É engraçado como a mídia (seria falso dizer apenas "a imprensa") se precipitou em condenar os paparazzi como culpados pela morte da princesa. Roberto Solino.
Essa lógica mercantilista, típica do sistema capitalista (seja ele selvagem, neoliberal ou social-democrata), está sendo repetida automaticamente como se fosse uma coisa inevitável. Paulo Henrique de Noronha.
Parece-me que o cerne do problema reside na determinação explícita da caracterização de limite físico da privacidade. Termina ela no portão do lar? Joel Conrado.
Impressiona a distinção ofertada aos profissionais de imprensa. Quando perseguem a celebridade, são tachados de inconvenientes e inescrupulosos. Quando pulverizam a imagem de inocentes, são defendidos, sob a confortável desculpa de estarem "fazendo seu trabalho". Rodrigo Chia.
Infelizmente, tenho de alertá-lo de que nem só os "botequins de comunicação", as faculdades particulares, aprovam todo mundo. Eduardo Nunes Militão.
Mercado, essa divindade
Muito interessante a entrevista da Hellen Hume, que vocês reproduziram. Cabe, porém, uma observação.
Logo na primeira resposta, ela incorre numa visão equivocada que estou vendo toda hora sendo repetida nesses debates falados e impressos sobre a Lady Di.
Entre aspas: "O lado sério dessa discussão é que, por mais horripilantes que sejam as fotos obtidas pelos paparazzi após o desastre e por mais que elas violem o princípio de privacidade, há um mercado para elas."
Ora bolas, essa lógica mercantilista, típica do sistema capitalista (seja ele selvagem, neoliberal ou social-democrata), está sendo repetida automaticamente como se fosse uma coisa inevitável: "Se tem mercado, então pode e deve haver vendedores, fornecedores de produtos para atender aso consumidores e ocupar esse nicho de mercado". Parece um dogma, uma lei inabalável.
Caramba, também tem mercado para o crack. Por isso podemos, e devemos, para estimular a diversificação e o crescimento de novos negócios, vender crack, uma droga reconhecidamente assassina???
Também tem mercado para a pornografia infantil. Well, vamos então vender meninas de 8 anos de idade, porque está cheio de homens loucos para pagar qualquer preço para comer uma ninfetinha, algumas vezes, inclusive, com requintes de agressões, torturas e tudo mais.
E o que dizer então do mercado de carros roubados?? Esse então, está ativíssimo há muito tempo, parece que nunca sai de moda! Vamos aproveitar! Alguém topa roubar um carro para vender??
E as armas, já ia me esquecendo, as armas! Pistolas automáticas, AR-15s, submetralhadoras, granadas do Exército, tá cheio de traficante, seqüestrador e ladrão louco para comprar. É um nicho e tanto!! E é um mercado que não se esgota aí - depois ainda tem a venda dos suprimentos: munições, caixas e caixas de balas para eles poderem manter seus combates com a polícia e com os rivais. Os clientes ficarão sempre fiéis - embora nem sempre vivam muito para tanto...
Sem dúvida nenhuma que há "mercado" para fotos dos paparazzi. Porém, ninguém está se questionando se este mercado é decente. Muito menos - o que, para nós, profissionais de comunicação, é ainda pior! - até que ponto que a imprensa sensacionalista não cria, estimula e cativa esses mercados!
Como jornalista, sei muito bem o quanto a forma pela qual você edita uma página, uma notícia de rádio ou um telejornal pode influenciar o consumidor de notícias. O enfoque, a diagramação, o estilo e as palavras do título e das legendas das fotos, as chamadas, recursos gráficos, uso de cores, splashes, enfim, o que não falta são recursos para se "salgar", "azeitar" ou "esquentar" uma matéria, uma chamada de primeira, uma página inteira. E qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento da área e senso crítico percebe como a imprensa sensacionalista usa e abusa desses recursos para estimular os consumidores de notícias a comprar mais e mais, como se fosse uma Coca-Cola, uma gasolina aditivada, uma vitamina C.
Ora, é comum o vendedor de crack dar as primeiras doses baratinhas, ou até de graça, só pro cara se viciar e depois virar um consumidor fiel. Bela técnica de vendas!! O jornal também é um produto vendável. Então, porque não usar técnicas de vendas, sejam elas quais forem???
Não estou aqui falando contra o marketing, as vendas, o lucro. Não é nada disso. É um pouco como aquela história do Santos Dumont: ele inventou o avião, ficou feliz e realizado por ter criado algo que ajudaria toda a humanidade, mas depois ficou deprimido quando viu sua invenção sendo usada para matar, na Primeira Guerra Mundial, jogando bombas e atirando nos outros. Marketing, técnicas de vendas, são coisas saudáveis, desde que bem utilizadas. Já o crack, nunca é saudável.
Enfim, seja num sistema capitalista, seja numa Cuba ou Vietnã ainda socialista, há limites para tudo. "Mercados" inescrupulosos, ilegais, antiéticos, que matam, machucam, humilham, empobrecem, emburrecem e discriminam as pessoas (entre outros crimes contra a humanidade) têm que ser combatidos. Seja com leis, com polícia, com campanhas, com idéias, com boicote, sei lá, cada caso é um caso. Mas têm que ser combatidos. E temos que ter muita clareza disso. Não se resume apenas à função social do jornalista, do proprietário ou acionista de um veículo de comunicação. É uma questão de cidadania. Todo mundo tem que ficar ligado nisso.
Mas o que eu tenho visto, e muito, é as pessoas repetindo isso: "Ah, mas tem quem compre, o povo adora as fotos dos paparazzi..."
No mesmo "Entre aspas", a Hellen Hume coloca: "O público precisa examinar sua própria consciência e perguntar-se a que preço quer ver essas fotos publicadas." E, mas adiante, Frei Betto retoma, na mesma linha: "... quem são os consumidores , ou melhor, os voyeurs que se deliciam com as intimidades alheias?"
Pelo menos, Frei Betto tenta responder: "São milhares de leitores/telespectadores iludidos pela máquina publicitária: as grandes estrelas do cinema são eternamente felizes, reis e rainhas jamais cometem um pecado venial; homens de negócios bem sucedidos nunca sofrem. Quando descobrem que Papai Noel não existe ou que Chapeuzinho Vermelho tinha um caso com o Lobo Mau, expiam sua ingenuidade no mórbido prazer de testemunhar a desgraça alheia."
Enfim, o público consumidor tem lá sua culpa. Que, se formos mais embaixo, tem a ver com a educação, com os exemplos (na maioria, péssimos!) que vêm de cima (dos homens do poder: políticos, empresários, líderes religiosos, astros das artes e dos esportes etc.), com uma série de coisas. Mas nada disso desculpa a ação explícita, voluntária e decidida de donos e editores de jornais de usarem técnicas de comunicação para vender mais às custas da privacidade e da miséria alheia, às custas da degradação do ser humano enquanto cidadão consciente, pleno de direitos e deveres, em uma democracia de verdade.
Paulo Henrique de Noronha (PH), CETIP - Assessoria de Comunicação
O mito da ética
Levantaram-se as vozes contra o espaço dedicado à morte da Lady Di. Questionou-se a importância da princesa nesta longínqua (para eles) república sul-americana. Restou, no entanto, pensar no debate que a vasta abordagem suscitou. Modorrenta discussão sobre sensacionalismo e papparazzi à parte, o episódio traz à luz velhas questões da imprensa brasileira - e mundial, por que não? Não falta ética à imprensa, falta força à Justiça. Se o tal paparazzo perseguiu a princesa, interceptou seu carro, é um criminoso perante a Lei. Caso contrário, é um reles repórter fotográfico.
Chatíssimo, mas legítimo. Vale o mesmo para o Brasil. Lei de Imprensa? Existe Lei de Arquitetura, Lei de Medicina ou Lei de Engenharia? Os limites da atuação do jornalista devem ser determinados pela legalidade. [Ler artigo de José Paulo Cavalcanti Filho no Entre aspas.]
Impressiona a distinção ofertada aos profissionais de imprensa. Quando perseguem a celebridade, invadindo sua privacidade ou mesmo colocando sua segurança em xeque, são tachados de inconvenientes e inescrupulosos. Quando pulverizam a imagem - que deveria ser preservada até prova em contrário - de inocentes, são defendidos, sob a confortável desculpa de estarem "fazendo seu trabalho". No que diferem respectivamente de fãs apaixonados ou de acusadores levianos?
É inegável a existência de uma natureza particular ao jornalismo. A proteção à fonte é um bom exemplo. Em certas ocasiões,exige-se do jornalista a revelação de sua fonte e isso é inaceitável ante a ética profissional (se a fonte não concordar). Mas, nesse caso, há uma razoável restrição à esfera da profissão. Invadidos os limites da sociedade generalizada, é indispensável o respeito à Lei, comum a todos.
A origem destes fenômenos parece estar na formação do profissional. Em escolas de comunicação ou diretamente nas redações/ruas, o jornalista acredita desde cedo ser especial. Especial demais. E leva o mito ao restante da sociedade, criando uma aura ao seu redor. Na verdade, ele étnico. Tanto quanto todos os demais profissionais.
De certo, a atividade jornalística implica mecanismos de poder, à medida que transforma o fato ocorrido (ou não...) na realidade de milhões de pessoas. É ilusório, porém, transferir esta grandeza ao profissional, mera peça - substituível - da máquina. É o tratamento distintivo decorrente do mito que nos leva a polêmicas diversas e infundadas.
De volta ao episódio que tem norteado o debate, a existência dos tablóides e seus inúmeros tentáculos (inclusive os paparazzi) envolve aspectos mais complexos: o papel social da imprensa, a demanda do público e um dilema de Tostines. Afinal, o povo compra sensacionalismo porque as empresas o produzem ou as empresas produzem o sensacionalismo porque o povo compra?
Rodrigo Chia
OBSERVATÓRIO
transcrito
Estou agradecendo sua atenção por permitir transcrição do "Ser ou não ser, eis as questões" no fax-letter HOT NEWS, que edito em Goiânia.
Jorge Antônio Taleb
Nota:
Não é preciso pedir permissão para transcrever o OBSERVATÓRIO, desde que seja(m) citada(s) a(s) fonte(s) e não haja truncamentos que mudem o sentido do que se transcreve.
Ampliação
Todas as vezes que cito o OBSERVATÓRIO há sempre a indagação de alguns ouvintes da Rádio Bandeirantes, sobre como ter acesso ao material divulgado.
Agora já há como estender aos não-iniciados em Internet o privilégio. (Ver Observatório impresso).
Parabéns e sucesso!!!
José Paulo de Andrade
Que A Folha Traga & Traduz
A propaganda da Folha (ver Pipocas, número 30), marcante e com uma trilha sonora inesquecível, merece uma análise detalhada.
De início, os jornalistas são barrados por representantes de um governo arbitrário, numa referência evidente à ditadura militar. Acredito que a Folha se mostrou verdadeiramente liberal no período terminal da ditadura, de 1975 em diante. Ela possuía opositores na redação, como Cláudio Abramo e Paulo Francis, o que lhe dava um caráter de radical democrata.
Já o caráter oposicionista atual na linha editorial não existe. Quem manifesta oposição a FHC são alguns articulistas, não todos. Para cada Cony emerge logo adiante um Bob Fields, para cada Fernando de Barros e Silva brota um Luís Nassif. Note que não há nenhum marxista nem petista ostensivo.
Mas a propaganda não se atém à referência à ditadura, também idosos religiosos (aparentemente árabes xiitas) e prostitutas tentam barrar os profissionais da imprensa. Podemos então ter várias interpretações destas cenas seguintes.
Nos anos 60 Nelson Rodrigues já observava que as redações iam se tornando feudo das moças, e reagia a isso com irritação, criando a "estagiária do calcanhar sujo", não isento de certa nostalgia do patriarcalismo. Noto que na propaganda da Folha os jornalistas combativos são todos homens, diferindo da realidade da imprensa atual, escrita em geral por mulheres e para mulheres.
Já os religiosos árabes representam claramente os xiitas, nossos esquerdistas radicais por quem a Folha não se deixa influenciar. Talvez a Folha sofra de uma certa misoginia, mas de oposicionismo com certeza não.
Lúcio Emílio do Espírito Santo
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