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LIXO NA TV
Hebe, a gota d’água
Venho expressar minha indignação de cidadão brasileiro, pagador de impostos e que se recusa a aceitar o lixo cultural e espiritual premeditada e sistematicamente apresentado por várias emissoras de televisão neste país, com a subserviência do governo que teoricamente as regula e permite sua operação (ou será o contrário?).
No pé em que as coisas estão, considero insensato, p. ex., crianças terem seu próprio aparelho de televisão no quarto, sem controle dos pais. Para mim a gota d’água foi, casualmente, ontem, 28 de agosto, aproximadamente às 23 horas, ter passado por um trecho do programa de Hebe Camargo, no SBT, em que tratava-se da auto-flagelante prática do piercing, que consiste em trespassar objetos de metal na pele do corpo para duvidosos efeitos estéticos.
No programa ao vivo, de público-alvo feminino de meia-idade, a equipe da apresentadora trouxe um médico para falar dos possíveis problemas causados pela prática (um ponto positivo), e alguns adeptos bastante exagerados, com dezenas de piercings nas orelhas, rosto, língua e peito. A partir daí a coisa degringolou para o mais explícito e grotesco: aparecem fotos de tela cheia com os efeitos da prática nos órgãos genitais, primeiro uma moça deitada nua com seus lábios vaginais costurados pelos piercings; logo em seguida o close de um pênis onde o "talentoso" artesão havia cravejado uma fileira longitudinal de uns 10 botões e coroado o membro com outros tantos. Ao fundo, os brilhantes comentários da Sra. Hebe Camargo, que deve beirar os 80 anos: "Que coisa linda" e "pelo menos para mim, que há muito tempo não sei o que é isso."
Nesse momento desisti totalmente de ver televisão (infelizmente, na cidade onde resido no momento somente sintonizo Globo, SBT e Record), mas ficando preocupado com o fenômeno "trash" que nos assola: cultura "trash", televisão "trash", jornalismo "trash", políticos "trash", governo "trash", economia "trash", dólar "trash", Hebe Camargo "trash". Fico preocupado também com a possibilidade do SBT repetir o trecho mais uma vez, explorando o grotesco um pouco mais, e tentando conscientemente fazer com que o negativo e doentio pareçam triviais. E com as empresas patrocinadoras, que associam seus
produtos a esse tipo de programação.
Agora falando sério, essas quadrilhas de mafiosos têm que sair do comando dos meios de comunicação brasileiros. "Coisa linda", para a Sra. Hebe, deve ser também as centenas de milhões de dólares que o seu prezado amigo Paulo Maluf, como se comprova agora, desviou para o exterior ao longo de sua vida política. Faz-se imperativo para a evolução da sociedade brasileira que a televisão e o rádio sejam diversificados e, ao mesmo tempo as pessoas leiam mais, sobre assuntos pertinentes do mundo, da natureza e do ser humano. Caso contrário, a maioria dos brasileiros corre o risco de continuar como está: alienada, alijada, mal governada, desempregada ou mal paga.
Luiz Eduardo Amaral, Macaé / RJ
GRAMÁTICA
Português da Mãe Joana
A Veja realmente me tira do sério. E agora que se associou à FSP, juntou a fome c’a vontade de matar (o leitor).
Agora é secos e molhados (você sabe a máxima do Millôr, né? "Jornalismo é oposição, o resto é secos e molhados") só que nem secos e molhados. As outras duas concorrentes nem dá pra ler – uma tem sua própria gramática e ortografia e a outra tem o hábito de informar conforme seus próprios interesses mui especiais.
Aliás, a imprensa em geral parece desconhecer por completo que existe uma gramática da língua – cada "repórti" escreve como acha que deve, bota acentos onde acha que tem, conjuga os verbos segundo a própria fantasia (por exemplo, o subjuntivo é um tempo que parece ter caído no buraco negro do oblivion!), usa a sintaxe como bem entende, faz a concordância segundo as próprias firulas mentais etc. Basicamente, a imprensa parece ter eliminado (corte de cu$to$?) duas funções: a do redator e a do revisor. O objetivo das gramáticas não é exatamente pentelhar quem escreve, nem trazer a formalidade solene para a linguagem do dia-a-dia, mas – digamos – padronizar a língua pelo menos até o ponto em que ela possa ser lida por pessoas que não conhecem o autor do texto & suas particulares idiossincrasias e jargões próprios. Se cada órgão da mídia resolver ter o seu próprio dicionário e a sua própria gramática, vai custar muito caro ler uma noticinha qualquer.
Basicamente, falta na mídia o que falta em geral por aí: uma liderança de verdade.
Beatriz Sidou
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