do O.I.) passou quase em branco: a atenção desmesurada que a Folha tem dado a No limite", atração global das últimas noites de domingo. Desde o início da última edição da gincana-safári, encerrada em 25/3, a Folha Online tem dedicado uma seção completa sobre o assunto, cuja chamada aparece com destaque na página de entrada do site. A versão disponível no presente traz como manchete a vitória de um certo "Léo", chamadas para textos abordando as expectativas dos participantes sobre suas futuras carreiras artísticas e remissões para matérias anteriores.
Além disso, subseções elaboradas descrevem o local onde as provas foram conduzidas, o perfil dos concorrentes (se é que realmente existia concorrência) e uma galeria de imagens. Mais ainda, uma barra de navegação permite acesso a textos variados: a ficha técnica da produção, críticas e artigos opinativos e um incrível teste, pedantemente chamado de "quiz", para que o leitor avalie seus "conhecimentos". Se esse leitor ainda não estiver chegado ao seu "limite", ele pode debater o assunto com outros interessados num painel de mensagens dedicado ao show. No todo, esse enfoque às vezes lembrou o da finada revista Amiga, com a diferença de que esta dava ao seu público nada mais nada menos do que ele procurava: fuxicos e pseudo-notícias sobre o universo televisivo.
Pelo menos a velha revista dos Bloch cumpria o seu papel sem ter vergonha disso e sem a irritante pose de intelectual modernoso da Folha.
É possível que um programa de televisão – por maior que seja sua audiência e mais inovadora que seja sua proposta, o que não pareceu ser o caso – realmente tenha tanta importância? Para comparar, a Folha Online tem colocado no ar outros "especiais" sobre tópicos como o acidente na plataforma P-36, a morte de Mário Covas e a crise ACM/FHC (só para listar alguns dos mais recentes). Para essa Folha, uma gincana televisiva parece ter o mesmo impacto e merece o mesmo destaque que os eventos acima.
Considerando tudo, a "coisa" cheira fortemente a "press release" ou publicidade enrustida, o que não seria espantoso se publicada no Globo – seria exemplo de mau jornalismo e desserviço ao leitor, não mais que isso (o que já não seria pouco). Talvez a magnitude da cobertura dada pela Folha a No limite seja a melhor ilustração disponível para a gênese de um factóide. E também a triste confirmação de que independência entre conteúdo e interesse empresarial é mercadoria rara no jornalismo brasileiro.
Fábio Augusto, Campinas, SP
REDE PÚBLICA
Comentário infeliz
É muito triste ter de ler um comentário tão infeliz como esse do Sr. Fernando Barbosa Lima. Rede pública de televisão não é para competir com ninguém, rede pública é, e sempre será, mecanismo de educação. Para se ter espaço hoje na mídia tem que se jogar com lixo. As redes de televisão transformaram a cultura em lixo, pois, assim se lucra com muito menos investimento. É mais fácil tocar Claudinho e Buxecha no CD do que contratar músicos de qualidade.
O Cazuza estava certo: " ...transforma o país inteiro num p., porque assim se ganha mais dinheiro.."
Rede pública não tem que ficar atrás de ibope, tem que dar garantias de qualidade à população. Se a rede pública quiser competir vai dançar. Daqui à pouco não vai haver mais rede pública. Competição significa muito dinheiro e muito capacidade de abrir as pernas. Só que quem abre as pernas perde a dignidade e a qualidade.
Mais bonito seria dizer que a rede pública faliu, assim pelo menos a gente terá uma porcaria a menos para fazer a cabeça da juventude. Ou se faz rede pública de verdade ou se assina o atestado de subserviência.
Sistema de educação não foi feito para competir. Foi feito, assim penso eu na minha ingenuidade, para ser elemento transformador, evolucionador, subversivo. Quem quer competir com a Xuxa e com Ratinho? Com a droga bem plastificada do Jornal Nacional e das novelas idiotas?
A TVE quer competir? Vai dançar, vai ter que escutar que tá tudo dominado e vai ter que ou repetir a frase ou calar a boca, abaixar o volume. Sei não, aí tem!
Isso tá me cheirando acordo de banheiro, daqueles que cheiram mal.
Valmir Perez, aluno de Educação Artística da Unicamp
Leia também
Crença na rede pública – Fernando Barbosa Lima
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